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4 A CONSTRUÇÃO JURÍDICA DA PAULUS VLADIMIRI:

4.1 CONTEXTO POLÍTICO DO REINO DA POLÔNIA NO SÉCULO

4.1.3 A demanda internacional – da guerra à corte

Dentro da região limite da cristandade no oriente europeu, os reinos e Estados ali localizados enfrentavam constantes escaramuças militares que encontravam na religião o elemento de legitimação. Apesar das sempre presentes alianças rompidas e refeitas, uma vez mais com o antigo inimigo, demonstrando de certa forma que os fundamentos religiosos, apesar de importantes, não eram os únicos interesses em jogo, um elemento de desequilíbrio regional durante os séculos XIV e XV provava ser a existência da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, ou Cavaleiros Teutônicos do Hospital de Santa Maria de Jerusalém278.

Longa é a história desta ordem monástico-militar, que nascida das cruzadas à Terra Santa, empreendeu, desde o início do século XIII, uma nova cruzada, desta vez contra os infiéis eslavos279. Reconhecidamente uma ordem militar que objetivava a conquista dos territórios e dos infiéis eslavos280, a Ordem dos Teutônicos empreende profundas

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A respeito da fundação da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, Indrikis Sterns, indica que: “The third of the great military religious orders, the order of the German Hospital of St. Mary of Jerusalem, commonly known as the Teutonic order or the Teutonic Knights, was not established until almost eighty years later, after the disastrous German failure in the Third Crusade. It was founded by a few German clerics and knights from the remnants of the scattered crusader army of emperor Frederick I Barbarossa, who had drowned in Anatolia. Though the deeds, achievements, and significance of the Teutonic Knights differ from those of the Knights Templar and Knights Hospitaller, their history is closely related to that of the other two military religious orders. Tradition links the Teutonic order with German hospitals in Jerusalem and Acre. There is no official document extant about the founding of the Teutonic order, but the clearest references to a German hospital in Jerusalem are those of James of Vitry, bishop of Acre (1216-1228), and John of Ypres, abbot of St. Bertin (d. 1383).” STERNS, I.The Teutonic Knights in the Crusader States. In: SETTON, Kenneth M. A History of the Crusades: volume V – The Impact of the Crusades on the near East. Madison: University of Wisconsin Press, 1985, p. 315-378.

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STERNS, I. The Teutonic Knights in the Crusader States, p. 362. “The loss of Transylvania by the Teutonic Knights in 1225 was compensated for by an offer in the same year from Conrad, the Polish duke of Masovia, who sent a delegation to the master in Italy asking the order to undertake a crusade against the pagan Prussians”.

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Edgar Johnson corrobora este posicionamento quando afirma que: “By the German crusade on the Baltic in meant the medieval expansion beyond the

mudanças na região, alterando seu fundamento e passando a constituir- se, durante os séculos seguintes, na única Ordem Militar territorialmente centralizada em todo o contexto da Igreja católica. De ordem monástica, os Cavaleiros Teutônicos passaram a consistir um Estado ou ordenstaat, plenamente “soberano”, como salienta Seward281, visto que estavam além dos domínios territoriais do próprio imperador.

Essas pretensões territoriais, muito claras em todas as ações da Ordem, bem como nos documentos oficiais a respeito de sua função e autorização, como é o caso da Bula Dourada de Rimini282, são o elemento desestabilizador da região. Obviamente, que reinos pagãos ou

Elbe-Saale frontier to the Shores of Lake Peipus […]. It would likewise lead to a fauty understanding of the history of the Teutonic Knights in Prussia if an attempt were made to separate crusade against the Prussians from colonization and settlement. The campaigns to subject the Slavs and other Baltic peoples coincided with campaigns to convert them […]. There could be no subjection without conversion, no conversion without subjection, and no permanence in either without German settlement”. The German Crusade on the Baltic. In: JOHNSON, Edgar. The German Crusade on the Baltic. In: SETTON, Kenneth M. A History of the Crusades: volume III – The Fourteenth and Fifteenth Centuries. Madison: University of Wisconsin Press, 1975, p. 545-585.

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Conforme salienta Seward, as campanhas sazonais empreendidas pelos Cavaleiros Teutônicos nos territórios pagãos da Lituânia e da Samogicia, eram vistos como grandes jogos de caçadas pelos nobres europeus, que vinham de toda a cristandade para passar uma temporada na Prussia. Até mesmo Herique IV, futuro Rei da Inglaterra,visitou duas vezes a capital Marienburg. Mais do que um jogo, porém, esse reconhecimento da Ordem fazia parte de uma política estrategicamente elaborada de sustentação das pretensões da Ordem. Conforme salienta Seward, [...] the papacy had promised the full spiritual privileges of a crusader to those who assisted the Order, and throughout the fourteenth century the princes and noblemen of Europe flocked to fight Lithuanians. SEWARD, The Monks of War: the military religious orders. London: Penguin, 1972, p. 120.

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A Bula dourada de Rimini, que se diz publicada em 1226, pelo Imperador Frederico II à Ordem Teutônica, concede aos Cavaleiros as terras a serem conquistadas na Prussia, ordem futuramente reconhecida pelo papa Gregório IX (1230). Há, porém, algumas dúvidas acerca da data estabelecida na própria bula, pois alguns historiadores afirmam que a bula não poderia ter sido escrita antes de 1235, tendo sido pós-datada com o intuito de tornar irreversíveis as concessões prévias aos Teutônicos, feitas pelo Duque Conrado de Mazóvia, em 1225. Nesse sentido, DEMURGER, Alain. Os Cavaleiros de Cristo. São Paulo: Zahar, 2002, p. 62. Continua o autor, afirmando que “a bula de Rimini foi considerada pelos teutônicos o texto fundador do Estado teutônico como principado independente” (p. 62). Também em SETTON, A History, p. 362.

católicos permaneciam sempre apreensivos com os avanços territoriais e com o ganho de poder militar da Ordem, próxima a suas fronteiras.

Porém, a insustentabilidade da situação ficou patente a partir do momento em que, depois de aproximadamente 150 anos de presença na região do Báltico, a raizon d’ètre da própria Ordem deixa de existir. Com a conversão da Lituânia, o maior Reino pagão da Europa e sua união política à Polônia, em 1386, os Teutônicos perdiam sua legitimidade para empreender suas ações militares na região contra o maior reino pagão até então. A alegada necessidade de conversão dos lituanos era fundamentalmente o ponto de legitimação de todas as incursões militares da Ordem em territórios de Estados católicos, como era o caso da Polônia. A partir do momento em que essa fonte de legitimação deixa de existir, ao menos de direito, as ações militares da ordem assumem, em alguns casos, um caráter de ilegalidade, ou ao menos, abrem margem para questionamentos concernentes à justiça de suas ações bélicas.

A partir de então, sejam provocados ou provocadores de conflitos na região, em 1409 a Ordem declara Guerra ao Reino Polonês-Lituano, alegando a falsa conversão dos lituanos e, consequentemente, a mantença da necessidade de conversão forçada destes e de punição ao acobertamento do fato pelos poloneses. Essa postura levará, portanto, à grande batalha de Tannenberg (ou Grunwald), no verão de 1410, quando os Cavaleiros Teutônicos, municiados de um grande exército montado e composto por cavaleiros de inúmeras regiões católicas da Europa, sofrem uma derrota decisiva, que marcaria definitivamente o destino da Ordem dentro do contexto europeu.

Este evento é de extrema relevância para se compreender as profundas implicações ao direito da guerra medieval e consequentemente às teorizações do ius gentium de Vladimiri. Isto ocorre, primeiramente, pelo uso que o Reino da Polônia fez, de grande número de tropas constituídas por infiéis. Nesse sentido, Frederick Russell283 afirma que as “forças polonesas, lutando ao lado de bohemios hussitas, lituanos, samogitas, rutênios sismáticos, mongóis, cossacos e

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RUSSELL, Frederick H. Paulus Vladimiri’s attack on the just war: A case study in legal polemics. In: TIERNEY, Brian; LINEHAN, Peter. Authority and Power: Studies on medieval law and Government presented to Walter Ullmann on his seventieth birthday. Cambridge: Cambridge University Press, 1980, p. 239. Tradução livre do original: “Polish forces, fighting alongside Hussite Bohemians, Lithuanians, Samogitians, schismatic Ruthenians, Mongols, Cossacks and even Tartars, inflicted a heavy defeat on the Order”.

até mesmo tártaros, infligiram uma dura derrota contra a Ordem”. Dentre outros graves problemas, o emprego ou a aliança de um reino cristão com povos infiéis, não era bem vista pela opinião pública europeia, por seu sistema de autoridades (imperador e o papa) ou por grande parte do direito canônico. Além disso, o uso dessas tropas de pagãos significava a derrota de uma organização católica que possuía amplo respaldo político dentre os grandes Reinos europeus, e que significou, por muitos anos, o ápice do poder católico na Europa oriental284.

É a partir deste contexto que a Ordem Teutônica, agora alijada de mecanismos efetivos para perseguir militarmente suas pretensões territoriais contra a Polônia e a Lituânia, assinou a paz de Tórun, em 1411. Em 1412, a Ordem acaba por levar a questão para o IX Concílio Ecumênico da Igreja, na cidade de Constância, às margens do bodensee, e, desta forma, inicia uma cruzada jurídica contraposta pela defesa de Paulus Vladimiri e suas teses acerca das mais relevantes questões de ius gentium presentes na Europa pré-moderna. De fato, como alega Frederick Russell285, “o Concílio mostrou ser uma pouco usual oportunidade para intelectuais influenciarem um dos maiores assuntos daquele momento”.

4.2 CONTEXTO HISTORIOGRÁFICO DE PAULUS VLADIMIRI