3.2 Never Again Rwanda
3.2.2 Societal Healing and Participatory Governance in Rwanda
3.2.2.1 As principais estratégias utilizadas no programa
De modo a atingir os objetivos previamente definidos, o projeto se sustenta em seis estratégias: o mapeamento dos atores e abordagens, a terapia de grupo para apoio psicossocial, a educação psicossocial, os intercâmbios da comunidade, as visitas de estudos e as competições artísticas e esportivas juvenis. Antes do programa realmente começar foi realizado um mapeamento de atores e abordagens. Este foi pensado para informar àqueles envolvidos no projeto como o programa estabeleceria espaços seguros para os membros da comunidade, como os jovens se envolveriam nos diálogos e como as iniciativas seriam realizadas na prática (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
Para isso foi executada uma ampla pesquisa mapeando inúmeros atores e abordagens de cura e reconciliação em Ruanda. O relatório identificou as principais feridas e trauma dos ruandeses, a exemplo de feridas relacionadas aos refugiados, ao genocídio, a perda de entes queridos, ao luto incompleto, ao abuso sexual, a perda de identidade, a rotulagem e estigmatização, entre outros. Também foi indicado quatro tipos de abordagens de cura utilizadas nesse contexto: a individual, a comunitária, a holística e a de grupo. Essa pesquisa prévia foi significativa, pois permitiu uma melhor compreensão do projeto a ser implementado em Ruanda. Por fim, o mapeamento informou a decisão do programa de adotar uma abordagem de terapia em grupo, com apoio psicossocial, e a inclusão de participantes com uma diversa variedade de feridas (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
Esse mapeamento foi importante, pois permitiu que os líderes delineassem e entendessem o projeto antes mesmo de iniciá-lo. Nesse quesito o que possibilitou essa pesquisa prévia foram os recursos financeiros oferecidos a organização. Como já citado anteriormente o projeto possuia orçamento desde 2014, parte do dinheiro provavelmente foi utilizado para esse propósito.
A estratégia utilizada pelo SHPG para curar o trauma dos ruandeses foi a terapia de grupo para apoio psicossocial. No total o programa estabeleceu 15 grupos de aproximadamente 30 participantes29 cada: cinco Espaços para Paz voltados para membros
29 É valido ressaltar que o relatório oficial do programa não indica como esses participantes foram escolhidos, assim é incerto se eles se inscreveram para participar ou se foram selecionados segundo algum critério ou histórico pré-estabelecido pela organização.
diversos da comunidade, cinco Diálogos de Paz Juvenil direcionados a jovens escolarizados e mais cinco Diálogos de Paz Juvenil voltados para jovens não escolarizados (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
Alguns desses grupos possuem perfis homogêneos de participantes, como um Espaço para Paz composto por mulheres casadas com homens de outra etnia, um Diálogo de Paz Juvenil formado por jovens mães solteiras e ambos os grupos integrados somente por sobreviventes do genocídio. Em contraste, outros grupos são compostos por indivíduos que representam diversas experiências dentro de sua comunidade, como sobreviventes, perpetradores e famílias, refugiados da Uganda e do Congo, órfãos, pessoas marginalizadas, etc. (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
Cada grupo se reunia uma vez por mês por meio de reuniões, também consideradas sessões de terapia, presididas por psicoterapeutas e agentes de paz 30. Os grupos juvenis voltados a alunos escolarizados por vezes era presidido em escolas onde os próprios professores eram líderes e apoiadores do projeto. As reuniões dos Diálogos de Paz Juvenil focavam menos na cura do trauma e mais em atividades de psicoeducação e pensamento crítico aos jovens. Apesar das diferenças, a maior similaridade entre todos os grupos foi o fato de que eles foram projetados de modo a fornecer um espaço seguro e confortável aos participantes (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
Essas terapias em grupos exemplificam alguns pontos do arcabouço analítico, o primeiro diz respeito aos recursos humanos. Como havia muitos participantes, consequentemente havia funcionários e voluntários — a exemplo dos terapeutas e agentes da paz — auxiliando no processo. Outro ponto, e talvez o mais significativo é o âmbito da inclusão, essas terapias reuniam em um espaço coletivo diversos grupos da sociedade, não deixando de fora nenhum deles e incentivando a participação heterogênea, fosse de ex-perpetradores ou de sobreviventes.
É possível presumir que os líderes e responsáveis pelo projeto não culpabilizaram nenhum grupo pela violência passada, pois os ex-perpetradores não estavam sendo julgados, a eles foram oferecidos espaços para cura, reconciliação e terapia. Por fim, essas
30 Os agentes de paz não eram necessariamente terapeutas, psicólogos ou psiquiatras, eram pessoas com experiência na área, escolhidos segundo critérios da Never Again Rwanda e Interpeace. Eles tinham como principal objetivo facilitar o andamento do grupo e ajudar os terapeutas e os participantes no processo colaborativo de cura.
terapias em grupos e atividades coletivas demonstram o desejo do projeto de construir um futuro pacífico e harmônico em Ruanda. Ao reunir grupos anteriormente conflitantes na sociedade e oferecer a eles uma oportunidade de conversar e perdoar, eles estão pensando no fim da mágoa, violência e ressentimento, o que pode contribuir para uma paz a longo prazo no país.
A terceira estratégia foi a educação psicossocial, voltada para o aumento do pensamento crítico e desenvolvimento da capacidade dos jovens de se envolverem em questões relacionados ao passado, violência e feridas de Ruanda. Para atingir tal fim, um manual de psicoeducação foi desenvolvido e compartilhado com professores de diversas instituições. Além do manual, essa estratégia recorria à materiais audiovisuais, apresentações, palestras e relatos com sobreviventes, tudo para envolver os jovens em questões relacionadas ao passado, cura e reconciliação (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
Figura 28. Participantes em um dos Diálogos de Paz Juvenil.
Fonte: Extraído da página da Never Again Rwanda no Twitter (2018).
Os intercâmbios da comunidade foram uma estratégia pensada para contornar o número limitado de pessoas que poderiam participar do SHPG. Logo, o programa realizou
diversos Espaços para Paz e Diálogos Juvenis em conjunto com grupos comunitários. As iniciativas eram realizadas em diversas comunidades e um número de pessoas externas (estimativas incluíam 100 pessoas) poderiam ouvir os indivíduos conversando sobre questões relacionadas a cura do trauma. As visitas de estudos foram realizadas em locais selecionados no país, como em alguns memoriais dos genocídios, e permitiam que os jovens aprendessem sobre história de Ruanda. Ela visou facilitar trocas, compartilhar relatos, aprendizados e experiências entre membros de vários grupos da comunidade (NEVER AGAIN RWANDA, 2019).
A última estratégia, as competições artísticas e esportivas juvenis, foram realizadas para além dos Diálogos de Paz Juvenil, e buscaram utilizar a arte e os esportes para engajarem os jovens na comunidade e ensiná-los mais sobre educação psicossocial e pensamento crítico (NEVER AGAIN RWANDA, 2019). Todas às seis estratégias foram utilizadas ao longo dos quatro anos de existência do programa e todas elas em conjunto possuíam como objetivo ajudar a organização a construir uma Ruanda mais pacífica, saudável e compartilhada. Cada estratégia teve sua importância e significado, porém a mais importante talvez seja a dos grupos psicossociais que possibilitaram aos participantes um apoio psicológico e comunitário para a cura do trauma.
É possível entender a ideia de inclusão e futuro comum em todas as estratégias.
Os intercâmbios da comunidade, por exemplo, foi uma ideia pensada para incluir nas discussões aqueles que não participavam diretamente do projeto. E os programas voltados para os jovens enfatizam o papel futuro que eles podem ter na construção da paz no país.
Portanto, o programa em sua idealização se mostra inclusivo e preocupado em criar um futuro seguro e pacífico para os ruandeses.