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A cura do trauma à luz do processo de construção da paz

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (páginas 73-79)

mais humano, pois tende a considerar as várias camadas da sociedade. Já a próxima e última seção tende a mostrar o relacionamento entre a cura do trauma e a construção da paz, principalmente como essa intervenção ainda é negligenciada em algumas abordagens desse processo.

alcançada a menos que as fontes psicológicas do conflito também sejam tratadas, pois os resíduos da violência e da morte perduram por muito tempo, mesmo que ocorra o fim das hostilidades, essas podem se reacender a qualquer momento.

Para superar essas adversidades, as emoções devem ser vistas como forças sociopolíticas que contribuem para a formação da identidade e da comunidade. Elas são partes inevitáveis da vida humana e influenciam as ações e interações entre os indivíduos e consequentemente da realidade (FACCHINI, 2020). Quando as emoções começarem a ser vistas dessa maneira, elas poderão ser reconhecidas pelo papel central que desempenham nos processos de cura e reconciliação:

O primeiro passo é entender que o medo e a raiva continuam existindo nos indivíduos mesmo após o fim do conflito. Os resultados são formas antagônicas de identidade e comunidade que fomentam mais do que resolvem os conflitos. As abordagens predominantes, principalmente aquelas que enfatizam as dimensões institucionais e de segurança da construção da paz, são projetadas para gerenciar estes resíduos políticos de medo, raiva e ressentimento. Fazer isso é sem dúvida importante, principalmente depois de um grande conflito. Porém, não é suficiente para criar um ambiente político que permita que sociedades divididas superem ideias sobre justiça pautadas em torno da retribuição ou vingança (HUTCHISON; BLEIKER, 2013, p.82, tradução nossa).

Nesta mesma linha de pensamento, Marc Howard Ross (2013) acredita que a criação de novas instituições no processo de construção da paz é crítica para as sociedades pós-conflito, porém ela, por si, é insuficiente para construir uma paz duradoura. O autor afirma que o lado emocional deve ser incluído nos esforços de construção da paz, justamente pelo fato de que a raiva e os sentimentos de exclusão contribuem para o início de conflitos e que alguns elementos como inclusão, reconhecimento, fortalecimento de um futuro compartilhado, identificação de interesses comuns e experiências individuais são componentes capazes de melhorar as iniciativas de construção da paz.

Ross (2013) frisa que os benefícios para a construção da paz podem ser inúmeros se as necessidades emocionais dos indivíduos forem consideradas, e essa atitude possibilita que se evite futuros conflitos. Para inserções significativas destas emoções na construção da paz, o autor propõe as seguintes iniciativas descritas abaixo. A primeira concerne o aumento da inclusão. O processo de construção da paz deve ser capaz de ajudar na superação das diferenças entre os grupos da sociedade, incluindo vítimas e inimigos, a fim de que esses grupos desenvolvam entendimentos compartilhados sobre passado, o presente e futuro. A segunda iniciativa se refere ao reconhecimento, em que é

necessário que os construtores da paz não atribuam a culpa do conflito a determinados grupos. Essa iniciativa não é o mesmo que aceitação, já que o primeiro consente as diferenças nas experiências, sem necessariamente aprová-las. Esse processo é importante para que os grupos criem uma narrativa comum sobre o passado para seguirem em frente.

A terceira iniciativa aborda o tema do futuro compartilhado e dos interesses em comuns. Aqui, a construção da paz deve priorizar as necessidades conjuntas dos grupos, e a ideia é ignorar o passado recente para que as diferenças não aumentem e focar no presente e no futuro, priorizando as necessidades comuns e ganhos mútuos. A quarta iniciativa propõe afastar-se de estereotípicos de antigos oponentes, consistindo em mostrar as possibilidades de interesses comuns e de cooperação entre os grupos e membros da sociedade. Por fim, a última iniciativa refere-se à criação de expressões e rituais comuns entre os grupos. As sociedades divididas e dilaceradas por conflitos se identificam através de rituais e expressões simbólicas, estes elementos acentuam ainda mais a distinção entre os grupos. A ideia é que a construção da paz auxilie no desenvolvimento de expressões e iniciativas comuns que reúnam e conectem ainda mais os membros da comunidade (ROSS, 2013).

Geralmente, as abordagens e as iniciativas de construção da paz não são preparadas para lidarem com as tarefas associadas à emoção e ao trauma. O propósito maior dessas iniciativas é ocupar-se de desafios vistos pelos construtores da paz como iminentes e prioritários, apesar de serem tarefas necessárias, sozinhas elas não são suficientes para criarem uma sociedade estável e pacífica, pois, mesmo após o fim de conflitos prolongados, ainda estão presentes nos indivíduos as feridas emocionais (HUTCHISON; BLEIKER, 2013).

A cura do trauma deveria ser considerada uma parte viável dá “caixa de ferramentas” de construção da paz, pois apoia indiretamente os processos de reconciliação e reduz a probabilidade de recorrência da violência. Em resumo, ao curar os indivíduos, tratar seus traumas e aumentar sua resiliência psicológica é possível diminuir a tendência à vingança e aumentar o perdão, instrumentos que gozam de uma relação direta com a probabilidade de ocorrência de comportamento violento. Por conta da sua importância e do seu impacto, esta categoria de intervenção tem o potencial de formar e de se estabelecer como uma parte importante dá “caixa de ferramentas” de construção da paz justamente pela capacidade de ajudar a construir a paz em um ambiente pós-conflito (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).

É comum que os indivíduos de sociedades assoladas por traumas em grande escala sofram as consequências daquele evento, e que a atribulação psíquica resulte em diversos impactos negativos para a produtividade econômica, para a educação, para a saúde, para a segurança, dentre outros âmbitos da vida pública e privada. Neste cenário, se não se estimular e se assegurar a cura do trauma na esfera individual e na societal, os recursos alocados a fim de alcançar ganhos de desenvolvimento em diversas áreas, como educação, bem-estar social e produtividade econômica, serão significativamente menos eficazes e consequentemente ineficientes, como ocorre em muitos casos estudados (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).

Cillian McGrattan (2016) corrobora que o foco nas abordagens e nas tarefas

“convencionais” da construção da paz tende a obscurecer ou até mesmo a ignorar a relação existente entre o trauma e os processos de paz e a democracia. O autor admite que os aspectos institucionais e regulamentares são necessários além de serem responsáveis por definir resultados em eleições e em contestação política, entretanto, o foco apenas nesse enquadramento ofusca elementosconsideráveispara a transição política e para a paz. McGrattan sugere que as respostas políticas em uma sociedade pós-conflito devem considerar as dimensões do trauma, pois qualquer tentativa de conceber processos de democratização só será bem-sucedida se alinhada a uma consciência de trauma em um âmbito político.

As respostas políticas direcionadas ao trauma são, por vezes, distintas daquelas relacionadas ao conflito. Logo, a desconsideração das dimensões do trauma na construção da paz converte-se em noções de paz que são desequilibradas, insustentáveis e muitas vezes injustas. E o resultado deste fato é visível em processos de democratização e paz que concebem a violência apenas como algo relacionado a instituições e não ao trauma (MCGRATTAN, 2016).

Isto é, não se pode abordar adequadamente a questão da cura do trauma se esta não estiver presente em iniciativas mais amplas de construção da paz e desenvolvimento Lidar com o desafio da inclusão do trauma nas atividades e intervenções de paz requer parcerias, interdisciplinaridade, contratação e qualificação de profissionais de saúde mental e capacitação dos mesmos em questões de paz e desenvolvimento. Em suma, o trauma necessita ser entendido como um fenômeno não só psicológico, mas também social que inclui em seu âmago questões como direitos humanos, saúde, cultura e igualdade (CLANCY; HAMBER, 2008).

Essa seção abordou como a questão da cura do trauma, assim como as emoções e a saúde mental, ainda são negligenciadas pelas perspectivas internacionais de construção da paz. Como se viu anteriormente, a questão do indivíduo, da cura e do trauma recebem grande espaço em definições mais abrangentes da construção da paz como no caso da construção da paz estratégica, contudo em abordagem mais mainstream, a exemplo das Nações Unidos, o processo tende a priorizar âmbitos mais institucionais, governamentais e estruturais. Apesar de entender que o tema não é negligenciado em todas as abordagens, compreende-se que ele é priorizado em algumas narrativas acadêmicas e organizacionais, porém ainda esquecido nas principais iniciativas e atividades da atualidade, resultando em poucas intervenções práticas com resultados positivos e benéficos para as vítimas.

Logo, é essencial que a cura do trauma seja endereçada nas atividades prioritárias da construção da paz– com grande enfoque para as operações de paz da ONU – para que o processo seja mais inclusivo, saudável e duradouro. Apesar de recente, a literatura do trauma e os projetos mais práticos acerca desse assunto demonstram a relevância de considerar essa categoria de intervenção como prioritária. A expectativa é que no futuro essa temática ganhe mais visibilidade na prática e possa receber a mesma atenção que outras intervenções, mudando significativamente a vida das vítimas.

Em síntese, este capítulo conduziu uma revisão conceitual referente as temáticas mais relevantes da dissertação. A temática do trauma é o assunto principal do capítulo e aqui retratou-se o lado psicológico e social desse fenômeno, explicitando o processo psicológico do trauma, o ciclo do trauma curado e também sua correlação com os conflitos e com o processo de construção da paz. A parte de construção da paz contemporânea é essencial para a contextualização do tema, ou seja, é necessário compreender o que é o processo e como é realizado através das operações de paz, para então alcançar o entendimento da questão do trauma em sociedades pós-conflitos. À luz da discussão exposta, propõe-se o arcabouço analítico abaixo para a condução da análise dos estudos de caso:

Tabela 1. Arcabouço analítico para a realização dos projetos de cura do trauma.

Recursos Inclusão Reconhecimento Futuro comum

Ruanda

Qual a quantidade de recursos financeiros e

humanos destinados ao

projeto?

O projeto é inclusivo para todos os grupos da sociedade? Ou está restrito a uma pequena parcela

da população?

O projeto e seus líderes são imparciais em relação à culpa

dos grupos na violência passada?

O projeto constrói e desenvolve

atividades coletivas que

estimulem a criação de um futuro pacífico e harmônico entre

as partes?

Never Again Rwanda

Karuna Center for Peacebuilding

Fonte: autoria própria (2022).

Com relação ao eixo “recursos”, a proposta é avaliar a robustez das iniciativas de cura e de reconciliação nos casos selecionados, particularmente em termos de recursos financeiros e de recursos humanos envolvidos nas atividades. Os demais eixos —

“inclusão”, “reconhecimento”, e “futuro comum” — seguem a proposta de Ross (2013) apresentada anteriormente e procuram investigar se as iniciativas em Ruanda realizam ações nesses três âmbitos.

Com isso, espera-se que o presente capítulo tenha construído as bases teóricas e metodológicas necessárias para que se possa realizar a análise empírica a partir da conjuntura de Ruanda. Em seguida, o capítulo dois, apresentará um contexto histórico do país, abordando mais sobre o seu passado violento, bem como o impacto do trauma na vida e cotidiano dos ruandeses.

2 RUANDA: UM PAÍS MARCADO PELA DIVISÃO E VIOLÊNCIA

O objetivo desse capítulo é apresentar o histórico de Ruanda, desde antes da colonização até os dias atuais, bem como indicar quais as principais consequências, relativas à saúde mental, do genocídio de 1994. Para isso, o capítulo é dividido em duas seções basilares: a primeira possui um teor mais histórico, apresentando Ruanda e os acontecimentos mais relevantes das últimas décadas, a exemplo da colonização, independência, guerra civil, genocídio e os anos pós-1994. Posteriormente, a segunda e última seção aborda o cenário da saúde mental dos ruandeses, com enfoque para a visão geral dessa temática no país, as principais consequências, bem como as iniciativas, intervenções e tradições que auxiliam no âmbito do trauma, cura e reconciliação.

O capítulo mescla diversos autores e bibliografias, porém a autora americana Nicole Fox (2021) recebe expressiva atenção em função de sua obra atualizada e recente sobre Ruanda. Apesar de não ser ruandesa, a autora viajou diversas vezes ao país e ficou hospedada por muito tempo em casa de cidadãos ruandeses, além de ter realizado várias entrevistas12 com pessoas do país. O seu livro também apresenta pesquisas e informações recentes sobre o tema de memória, trauma e reconciliação, portanto é significativo para o desenvolvimento desse capítulo.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (páginas 73-79)