2 O CRIME, A CRIMINALIDADE E A PENA DE MORTE
2.2 A hegemonia senhorial no império do Brasil
O historiador Jurandir Malerba, em seu já consagrado compêndio Os brancos da lei, afirmou que as explosões de rebeldia escrava, com seus furtos, roubos, sabotagens, e, principalmente com seus ataques aos seus senhores e agentes do sistema escravistas com violências físicas e assassinatos, não chegaram a abalar a hegemonia senhorial. Com efeito, Malerba tem razão, mas, em alguma medida é necessário fazermos considerações à sua afirmação. Na verdade, em nenhum momento percebemos a hegemonia dos senhores escravocratas ser abalada, pois constituíam um grupo forte que durante todo o século XIX e seus anteriores ditaram a política e na economia nacional.
Para visualizarmos melhor este quadro e não sermos injustos desmerecendo o olhar de Malerba, sem percebermos todas as nuances de sua afirmação, poderíamos citar José Murilo de Carvalho, reconhecido historiador a partir de sua conclusão de que a formação no curso superior de Direito em Coimbra foi o elemento homogeneizador e unificador da elite política imperial. Carvalho analisou que esta elite de bacharéis foi capaz de dar um ordenamento ao Brasil nascente. Em A construção da ordem – a elite política imperial, Carvalho, partiu dos finais do período colonial e se questionou sobre o porquê do Brasil não ter se fragmentado em inúmeras republiquetas caudilhescas, como no restante da América do Sul. Então, traçou o perfil da trajetória política dos mais destacados homens do Império. Ao fazer isto, percebeu que eles formavam uma elite política que “se caracterizava sobretudo pela homogeneidade ideológica e de treinamento” (CARVALHO, 1996, 17).
Educação e treinamento foi a chave explicativa para a condução do Brasil imperial de José Murilo, que flagrou um diploma em Ciências Jurídicas nas paredes da maioria dos políticos que compunham as primeiras legislaturas brasileira. De início, essa educação partia de Coimbra e logo depois passou a vir das recém criadas universidades brasileiras, em suas palavras,
a elite brasileira, sobretudo na primeira metade do século XIX, treinamento em Coimbra, concentrado na formação jurídica, e foi, em sua grande maioria, parte do funcionamento público, sobretudo da magistratura e do Exército (CARVALHO, 1996, 33).
O treinamento em funções públicas também são palavras recorrentes em A construção da
ordem. Entre outros, promotor, juiz, presidente de província, ministros e, – e as láureas de
funções indicadas pelo governo que transformavam este jurista em um membro da elite burocrática imperial brasileira, trabalhando com os objetivos de consolidar e manter a hegemonia do Estado. O imperador orquestrava este incessante rodízio de treinamento nessas variadas funções, como também na mudança de ares entre as diversas províncias, para que, esses bacharéis em direito não se familiarizassem com os problemas das elites provinciais, garantindo assim a proeminência dos objetivos do executivo imperial.
Outro que pode ser citado a fazer jus à afirmação de Jurandir Malerba, é Ilmar Rohloff de Mattos. Sua tese de doutoramento O Tempo Saquarema – a formação do Estado
Imperial apresenta a mútua formação do Estado imperial brasileiro e da consolidação de um
grupo especial: a classe senhorial, proprietária e escravista que hegemonicamente fomentava as plagas do Partido Conservador, que na época recebia o epíteto de saquaremas. O tempo dos saquaremas, na verdade não se refere ininterruptamente a todo período imperial, ou do final das regências aos anos sessenta, quando o Partido Liberal tomou novo fôlego – essa afirmação seria até pueril, levando-se em conta o constante embate entre os Saquaremas e os Luzias, que vez por outra abocanhavam o Gabinete com um primeiro-ministro, com brevidade de tempo, é claro. Todavia, O Tempo Saquarema, idealizado por Mattos se refere, na verdade, a ação da alta burocracia imperial, bem como os proprietários rurais de todo país conduzindo a formação do nascente Estado, exercendo uma direção intelectual, moral e coercitiva.
Mattos conseguiu fugir das explicações políticas e econômicas para a formação do Brasil, todavia, avançando por meio da História Social, compreendeu um Estado não-vertical – como que impusesse sua força de cima para baixo, coisa até fácil de se argumentar precipitadamente. Todavia, reconheceu uma horizontalidade na história da formação do Brasil a partir da força e das experiências em particular do grupo saquarema, grupo este que afirmava respirar os ares do liberalismo europeu, mas que não abria mão de controlar a gente pobre e explorar a mão de obra escrava, que garantia seu sustento. Segundo Mattos,
explicar a consolidação do Estado imperial como condição para a restauração dos monopólios que distinguiam a classe senhorial nos impõe, mais do que em qualquer outro momento, a consideração política dos Saquaremas (MATTOS, 1990, 221).
Ora, este grupo social, na visão do historiador foi o principal responsável pela formação do Estado emergente nos idos do início do século XIX. É claro que sozinhos nada seriam, precisavam e criaram a figura de um imperador forte, que na voz do Visconde de Itaboraí reinava, governava e administrava (MATTOS, 1990, 195) o Brasil, segundo os rigores da
Constituição, que lhe garantia o controle sobre o Poder Moderador, “chave de toda organização política” (MATTOS, 1990, 195), que na verdade, passou com anos a ter no Partido Conservador seu principal aliado na condução do Brasil.
A formação, consolidação e condução do Brasil, como um Estado forte e organizado, com uma política coordenada, a partir de uma capacidade de impor a ordem por um aparato administrativo, subordinado a um comando único, que, quando se mostrava prestes à ruptura, sempre se refazia se conservando, como uma teia de Penélope, estava por conta da sempre vigilante burocracia regulatória, primando sempre por um “progresso conservador” (MATTOS, 1990, 203). Dito por Mattos, um Estado controlado por um rei forte que a seu lado tinha um grupo político extremamente interessado na manutenção das bases sociais presentes no século XIX.
Por fim, nesta trilha que tomamos em analisar a escrita de Jurandir Malerba quando afirmou que a hegemonia senhorial não havia sido abalada durante o Brasil imperial (MALERBA, 1994), chamamos outro historiador, dessa vez, Richard Graham, que também arquitetou um sistema explicativo para o Brasil imperial em Clientelismo e política no Brasil
do século XIX. De logo é necessário destacar que esta pesquisa de Graham destinou-se a
corrigir um erro comum que se generaliza quando o assunto era a história da monarquia brasileira: a questão das eleições. Lugar comum era – e é – à revelia da informação de que no Estado Imperial brasileiro possuía um Poder Legislativo, composto por duas casas, uma de deputados e outra de senadores, acreditar que não havia eleições durante a monarquia, ou ao menos, passar isso despercebido ao público não especializado.
No texto de Graham, o que nos salta aos olhos é a percepção de como um Estado formado para a manutenção do poder de poucos, podia envolver tantas pessoas em um processo eleitoral que acontecia quase que ininterruptamente. Ora, mesmo com uma participação política tendo a renda como porta de entrada, percebemos que o caráter censitário não era um bloqueio para a maior parte da população participar das eleições. Inversamente ao que se acredita, o baixo valor da renda mínima anual fazia com que poucos ficassem de fora da condição de votante, excluindo basicamente apenas aqueles que a Constituição apartava.
É bem verdade que a lisura do processo eleitoral, que estava ao encargo do poder executivo, mais precisamente do presidente da província – indicado pelo imperador através do sistema de ensino e treinamento que vimos acima – e da Junta de Qualificação, que a seu bel prazer e suas convicções partidárias dava cabo de desqualificar os votantes subordinados às facções rivais. Dessa forma, Graham chama o processo eleitoral de teatro, pois simplesmente referendava a continuidade do grupo que estava no poder, pois o mesmo sempre contava com
o apoio do presidente da província, importantíssimo para o sucesso dos interesses do governo imperial, dos juízes e da Junta de Qualificação. Todavia, as eleições eram – e sempre são – imprevisíveis e, para que os chefes políticos locais fossem bem sucedidos nessa empreitada eram-lhes necessários que garantissem o maior número de votantes.
As eleições vinham para que os grupos sociais se mantivessem em condições de igualdade de força política, ou ao menos para fazer o grupo afastado do poder acreditar que o sistema lhe dava condições democráticas de virada de jogo. Mas, cédulas em duplicidade, urnas prenhes que davam a luz mais votos que votantes cadastrados no distrito, fraudes inúmeras, violência, tiros, e eleições repetidas quantas vezes fossem necessárias até que os candidatos do presidente da província fossem referendados faziam parte desse mesmo jogo.
Em meio a todo esse teatro, clientelismo é a palavra-chave para compreender a necessidade desse avolumado processo eleitoral. O filho, o genro, o sobrinho ou o cunhado ascendiam politicamente quando tinham um padrinho forte na região, já os pobres, aqueles que estavam assentados na terra, com o voto gozavam de tranquilidade e de algumas benesses. Para Graham
O paradigma familiar orientava as relações sociais entre lideranças e liderados, e em seu interior mesclavam-se força e benevolência. Obediência e lealdade permitiam ao dependente escapar do usa da força do patrão (GRAHAM, 1997, 42).
Ascensão política para os da casa, benesses para os leais escudeiros garantiam a força dos chefes locais sobre seus subordinados. Seus familiares e protegidos, quando eleitos deputados, iniciavam o jogo de premiações: juiz, promotor, delegado e subdelegado eram os cargos sempre estavam em pauta dos interesses do chefe local, que garantia sempre a vitória nas eleições.
Como se vê, José Murilo de Carvalho, Ilmar Rohlouf de Mattos e Richard Graham, cada um a seu modo se complementam ao sistematizarem o processo de formação do Brasil a partir da consolidação e da hegemonia política do grupo social que vivia das plagas do trabalho escravo. Todos eles, e cada um a seu modo alicerçam a tese de Malerba em que em momento algum esse grupo teve seu poderio abalado. Com efeito, em nenhum momento a governabilidade do império e a hegemonia política, econômica e social dos senhores escravocratas foi abalada. Todavia, se por um lado os atos de rebeldia escrava não chegavam a abalar a segurança pública do Brasil, por outro lado, a criminalidade escrava enquanto fenômeno social punham a segurança individual nas ruas desses Brasil escravista como algo
muito frágil, podendo a vida desses senhores e de seus familiares serem ceifadas a qualquer momento. Tanto é, que esta é a razão para os intensos debates que teceram rigorosas leis contra a rebeldia escrava. Leis essas que davam uma pronta resposta ao crime cometido pelos escravos.