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2 O CRIME, A CRIMINALIDADE E A PENA DE MORTE

2.3 A criminalidade escrava e a pena de morte

Nas primeiras décadas do século XIX, foi urgente responder um importante questionamento, de como um país com uma economia onde seu produto interno bruto estava ligado aos recursos primários provenientes das grandes lavouras de café, cana de açúcar, algodão, cacau e outros gêneros da terra, em que os trabalhadores dessa terra, bem como da maior parte das outras atividades econômicas e domésticas, restariam contidos e dentro de uma ordem, submetidos ao regime escravo. E ainda, como manter essa ordem frente aos crimes de insubordinação escrava quando esse regime de trabalho que já mostravam sinais de decadência?

Existia – e infelizmente ainda existe – um expediente muito utilizado para conter a criminalidade: a pena de morte. Esta punição, a pena última, era um recurso que juridicamente já nos havia sido apresentado pelos rigores do Livro V das Ordenações Filipinas, enquanto o Brasil ainda era a colônia portuguesa na América. Ora, esse código penal apontava diversas formas de se aplicar a morte enquanto sentença jurídica a criminosos julgados, dentre as quais se tinham o enforcamento e a decapitação como mortes infames. Também se administrava a morte a partir de suplícios para que se estendessem de maneira teatral e espetacular os sofrimentos do supliciado. Por fim, havia as condenações em que a aplicação da morte se estendia para além do fim da vida, e ainda para além do corpo do supliciado, chegando a seu esquartejamento, queima do corpo e punições à família, bem como confisco dos bens do padecente da justiça (PIERANGELLI, 1999, 23).

Ora, enquanto Portugal ainda administrava esse tipo de pena em suas terras – e em suas colônias, outras partes da Europa já estavam em uma adiantada discussão para a supressão desse tipo de expediente. Durante o advento do iluminismo, segundo Noberto Bobbio, tais discussões não iniciaram querendo a sua total extinção, mas

O debate sobre a pena de morte não visou somente a sua abolição: num primeiro momento, dirigiu-se para a limitação dessa pena a alguns crimes graves, especificamente determinados; depois, para a eliminação dos suplícios (ou crueldades inúteis) que, via de regra, a acompanhavam; e, num terceiro momento, para a supressão de sua execução pública (BOBBIO, 2004, 173).

Daí se percebe que foram três as fases para a supressão da pena de morte – e esta ainda não se deu por vencida. Os primeiros diálogos são em favor da diminuição do número de crimes em que ela seria atribuída; depois, temos o momento em que os holofotes se direcionaram para a supressão dos rituais de teatralização da morte; e, por fim, que havendo ainda penas de mortes, que essas fossem executadas longe dos olhos do público.

A pena de morte começou a ser discutida com mais calor em meio aos questionamentos do iluminismo, sendo no século XVIII, o início de uma grande reforma do Direito Penal e a pena de morte passou a ser apontada como uma atitude inútil, desumana e irracional (CARVALHO FILHO, 1995, 8). O marquês Cesare Beccaria foi o que primeiro vultos que na época levantou sua voz para insultá-la. Na verdade, ele não era veementemente contra esse tipo de pena, apenas questionou a banalização de sua aplicação, querendo restringi-la apenas quando a mesma fosse útil e necessária. Beccaria advogou o fim das torturas e dos suplícios públicos, bem como a moderação das penas, que elas fossem racionais e em benefício do Estado.

O jurista destacou duas possibilidades para sua aplicação: nos momentos de desordem pública e, quando a vida do indivíduo comprometesse a existência de outros. Todavia, no bom andamento do Estado e quando o indivíduo, mesmo sendo um delinquente, não ameaçasse a vida de outros, era descabida a morte como punição. O filósofo analisava que se não fosse por esses motivos, a morte não seria nem justa, que dirá útil. Fora desses termos, a pena capital servia muito mais para mostrar a força do Estado do que para punir o criminoso.

Ora, para ele, o rigor do castigo era desproporcional a qualquer crime praticado, já que um instante horrendo, causa menos efeito do que a duração da pena. Beccaria em Dos delitos

e das penas trilhou por caminhos lógicos informando que bem mais assustador que a

intensidade da pena de morte, era a extensão e a durabilidade de qualquer outra, bem como a certeza de que a mesma será aplicada quando da descoberta do crime. Isto sim diminuiria os delitos. Ele indicou a pena de prisão perpétua, e prisão com trabalhos – públicos e em benefício do Estado, como uma pena mais útil, humana e ao mesmo tempo aterradora para quem a cumprisse.

À revelia de toda essa discussão, em meados do ano de 1826, já a quase quatro anos de estado politicamente independente de Portugal, a morosidade das discussões parlamentares deu lugar a criação de inúmeras leis que tinham como missão fechar a lacuna que existia por conta da aplicação das leis dispostas no Livro V das Ordenações Filipinas, ainda em vigor no

Brasil e a não criação de um código de leis genuinamente brasileiras. Por conta disso, a comissão parlamentar de legislação e justiça civil e criminal deu um parecer informando que

a nação brasileira, que independenciando-se da nação, a que esteve unida por mais de três séculos, e constituindo-se debaixo de uma forma de governo diferente; ainda se está regendo pelo código daquela nação compilado pela maior parte de outros de nações estranhas, e além disso por um sem número de leis extravagantes publicadas depois, que não só se tornam quase impossível o seu conhecimento, mas que não podem convir aos povos do Brasil, a cuja índole, necessidades, e localidades se não consultou; de sorte que podemos dizer que não temos código algum (Anais da Câmara dos Deputados, 1º de agosto de 1826).

Para esta comissão, julgar quaisquer crimes a partir das leis de um país outrora colonizador da nascente nação brasileira se constituía num ultraje que deveria findar o quanto antes. Esta morosidade abria margem para o publicação de leis “extravagantes” que para nada mais servia, se não para mostrar que o Brasil não possuía código algum. Aos olhos daqueles parlamentares, não deveria haver mais retardo na preparação de um código criminal e de processo para o país. Retardo esse, que só trazia vergonha para a nascente nação.

Os debates pela introdução da morte enquanto pena para crimes no Brasil independente se alongaram entre os anos de 1826 até 1830, e isso na mesma medida em que se divagava as discussões para se escolher qual anteprojeto – o de Clemente Pereira, entregue no ano de 1826 ou do de Bernardo Pereira de Vasconcelos, redigido em 1827 – deveria ser tomado como base para as mesmas. Como que o anteprojeto de Vasconcelos fosse o vencedor da disputa de ter seu nome estampado na capa do primeiro código criminal da nação e pela urgência de se ter no passado as leis portuguesas, a aprovação do mesmo passaria ilesa e sem maiores discussões. Todavia, o expediente de uma pena tão controversa mereceria da plenária um maior cuidado coletivo.

Afastado de logo o perigo da pena de morte para crimes políticos, em um país em seu nascedouro, onde controvérsias e não entendimentos nos rumos da nação poderiam cindir grupos poderosos, o foco agora seria a população pobre e, sobretudo a massa escrava que se avolumava pelo Brasil. Duas foram as defesas emblemáticas para a aprovação de tal matéria no seio do novo código, primeiro, o discurso do pernambucano Francisco do Rego Barros, que apresentou uma emenda ao projeto

Para o bem do meu país que eu voto a favor da pena de morte em alguns casos; e eu quero dizer com todo orgulho, que não cedo em humanidade à pessoa alguma; ao contrário desejo que se saiba que eu, deputado do Brasil em 1830, votei contra a pena de morte nos casos políticos, e a favor dela quando a severidade das leis deve exigir vingança do sangue derramado, ou para segurar nossa existência contra os escravos (Anais da Câmara dos Deputados, 15 de setembro de 1830).

Como dá para apreender pela voz do parlamentar, de logo tentou proteger-se da pena de morte no caso de crime político, e, que a mesma funcionasse apenas em dois casos, para punir crimes de homicídio e, por fim, contra os crimes que envolvesse relações escravistas. Ora, dono de escravos, mais uma vez tentou se proteger. O deputado estava consciente que suas palavras seriam sabidas de sua geração e passariam à outras. A seu ver, o fato de voltar pela manutenção da pena de morte no Brasil, não diminuiria sua humanidade, mas, assim o fazia para o bem de sua nação.

Já o deputado Paula e Sousa, quanto a pena de morte, possuía um discurso muito mais amplo, abrangente para grassar muito mais personagens a serem imputados com esse tipo de punição do que Rego Barros. Nos argumentos de Paula e Sousa, apenas o terror causado pela morte é que seria capaz de aplacar a ferocidade da criminalidade da época (Anais da Câmara dos Deputados, 15 de setembro de 1830). Enquanto muitos já engrossavam o coro para as propostas de Rego Barros, com a pena de morte apenas nos casos de homicídios e para preservar a vida dos senhores frente a revolta escrava, Paula e Sousa argüia um discurso ainda mais radical, indigitando os homens livres pobres do Brasil. Em suas palavras

Quem duvida que tendo o Brasil três milhões de gente livre, incluídos ambos os sexos e todas as idades, este número não chegue a arrostar dois milhões de escravos, todos ou quase todos capazes de pegarem em armas! Quem senão o terror da morte fará conter esta gente imoral nos seus limites? (Anais da Câmara dos Deputados, 15 de setembro de 1830).

Paula e Souza tinha um discurso muito mais duro que Rego Barros, suas setas eram direcionadas para a escravaria, e, pessoas que eram partícipes dos mesmos hábitos de crimes que os escravos – isso na voz do parlamentar. O deputado considerava que havia muitas pessoas livres, mas que pelas misérias de suas vidas eram capazes de se assemelharem aos escravos e, portando armas, recebendo qualquer quantia em dinheiro para assassinar cidadãos.

Ora, apenas um único deputado propôs uma emenda ao texto do código para excluir a pena de morte de suas páginas, foi Ernesto Ferreira França, do mais outros deputados apenas ensejaram em seus discursos que esta pena deveria sair das páginas do código. Finalizado os debates, a comissão de agilização do código criminal deu seu parecer que

só deixou a pena de morte no delito de homicídio com certas circunstâncias agravantes e para roubar, e no de cabeças de insurreição de escravos (delito em que há sempre homicídios atrozes) e ainda nesses delitos só deixou no grau máximo (Anais da Câmara dos Deputados, 19 de setembro de 1830).

Ora, a emenda proposta do Francisco do Rego Barros foi a única que realmente interferiu na proposta de código criminal interposta por Bernardo Pereira de Vasconcelos, muito embora que no parecer da comissão não se falasse da exclusão da pena de morte em caso de crimes políticos, ressaltou que a mesma só foi mantida em represália aos homicídios agravados e aos crimes contra o sistema escravagista.

Do mais, não foram feitas quaisquer alterações na organização do código apresentado. Para a comissão, com a aprovação daqueles escritos haveria um grande avanço jurídico no Brasil, pois o novo sistema penal melhor enquadrava a natureza dos delitos e escalonava as penas em graus segundo a gravidade do crime. A comissão

Examinando o Projeto do Código Criminal, julga que ele está muito bem organizado, e fundado nos princípios da filosofia jurídica dos tempos; e por isso é de parecer que deve ser adotado sem outra discussão mais do que a de se mostrar que é mais conveniente adotá-lo assim, deixando alguma correção para o que a prática for demonstrando digno de reformas [...] (Anais do Senado Federal, 23 de novembro de 1830).

A matéria foi julgada e discutida, sendo o projeto aprovado e remetido à sanção imperial – sem nenhuma emenda do Senado. As alterações e correções viriam apenas com o passar dos anos, movidas pela observação dos insucessos desta prática punitiva.