4 INSERÇÃO, PERMANÊNCIA E APOSENTADORIA:
4.2 A permanência delas no voleibol: da virada da camisa até
4.2.3 A década de 1980 e a quebra de tabus: a maternidade
A geração de voleibol feminino dos anos 1980 foi pioneira em vários fatos importantes que permearam a relação do esporte com a sociedade e, por essa razão, não poderíamos deixar de discutir a questão da maternidade como mais um desses fatos. Destacamos, sobretudo, o exemplo de Isabel, quando sua gravidez foi acompanhada pela mídia como um acontecimento extraordinário, já que, de fato, não se tinha ouvido falar de nenhuma atleta competindo grávida. Deve-se atentar para o fato, também, de Vera Mossa ter jogado grávida, nos Jogos Olímpicos de 1980, mas como a atleta mesmo afirmou:
“Aí eu já namorava há quase um ano com o meu primeiro marido e acabei descobrindo que estava grávida lá. Era para eu ter ficado menstruada lá e não fiquei, mas eu achava que devia ser por causa da viagem, a primeira vez que eu viajei, enfim. Mas, eu estava grávida mesmo e quando eu voltei foi confirmado. Meu filho nasceu em fevereiro de 1981, o Éder, hoje ele tem 33 anos” (VERA MOSSA).
Para compreendermos mais profundamente a relevância desse tema para a mulher verificamos que na literatura antropológica, o conceito de tabu “refere-se a indivíduos, coisas ou palavras cuja qualidade são objeto de temor ou suscetíveis à proibição” e são mais “restritivos a respeito do comportamento da mulher” (LUZ; BERNI; SELLI, 2007, p. 43). !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Esta afirmação direciona novamente os holofotes sociais para a conduta da mulher e reafirma que ela precisa fazer o que é apropriado e recomendado.
De acordo com as autoras Luz, Berni e Selli (2007, p. 44), “durante a gravidez, a mulher percebe o filho como presença concreta dentro de si, o que lhe provoca certos cuidados que lhe impõem moderação e limites como medidas de prevenção da saúde do feto”. Além disso, “a gravidez é vista como um risco, um evento que pode ocorrer ou que está sujeito à inúmeras possibilidades aleatórias”. Talvez por ser ainda muito nova e oriunda de uma família de classe média carioca, a atleta Isabel tenha respeitado as regras sociais e decidiu não jogar grávida de sua primeira filha, Pilar, que nasceu quando Isabel tinha dezoito anos:
“Eu não planejei a minha gravidez. Eu fiquei grávida muito menina, com 17 anos e tive a Pilar com 18 anos. Então daí você pode concluir. E eu não era uma menina com 17 anos que tivesse assim vivido... Tido uma vida solta, com experiências. Não, eu era uma menina mesmo, eu era uma garota que morava na casa dos pais em Ipanema, uma família de classe média, com todas as questões que envolvem uma família típica como a minha e ficar grávida foi uma coisa assim que me deixou muito feliz, apesar de não ser a hora para uma garota. Mas, eu estava felicíssima. Eu me achava incrível por ter um bebê dentro de mim e que eu ia ter um filho. Então, eu não tive nenhuma dúvida que eu queria ter aquele filho. Eu não tive nenhum conflito. Tive um apoio familiar. Tive uma força familiar, assim, ‘o quê que você deseja? o quê que você quer?’. Então, eu não planejei: ‘eu vou jogar grávida’. Na minha primeira gravidez, eu não joguei. Eu não queria jogar. Eu não tinha vontade. Então eu fazia tudo, eu corria, eu jogava frescobol, mas eu não tinha vontade de jogar vôlei e parei e voltei só quando fui convocada” (ISABEL SALGADO).
O retorno às quadras aconteceu em abril de 1979, no campeonato Sulamericano, quando o Brasil ficou novamente atrás das peruanas. Em julho, porém, totalmente recuperada, Isabel foi titular absoluta da seleção que ganhou a medalha de bronze dos Jogos Pan- americanos de San Juan, competição que recolocou o Brasil no pódio após 16 anos de ausência (VALPORTO, 2007). No final de 1982, Isabel disputava o campeonato brasileiro de clubes pelo Flamengo quando descobriu a segunda gravidez, no auge de sua forma, aos 22 anos.
FIGURA 37: Acervo do Jornal O Globo, de 5/11/1982. FONTE: Acervo do Jornal O Globo (1982)48.
Dessa vez, contudo, Isabel não interrompeu a prática esportiva e continuou jogando, segundo ela porque se sentia bem e estava muito bem orientada pelo seu ginecologista:
“Eu tive sorte de ter quatro partos normais e isso me ajudou muito. Nunca ter engordado muito durante as gestações, né? Mas, na segunda não. Na segunda, eu fiquei grávida e eu vinha jogando e aí eu resolvi continuar jogando. Eu joguei bastante. Outro dia eu até vi uma imagem minha jogando. Eu falei: ‘Nossa, eu não via há um tempão’. A minha barriga estava grande (risos). Mas, eu me sentia muito bem na quadra. Eu não me sentia nem um pouco desconfortável. Eu também dei a sorte que eu tinha um médico muito bom, eu tinha um ginecologista que era um cara muito fera. Então, ele me deixava muito segura com relação a várias questões. E aí eu fui jogando, eu me sentia bem” (ISABEL SALGADO).
Essa atitude pioneira da jogadora Isabel chamou a atenção do Brasil para o que estava estabelecido até então: que uma mulher grávida não deveria se expor a riscos e precisaria manter uma conduta de proteção ao feto e a si mesma. Trata-se do mito, que faz parte da interpretação que cada sociedade tem sobre a sua realidade. Segundo Luz, Berni e Selli (2007, p. 43), “a elaboração mítica tem por objetivo justificar, racionalizar e legitimar realidades socioculturais” e no caso da maternidade, “se prende às diferenças do papel social entre os dois sexos – o que é apropriado para homens ou para mulheres”.
Interessado em descobrir se a atleta decidiu jogar grávida de forma consciente, eu perguntei: você sabia o que estava fazendo, na realidade?
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
“Eu não sei se eu sabia. Eu me sentia segura, sabe? Eu acho que a gravidez tem um lado muito curioso, que você fica com a sua sensibilidade muito apurada. Então, tinham coisas assim que se preconiza que não tem problema, sabe? O protocolo diz ‘pode fazer’, grávida pode fazer, mas eu não me sentia bem fazendo. Então, eu não fazia. Então, eu acho que a gravidez tem um lado assim que você também tem uma sabedoria instintiva, que você se defende, sabe? E nesse departamento, eu acho que a vida foi generosa comigo (risos). Eu tinha um faro bom, um ‘feeling’ bom de saber ‘que aqui não vai ser legal ou aqui dá para eu ir’. Mas, depois começou a virar mais assunto o fato de eu estar jogando grávida do que o meu voleibol, então eu comecei a achar que aquilo estava virando meio “mico de circo”, sabe? E aí eu falei ‘está na hora de parar. Isso não está divertido, deixou de ser’. Então foi isso, eu parei. Claro que já estava um pouco na hora, mas eu fui até quase seis meses jogando e eu estava muito bem fisicamente. E o voleibol era mais lento, não era como hoje. Eu me sentia muito segura dentro da quadra, era um ambiente que eu entendia. Obviamente que tinham jogadas que eu já não ia com tanto ‘elã’, com uma pegada do mesmo jeito porque eu sabia que ali entrava algum risco. Então, foi assim que eu fui indo. E foi bom, foi legal. A minha gravidez foi ótima e o meu parto foi normal. A Maria nasceu e eu voltei muito rápido. Com duas semanas eu acho que eu voltei, mas bem devagar. Eu tive um parto muito bom. A Maria nasceu um bebê sem nenhum problema. Então, foi tudo fácil foi tudo tranquilo. Aí entra outro departamento que nem te interessa: ‘a minha primeira gravidez eu não tomei nada, na segunda eu só tomei o soro para induzir, mas não tomei anestesia, então são coisas que facilitam você voltar. O parto é mais difícil porque dói mais, é mais complicado’. Enfim, o terceiro, o Pedro foi mais fácil ainda porque quando eu fui ter o Pedro (risos), eu tive no Hospital Samaritano e a minha irmã estava tendo uma pedra no rim, no quarto ao lado e o médico só dizia ‘você não reclame porque a sua irmã está sofrendo muito mais do que você, porque ela está com uma pedra no rim horrorosa’ e eu ficava com tanta pena da minha irmã... Enfim, e a Carolina é que não foi tão fácil porque ela teve que ser puxada por fórceps, curiosamente, o quarto filho “(ISABEL SALGADO).
De acordo com Luz, Berni e Selli (2007, p. 43), autoras do artigo “Tabus da maternidade: um enfoque sobre o processo saúde-doença”:
Estar grávida gera na mulher sentimentos vinculados à possibilidade de experienciar os objetos e as circunstâncias da vida como ameaçadoras, e sua sensibilidade incita-lhe medo. Assim, compreende-se porque, muitas vezes, não infringem os tabus: coisas sagradas devem ser protegidas da profanação.
A atleta Isabel foi de encontro ao que estava compreendido e estabelecido para a maternidade até aquele momento, fosse por imposição social ou mesmo pelo instinto natural de preservação, conforme explicam as autoras:
Desde a infância, homens e mulheres são condicionados, por diversas experiências sociais, a assumirem padrões de comportamento de maneira tão sutil que facilmente integram o cotidiano como algo “da natureza” do sexo
feminino ou masculino. Portanto, tem-se uma categoria biológica determinante, e outra importante que é a do gênero, relativa a um conceito sociológico que se refere à construção social do sexo - o que é próprio para o feminino e o que é próprio para o masculino (LUZ, BERNI; SELLI, 2007, p. 45).
Foi, portanto, nesse cenário de adversidades que Isabel se tornou a primeira mulher a desafiar os padrões sociais e praticou voleibol em alto nível até os seis meses de gravidez, sem nenhum tipo de consequência para seus filhos. Consideramos este, um feito importante, tendo em vista que essa ação pioneira aconteceu na década de 1980, protagonizada por uma atleta que pertenceu à geração que é tema dessa pesquisa e, portanto, integra os acontecimentos impactantes que reverberam até os dias atuais protagonizados por esta geração. Hoje é comum encontrar atletas que jogam grávidas e isso não causa estranhamento porque, há mais de trinta anos, esse acontecimento já havia sido inaugurado e foi incorporado ao imaginário social.