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A saúde mental de mulheres, jovens e perpetradores

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (páginas 98-103)

2.2 A saúde mental dos ruandeses pós-1994

2.2.1 A saúde mental de mulheres, jovens e perpetradores

Em relação à saúde mental, é valido pontuar que ela afeta mais diretamente grupos específicos de pessoas bem como situações e realidades distintas, portanto se faz necessário pontuar algumas dessas divisões.

Consoante Nicole Fox (2021), a pobreza é um indicador significativo do trauma.

Em Ruanda, as vítimas perderam não apenas sua família e amigos, mas também seus principais meios de subsistência. Traumas genocidas em conjunto com adversidades socioeconômicas representam diversas ameaças ao desenvolvimento e a saúde mental, pois há uma correlação significativa entre privação de renda e uma saúde mental precária.

O sofrimento mental em muitos momentos é causado por fatores externos como violações

dos direitos humanos, dos direitos a vida, alimentação, moradia, educação e trabalho. A negação desses direitos resulta em experiências de trauma, medo, isolamento e desespero desencadeando assim diagnósticos de doença mental (LORDOS et al., 2021).

Logo, a carga de saúde mental vivenciada hoje em Ruanda pode ser atribuída a experiência do genocídio e as principais consequências desse evento nos sistemas sociais e econômicos do país. Dessa maneira, supõe-se que os esforços para restaurar a saúde mental dos indivíduos não se provará completamente efetiva se apenas a abordagem médica for utilizada em detrimento dos determinantes sociais. As condições de pobreza podem levar a problemas de saúde mental, todavia, esses problemas já existentes como os TMC também resultam em dificuldades na aquisição de oportunidades de educação e emprego, ocasionando más circunstâncias de vida. Em suma, como constatado pela UNICEF, fornecer assistência humanitária e meios de subsistência básicos para populações vulneráveis antecipa melhor saúde, incluindo a mental e altos níveis de bem-estar social (RUGEMA et al., 2015; LORDOS et al., 2021).

Em Ruanda alguns grupos são mais propensos a enfrentarem traumas do que outros. É o caso da população daqueles com menor quantidade de capital social e poder, como os pobres, os jovens e as mulheres. 19A maioria daqueles que sobreviveram fisicamente ao genocídio foram as mulheres e as crianças, pois os homens foram mortos nos estágios iniciais, portanto gênero e idade foram responsáveis por moldar as experiências de muitos dos sobreviventes. Nesse contexto, o tratamento diferenciado entre homens e mulheres durante o genocídio influenciou as percepções de cada um no que tange ao próprio trauma (FOX, 2021).

A razão pela qual as mulheres enfrentam mais traumas do que os homens têm menos a ver com as diferenças de gênero e mais com os eventos que elas vivenciaram durante o genocídio, como agressão, mutilação e abuso sexual e testemunho, assassinato

19 Aqui vale uma reflexão. A narrativa que existe em Ruanda é que as mulheres e os jovens são grupos mais vulneráveis e mais propensos a estarem traumatizados. Este fato pode ser verdade, pois foram grupos (principalmente as mulheres) que por vezes vivenciaram mais eventos traumáticos durante/após o genocídio. Todavia, essa ideia de que são categorias mais traumatizadas também podem vir do fato de que talvez são eles que mais pedem ajuda em comparação aos homens. Logo, se as mulheres e os jovens procuram mais ajuda psicológica e psiquiátrica e admitem que estão mais traumatizados em relação a poucos homens que fazem o mesmo, elas podem, portanto, serem classificadas como pessoas mais traumatizadas e vulneráveis.

e tortura de crianças, cônjuges e amigos. A pobreza, como já ressaltado, em conjunto com experiências de vida, como a violência verbal e física no casamento, também são fatores de riscos que contribuem para transtornos mentais nas mulheres. Elas sofreram diversas ofensas abusivas e violentas tanto antes quanto durante e depois do período do genocídio, e isso ajuda a entender porque esses TMC tendem a ser maiores nas mulheres em comparação aos homens (RUGEMA et al., 2015; FOX, 2021).

As pessoas que trabalham com os sobreviventes afirmam que os jovens enfrentam traumas com mais frequência do que os adultos:

O trauma está aumentando anualmente porque os filhos das sobreviventes também tendem a traumatizar ano a ano, pois quando essas mulheres têm filhos e participam das comemorações, você descobre que elas [as mulheres]

traumatizam, e suas filhas ou filhos, também traumatizam quando veem a mãe traumatizar” (FOX, 2021, p.80, tradução nossa).

Grande parte dos esforços de cura do trauma em Ruanda nos últimos anos se direcionou aos sobreviventes diretos do genocídio, todavia atualmente existem vários desafios relacionados a cura do trauma da próxima geração, principalmente daquelas crianças nascidas de sobreviventes ou perpetradores do genocídio. Estudos recentes demonstram que os descendentes dos sobreviventes possuem um risco três vez maior, em comparação com a população geral, de desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático (LORDOS et al., 2021). Exemplificando assim aquela ideia trabalhada no primeiro capítulo de que ocorre a transmissão intergeracional do trauma.

Os desafios de desenvolvimento no que tange aos descendentes dos sobreviventes e dos perpetradores são distintos entre si, mas ainda significativos. As crianças nascidas em famílias de sobreviventes do genocídio foram criadas em um ambiente onde a rede familiar estava quebrada ou desestruturada, com poucos adultos mentalmente saudáveis para auxiliar no desenvolvimento infantil. Ademais, é comum a exposição a memórias e lembranças do genocídio, tal como o medo e pânico generalizados. Em contraponto, as crianças que nasceram em famílias de perpetradores foram criadas em um cenário onde um dos pais ou familiares estavam presos, crescendo sem uma base familiar ou com sentimentos de raiva e ódio perante a sociedade, pois alguns acreditam que o familiar foi injustamente encarcerado (LORDOS et al., 2021).

Outro grupo que sofre com transtornos de saúde mental são os perpetradores. São um grande subgrupo da população ruandesa e sua reintegração é essencial para o processo de cura societal. Um estudo realizado entre os ex-presidiários demonstrou que quando eles voltam para casa eles se sentem perdidos e se encontram em uma posição constrangedora, pois são rotulados como genocidas e não conseguem participar ativamente da sociedade, apresentando altos níveis de transtorno de estresse pós-traumático (LORDOS et al., 2021).

Entre fevereiro e março de 2009, Susanne Schaal et al. (2012) realizaram um estudo em Ruanda com sobreviventes e perpetradores, ambos tendo pelo menos 18 anos quando o genocídio ocorreu. Os resultados desse estudo indicaram que os dois grupos, os perpetradores que estavam presos e os sobreviventes que estavam livres, apresentaram um grau considerável de problema psiquiátrico. Os sobreviventes possuíam maiores taxas de transtorno de estresse pós-traumático do que os perpetradores, enquanto estes possuíam altas taxas de depressões clínicas (41%).

Fatores que podem ter contribuído para o aumento na depressão incluíam a superlotação dos presídios, a inadequação dos serviços de saúde prisional, a desnutrição e a demora nos julgamentos dos casos (SCHAAL et al., 2012). Esse estudo também demonstrou a correlação existente entre a quantidade de eventos traumáticos e as suas consequências posteriores, ou seja, quanto maior o número de eventos traumáticos vivenciados, maior o grau de depressão e estresse pós-traumático.

Outro elemento diz respeito a reconciliação. Aqueles participantes que participaram dessa categoria de intervenção apresentaram sintomas menos graves de depressão e PTSD. Em contraponto, os perpetradores inseridos nesse contexto possuíam sintomas de estresse mais graves, o que pode ser explicado pelo constante sentimento de arrependimento e lembrança que estes adquiriam quando participavam de atividades de reconciliação (SCHAAL et al., 2012).

Esse estudo realizado em 2009 foi o primeiro estudo da época a analisar o âmbito psiquiátrico dos perpetradores do genocídio em Ruanda, e os principais resultados indicaram que o alto nível de estresse pode causar efeitos duradouros caso os indivíduos não tenham apoio mental e clínico necessário. Assim, há uma carência de intervenção entre os perpetradores, sendo necessária uma melhor avaliação e capacidade de

tratamento, pois esses podem prevenir o sofrimento continuo, a vitimização e a reincidência da violência (SCHAAL et al., 2012).

2.2.1.1 Como a COVID-19 afetou a saúde mental dos ruandeses

É conhecido que a COVID-19 prejudicou a saúde mental de inúmeras pessoas ao redor do mundo, e aqueles afetados pelo genocídio de 1994 também sentiram seus efeitos.

Os confinamentos, consoante Joseph et al. (2020), possuem grande probabilidade de afetarem a saúde física e mental de uma pessoa, ocasionando estresse, ansiedade, depressão e até mesmo vícios. Ruanda, por exemplo, foi o primeiro país da região africana a implementar medidas de prevenção, como a limitação de encontros sociais e reuniões em massa e o fechamento de universidades e escolas. Essas medidas foram necessárias para evitar a contaminação e o colapso dos sistemas de saúde, porém trouxeram consigo inúmeras mudanças psicológicas para a vida dos ruandeses.

As medidas de prevenção ao vírus, como a restrição de movimentos, e aglomerações podem ter afetado negativamente aquelas pessoas que já possuíam algum histórico de doença mental. A falta de um apoio psicológico ou a restrição para participar de sessões em grupos podem também ter prejudicado o tratamento de inúmeras pessoas (JOSEPH et al., 2020):

Diante do cataclismo sem precedentes na área da saúde, os indivíduos exibem grandes preocupações com a saúde e seu futuro, incerteza persistente;

comportamentos desadaptativos, raiva externalizada e internalizada, agressividade, emoções negativas de medo, tristeza e irritabilidade. Essas manifestações são piores em pessoas com dificuldades mentais pré-existentes (JOSEPH et al., 2020, p.08, tradução nossa).

Segundo o Dr. Jean Damascene Iyamuremye, diretor da unidade de cuidados psiquiátricos do Centro Biomédico de Ruanda, a COVID-19 exacerbou os casos de saúde mental no país devido ao medo e ansiedade causados na população. Os dados indicam que a depressão entre os sobreviventes do genocídio eram de 35,6 por cento em comparação com 11,9 por cento da população geral, e em 2020 pelo menos 2000 sobreviventes do genocídio relataram problemas de saúde mental apenas um mês após o início do COVID no país. Ainda conforme o doutor, os problemas mais comuns de saúde

mental vivenciados por esse grupo incluem enxaquecas, insônia e ansiedade extrema (TASAMBA, 2021).

Fica claro que a saúde mental dos ruandeses se tornou ainda mais fragilizada após a COVID-19. A previsão se ancora em uma necessidade ainda maior de intervenções e medidas necessárias para mitigar as consequências dessa doença nos indivíduos, famílias e comunidades. Principalmente, no que tange a população de alto risco que inclui tanto aqueles que já possuem um histórico de TMC como aqueles profissionais de saúde que deverão ser bem treinados e gerenciados para lidarem com o estresse do trabalho e com o futuro tratamento de seus pacientes (JOSEPH et al., 2020).

2.2.2 As iniciativas existentes em Ruanda que auxiliam na saúde mental e na cura

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (páginas 98-103)