4 INSERÇÃO, PERMANÊNCIA E APOSENTADORIA:
4.2 A permanência delas no voleibol: da virada da camisa até
4.2.2 A década de 1980, seus acontecimentos e a repercussão
Estimulado por saber mais informações sobre os acontecimentos marcantes que permearam aquela época, perguntamos qual episódio marcou a carreira das jogadoras. Invariavelmente, todas as entrevistadas responderam algo relacionado aos Jogos Olímpicos: o fato de ter sido cortada ou convocada pela primeira vez ou ter perdido uma partida importante dentro do torneio.
Heloísa Roese destacou o fato de ter sido cortada dos Jogos Olímpicos de Moscou, 1980, por Ênio Figueiredo, o então técnico da seleção brasileira:
“A coisa de eu não ir pra Olimpíada, em 1980 foi uma coisa muito ruim pra mim, traumatizante. Não entendi o porquê, não tinha porque e depois de anos na Itália, ele foi meu técnico lá também, ele veio falar comigo para pedir desculpas por ele não ter me levado à Olimpíada e que ele tinha me cortado mesmo porque eu tinha saído do Flamengo. Isso foi uma coisa muito ruim para mim” (HELOÍSA ROESE).
Já Isabel elencou uma série de fatores marcantes vividos na década de 1980:
“Os cortes, perder para os EUA, em 1984 depois de estar ganhando um jogo que era praticamente impossível de ganhar e a gente perder depois de estar ganhando por dois a zero. Tudo foi marcante. Pô, nós tivemos uma carreira super intensa. ‘O que foi mais marcante?’ Para mim, tudo, tudo foi marcante para mim, até os meus jogos contra o Fluminense, meus jogos
pelo Flamengo, pela Supergasbrás, pelo Bradesco. Eu gostava de jogar, então o que foi mais importante foi fazer o que eu mais gostava de fazer, que era jogar. Jogar a Olimpíada, mesmo com essa derrota que foi tão marcante para a minha geração. Foi muito emocionante, a gente viveu”(ISABEL
SALGADO).
Já as afirmações de Ana Richa e Dora Castanheira, que exaltaram a participação nos dois Jogos Olímpicos que disputaram, ratificam que essa competição foi a mais marcante para as atletas entrevistadas naquela década: “Eu destacaria a Olimpíada” (ANA RICHA) e “Ah, pra mim é o fato de ter ido aos Jogos Olímpicos” (DORA CASTANHEIRA).
Sobre as dificuldades que as jogadoras entrevistadas enfrentaram no esporte na década de 1980, a grande maioria apontou a precariedade da estrutura para praticar o esporte no Brasil, como explica Heloísa:
“Ah, nós tínhamos todas as dificuldades. Seria como alguns esportes hoje em dia. A gente não tinha dinheiro, então tinha que trabalhar para se sustentar. Nunca ganhei um tostão para jogar pela seleção brasileira, não ganhava nada. Você não tinha material. Pra você conseguir um tênis, pra você conseguir um “Tiger” você era o máximo. Não tinha joelheira, as roupas de treino e o material de treinamento eram horríveis; a gente não tinha nada. Depois que começou aparecer um massagista, um fisioterapeuta, um médico. Não tinha nada disso” (HELOÍSA ROESE).
Ana Richa reforça essa opinião:
“Bom, a gente lá dentro não sente muito, mas hoje, de fora, dando uma olhada, a gente percebe que tinha o mínimo de estrutura, assim, o mínimo do mínimo. Não tinha, às vezes, a quadra ideal, não tinha local pra treinar, não tinha material pra treinar, dinheiro para viajar. Era assim raríssimo a gente fazer uma viagem internacional, a gente fazia uma por ano, ai era difícil você fazer amistosos, se preparar, treinamento, academia, aparelhagem não era a melhor. A gente treinou para a Olimpíada em quadra de madeira, então, assim, eram umas coisas que hoje em dia são impensáveis. Eu hoje vejo as meninas hoje reclamarem que estão indo de classe executiva” (ANA RICHA).
Contudo Isabel destacou a dificuldade de manifestação das ideias, da contestação, tendo em vista o modelo político da época:
“Faz tanto tempo... O esporte tinha um resquício muito grande do governo militar. Você não podia ter opinião, você não podia contestar você não podia dizer que não gostava. Isso era difícil, complicado. Você ver uma coisa rolando que não é justa e você tentar argumentar e aquilo ser considerado um absurdo, ainda mais para uma garota nascida numa atmosfera familiar onde se argumentava se discutia. E isso tudo associado à
juventude é mais intenso ainda. Era chato esse lado do esporte, era desagradável você toda hora ser considerada indisciplinada porque você contestou, porque você reagiu. Hoje olhando para trás, eu vejo que foi importante, mas, na época, eu queria mais é que olhassem para o meu jogo”
(ISABEL SALGADO. Grifos meus).
O relato de Isabel aponta para a relação delicada que ainda existia entre política e esporte no período pós-ditadura e pode ser mais bem compreendida através da explanação de (OLIVEIRA, 2012, p. 157-158):
Mas essa forma de afirmação da auto-estima de uma nação corria paralela à outra, aquela que procurava (e ainda procura) capturar a “sensibilidade das massas” em um esforço de afirmação política que lançava mão da cultura - e da sua propaganda – como veículo para a produção de uma identidade comum. Mobilizava-se, assim, a música, o teatro, o cinema e o esporte como elementos fundamentais na afirmação de uma ou de outra expressão do que seria “verdadeiramente” brasileiro. Se os poderosos de antanho mobilizavam os jornais, a TV, o rádio e os espetáculos esportivos para afirmar o espírito nacional desejado pela ditadura, não é menos verdade que os Teatros Arena e Oficina, que os CPCs da UNE, que as CEBs, que os festivais da canção, que iniciativas como as de Ênio Silveira e sua Civilização Brasileira, todas iniciativas particulares de afirmação da cultura, também ocupavam intensamente a cena política propondo alternativas ao modelo civil-militar imposto pela ditadura, ainda que também o fizessem em nome da afirmação do que era nacional.
Verificamos que as dificuldades enfrentadas nessa época dentro do esporte eram muito grandes, uma vez que, além de terem pouca estrutura para praticar o voleibol, as atletas não podiam reclamar, a gestão era autoritária. Além disso, a diferença de tratamento entre a equipe feminina e masculina reforçava esse rol de dificuldades, conforme destaca Sandra:
“A dificuldade era total. Claro que a gente começou a ter os incentivos dos clubes, das empresas que foi aonde tudo começou a melhorar, mas a gente tinha muita dificuldade até mesmo com a própria CBV porque tudo era masculino. O feminino era o que sobrava e isso era uma coisa que a gente reclamava muito. Tudo bem que o masculino conseguia resultados expressivos, tudo isso, mas a gente treinava, a gente procurava melhorar, a gente corria atrás da mesma maneira que eles só que lá do outro lado tinha uma Cuba, tinha um Peru que todo mundo sabe como era, tinha China, Estados Unidos. Naquela época essas seleções eram fortíssimas. Então a gente sempre lutou, mas treinava igual a eles. Então era essa dificuldade que a gente sempre teve. Não estou dizendo nas empresas, nos clubes porque eles começaram a investir na gente, mas com relação à CBV. O feminino sempre esteve atrás e era uma coisa que a gente sempre tentava buscar, uma igualdade com o masculino”(SANDRA LIMA. Grifos meus).
Ainda que a partir do início do século XX, com a participação feminina nos Jogos Olímpicos Modernos, as mulheres tenham conseguido ganhar espaço num território tido como essencialmente masculino (GOELLNER, 2005b), os resquícios dessas diferenças de gênero no esporte podem ser claramente identificadas na década de oitenta, onde as mulheres recebiam tratamento diferente, salários diferentes e apoio diferente, aumentando sobremaneira suas dificuldades para praticar o esporte.
A próxima pergunta feita para as atletas visava descobrir o que o voleibol havia trazido de positivo para as suas vidas. Todas as atletas atribuíram coisas boas advindas do esporte que foram subjetivadas em suas existências. Lica destaca “muita coisa de positiva, como eu falei. Principalmente na minha formação, no meu caráter, como pessoa. Essa coisa de enfrentar a vida eu acho que isso foi o mais importante” (LICA OLIVEIRA). Já Dora aponta “o desenvolvimento pessoal muito grande. O emocional, o desenvolvimento integral como ser humano e abriu as portas” (DORA CASTANHEIRA). Jacqueline disse que “a base. Eu vejo o voleibol como uma coisa muito sólida, concreta e que me posiciona até hoje” (JACQUELINE SILVA). Para Fernanda, o voleibol trouxe o casamento e uma vida confortável, mas deixa claro que foi uma época que passou:
“Ah, trouxe meu casamento, né? O futuro, eu conheci meu marido no vôlei, minhas duas filhas, uma vida confortável. A gente tem muito mais do que a gente imaginava ter. Então, a gente não pode reclamar. Hoje eu tenho mil coisas já. Então, o vôlei foi muito bom, mas ficou. Não é uma coisa que eu quero continuar estar dentro dele não, menor vontade” (FERNANDA
VENTURINI).
Isabel destaca que ao jogar voleibol profissionalmente, ela teve a possibilidade de realizar algo que gostava e finaliza dizendo que o voleibol trouxe de positivo para a sua vida a capacidade de se emocionar:
“Ah, o voleibol trouxe muita coisa positiva para a minha vida. Primeiro, eu pude me dedicar a uma coisa que me dava muito prazer e isso eu acho que é um privilégio quando existem tantas pessoas que trabalham em coisas que elas não gostam. Então, eu tive o privilégio de fazer o que eu gostava. Depois eu consegui jogar e ao mesmo tempo ter os meus filhos e construir a minha vida. Mas, o que o voleibol me deu de mais importante foi me emocionar, porque jogar é uma relação muito intensa. Pelo menos para mim era. Então, era muito legal e bacana viver tão jovem sensações muito intensas e fortes como medo, como alegria, como tristeza, como a questão de fazer parte de uma equipe onde você é importante, tem um peso. Você depende dos outros, os outros dependem de você” (ISABEL SALGADO).
Elenice afirmou emocionada que deve a vida ao voleibol, uma vez que superou um câncer, em 2006, e afirma que isso só foi possível devido à garra de viver que o esporte lhe ensinou:
“Eu acho que tudo, eu acho que o voleibol me ensinou essa garra que eu tenho de vida. Aí vou ter que fazer um parêntese enorme: eu não sei se você sabe, eu tive um câncer diagnosticado em 2006; eu fui atleta a vida inteira, joguei até 2002, eu não fumo, eu não bebo, eu durmo horas de sono suficientes, a minha alimentação é, eu não vou dizer que sou modelo, porque eu amo chocolate e sou gulosa de doce, como bolo, como doce, mas é pautada em legumes e frutas. Minha filha também acompanha essa linha e eu tive um câncer. (...) Então eu vejo que o voleibol me deu garra de viver, tudo, culturalmente, fisicamente, emocionalmente, amavelmente, tudo, tudo, tudo, tudo, porque na hora que eu tive o maior tropeço da minha vida eu tirei de letra: fiz quimioterapia, não me derrubou, mandaram eu fazer acupuntura, eu tava lá fazendo pra estimular pâncreas, fígado e rim e tirei de letra, dava aula carequinha de toquinha. O voleibol me deu e me dá a vida” (LENICE PELUSO).
Em seguida perguntamos para as entrevistadas o que significava para elas ser jogadora de seleção brasileira e a maioria respondeu com palavras marcantes, como: orgulho, máximo, honra, fantástico, tudo e privilégio. Apenas três responderam que foi natural e consequência de um trabalho bem realizado. Vejamos o que disse Vera Mossa: “Era um orgulho, uma honra. Sempre foi um sonho, aquela coisa de criança mesmo. Parece até clichê, mas é isso mesmo ‘quero vestir a camisa da seleção brasileira, quero ver a bandeira, quero ouvir o hino’ (risos). É bem isso”. Já Heloísa revelou:
“Ah! Significava tudo [ênfase]. Porque são doze só, são apenas doze jogadoras que vão nesse monte de gente que tem. Era tudo, porque estar representando o Brasil e poder conhecer outros lugares, outros países, poder conhecer outras pessoas, outras culturas. Isso aí era o máximo”
(HELOÍSA ROESE).
Para Blenda, que integrou a seleção brasileira desde muito nova, este fato ocorreu de forma natural:
“É uma coisa que na minha vida foi tão natural que acho que era consequência de fazer o melhor que podia fazer. Porque eu fiz parte da categoria infantil, juvenil e adulta. Então, acho que isso foi uma consequência; eu não me senti melhor ou diferente de todo mundo”
E Dora revela que, apesar de sentir muito orgulho de vestir a camisa da seleção brasileira, a convocação era resultado de muito trabalho:
“Olha, nunca joguei pensando em ser atleta de seleção brasileira e eu falo isso pra todo mundo que tá iniciando “não vai com esse espírito, vá fazer o seu melhor sempre”. Tive isso muito certo, quero fazer o meu melhor porque eu gosto, eu quero desenvolver, eu quero me aprimorar a cada dia, quero aprender uma coisa nova e isso foi uma característica minha. Então, ser atleta da seleção brasileira é uma consequência desse trabalho e o orgulho pra mim pesava muito. Quando vestia a camisa do Brasil e ouvia o hino era uma emoção muito grande e aí ao mesmo tempo uma responsabilidade muito grande porque tinha que dar uma resposta pro país. Eu tava representando uma nação, então eu sempre assumi muito isso e acho que a postura, a conduta tem que ser também equivalente e isso pra mim foi muito forte” (DORA CASTANHEIRA).
Logo em seguida a essa pergunta questionamos às jogadoras o que elas almejavam conquistar dentro da seleção brasileira. Das onze entrevistadas, quatro afirmaram que almejavam participar dos Jogos Olímpicos, como afirma Heloísa: “Chegar a uma Olimpíada. E eu cheguei” (HELOÍSA ROESE). E duas almejavam ganhar sempre, como expõe Ana Richa:
“Ah, sempre ganhar, né? ((risos)). Eu sempre fui muito certinha, muito ‘Caxias’. Eu gostava de treinar. Eu não tinha essa história de mais ou menos. Será que dá pra fazer? Não, eu sempre fui muito obediente e até gostava daquela rotina. Gostava de treino, gostava de entender o que eu estava fazendo e eu acho que era isso que eu almejava, de fazer bem aquilo que eu tinha me proposto. Eu me entregava mesmo”.
Isabel também almejava ganhar, mas, da mesma forma valorizava o que vinha a reboque da prática esportiva:
“Ganhar. O esporte é uma coisa muito legal porque ele não tem essa coisa tão racional. Se você pensar porque um monte de adulto fica correndo atrás de uma bola, ver quem bate mais forte. O que eu almejava? Eu gostava de jogar, gostava de treinar, gostava de melhorar, gostava de bater forte na bola, gostava de ter medo, de ter emoção. Era engraçado viver num mundo tão... Eu estudava em colégio de freira onde era tudo certinho. De repente, eu estava saindo de casa, viajando. Tinha também tudo que vinha junto com o voleibol, apesar de ter um lado muito chato, de repressão, tinha um lado que era ganhar o mundo. Qual menina com dezesseis anos que está morando fora de casa? Isso para mim era muito legal, eu achava que eu era muito independente. Foi legal” (ISABEL SALGADO).
Para dar prosseguimento à compreensão da permanência dessas jogadoras no âmbito esportivo perguntamos para as entrevistadas o que representou para elas participar dos Jogos Olímpicos e apesar de cada uma responder de uma maneira diferente, a síntese que chegamos é a realização, um momento indescritível, o ápice que o atleta pode atingir. É a competição de maior “glamour” e Vera Mossa considera que:
“É isso, missão cumprida. Consegui atingir meu objetivo como atleta “estou entre os melhores”. Na realidade, a cultura brasileira considera os melhores aqueles que estão no pódio e na realidade o fato de estar numa Olimpíada já é uma gratificação muito grande”.
Já Isabel afirma que não tinha dimensão do que era estar numa Olimpíada e disse, inclusive, que achava toda aquela formalidade um pouco chato:
“Eu não tinha essa consciência que o pessoal tem hoje não. Talvez porque eu não tenha vindo de uma família de esportistas. Eu não tinha essa coisa do desfile. Eu achava chato essas coisas, tipo “eu estou numa olimpíada”. Eu não tinha dimensão disso. Eu tinha dimensão quando eu estava jogando. Mas eu não tinha dimensão como hoje. Hoje uma menina vai jogar uma Olimpíada, nossa, meses antes tem gente falando. Mesmo que ela não ache, ela vai passar a achar porque é tanta falação. Não sei, era diferente na época. Eu achava muito legal pensar “nossa aqui estão os melhores do mundo”. Eu olhava e via pessoas incríveis. Não tinha essa paranoia, apesar de ter muita paranoia porque eu joguei Moscou e Los Angeles. Mas, eu não tinha essa dimensão, não tinha mesmo. Nem em uma, nem em outra”(ISABEL SALGADO).
Lica, por sua vez, considera o ápice ter participado dos Jogos Olímpicos:
“Aí eu acho que foi o ápice. Eu consegui jogar duas. A Fofão jogou quatro ou cinco e isso é fantástico porque é muito difícil você se manter por tanto tempo. Mas, participar das Olimpíadas foi é o máximo, porque na hora, no momento que você está ali, você vê aquilo como uma consequência de você treinando bem, jogando bem, você vai ser convocada, o seu time vai jogando bem você vai classificar e você vai e essa ficha cai de repente. Hoje a ficha cai com mais peso até, quando eu vejo a gente ali naquele estádio eu falo ‘gente, eu estava ali. Eu era uma daquelas ali e o povo estava ali para me ver. Eu era uma das pessoas que o pessoal estava indo pra assistir, entendeu?’ Isso é muito”(LICA OLIVEIRA).
Diante de tantas dificuldades enfrentadas pelas atletas e já relatadas pelas entrevistadas perguntamos como foi para elas conciliar as demandas do voleibol com a vida pessoal. A maioria das jogadoras afirmou que foi muito difícil essa conciliação: “Era duro porque eu treinava demais, treinava de manhã e à tarde o que dava uma média de seis a sete
horas por dia de treinamento. Eu consegui terminar meu ensino médio, agora a faculdade foi toda quebradinha” (LICA OLIVEIRA). Já Dora afirma que foi “uma luta, mas eu não deixava o voleibol, ia abrindo mão da minha vida social” (DORA CASTANHEIRA) e Blenda destacou que “chegou um momento em que você larga tudo, abre mão de tudo pra jogar o vôlei. Eu estudava, trabalhava e abri mão de tudo para jogar o vôlei. Larguei tudo para poder jogar vôlei” (BLENDA BARTELS). No entanto, Fernanda disse que essa conciliação foi fácil:
“Ah, na época não tinha filho. Eu comecei a namorar o Bernardo na década de noventa e nunca tive problema; não tinha nada que me prendesse. Podia ficar aqui, podia ir pra lá, já tinha meu dinheiro, fazia o que eu queria. Minha mãe nunca me podou, então, assim, eu tinha a vida que eu quis, viajava pra cá viajava pra lá. Então fui muito independente” (FERNANDA
VENTURINI).
E Jacqueline disse que independente de qualquer coisa, o voleibol era prioridade e fez uma comparação daquela época com as facilidades dos dias atuais:
“Ah, se eu tivesse que fazer voleibol, eu fazia voleibol. Era prioridade. Se eu tivesse que ir para a Itália, eu ia para a Itália. Se tivesse que morar nos Estados Unidos, eu morava. Era muito forte, era a minha essência. Se eu não fizesse é que não ia ser legal. Hoje, a Jaqueline, que tá sem jogar (Jaqueline Endres) recusou seiscentos mil dólares para jogar seis meses no Japão. Aí eu fiquei pensando ‘a Isabel foi para o Japão com papagaio, cachorro, empregada, dois filhos e babá’. Mas, a babá não era pros filhos não, era para a Isabel (risos). Imagina só a situação de hoje, que elas só viajam de primeira classe. Ninguém sabe de nada...”(JACQUELINE
SILVA).
Na intenção de saber um pouco mais sobre a beleza e a representação de feminilidade que essas atletas exalavam perguntamos como as entrevistadas percebiam o olhar do outro sobre seus corpos atléticos. A grande maioria das atletas respondeu que não se preocupava ou não percebia nada relacionado a isso, apesar de saberem que o esporte que praticavam estava associado ao belo. Heloísa se mostrou surpresa com a pergunta:
“Cara, eu pesava 63 quilos e a gente malhava muito. Apesar de eu ter feito musculação tarde, malhei muito. Nunca tive assim esse olhar do corpo, nunca me chamou a atenção isso. Eu não percebia. Nunca me chamou atenção isso não”(HELOÍSA ROESE).
Por sua vez, Fernanda fez questão de ratificar que era forte, mas que jamais deixou de ser feminina: “eu sempre fui forte, mas não macha ou qualquer coisa assim. Eu não era “sapata”, sempre fui feminina. Então, não havia nada que pudesse chamar a atenção mais do que o normal” (FERNANDA VENTURINI).
A partir das respostas percebemos uma relação entre o corpo atlético com a falta de feminilidade, o que causou certo estranhamento às entrevistadas. A atleta Vera Mossa,