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1.3 A CRISE DO ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL

Não é difícil entender que com a implementação do Welfare state e o conseqüente alargamento das funções do Estado social, com a mudança de paradigmas e focos dos agentes estatais, o Estado de bem-estar social, antes estado manager, passa a ficar sobrecarregado a partir da adoção das políticas keynesianas.

Para que não nos passe despercebido, antes de falarmos na crise, por óbvio, vamos tecer considerações acerca do próprio estado de bem-estar social que não se

confunde com o estado social. Nesta esteira, imperioso trazer a baila a figura de Keynes, tanto na economia como na política.

Seria pretensão em demasia querermos resumir um autor tão importante do século passado em parágrafos, mas tocaremos em pontos específicos que nos interessam para este trabalho. Keynes, economista inglês que vive entre o final do século XIX e metade do século XX, cria um princípio de correspondência global entre crescimento e igualdade de um estado econômica e socialmente ativo.

Keynes situa seu trabalho12 num contexto da crise que assolava os anos 30. Nele conclui que o desemprego provém da insuficiência combinada de consumo e de investimentos. Defendia, portanto, que o estado desempenhasse um papel de estimulo a essas duas funções direta (despesas públicas) ou indiretamente (política fiscal e de crédito, dentre outras). Também aponta a taxa de juros como meio de se alcançar um estado de satisfação.

As idéias de Keynes de que uma democracia capitalista organizaria despesas suficientes para realizar suas teses na prática, segundo ele mesmo, eram impossíveis de acontecer, a não ser que uma guerra acontecesse (Rosanvallon, 1984, 42). Pois casualmente foi a partir da segunda grande guerra que as políticas Keynesianas passaram a ser aplicadas. Ao contrário de Marx segundo o qual capital e trabalho são expressões que só terão convivência com uma das partes vencida, Keynes associa ambos os elementos colocando o Estado na função interventora de transformação social através da ingerência na economia.

As idéias de Keynes foram os alicerces para Roosvelt13 enfrentar a grande crise econômica de 1929, auxiliando assim os Estados Unidos a transpor a grave crise, principalmente através da intervenção do estado na economia segundo noticia Rosanvallon (1984, p.42).

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"Economic possibilities for our grandchildren". In: Essays in persuasion. Nova York: Classic House Books, [1930].

13

Franklin Delano Roosvelt foi presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945 ficando conhecido por ter enfrentado a grande crise econômica de 1930 com políticas Keynesianas

Já na Europa o estado social teve várias fases antes de chegar a ser propriamente um estado de bem-estar. Santesmases explica que o Estado social europeu sofreu mudanças entre 1945 e 2001. Para o autor

El socialismo no se puede entender sin tener em cuenta y esta ha cambiado una vez más en 2001. Si en 14 sufrió el hecatombe y en 33 la aparición del monstruo del fascismo; si en el 45 si iniciaron los mejores años (la época dorada) y a partir del 68 llegó la hora de una nueva generación; si el 89 fue el momento el momento de la caída del comunismo y la emergencia de la gran contrarrevolución conservadora ¿que ha ocurrido a partir del 2001? (2008, p. 45)

Como um rito de desenvolvimento natural, a humanidade, assim como os seus sistemas, evoluem para na maioria das vezes experimentando os extremos, atingirem seus meio-termos e seguirem no seu caminho infindável de desenvolvimento. O Sistema jurídico, como um subproduto do estado, não poderia ser diferente. É um sistema que ao passar dos anos evolui e traz consigo mudanças sociais fundamentais para o próprio desenvolvimento humano. Neste sentido interessante é a conclusão de Rosa segundo o qual

Assim é que a marcha da história nos ensina que as normas jurídicas sempre acompanharam as modificações, em um processo de harmonização do particular com as demais partes do geral, processo esse em que, naturalmente, cada setor influi os demais e no todo. A evolução das instituições jurídicas tem obedecido essa regra e os exemplos recentes, no século XX, são ricos em lições a respeito. As observações dos sistemas contemporâneos de direito mostra de ramificações novas, especializações que surgiram da diversificação crescente das atividades sociais, ou da pujança de certos setores de grandes riquezas. (2009, p. 26)

Num momento anterior o mundo sai de uma condição onde simplesmente a pessoa humana é relegada a um status secundário (Estado liberal), colocando-se o capital em primeira ordem e vem a revolução. Com ela mudanças com a tomada do poder pelo terceiro estado colocando a pessoa humana em posição de destaque contra o capital (Estado social). As guerras mundiais desencadearam novamente um redesenho do estado social para que este assegure uma rede de proteção social (Estado de bem-estar social), desta vez fazendo-se uso do sistema jurídico através do constitucionalismo.

Hoje assistimos a um Estado social interventor (Estado social de bem-estar ou Estado de bem-estar social), que não só interfere na economia, mas que olhando como foco a pessoa humana procura endereçar a ela sua ótica de funcionamento.

Esse é o rosto atual do Estado social. Acontece que, em razão das inúmeras seguranças que esta forma de Estado procura doar a pessoa, objeto central do seu agir, acabamos por ver o Estado numa situação de insuficiência em razão das demandas crescentes e da complexidade atual da sociedade.

Tão logo implementado o Estado social com objetivo claro de equilibrar as relações - essencialmente no que tange a exploração no trabalho-, este com o passar do tempo redesenhou-se para assumir papéis essenciais na implementação da igualdade. Nele passou a serem assegurados vários outros direitos de cunho prestativo por parte do Estado com o finco de diminuir as desigualdades baseado na idéia de Keynes.

O Estado de bem-estar foi um aprimoramento do Estado social porque este tão só não fora suficiente para diminuir o fosso das desigualdades e, ao adotar-se as políticas keynesianas ao Estado social fazendo-o tornar-se o Estado social e de bem-estar, a igualdade passa a ter no Estado seu maior promotor.

Embora o Estado de bem-estar hoje enfrente crises por não fazer frente a tantas demandas, seja em razão do grande crescimento populacional mundial, seja em razão do crescimento das demandas sociais e tecnológicas, também não pode passar despercebido, como lembra Fiori, que os modelos de welfare state, diferenciam-se uns dos outros pela forma de financiamento, extensão de seus serviços, pelo peso do setor públicos, forma de organização institucional, etc. Conforme o autor

Se a investigação mais recente permitiu – como sempre na hora em que a coruja já levantou seu vôo – esclarecer a complexa rede de determinações econômicas, ideológicas e políticas que definem e diferenciam o Estado de Bem-Estar Social contemporâneo dos sistemas anteriores de organização das políticas sociais governamentais, ela também explicitou melhor as diferenças que separam as várias experiências do mesmo welfare state. Já não cabe a menor dúvida, por exemplo, de que o modelo norte americano tem muito pouco a ver com o modelo nórdico, e este pouco com o da Europa continental, e de todos eles com o Japão. Para não falar de sua diferença com o welfare que foi sendo construído em algumas periferias capitalistas, em particular no caso latino americano. Para dar conta desta nova dispersão, vários autores construíram, nestes últimos anos tipologias que tentam aglutinar as várias experiências em alguns padrões básicos, diferenciados por sua forma de financiamento, pela extensão de seus serviços, pelo peso do setor público, pelo seu grau de sensibilidade aos sistemas políticos, pela sua força de organização institucional (Fiori, p. 135)

A este propósito, inclusive, são pontuais as observações de Pochmann quando indica um grau diferenciado de bem-estar nos Estados do centro do capitalismo e naqueles que denomina “de periferia”. Segundo aponta o referido autor no Estado de bem-estar implementado na Europa Ocidental as políticas foram de natureza redistributivas (justiça tributária e transferências sociais); enquanto a experiência norte-americana usou do sistema educacional e da regulação do patrimônio e do fluxo de renda (imposto de renda negativo) (2004).

No artigo que intitula Proteção social na periferia do capitalismo: considerações sobre o Brasil, o autor aponta que, após a implementação do Estado de bem-estar social este foi responsável em alguns países europeus e nos Estados Unidos pela redução considerável do nível de pobreza das pessoas (2004).

Todavia, conforme explica, o Estado de bem-estar implementado, após quase três décadas de sucesso na redistribuição da riqueza e conseqüente diminuição da pobreza, entrou no “olho do furacão” enfrentando obstáculos provenientes do centro do capitalismo. Para o autor

ante de um novo ambiente econômico marcado pela profunda desregulação da concorrência intercapitalista e por modificações importantes na base tecnológica, em meio ao predomínio das altas finanças, o Estado de Bem-Estar Social passou a ser questionado a partir da crise do final dos anos 70. (2004)

Ainda para o autor, algumas podem ser as causas que podem ser apontadas como responsáveis pela crise deste Estado de bem-estar:

De um lado, o baixo crescimento econômico veio a obstaculizar a continuidade do pleno emprego, assim como as transformações no padrão produtivo inocularam novas formas de trabalho, muitas à margem das contratações coletivas ou legislações existentes. A perda relativa de importância do emprego industrial, envolvida numa outra lógica de produção em redes mundiais, fragilizou compromissos sociais entre empregados e patrões, comprometendo as bases da sociedade salarial e esvaziando o conteúdo dos regimes democráticos.

Ademais, o ambiente de flexibilização dos mercados de trabalho voltou a favorecer a maior desigualdade de renda, surgida de uma nova condição de pobreza e do desemprego, negando a integração social e a homogeneidade no padrão de consumo constituídos a partir do fim da II Guerra Mundial. Não é coincidência que as várias reformas realizadas pelas forças das políticas, a partir do ideário neoliberal, procuraram desviar o papel do Estado de Bem-Estar Social. (2004)

Segundo assinala Jerez (2005) há uma série de problemas do Estado social que levam-no a se tornar uma forma estatal carente de alterações. Dentre os problemas apontados pelo autor está a hiperjuridificação negativa, a relação do risco e do modelo de seguridade social, crise de legitimidade dentre outros.

Essa crise foi deflagrada, segundo aponta o autor, porque

el Estado social asumió como tarea la amortiguación de los desequilibrios sociales a través de la redistribución de rentas con lo cual agigantó la legitimidad entre las masas mediante el aseguramiento de mínimos de subsistencia y bienestar, pero al mismo tiempo le creó riesgos, pues lo mando por el atajo de la multiplicidad de funciones con lo que el aparato del Estado de hizo omnipresente con la consecuente carga del sistema político de que hablaba Luhmann. (2005, p.81)

O autor colombiano descreve que a partir do aumento das demandas da sociedade faz necessária a presença estatal para intervir em prestações sociais que aumentam em demasia o custo do Estado social que leva consigo uma conseqüente crise econômica e mesmo de legitimação deste Estado de bem-estar14. Segundo opina, “La deslegitimación alcanza niveles preocupantes analizando el proceso de despolitización actual en las capas de la población más joven” (2005, p. 83)

Inteligentemente ainda o autor pontua que o fornecimento de uma gana enorme de benefícios desta formulação de Estado social acaba por encontrar uma reação natural de acomodação nas pessoas. Segundo aponta “muchos ciudadanos

encontrarán más cómodo vivir de los subsidios que de su esfuerzo personal, con lo cual queda destruida la ética del trabajo” (2005, p. 83)

Podemos chegar a conclusão com tais idéias que ampliação da base de representação através do sufrágio, por onde atualmente podem adentrar as portas do parlamento pessoas provenientes das classes menos favorecidas, faz com que o Parlamento, antes órgão responsável pela frenagem dos gastos públicos, agora se torne o responsável pela ampliação desta forma de Estado beneficiador e com isso preste auxílio a crise financeira desta forma Estatal.

14

A questão que levantamos é a seguinte: se o remédio usado para a transformação do Estado social não fosse o Estado de bem-estar, haveria outra forma de remodelar-se o Estado social? Rosvallon, aposta numa renovação da idéia de solidariedade a fim de que se alcance os objetivos de uma sociedade mais justa.

Se a prática distributiva e a intervenção do Estado na economia não fossem adotadas e à insuficiência do Estado social fosse dado outro remédio, teríamos claramente hoje duas figuras claras: uma que nos daria a imagem de um Estado (welfare state) que não estaria enfrentando crises e outra que talvez tivesse dado outra solução a crise do Estado social distinta da intervenção estatal.

Assim, entendemos que a remodelação do Estado social em welfare state trouxe consigo uma crise que ultrapassa em muito a fronteira do financeiro, para se tornar uma institucional do Estado, de representação porque na atualidade o capital continua a determinar os rumos estatais.

Giddens (2001) quando aponta a terceira via como solução aos problemas que seria o próprio Estado de bem-estar, acaba por demonstrar as suas próprias crises enumerando dentre elas a globalização, o individualismo, questões ecológicas dentre outras.

Sobre cada uma delas o autor se faz perguntas: quanto a globalização – o que é exatamente e quais implicações tem?; quanto ao individualismo – em que sentido as sociedades tem se tornado mais individualistas?; Quanto a questões ecológicas – como deveria ser integrado tais questões a social-democracia? (2001, p. 37-38).

Dessa forma, pouco são as respostas e ainda inúmeras são as perguntas de como transpor esse Estado de bem-estar em seu auge de crise. Uns propõe a social democracia15 que por si só acreditamos não ter força para reagir com o capital e com o individualismo. Outros, por sua vez, propõe uma volta ao comunitarismo e a solidariedade16 o que pensamos que por si só não seja suficiente para tanto, uma

15 Dentre eles o próprio Antony Giddens com a ‘terceira via’. 16

vez que a cultura que molda cada continente é infinitamente diferente, com histórias que se distinguem. Tentar unificá-las a ponto de se produzir uma cultura voltada ao comunitarismo não nos parece ser razoável.

Parece que a implementação de direitos sociais como saúde, educação, previdência e assistência, cultura ainda que tenham algum viés negativo sua implementação, são instrumentos aptos a transformar a realidade de maneira a promover a igualdade social e ao desenvolvimento natural da pessoa humana e do Estado, como conseqüência.