5. AS RESPOSTAS DOS GESTORES DO CAPITAL NO CONTEXTO DA
5.2 OS GESTORES DO CAPITAL NA ESTAGNAÇÃO (2009 A 2014)
5.2.2 A crise se aproxima e os conflitos se intensificam
Discutimos, no capítulo anterior, que um dos subterfúgios encontrados pelos gestores econômicos do capital, para driblar a queda da taxa média de lucro, foi a ampliação das atividades especulativas. Falamos, inclusive, numa aproximação entre as tarefas dos gestores do capital produtivo e as tarefas dos gestores do capital financeiro, uma vez que as empresas não financeiras, cada vez mais, aventuravam-se nos mercados financeiros. No Brasil, esse processo acontece de forma limitada, uma vez que os bancos comerciais concentram imensos poderes e a desregulamentação do setor ocorreu timidamente. Porém, no Gráfico 22, vemos claramente como a proporção das receitas financeiras no lucro das empresas não financeiras aumenta impressionantemente nos anos de estagnação do ciclo econômico brasileiro.
Gráfico 22 - Proporção das receitas financeiras no lucro total do setor não-financeiro no Brasil (1996-2015)
Fonte: Soares (2017)
A partir dos gráficos 12, 13 e 22, vemos que o padrão identificado por Kliman e Shannon (2015) para os EUA, também se manifesta no Brasil. O aumento das receitas financeiras não significou a derrocada dos investimentos produtivos, uma vez que a parcela média de investimento em relação aos lucros se manteve nesse período. O elemento distintivo é o aumento do endividamento (alavancagem) no período (gráfico 13).
Esse fenômeno, contudo, nos permite jogar luz sobre como o capital financeiro e as atividades especulativas ganham espaço na economia nacional, e contribuem para o atravancamento do processo de acumulação. Nos primeiros anos do ciclo de expansão econômica, diante da elevação da taxa de lucro, os gestores do capital produtivo e do capital comercial dão prioridade para a redução do endividamento, ao invés de realizarem novos investimentos. Já nos anos de 2011 a 2015, esses mesmos gestores optam por ampliar os níveis de endividamento a fim de ampliarem as receitas financeiras.
Dessa forma, a estratégia da equipe econômica do governo Dilma - gerar novos incentivos para que os gestores econômicos efetivassem investimentos adicionais -, na prática, permitiu que estes implementassem os planos de investimentos concebidos durante o ciclo expansivo (ou mesmo tentando reverter a estagnação dos seus negócios), e destinassem fatias adicionais de recursos para as atividades especulativas, inclusive alavancando os seus negócios para isso. Dada a queda da lucratividade, e considerando o conservadorismo que
demonstraram nos anos de expansão econômica, é quase óbvio que os gestores do capital produtivo seguiriam o caminho que de fato seguiram.
Com a queda das exportações, aumento do consumo de importados, redução da carga tributária e aumento dos gastos públicos, um novo problema é adicionado a essa balança: os déficits nas contas públicas. Essa situação se torna problemática na medida em que gera dois novos nós na dinâmica econômica: 1) com as contas públicas exauridas, reduz-se em grande medida as possibilidades dos gestores políticos adotarem novas ações anticíclicas (o que coincide com o momento em que o ciclo econômico entra na sua fase declinante); 2) a insegurança em torno da capacidade dos gestores políticos honrarem os seus compromissos, o que afeta diretamente todos aqueles que possuem títulos do governo ou que contam com a sua liquidez (em especial os gestores do capital financeiro).
Nesse cenário, a articulação entre os agentes (gestores políticos, gestores econômicos e classe trabalhadora) atinge níveis extremamente complexos. O governo Dilma, diante da histórica ligação do seu partido com a classe trabalhadora, não podia absorver, irrestritamente, as demandas mais latentes do capital coletivo. Assim, pressionada pelas Jornadas de Junho, pelas eleições que se avizinhavam, e com a desaceleração da economia, a equipe econômica de Dilma opta por agir comedidamente em diversas direções.
Diante dos seguidos déficits nas transações correntes - que começavam a gerar a desvalorização do real e a pressionar ainda mais as contas públicas -, o governo Dilma optou por reduzir os reajustes das tarifas administradas, enquanto o Banco Central vendia, no mercado secundário, contratos que protegem as empresas da desvalorização cambial. Se, de um lado, essa ação mitiga as perdas do capital produtivo, de outro, “o prejuízo do Banco Central com esses contratos, [em 2014], foi de 17,3 bilhões de reais” (MARQUETTI; HOFF; MIEBA, 2016, p. 18).
Ainda visando atender as demandas do capital produtivo, os gestores políticos estendem os pacotes de desoneração tributária. A expectativa era dar novo fôlego para que os gestores do capital produtivo pisassem novamente no acelerador e ampliassem os investimentos. Assim, evitar-se-ia também atacar diretamente os ganhos trabalhistas e, consequentemente, decretar o encerramento do plano de crescimento econômico sustentado pela ampliação do mercado interno.
De outro lado, a expectativa era de que a elevação da SELIC (de 9,5% a 11,75% entre 2013 e 2014) acalentasse os gestores do capital financeiro, e, desse modo, o governo não precisasse avançar demasiadamente na implantação das políticas de austeridade. Dentro da estratégia traçada pelas gestões petistas e sua proximidade aos gestores das empreiteiras, as
obras públicas eram um eixo central (país estava às portas de sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos) e, para isso, a manutenção dos gastos públicos eram um movimento imprescindível.
Contudo, o caráter recalcitrante dessas medidas expõe os limites das respostas que Dilma tinha a oferecer num cenário cada vez mais beligerante. De um lado, os gestores do capital produtivo, extremamente insatisfeitos, clamavam pela redução de encargos trabalhistas, carga tributária e taxa de juros; de outro lado, os gestores do capital financeiro, embora numa situação mais confortável, advogavam em favor do ajuste fiscal, garantindo o equilíbrio das contas públicas e a implantação de políticas anti-inflacionárias - o que na prática significa a manutenção da taxa de juros em níveis convidativos. Por fim, o capital comercial – até certo ponto, em consonância com a classe trabalhadora - demandava a continuidade do modelo de crescimento baseado no aquecimento do mercado interno. Fica claro, portanto, como num cenário econômico mais restritivo, intensificam-se os conflitos dentro da própria classe capitalista.
Essa disputa intraclasse, por sua vez, colocava a classe trabalhadora numa posição extremamente vulnerável. “Segundo McKinsey, consultores de gestão global, mais da metade da população brasileira permanece abaixo de uma renda mensal per capita de R$ 560” (ROBERTS, 2017a). No entanto, de um lado, gestores do capital produtivo pressionavam os gestores políticos para que aprovassem uma legislação trabalhista mais moderna (o que significava corte de direitos trabalhistas), de outro os gestores do capital financeiro demandavam cortes na previdência social. Não era mais possível governar o país sem desagradar profundamente alguns desses atores.
É nesse contexto, portanto, em que a popularidade de Dilma começa a cair vertiginosamente – o que já se manifesta de forma bastante clara com a sua vitória apertada na eleição presidencial de 2014, acompanhada do fracasso eleitoral do seu partido nos principais centros industriais. É também nesse cenário que a economia brasileira beira colapso. O ano de 2014 se encerra com péssimos indicadores econômicos: o PIB fechou com um crescimento de apenas 0,1%, as empresas auferiam a menor taxa de lucro registrada no século XXI, cresceu o abismo entre os custos salariais e a produtividade do trabalho, etc.. Não obstante, isso era apenas um prenúncio do que viria no ano seguinte: a crise.