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4 A FUGA DE UMA FERA HUMANA

4.9 A morte do guarda Afonso Honorato de Bastos

Na manhã da quarta-feira, 11 de novembro de 1868 o Jornal do Recife lamentavelmente informava a seus leitores o grave estado de saúde do guarda Afonso,

vitimado por Thomaz, assim dizia:

Em perigo de vida – informam-nos que se acha gravemente enfermo, de uma pneumonia dupla, e já confessado e sacramentado, o Sr. Affonso Honorato de Bastos, guarda da casa de Detenção, e que fora ferido com duas facadas pelo preto Thomaz no dia em que esta fera humana fugira daquela prisão. Esta moléstia, diz- nos ainda o nosso informante, é conseqüência dos ferimentos que recebera o Sr. Bastos dos quais não ficara radicalmente curado. É mais uma morte que pesa sobre a cabeça daquele assassino. (Jornal do Recife, 11.11.1868)

O periódico, segundo sua redação, através de um informante, já tratava como certa e antecipava a morte de Afonso de Honorato, que moribundo, ainda agonizava no leito de morte e já oficializada a extrema unção.

A morte de Affonso de Honorato de Bastos se confirmou três dias depois, no dia 13 de novembro. O jornal O liberal editou uma nota de falecimento informando que “sucumbiu no

dia 13, depois de dolorosos padecimentos, o Sr. Affonso Honorato Bastos, guarda da casa de detenção, que fora ferido no dia 20 do passado, pelo facínora Thomaz [...]” (O liberal, 18.11.1868). Por esta razão foram convocados o doutor Sílvio TarquínioVillas Boas e novamente Ignácio Alcebiades Velloso para que exumassem o cadáver. Ao fim, confirmaram ter o mesmo falecido por uma “pneumonia dupla traumática” (IAHGP, Processo escravo Thomaz, fl. 34), ocasionada pelo ferimento que recebera em seu pescoço.

O que O liberal queria era mesmo apontar as falhas na administração da Casa de Detenção, e assim atacar o partido conservador. Apelou para isso para os sentimentos dos pernambucanos, e assim da morte do guarda Afonso de Honorato retornou a ofensiva:

Guarda da Detenção falecido – Um parente próximo desse empregado infeliz, que sucumbiu ao punhal assassino, armado pelo desleixo daquele estabelecimento público, antes casa de negócios lucrativos, que reclusão para emenda e correção de criminosos, nos remeteu o seguinte:

O Sr. A... não nasceu nas faixas da grandeza, mas gozava de uma doce mediocridade. A morte de seu pai, varão respeitável nesta província e capitão de artilharia o reduziu a circunstâncias penosas. Não achando degradação em qualquer emprego uma vez que servisse com honra e dignidade, sujeitou-se ao lugar de servente da casa de detenção. Infeliz recurso que o tornou vitima de seu zelo. Recolhido a cadeia o preto Thomaz, facinoroso já muito conhecido, gozava ali de plena liberdade, da qual abusou, ferindo gravemente aquele moço.

Devia se esperar o Sr. Administrador da casa de detenção, um tratamento mais regular, atendendo a família da vítima, ao seu zelo pelo serviço, e por que o alto emprego de administrador seu chefe exigia mais caridade para com o ferido. Assim não aconteceu. O empregado ferido, por cumprir o seu dever, por não abandonar o seu posto de honra, ficou atirado em uma enfermaria confundido com os criminosos e recebendo o tratamento que lhe quisessem dar. O Sr. Presidente parece que soube de tudo isto, pois consta-me que censurara ao Sr. Rufino, que por sua vez procurava justificar-se. O certo é que o empregado assassinado, logo que pode levantar se, retirou-se da Detenção, não só para afastar-se daquele mau contato, como para receber melhor tratamento. Porém, coitado, tarde saiu, para que pudesse ter um tratamento mais conveniente. A sombra deste pai de família, dessa vitima ensangüentada do desleixo do Sr. Rufino, o acompanhará na vida, como um peso, um remorso vivo (O liberal, 18.11.1868).

Antes de adentrarmos na situação de penúria que passou Afonso Honorato de Bastos, de logo se faz necessário lembrar que o jornal Diário de Pernambuco veiculou a intenção de Rufino Augusto de Almeida de se empenhar em sua recuperação, bem como de honrar seus esforços com “uma gratificação pecuniária pelos esforços que empregou com louvável vindicação no intuito de evitar a fuga” do preto Thomaz (Diário de Pernambuco, 21.10.1868). Na verdade, essa publicação era apenas um trecho de seu relatório, que, além disso, reclamava um

maior interesse para que seja tratado com todo o desvelo na enfermaria d’essa Casa o guarda Affonso Honorato Bastos, a quem louvará por escrito em meu nome, pelo zelo e dedicação com que cumpriu os seus deveres por ocasião de tão deplorável

acontecimento, e fará entregar a gratificação pecuniária inclusa. (APEJE, Antiga Casa de Detenção do Recife, 1868, Embrulho/livro 01)

O liberal incitava seus leitores a perceberem que Rufino não cumpria com a sua palavra,

muito pelo contrário, havia deixado o pobre moribundo, que era guarda da detenção a padecer seu infortúnio ao lado de presos que estavam doentes. Não podemos afirmar que Bastos em algum momento fora confundido com algum criminoso, e ali não recebera um tratamento diferenciado, como que aos presos doentes se administrasse um tratamento sem grande desvelo. Rufino havia prometido um louvor por escrito, um maior empenho nos trabalhos médicos em sua recuperação e, por fim, uma gratificação em dinheiro, todavia, para O

liberal o que ele havia conseguido foi uma humilhação para o moribundo, um desleixo para

com a vida do guarda que o acompanharia por toda a “vida, como um peso, um remorso vivo” (O liberal, 18.11.1868).

Mesmo sofrendo continuadamente ataques por toda sua extensa administração na Casa de Detenção do Recife pela peculiar forma com que conduzia a instituição e seus negócios, como também pela fuga do escravo Thomaz e pelos eventos que a sucederam, Rufino de Almeida continuou exercendo ali suas funções por bastante tempo. Mesmo quando as oficinas caíram em bancarrota, no ano de 1869, e ele alegou “não ter forças pecuniárias para continuar o seu custeio e também julgar conveniente [afastar-se] da gerência das oficinas” da Casa de Detenção (MAIA, 2001, 218), continuou administrando os trabalhos individuais dos detentos, como resquícios das antigas oficinas.