CAPÍTULO 4. LABELING APPROACH
4.1. A crise do paradigma etiológico
Na década de 1960 as teorias que seguiam o paradigma etiológico para o estudo do crime foram objeto de contestação, principalmente no tocante a seus pressupostos metodológicos.
As teorias etiológicas adotavam um modelo estático de sociedade, cujo pressuposto era o consenso de seus membros em torno de certos valores relevantes para todo o grupo. Tais valores, embora identificados e descritos, não eram objeto de crítica criminológica, eram tomados como um dado.
Ao adotar essa concepção de sociedade, as teorias etiológicas buscavam descrever o funcionamento das estruturas sociais, identificar as causas da criminalidade, e, então, elaborar propostas para a sua redução. As soluções, contudo, deveriam nascer de dentro do sistema social, de acordo com seus valores e suas estruturas. Não poderiam implicar qualquer alteração das bases político- econômicas de organização da sociedade, mas se conformar a elas.
Alguns sociólogos dos Estados Unidos, na década de 1960136
, passaram a perceber que a criminalidade emanada das estatísticas criminais era apenas produto uma construção humana, intelectual, de natureza cultural, e não um fenômeno natural, que podia ser apreendido de forma puramente empírica.
Perceberam que os dados estatísticos que serviam de base aos estudos da criminologia etiológica eram construídos por meio de um processo de atuação de instâncias oficiais de controle, que selecionavam alguns fatos de dentro da sociedade, interpretavam-nos e os definiam como criminosos.
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Esse processo não se assemelhava à ocorrência dos fatos da natureza, e não podia ser estudado da mesma forma que eles. O crime é, pois, um fato cultural, cuja definição sofre a influência subjetiva do observador e de seus valores. Não é um dado neutro. Portanto, era inadequado aplicar-lhe a metodologia das ciências naturais.
As estatísticas criminais, como já percebera o próprio Sutherland, não refletiam a criminalidade real. Revelavam apenas a chamada criminalidade aparente. Havia, assim, uma criminalidade que não era visível nas estatísticas, que constituía a chamada cifra negra.
A cifra negra é o resultado da diferença entre os crimes efetivamente praticados (criminalidade real) e os crimes punidos pelo sistema penal (criminalidade aparente, das estatísticas). Ou seja, é a criminalidade não registrada oficialmente137
. É impossível quantificar a verdadeira dimensão da cifra negra. As estimativas variam bastante. Enquanto Hassemer e Muñoz Conde estipulam que ela é o dobro da criminalidade registrada138
, Fritz Sack acreditava que ela é superior a noventa por cento da criminalidade oficial139
e Louk Hulsman, mais pessimista, afirma ser superior a noventa e nove por cento140. Tomando-se por base a suposição de
qualquer dos autores mencionados, conclui-se que a adoção das estatísticas como fonte científica de elaboração de teorias de caráter absoluto sobre o crime gera distorções da realidade. Não se pode se criar teorias etiológicas de caráter geral tendo por base uma amostra tão pouco representativa da realidade criminal.
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As causas da existência da cifra negra se prendem às falhas dos próprios filtros pelos quais o crime é conhecido no processo de reação social. São eles, nessa ordem: a) crimes não observados embora praticados; b) crimes observados mas não registrados; c) crimes registrados mas não esclarecidos; d) crimes esclarecidos mas não denunciados, e) crimes denunciados mas que não resultam em condenação.
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Winfred HASSEMER, Francisco MUÑOZ CONDE, Introducción a la criminología, p. 139.
139
Fritz SACK, Neue Perspektiven inder Kriminologie, in Kriminalsoziologie, Frankfurt: Frankfurt a. M., 1968 apud Alessandro BARATTA, Criminologia crítica e crítica do direito penal: introdução à sociologia do direito penal, p.105.
140
Louk HULSMAN, El enfoque abolicionista: políticas criminales alternativas, in Criminologia critica y
A existência da cifra negra também revela que há certas condutas e pessoas que não são objeto do processo criminal, não integram as estatísticas dos tribunais e da polícia, muito embora realizem comportamentos descritos na lei como crime. Essa diferença de reação do sistema criminal aparentemente não se baseava na gravidade social das condutas, mas em outros fatores, de caráter predominantemente político, que a nova perspectiva criminológica se propõe justamente a descobrir.
O pressuposto da neutralidade da sociedade e do seu sistema punitivo, adotado pela metodologia positivista, foi contestado, com a colaboração da pesquisa de Sutherland sobre o white collar crime.
Os órgãos de controle estatal reagem de forma diferente a determinados fatos e a determinadas pessoas. As definições de criminosos recaem com freqüência sobre pessoas de classe mais baixa, com o mesmo perfil141
. Os agentes estatais responsáveis pela seleção e definição de condutas criminosas concentram seu controle e vigilância de forma mais intensa sobre essas pessoas, suas atividades, os locais onde habitam. De forma diversa é o controle exercido sobre outros grupos de pessoas, de classe mais elevada, tais como os autores de white
collar crime, que, de forma geral, estão livres do estigma da definição de criminosos.
Entretanto, não é correto afirmar que as pessoas de classe mais baixas cometem crimes. Sua freqüência é maior nas estatísticas porque os atos cometidos por essas pessoas são selecionados preferencialmente para ingressar no sistema de controle social.
A principal proposta metodológica do paradigma da reação social é o estudo do funcionamento do sistema de reação social, como instância produtora do próprio crime e dos criminosos de uma dada sociedade.
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Pessoas de classes mais baixas, habitantes de determinados bairros, com estrutura familiar e educação semelhantes conforme análise da Escola de Chicago e da teoria das subculturas criminais.
Esse novo paradigma foi trazido para a criminologia pela perspectiva do
labeling approach, que, por sua vez, fundamenta-se na teoria sociológica do
interacionismo simbólico.