CAPÍTULO 5. A CRIMINOLOGIA DO CONFLITO
5.9. O crime do colarinho branco na perspectiva conflitual
Na perspectiva da reação social, sob a óptica da teoria conflitual, o estudo dos white collar crimes toma uma dimensão diferente. Sua falta de perseguição pelo sistema penal se torna mais compreensível no âmbito de uma sociedade complexa em que vigora o conflito e a disputa entre grupos de interesse.
Como foi visto acima, os criminólogos do conflito situaram seus estudos num plano abstrato, e terminaram por se afastar das discussões de problemas concretos e pontuais. Assim, a teoria sofreu com a falta de objetividade e pragmatismo.
Os crimes do colarinho branco não chegaram a ser analisados pelos teóricos da sociologia do conflito, assim como qualquer outra espécie de criminalidade em concreto. Mesmo assim, pode-se, com base em suas premissas, extrair algumas possíveis explicações para existência e a falta de persecução dos crimes do colarinho branco.
Os crimes do colarinho branco surgem no contexto de uma sociedade formada de segmentos constantemente em conflito, em disputa pelo poder, para afirmar e fazer valer seus interesses.
Os autores dos crimes do colarinho branco são, por definição, indivíduos
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Alessandro BARATTA, Criminologia crítica e crítica do direito penal: introdução à sociologia do direito penal, p. 150.
com prestígio e poder dentro da sociedade. Assim, pode-se dizer que estão (e sempre estarão) dentre os segmentos com maior influência sobre o legislador e os aplicadores do direito penal.
E sendo a camada social e o poder as variáveis determinantes na criação de tipos penais e na persecução concreta, a condição dos autores do delito do colarinho branco explica a razão da falta de criminalização de suas condutas num primeiro momento (até o século XX), e a ausência de persecução de seus crimes na atualidade.
Embora os crimes do colarinho branco tenham permanecido por longo período fora dos diplomas penais (o que fora relatado por Sutherland), com a primeira crise do capitalismo (quebra da bolsa de 1929), as duas grandes guerras e o fortalecimento do socialismo, houve uma pressão política por uma resposta estatal aos abusos das empresas no mercado. Foi então que nesse período começou-se a criminalizar condutas referentes às camadas mais elevadas da sociedade.
Porém, como foi visto, desde o labeling approach, o crime passou a ser visto não como um fato natural ontológico, mas como um processo de criminalização, do qual a previsão legal é apenas a primeira e necessária etapa. Para que efetivamente seja um fato reconhecido como delito ele deve ser assim definido pelas agências estatais de controle, na chamada criminalização secundária.
De fato, a previsão legal dos crimes do colarinho branco teve um impacto no discurso político. Como é usual até os dias de hoje, a criminalização de certas condutas mostra uma aparente vontade política de combater sua ocorrência, e termina por isentar o Estado de atuar em qualquer outra esfera para de fato resolver o problema. Desse modo, a simples previsão dos crimes do colarinho branco nas leis fez com que o Estado demonstrasse interesse no tema, mas se eximisse de tomar qualquer outras medidas concretas e de impacto direto na atividade dessas pessoas de prestígio para impedir, de fato, as práticas abusivas realizadas em suas
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Como se pôde ver, entretanto, a principal fase no processo de criminalização na sociedade contemporânea está justamente na chamada criminalização secundária, ou seja, na aplicação da lei penal a situações reais pelos órgãos que compõem o sistema penal. Isso porque se verifica hoje uma tendência de ampliação do chamado Estado penal, com um aumento constante na elaboração de leis penais, como resposta para as mais variadas demandas sociais. A criminalização de condutas se tornou uma forma simples de se lidar com problemas das mais diversas origens. E o discurso político que a acompanha tem grande prestígio perante a sociedade, influenciada pela visão repressiva promovida pelos meios de comunicação. Diante desse universo amplo de tipos penais, as instâncias de controle são obrigadas a selecionar um certo número de condutas para ingressar no sistema penal. E é essa seleção de condutas e pessoas - que vão ser objeto de definição de crime e criminoso - que tem hoje o papel principal no processo de criminalização.
Assim, foi até de certo modo conveniente aos poderosos também terem suas condutas criminalizadas, pois tal fato dá a sociedade uma aparente abordagem isonômica entre a criminalidade dos mais poderosos e dos menos favorecidos. Legitima, de forma abstrata, por meio da igualdade formal, todo o funcionamento do sistema punitivo.
Como, porém, já se viu, é na aplicação da lei penal que vai ocorrer a verdadeira desigualdade. Todo o sistema penal se volta primordialmente à punição dos tradicionais delitos praticados pelas camadas mais baixas da sociedade, principalmente os delitos contra o patrimônio. É essa forma de atuar do sistema penal que cria o perfil da população carcerária e condenada em geral. Os mais poderosos continuam ausentes dos bancos dos réus. A polícia não procura em tais pessoas os criminosos e o sistema, como um todo, não os absorve.
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Não foram tais comportamentos analisados como um problema social. Não foram tomadas medidas eficientes externas ao direito penal visando reduzir esses comportamentos no mercado. Ao contrário, como demonstrou a teoria da anomia, havia sempre maior pressão por sucesso e lucro.
Quinney já alertava que a seleção de condutas do sistema penal não se fazia pela lesividade social, mas com base em outros valores. Observou também que os agentes do sistema penal representam apenas os interesses das camadas mais elevadas e impõem essa visão de mundo na interpretação dos fatos. Chambliss e Seidman também destacaram a necessidade de aval político das camadas mais influentes para a promoção de cargos nas carreiras públicas. Já são portanto vários fatores que dissuadem o sistema a punir os mais influentes. Sutherland estava certo quando notava que tais condutas, embora previstas como crimes do colarinho branco, não eram incorporadas pelo sistema penal. Ao contrário, eram resolvidas por ele apenas uma insignificante quantidade de casos. Enquanto no tocante aos demais delitos era outra a realidade.
Se tais pessoas mais influentes controlam o funcionamento do sistema penal e suas escolhas, resta então a pergunta: quem são de fato esses “poderosos” na sociedade contemporânea? As teorias do conflito preferiram não abordar os problemas específicos de uma sociedade concreta, embora já tenham dado um passo a mais com relação à elaboração teórica do labeling approach. Um maior grau de objetividade veio a ser alcançado pela criminologia crítica, como se verá no próximo capítulo.
5.10. Conclusões
1) A sociologia do conflito surgiu na década de 1960, num contexto de mudanças históricas e científicas. Cientificamente, houve a alteração do paradigma no estudo da criminologia: antes adotava-se o paradigma etiológico e, agora, propunha-se a adoção do paradigma da reação social. Historicamente, a Europa e os Estados Unidos viviam um período conturbado na política interna e externa. Havia protestos públicos e manifestações contra o racismo, a guerra do Vietnã, movimentos de contra-cultura, a guerra fria e o processo de descolonização da África. Enfim, percebeu-se que a sociedade não vivia em harmonia e consenso.
2) A sociologia do conflito foi uma teoria que criou um modelo oposto ao utilizado por Durkheim e Merton, que entendiam que a sociedade se fundava no consenso de todos os seus membros em torno de determinados valores. Para a sociologia do conflito, adotada por Darhendorf e Coser, a sociedade é composta de diversos grupos distintos que adotam valores muitas vezes opostos e, por isso, disputam o poder constantemente. Os segmentos que nessa disputa conseguem dominar as instâncias de poder impõem seus valores a todos os demais, por meio da coerção.
3) Esse conflito, dentro de um Estado organizado, ingressa na esfera oficial e se expressa das mais diversas maneiras. O direito, principalmente o direito penal, é a principal forma de exercício do domínio de um grupo sobre outro. Legitima o uso da força pelo Estado na defesa dos interesses do grupo de maior influência. Foram essas as bases da criminologia do conflito. Seus principais representante foram Georg Vold, Austin Turk, Chambliss e Seidman e Richard Quinney.
4) Georg Vold concentra sua análise na elaboração da lei penal. Para ele a lei penal é o produto do conflito (que preexiste à lei penal) entre diversos grupos. O grupo mais influente criminaliza condutas ofensivas a seus valores e as condutas normalmente praticadas pelos grupos mais fracos. Utiliza-se o direito penal como forma de legitimar o domínio de um grupo sobre outros.
5) Austin Turk concentra-se no estudo da criminalização secundária (aplicação da lei penal aos casos concretos), etapa em que o órgão mais importante é a polícia. Identifica algumas variáveis que influem na probabilidade de um fato (ou uma pessoa) ser objeto da reação social: o grau de refinamento dos autores, e o grau de interiorização das normas, e num segundo momento, a força relativa e o grau de realismo.
6) Chambliss e Seidman estudam a forma como a burocracia e a organização da carreira dos órgãos de persecução penal propiciam um tratamento
distinto entre as classes mais altas e influentes e as classes mais pobres e carentes. A influência política nas promoções nas carreiras públicas cria um incentivo aos seus integrantes de concentrar a repressão sobre as pessoas mais pobres e menos influentes. Além disso, a burocracia necessita de verbas estatais para funcionar e para que os órgãos de reação social sejam agraciados com mais verbas há uma pressão para não desagradem aqueles que influenciam as decisões políticas.
7) Richard Quinney enxerga o crime como uma definição humana criada por agentes autorizados dentro da sociedade. Para ele, as leis penais trazem comportamentos que estão em conflito com os interesses das classes que detêm o poder na sociedade. As mesmas leis penais são aplicadas por segmentos que têm o poder de interpretar os fatos sociais e transformá-los em delitos. Tais órgãos aplicadores da lei também sofrem influência dos grupos mais poderosos pois são servidores de um Estado conformado por eles. A mídia também exerce pressão sobre esses órgãos criando a sensação de insegurança e medo no tocante às condutas, difundindo os valores das camadas mais poderosas e criando o perfil dos criminosos.
8) A política criminal da criminologia do conflito analisa a atuação dos órgãos de reação social, já que abandona qualquer concepção ontológica de crime. Busca, amenizar a utilização do direito penal como forma de controle de uma classe dominante. Propõe uma aplicação consciente e justa das leis penais, tendo por base a lesividade social das condutas e não simplesmente os interesses das classes mais poderosas. Propõe também o tratamento dos problemas sociais fora do direito penal, já que sua utilização política compromete que se operem mudanças reais na sociedade.
9) Duas são as principais críticas direcionadas à criminologia do conflito. A primeira crítica refere-se ao seu caráter abstrato, pois ao tentar formular uma teoria geral aplicável a todas as sociedades em todas as épocas da história, não se atém aos problemas concretos da sociedade contemporânea e as condições que influenciam especificamente na forma como atuam seus órgãos. É uma teoria pouco
operacional. A segunda crítica diz respeito à postura conservadora da teoria que ao considerar que toda sociedade é conflitual e que os grupos sempre vão agir da mesma forma, não apresenta qualquer solução ao problema da criminologia. Restringe-se a descrever a sociedade. Não prescreve qualquer mudança nas condições de seu funcionamento.
10) Os crimes do colarinho branco, nesse contexto, representam a criminalização de condutas das classes mais poderosas. Em razão de tais classes serem as detentoras do poder suas condutas só foram criminalizadas recentemente (na década de 1930). Entretanto, a elaboração de tais leis penais teve (e tem) um efeito apenas simbólico. Pois, na fase da criminalização secundária essas condutas não são selecionadas pelo sistema, não são rotuladas, em caráter definitivo, como criminosas. Considerando-se a lógica da operacionalidade do sistema penal na sociedade conflitual, tais crimes jamais serão reprimidos adequadamente pelo direito penal de fato. O sistema penal é parcial e trabalha para selecionar e punir algumas condutas e pessoas (de grupos com menos força), preferencialmente a outras.
11) A criminologia do conflito manteve ainda um grau elevado de abstração teórica, o que não permitiu identificar com exatidão quem são esses grupos ou segmentos que disputam o poder na sociedade contemporânea. Maior objetividade, como se verá a seguir, veio a ser trazida pela criminologia crítica.