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CAPÍTULO 2. A OBRA DE SUTHERLAND

2.2. O artigo de Sutherland de 1940

Como já foi mencionado, o trabalho pioneiro no estudo da criminalidade do colarinho branco nasceu de um discurso proferido por Sutherland num encontro entre sociólogos e economistas em 27 de dezembro de 1939. Sutherland, à época presidente da American Sociological Society, escolheu um tema de comum interesse a ambos os campos: criminalidade no mundo dos negócios. Assim expôs sua proposta:

Economistas estão familiarizados com as estratégias de negócios, mas não estão acostumados a considerá-las do ponto de vista criminal; e os sociólogos estão familiarizados com o crime, mas não estão acostumados a considerá-lo em sua expressão no mundo dos negócios. Este artigo pretende integrar estes dois campos do conhecimento.45

Sutherland pretendia comparar a criminalidade nas classes sociais superiores, que ele denominou white collar class46, com a criminalidade nas classes

inferiores, de pessoas de mais baixo status social, a fim de desenvolver uma adequada teoria geral sobre a criminalidade.

Até então, os criminólogos utilizavam as estatísticas proveniente da justiça criminal como principal fonte de dados. Com bases nessas informações desenvolviam as teorias criminológicas, que, conseqüentemente, tinham por pressuposto que o crime se concentrava nas classes mais baixas, e, portanto, associavam a causa da criminalidade à pobreza e às condições sociais dela derivadas.

Sutherland acreditava haver outra explicação para a criminalidade.

Havia uma criminalidade latente que ocasionalmente, devido a algum escândalo individual, se tornava pública. Relacionava-se a condutas de grupos empresariais das mais diversas áreas tais como energia, transporte, mineração, 45

Edwin SUTHERLAND, White collar criminality in American Sociological Review, p.01

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Denominação que se refere à cor das camisas (brancas) utilizadas pelos homens de alto status econômico.

construção, investimentos, bens de consumo etc. Geralmente envolvia práticas como fraudes no mercado financeiro, suborno de agentes públicos, chantagem, propagandas enganosas e abusivas, desvios de capital e nas aplicações de fundos, falências fraudulentas. Eram condutas que feriam sentimentos de confiança e lisura que devem existir nas relações econômicas dentro da sociedade.47

Entretanto, até então, não havia dados estatísticos disponíveis na justiça criminal para uma comparação entre os crimes das classes sociais elevadas e baixas. Havia apenas indícios (baseados em alguns estudos isolados) de que os crimes do colarinho branco eram práticas difundidas. Nos meios empresariais, esses comportamentos eram de conhecimento geral. Mesmo não sendo possível determinar de modo objetivo sua freqüência, já era possível afirmar que o crime não estava tão fortemente concentrado nas classes mais baixas.

O prejuízo causado pelos white collar crimes à sociedade como um todo era provavelmente bem maior do que os prejuízos da espécie de criminalidade tradicionalmente considerada como um problema social. Uma única quebra de banco, por exemplo, poderia gerar prejuízos superiores a todo o valor subtraído em furtos no país durante um ano inteiro. Ou seja, os white collar crimes são responsáveis pela perda da confiança nas instituições e por seu funcionamento desvirtuado, com prejuízo para toda a sociedade, empobrecimento e desorganização social, que trazem consigo a expansão da criminalidade “oficial'. São efeitos aparentemente imperceptíveis isoladamente, mas dificilmente recuperáveis.48

Por isso, é inegável que os white collar crimes são de fato crimes para a criminologia. Então, para que se pudesse apreendê-los e estudá-los, a sociologia não poderia se restringir a buscar seus dados nas estatísticas criminais

Isso porque era impossível acreditar que a justiça criminal revelava todas as violações de normas penais. O sistema punitivo opera (estruturalmente) de forma 47

Edwin SUTHERLAND, White collar criminality in American Sociological Review, p. 02.

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deficiente, e o sociólogo não podia ignorar esse fato.

Sutherland tinha propostas metodológicas para conseguir se aproximar desse dado real (a efetiva violação da lei penal).

Primeiramente, incluiu outros órgãos de controle49

, além dos juízos criminais, no campo de pesquisa. Pois, ao lado da justiça criminal, havia outras instâncias que também proferiam decisões a respeito de condutas violadoras da lei penal (já que o ilícito criminal muitas vezes é também ilícito civil e/ou administrativo). Tal método já era empregado no estudo da “criminalidade” juvenil – pois ela não era julgada por juízos criminais. E no caso da criminalidade do colarinho branco era importante a consideração de tribunais, comissões e órgãos administrativos especializados.50

Em segundo lugar, considerou como crimes os casos que teriam alta probabilidade de condenação, se (hipoteticamente) ingressassem na justiça criminal. Principalmente os conflitos que ficavam restritos à esfera da responsabilidade civil (como por exemplo, em casos de violação de patentes), em que a parte lesada estava mais interessada em sanar prejuízos do que em ver o criminoso punido.51

Em terceiro lugar, também considerou comportamento criminoso aquele cuja condenação fora evitada meramente por causa de pressões sobre o juízo criminal ou administrativo. No caso da criminalidade do colarinho branco, seus autores gozam de certa imunidade devido ao conceito social e à influência na formulação e aplicação da lei. O sociólogo, porém, não deve se prender a tais circunstâncias. Ele pode interpretar as falhas das condenações e do funcionamento das instituições e coletar seu dados de forma neutra.52

Em quarto lugar, o sociólogo tem de abranger de forma ampla os fenômenos, incluindo em suas estatísticas todos os indivíduos envolvidos no crime. 49

Tais como o Federal Trade Comission, Interstate National Lavabor Relations Board, Federal Pure

Food and Drug Administration.

50

Edwin SUTHERLAND, White collar criminality in American Sociological Review p.06.

51

Ibid., p.06.

52

Deve tomar o fato até sua origem, mesmo que a condenação se limite ao executor direto.53

A partir dessa pesquisa pôde-se notar que ontologicamente a criminalidade do colarinho branco não se difere da comum, das classes mais baixas. Porém, os crimes das classes baixas são perseguidos pelos policiais, promotores, juízes, punidos com prisões. Já os crimes praticados por membros de classes superiores não resultam em ações oficiais, ou se restringem a reparações de danos em juízos civis, ou ainda, são sancionados na esfera administrativa com advertências, perda de licenças e em alguns casos com multas. Portanto, os criminosos do white collar são tratados de forma distinta dos criminosos comuns, e conseqüentemente não são considerados criminosos por eles próprios, pela sociedade em geral e pelos criminólogos. A diferença na implementação da lei penal se deve principalmente à posição social dos dois tipos de criminosos.

Sutherland, assim, já antecipava a necessidade de a ciência estudar também a reação social, como uma face indissociável da compreensão de todo fenômeno criminal. Entretanto, a inclusão dessa perspectiva no objeto da criminologia só será realizada duas décadas depois por meio do labeling approach.

Ressaltou também Sutherland que, em contraste com o poder dos criminosos do white collar, está a fragilidade de suas vítimas, na maioria das vezes coletividades desorganizadas e desprovidas de conhecimentos técnicos específicos ou titulares de interesses difusos (indetermináveis), tais como consumidores e investidores, e até mesmo todos os indivíduos enquanto membros da sociedade.54

Do forma oposta, os crimes tradicionais são cometidos por pessoas das classes mais baixas, sem a mínima influência social, principalmente contra o patrimônio e a integridade física dos mais ricos e mais poderosos. Por isso, sofrem forte reação da sociedade. Esse quadro contribui para a relativa imunidade dos criminosos do colarinho branco.

53

Edwin SUTHERLAND, White collar criminality in American Sociological Review, p. 07.

54

Portanto, se quisesse formular uma teoria geral sobre o delito, a criminologia deveria reformular as teorias tradicionais. A pobreza não podia mais ser vista como a causa principal do comportamento criminoso. E foi o que Sutherland fez com a sua teoria da associação diferencial.