• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 - O FILHO DO HOMEM NO NT

2. Os Ditos de Jesus e a questão de sua autenticidade

A expressão FdH é encontrada nas pregações e diálogos de Jesus encontrados nos evangelhos. Nenhum outro personagem, no NT, utilizou tanto esta expressão como o fez Jesus. O termo com maior probabilidade que Jesus teria empregado para si é ao mesmo tempo o mais enigmático: de um lado o FdH poderia ser uma expressão do dia-a-dia, que significa tanto “o (ou um) homem” e de outro uma figura encarregada por Deus para julgar o mundo, o qual aparece em visões como o FdH.

107 THEISSEN, Gerd, MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um manual, p.569.

Seu ministério não abrangia a promessa de um novo profeta que traria uma nova lei, tampouco um movimento messiânico e político. Pelo contrário era a ênfase na pregação de um novo reino que estava em sua mente. Diante disto J. Jeremias afirma que FdH foi o único título que Jesus usou aplicando para si mesmo e cuja autenticidade se questiona seriamente108, uma vez que Jesus falava na terceira pessoa quando se referia ao FdH (porque distinguia o FdH de si mesmo). Tal afirmação levaria a crer que Jesus esperasse uma figura salvífica diferente de si mesmo. Nesta mesma linha de pensamento surgem outros autores109 perguntando a respeito de quem Jesus falava, se era dele mesmo ou algum outro protagonista, quando se referia ao “FdH”. Outra questão que pode ser levantada é a de que nos ditos de Jesus o mesmo não estaria fazendo a sua propaganda como um visionário apocalíptico.

Nesse sentido Crossan levanta a hipótese de que Jesus poderia estar falando do FdH num sentido genérico ou indefinido, e se o fizesse obviamente estava se incluindo, mas se falava do FdH num sentido circunloquial, estava se referindo apenas a si mesmo. Na formulação dos evangelhos do NT, a expressão FdH tornou-se um título de Jesus e, portanto uma expressão circunloquial em seus lábios. Mas este é o fim, e não o início do processo, uma vez que não existe nenhuma prova conclusiva de que FdH fosse usado no hebraico ou no aramaico, num sentido enfático e excludente como um substituto para “eu”.110 Assim sendo a conclusão de tal hipótese é a de que se Jesus alguma vez falou de um FdH, os seus ouvintes não teriam interpretado a expressão como um título, tampouco um termo circunloquial. Ao invés disso, eles a tomariam no seu significado mais geral, como um termo genérico (todo mundo) ou indefinido (qualquer um). Para eles Jesus estaria falando dos seres humanos em geral fazendo afirmações a respeito da humanidade. Mas porque Jesus estaria falando dessa maneira? O que ele esperava acontecer? Podemos ver que em seu posicionamento perante o mundo e a forma pela qual era governado, responde em parte estas questões.

108 JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento, p.391.

109 CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico, p.274 e LOHSE, Eduard. Apocalipsismo e Cristologia. In:

Apocalipsismo- Coletânea de estudos. (VV.AA.). São Leopoldo. Sinodal, 1983. Na p.185. Lê-se: “Assim, nem no apocalipse sinótico nem no Apocalipse de João se encontra profetismo voltado para trás, que procurasse levantar seu prestígio através de vaticinia ex eventu. Todas as noções apocalípticas utilizadas passaram por uma correção de natureza essencial. O FdH não é descrito, ao feitio do apocalipsismo judaico, como um juiz dos descrentes nem como um dominador que triunfa sobre os reis e poderosos, mas chamado exclusivamente de Senhor dos seus, que reunirá os eleitos.”

110 No entanto para esta posição de Crossan podemos verificar algumas alternativas como as que foram apresentadas nos artigos de Owen e Casey.

A pregação de Jesus possuía um aspecto totalmente escatológico e partilhava de elementos apocalípticos bem conhecidos por seus ouvintes. A cada parábola e história narrada havia um sentido de urgência para a decisão humana e o predominante da pregação de Jesus é o reinado de Deus e o mesmo anuncia sua irrupção imediatamente, que se manifesta já e agora. Este conceito escatológico refere-se ao governo de Deus que põe fim ao atual curso do mundo, (o mundo que destrói tudo o que é contrario a Deus), tudo o que é satânico e pertencente ao mal, que traz sofrimento e que faz com que Deus cumpra suas promessas proféticas.111

Com este tipo de pregação Jesus se encontra no contexto histórico da expectativa judaica do fim do mundo e do futuro. Enquanto o povo judeu respira ainda os velhos ares de uma esperança messiânica, nacionalista, vinda através de um rei que esmagaria os inimigos e destruiria os poderosos, a mensagem de Jesus não contém nenhuma alusão a um messias-rei, tampouco diz respeito ao povo de Israel que dominaria toda a terra, como também da reunião das doze tribos ou de uma felicidade num país rico cercado de paz. Em sua pregação estas coisas não são contempladas. Dessa forma os ditos de Jesus a respeito do FdH não parecem apontar para algum tipo de messias davídico, mas antes aquela figura celestial do juiz e de salvador da qual fala o apocalipsismo, pois Jesus não se apresentou como o juiz do mundo nem como salvador supranatural.112

O contrário era certo, pois com um ministério de milagres junto aos menos favorecidos da sociedade (aos pobres e excluídos) estava sendo construído um novo movimento com vistas a se opor àqueles ministérios proféticos que anunciavam uma esperança nacionalista. Caso o povo estivesse esperando um messias-rei não encontraria em suas palavras tal esperança, pelo contrário, a pregação de Jesus estava ligada à apocalíptica e a esperanças de outros círculos, uma esperança que não espera a salvação através de uma

111 KÄSEMANN, Ernest. On the subject of primitive Christian Apocaliptic. In: New Testament Questions Of Today. Philadelphia, 1969, p.108-137. Käsemann em seus estudos entende que uma dos principais questionamentos sobre a apocalíptica seja saber de quem é este mundo: de Deus ou dos poderes maus que subjugam e deformam a vida humana na Terra. Conforme KÄSEMANN, Ernest. Os inícios da teologia cristã.

In: Apocalipsismo - Coletânea de estudos. (VV.AA.). São Leopoldo. Sinodal, 1983, p.231-254 e BULTMANN, Rudolf. Seria o apocalipsismo a Matrix da teologia cristã? In: Apocalipsismo- Coletânea de estudos.(VV.AA.).

São Leopoldo. Sinodal, 1983, p.255-261.

112 BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo. Teológica, 2004, p.69.

maravilhosa mudança das condições históricas, políticas e sociais, antes uma catástrofe cósmica, que aniquila e acaba com todo o mundo em curso.

O pressuposto desta esperança é a concepção dualista pessimista do mal que domina todo o sistema através da corrupção satânica da estrutura do mundo como um todo. Enquanto o velho eon, até então dominante no mundo, estava causando sofrimento e terror ao seres humanos o novo eon, o qual está sendo anunciado e que está preste a surgir, virá de maneira decisiva para todos. Quando chegar o dia determinado por Deus, então haverá o julgamento do mundo por ele ou por seu representante, e é nessa hora que Jesus coloca o foco de sua pregação no FdH, o qual vem de uma maneira totalmente fantástica nas nuvens do céu, ressuscitando os mortos e recompensando aqueles que foram fiéis a sua pregação.

Neste ponto é importante fazer uma observação de caráter comparativo com a pregação profética da história de Israel. Na mensagem dos profetas o arrependimento pela idolatria e o pecado praticado era o modo de haver a salvação do ser humano, em sua presente situação. No entanto a pregação de Jesus, e seu anúncio do FdH, leva em consideração que a salvação dos justos não se constitui uma esperança presente e nacionalista, antes será uma recompensa futura e paradisíaca. Diferente dos antigos apocalípticos Jesus não se concentra nos acontecimentos históricos como Daniel e suas visões de bestas representando impérios e por conseguintes eras mundiais. Tampouco fala de uma maneira erudita, articulada e argumentativa e nem se utiliza especulação fantástica como faziam os apocalipses, ele renuncia toda a tentativa de pintar e construir o juízo, a ressurreição dos mortos e a glória vindoura em detalhes. Tudo engloba agora o sentido de que Deus reinará e seu representante, o FdH, fará o papel de executor deste reino.

Sendo que esta pregação de caráter apocalíptico era usada por Jesus para descrever o FdH, Crossan entende que Jesus estaria esperando, em seu futuro, um fim do mundo eminente e dessa forma falava do “FdH” de maneira a projetar este fim imediato. E para Jesus esta escatologia apocalíptica seria realizada quando houvesse uma intervenção divina e os poderes do céu fossem abalados, e seus inimigos e opressores seriam obrigados a reconhecer sua pregação, seu reino e seu senhorio.

No prosseguimento de seu trabalho Crossan113 classifica os ditos de Jesus a respeito do FdH de acordo com um inventário de sentenças, relativos ao ministério e possível exaltação do mesmo, da seguinte forma:

A) sentenças sobre o FdH apocalíptico, são subdivididas em extratos contendo os seguintes temas:

Primeiro extrato

1.1. a volta apocalíptica de Jesus;

1.2. diante dos anjos;

1.3. conhecendo o perigo;

1.4. revelação a Tiago;

1.5. pedido de um sinal;

1.6. sobre os doze tronos;

1.7 como um raio no céu, 1.8. como Noé; e

1.9. como Ló.

Segundo estrato

2.1. a hora imprevisível;

2.2. alguns presentes aqui;

2.3. a pergunta do sacerdote;

Terceiro extrato

3.1. explicação das ervas daninhas plantadas;

3.2. cidades de Israel;

3.3. o juízo final;

3.4. o dia está chegando;

3.5. o juiz injusto;

Quarto extrato

113 CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico, p.490-492.

4.1. os céus se abriram

B) Sentenças sobre o FdH terreno Primeiro extrato

1.1. as raposas tem tocas;

1.2. todos os pecados serão perdoados;

1.3. quem é Jesus?

1.4. bem aventurados os perseguidos;

1.5. sabedoria justificada;

Segundo extrato

2.1. os virtuosos e os pecadores;

2.2. o líder como um servidor;

2.3. doença e pecado;

2.4. o senhor e o sabá;

Terceiro extrato 3.1. ver para crer.

C) Sentenças sobre o a ascensão do FdH sofredor Segundo extrato

2.1. profecia da paixão-ressurreição;

2.2. Jesus é preso.

D) Sentenças de João sobre o FdH Segundo extrato

2.1. Jesus e Natanael;

2.2. Jesus a Nicodemos;

2.3. sobre o Pai;

2.4. o pão da vida;

2.5. disputa sobre Jesus;

2.6. Jesus nos tabernáculos;

2.7. cegueira e visão;

2.8. hora da glória;

2.9. profecia e descrença;

2.10. o discurso de Jesus na ceia.

Outra classificação de sentenças que podemos encontrar na pesquisa sobre os ditos do FdH114 demonstram a existência de duas tradições lingüísticas por trás dos ditos: linguagem cotidiana e visionária. Theissen e Merz entendem que os ditos do FdH na tradição de Jesus distingue-se por três características notáveis:

1) aparecem na boca de Jesus, com poucas exceções115, sendo citado como outra figura. Contudo 37 dos 51 ditos sobre o FdH nos evangelhos têm paralelos concorrentes em que aparece o termo “eu”;

2) limitam-se aos evangelhos, em que figuram em todas as camadas, nos sinóticos e em João, e uma vez também até mesmo no Evangelho de Tomé (Evangelho de Tomé 86 de forma semelhante a Mateus 8,20), em que o termo pode ser entendido genericamente: fala-se do homem como distinto dos animais;

3) o conceito FdH não é explicado e não suscita controvérsias (o discurso parece ser muito familiar para seus ouvintes), no entanto nenhuma confissão de fé do cristianismo primitivo se vale do termo FdH, entretanto o mesmo parece ser muito conhecido e utilizado para denotar o conflito entre o FdH e o mundo ao redor;

Nesta classificação os autores, juntem-se a ela o estudo de Bultmann116, encontram três níveis para os ditos sobre o FdH:

114 THEISSEN, Gerd, MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um manual, p.572-575.

115 Exceções Atos 1,13; 7,56 e João 12,34 onde é citada uma declaração de Jesus.

116 BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. Na p.70. Lê-se: “os ditos sinóticos a respeito do FdH se desdobram em três grupos: eles falam do FdH 1) vindouro; 2) que sofre e ressuscita e 3) que atua no presente.

O terceiro grupo (Marcos 2,10,28; Mateus 8,20; 11,19; 12,32) deve seu surgimento apenas a um mal entendido de tradução para o grego. No aramaico a expressão FdH não era título messiânico, mas tinha o sentido de “ser humano” ou de “eu”. Portanto, esse grupo não entra em cogitação. O segundo grupo contém os vaticina ex eventu que faltam em Q e somente o primeiro grupo contém uma tradição bem antiga. Os ditos pertencentes a ela falam do FdH na terceira pessoa. É significativo que o sentido original do título se perdeu para os evangelistas posteriores e que o termo FdH se torna uma autodenominação de Jesus ao ponto de Mateus poder substituir um FdH tradicional por um “eu” (10,32, ao contrário de Lucas 12,8, conforme Marcos 8,38, comparar Mateus 16,21

1) os ditos do FdH atuando no presente: são ditos sobre a autoridade do FdH e aparece em Marcos, enfatizando a autoridade para perdoar pecados (2,10) e para romper com o sábado (2,28), e sua mensagem pode ser entendida como o FdH estando acima das normas e restrições gerais. Ele está acima da cultura e pode legislar sobre os costumes que os homens impuseram sobre os outros, de maneira que suas ações presentes devam ser seguidas. A fonte dos ditos (Q), contém material sobre o papel marginal do FdH e cita como exemplos que o mesmo, diferente dos animais, não tem pátria (Mateus 8,20), é criticado como glutão e bebedor de vinho (Mateus 11,19) e insultado (Mateus 12,32). O pensamento no pano de fundo é que o ser mais forte anunciado pelo Batista não veio, mas apenas um homem como Jesus. Correspondem dessa forma ao caráter terreno do ministério do FdH;

2) no futuro: estes ditos somente podem ser entendidos contra um pano de fundo da tradição da linguagem visionária, apocalíptica, uma vez que atribuem aos acontecimentos sobre o FdH os seguintes esquemas: 1) correlatos escatológicos colocando o FdH numa relação tipológica com figuras do passado de Israel, como, por exemplo, sua comparação com Jonas (Lucas 11,30). Seus dias também são comparados com o tempo de Noé e a preparação para um juízo vindouro (Lucas 17,26) e de Ló, o que incentivaria os homens a seguirem prontamente sua mensagem (17,28). Outro elemento visionário está contido na comparação do FdH com um relâmpago que brilha de uma a outra extremidade do céu (Lucas 17,24); 2) uma máxima legal escatológica: em Marcos 8,38 ocorre a contraposição enfática do “eu”

de Jesus ao FdH, quando é afirmado por Jesus que “se alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, em meio a esta geração pecadora, também o FdH se envergonhará dele”. Existe também aqui a alusão de Daniel 7, uma vez que o FdH vem na glória de seu Pai com seus santos anjos; 3) declarações de ver o FdH futuramente: Jesus declara a seus juízes que eles verão o FdH sentado a direita de Deus e vindo sobre as nuvens do céus (Marcos 14,62). A mensagem para seus argüidores era clara: no futuro o FdH julgará todos os homens grandes e pequenos.

Esta visão apocalíptica ainda é mais fortemente descrita em Marcos 13,26. O elemento comum aos textos apocalípticos e do cristianismo primitivo é bem enfático: o destino

com Marcos 9,31; Mateus 5,11 com Lucas 6,22) bem como inversamente um “eu” por FdH (Mateus 16,13 ao contrário de Marcos 8,27)”.

do FdH está em paralelo com o destino de seus discípulos, a autoridade e o papel marginal do FdH no sofrimento e sua exaltação correspondem as experiências e esperanças dos seguidores de Jesus;

3) os ditos sobre o FdH sofredor aparecem em diversas variante: por um lado falam de

“ser entregue” (Marcos 9,31; 14,14; Lucas 24,7), por outro lado de seu “sofrer”

(Marcos 8,31; 9,21; Lucas 17,25). A expressão FdH é apropriada para as profecias de sofrimento na medida em que o termo FdH de qualquer modo sugere a noção de imortalidade (Isaías 51,12; Salmos 146,3; João 25,6). Mas seu emprego em profecias sobre o destino inteiramente especial de Jesus é inequivocadamente um desenvolvimento posterior, uma vez que no judaísmo não era conhecida uma narrativa de FdH que merecesse sofrer.

Se por um lado existe a classificação sobre os ditos de Jesus em relação ao FdH e suas verificações, por outro aparece a questão se os mesmo são dignos de serem considerados autênticos ou não. Esta pergunta pode ser norteada, haja vista, que muitas interpretações foram dadas no sentido de que a comunidade ou os evangelistas poderiam ter inserido estes textos em seus documentos.

Um dos pesquisadores que acredita na autenticidade dos ditos é C. Colpe.117 Ele defende esta idéia nos três grupos de ditos (presente, sofredor e futuro), ressaltando que o título infiltrou-se em profecias autênticas de sofrimento apenas num estágio secundário e para sua defesa Colpe invoca o critério da “inderivabilidade”, utilizado pela história das religiões.

O autor acredita que a noção sinótica do FdH não pode ser derivado de Daniel 7, uma vez que tais referências foram introduzidas pela comunidade primitiva. No caso da noção enóquica do FdH a mesma permaneceu restrita a um círculo esotérico e a do 4 Esdras remete somente a um messias político. Sua pesquisa mostra que se torna visível uma quarta tradição, a qual é independente dos livros supra citados e indica a variabilidade da expectativa do FdH no judaísmo.

117 Colpe considera autênticos apenas estes onze ditos sobre o FdH: Marcos 2,10; Mateus 8,20; 10,23;

11,18;24,27,30,37; Lucas 17,30; 18,8; 21,36 e 22,69. Apud: THEISSEN, Gerd, MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um manual, p.576.

Em contrapartida a opinião de Colpe encontramos a descrição de P. Vielhauer de que Jesus defendeu uma escatologia puramente teocêntrica e achava que o reino de Deus estivesse tão próximo que entre ele a vinda de Deus não restava espaço para uma figura intermediária.

Segundo Vielhauer, em nenhuma parte as declarações do trono de Deus e sobre o FdH tem relação orgânica entre si num logion (dito), declarando assim a inautenticidade de todos os ditos sobre o FdH.118

No parecer de Bultann119 está claro que originalmente as predições da parusia e as da morte e ressurreição nada têm a ver umas com as outras, uma vez que tais predições (Marcos 8,38;13,26; 14,62; Mateus 24,27,37,39,44) não falam da morte e ressurreição do FdH e isso significa que nas palavras que falam da vinda do FdH, nem se cogita que esse FdH já estivesse presente em pessoa, e que devesse primeiro ser afastado pela morte, para então retornar ao céu. Nessas passagens Jesus fala do FdH sempre na terceira pessoa, sem se identificar com ele. Não há duvida de que os evangelistas – bem como a comunidade que transmitiu estes ditos – realizam esta identificação.

No entanto, pode-se afirmar a mesma coisa em relação a Jesus? Pois Jesus conforme os sinóticos não disse que voltaria antes que o FdH fizesse este retorno. Então surge a pergunta: como Jesus imaginaria a volta do FdH? A princípio, segundo Bultmann, deveria ter contado com o fato de que seria arrebatado da terra e elevado para o céu antes do fim verdadeiro, antes da irrupção do reino de Deus, para então vir de lá, conforme suas predições na Terra, sobre as nuvens do céu, para o exercício de seu verdadeiro trabalho.

É certo verificar que a expressão bar ’enash recebeu por muito tempo as mais significantes interpretações (como demonstrado no capítulo 1) e foi alvo de muitos estudos. A maneira pela qual Jesus referiu-se ao FdH constituiu então seus ditos. Conforme pode ser analisado é certo que Jesus usou a expressão FdH, pois ela deriva do aramaico e é atestada em todos os complexos da tradição de Jesus ( Marcos, Q, Mateus, Lucas, João e Evangelho de Tomé 86). No cristianismo primitivo ela foi considerada um traço característico da linguagem de Jesus e aparece apenas em seus ditos. Não se sabe, porém, ao certo, qual grupo de ditos sobre o FdH deva ser atribuído a Jesus, nem a que ou a quem Jesus se referiu com essa

118 THEISSEN, Gerd, MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um manual, p.575.

119 BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento, p 69.

expressão.120 Neste sentido podemos perguntar: o que significava este FdH ou este homem para o pensamento da época de Jesus?