2.1 A DEMOCRACIA E SUAS FORMAS
2.1.2 A democracia representativa
A população das cidades gregas era, evidentemente, pequena em relação ao tamanho atual das cidades e, principalmente, dos países. É muito simples de imaginar as dificuldades operacionais para a prática dos mesmos métodos empregados em Atenas. O número de pessoas aptas a participar, no tempo presente, é exponencialmente maior. A escolha de representantes dos cidadãos, para a tomada de decisão e execução das funções de governo, proporcionou a viabilidade de um governo popular nos tempos modernos (BOBBIO, 1994; CABRAL NETO, 1997).
Para Markoff (2013, p. 20) a “história da democracia nunca foi continua ou simples”. A democracia Ateniense durou pouco menos de 200 anos e até a extraordinária expansão verificada no século XX foram poucos os momentos da história da humanidade em que foi empregada. No intermédio destes períodos, de concreto, as democracias romana, inglesa, americana e francesa. Estas duas últimas inaugurando o que convencionou chamar de as primeiras experiências da moderna democracia (BOBBIO, 1997a; HELD, 1987).
A democracia moderna nasceu representativa (ARBLASTER, 1988; CABRAL NETO, 1997). O povo não participa, diretamente, do processo de tomada de decisão. Ele escolhe, entretanto, representantes que tomam tais decisões. Bobbio (1986, p. 24) acrescenta:
A democracia moderna, nascida como democracia representativa em contraposição à democracia dos antigos, deveria ser caracterizada pela representação política, isto é, por uma forma de representação na qual o representante, sendo chamado a perseguir os interesses da nação, não pode estar sujeito a um mandato vinculado.
Em grande parte das democracias o conceito de “governo do povo, pelo povo e para o povo” passou a significar, tão somente, a escolha, em eleições periódicas, dos representantes. Estes processos, via de regra, resultaram na criação de elites políticas que competem regularmente pela preferência dos cidadãos. “Desde este ponto de vista a condição mínima para a existência de uma democracia é que os governantes sejam selecionados pelo conjunto do povo, mediante eleições livres, sinceras e realmente competitivas” (REY, 1992, p. 7).
Mill identifica alguns dos princípios que reforçam a teoria do governo representativo. Dentre eles a diversidade econômica da sociedade, a soberania popular e a igualdade política dos cidadãos e o princípio da proporcionalidade como parte ideal da democracia representativa. O voto, para Mill, é a principal condição da institucionalidade democrática (MILL, 1981).
Ao contrário das cidades Gregas a democracia moderna considera, além dos cidadãos e da sociedade, a existência de estrutura institucional e administrativa que é denominada de Estado. A democracia, deste modo, diz respeito ao relacionamento entre a sociedade (os cidadãos) e o Estado. Assim a soberania popular está delegada às instituições governamentais que exercem a autoridade em nome do povo, caracterizado como a quase totalidade dos cidadãos, sem exclusões por razões de gênero e classe social.
O Austríaco, naturalizado norte-americano, Joseph Schumpeter foi um dos teóricos dedicados à construção de um conceito de democracia realista desprezando, por um lado, a participação popular, enquanto interpreta a democracia limitada ao parlamento e ao mercado, encarando-a apenas como método.
Schumpeter rejeita a chamada doutrina clássica da democracia, principalmente as considerações de Rousseau, pois a considera idealista e uma utopia. Para ele não é viável a democracia direta pois não há um estágio comum e semelhante entre as pessoas, na sociedade. Assim defende uma teoria elitista da democracia pela competição entre elites as quais disputam o voto popular com o objetivo de obter o poder.
Schumpeter entende que a democracia é apenas um método para escolha de lideranças encarregadas da tomada de decisões e exercício do poder. Assim é um simples procedimento pois “o método democrático é o arranjo institucional para se chegar a certas decisões políticas que realizam o bem comum, cabendo ao próprio povo decidir, através da eleição de indivíduos que se reúnem para cumprir-lhe a vontade” (SCHUMPETTER, 1961, p. 300). Para Schumpeter, então, a democracia existe onde existem diversos grupos competindo entre si pela conquista do poder e resume-se ao processo eleitoral, como resultado de simples agregação de preferência, preconceitos e decisões pré-existentes.
A competição pelo voto é o único momento destinado à soberania popular. De outro modo, para Schumpeter, resta pouco espaço para a participação democrática. Esta, segundo ele, deve ficar restrita ao sufrágio, o qual inclusive, deve constituir-se no mínimo necessário para manutenção da máquina eleitoral. O conjunto de cidadãos, para Schumpeter, é desinformado, desinteressado, alienado e apático, sem capacidade de observação e interpretação adequadas em relação às questões políticas. (SCHUMPETTER, 1961)
O raciocínio de Schumpeter é decorrente da crítica que faz à ideia de se chegar ao bem comum e à chamada soberania ou vontade popular. Não existe um bem comum verdadeiro pois não existe uma consciência coletiva e um valor atribuído a este bem. Assim não pode existir também uma vontade popular. Para Schumpeter o que existe é simplesmente a vontade da maioria. (SCHUMPETTER, 1961)
Robert Dahl é outro teórico que também compreende a democracia como um arranjo para tomada de decisões políticas a partir da competição pelo voto dos eleitores. Dahl, divergindo de Schumpeter, considera que a participação tem papel significativo na tomada de decisão política. Esta participação, entretanto, não considera a atuação dos indivíduos e sim sua inserção nas associações políticas. Os cidadãos, desta forma, participam por meio das instituições e nunca fora delas. (DAHL, 1997)
Dahl considera a democracia sob duas visões. Como ele mesmo apresenta “usamos a palavra democracia tanto para nos referirmos a um objetivo ou ideal como a uma realidade que é apenas uma consecução parcial desse objetivo” (DAHL, 2001, p. 97). Para o autor não existem instâncias reais de democracia e sim o que ele denomina de “poliarquia”, o que consiste nos modelos empíricos existentes nos diversos países. Assim Dahl diferencia a democracia, referenciada em termos normativos e que considera utópica, das poliarquias quando se refere à prática democrática com a existência de múltiplos centros de poder na sociedade. (DAHL, 1997)
Para Dahl a democracia requer um governo responsivo em relação ao povo. Os líderes que exercem um mandato que lhes foi confiado são responsáveis pela efetivação da expectativa das pessoas. Os governantes não possuem direitos sobre os governados. Possuem, por outro lado, deveres. Na democracia os cidadãos devem ser capazes, e ter oportunidades, de formular e manifestar suas preferências e receber tratamento igualitário por parte das estruturas institucionais e administrativas do Estado. Para que estas oportunidades possam ser exercidas Dahl (2001, p. 99–100) considera necessárias as seguintes condições institucionais:
a) Funcionários eleitos. O controle das decisões do governo sobre a política é investido constitucionalmente a funcionários eleitos pelos cidadãos.
b) Eleições livres, justas e frequentes. Funcionários eleitos são escolhidos em eleições frequentes e justas em que a coerção é relativamente incomum.
c) Liberdade de expressão. Os cidadãos têm o direito de se expressar sem o risco de sérias punições em questões políticas amplamente definidas, incluindo a crítica aos funcionários, ao governo, ao regime, à ordem socioeconômica e à ideologia prevalecente.
d) Fontes de informação diversificadas. Os cidadãos têm o direito de buscar fontes de informação diversificadas e independentes de outros cidadãos, especialistas, jornais, revistas, livros, telecomunicações e afins.
e) Autonomia para associações. Para obter seus vários direitos, até mesmo os necessários para o funcionamento eficaz das instituições políticas democráticas, os cidadãos também têm o direito de formar associações ou organizações relativamente independentes, corno também partidos políticos e grupos de interesses.
f) Cidadania inclusiva. A nenhum adulto com residência permanente no país e sujeito a suas leis podem ser negados os direitos disponíveis para os outros e necessários às cinco instituições políticas anteriormente listadas. Entre esses direitos, estão o direito de votar para a escolha dos funcionários em eleições livres e justas; de se candidatar para os postos eletivos; de livre expressão; de formar e participar organizações políticas independentes; de ter acesso a fontes de informação independentes; e de ter direitos a outras liberdades e oportunidades que sejam necessárias para o bom funcionamento das instituições políticas da democracia em grande escala.
O conceito de poliarquia é adaptável e pode ser aplicável a análises de modelos democráticos. Os direitos dos cidadãos podem, metodologicamente, serem objetos de mensuração. Os dados apresentados no início deste capítulo são oriundos de análises semelhantes.
Dahl ainda trabalha uma classificação dos regimes políticos, a partir de duas dimensões: a inclusão, ou a participação dos cidadãos, e a competição que pode ser caracterizada também como a oposição ou contestação. Esta competição reflete as disputas de poder na sociedade. As poliarquias, desta forma, constituem regimes com disputas de poder e participação política ampliada. Os demais casos, para Dahl, ou constituem oligarquias (quando existe competição, mas com baixa participação) ou constituem hegemonias (inclusivas quando da existência de ampla participação, mas contestação tímidas e fechadas quando não se verificam nem participação nem oposição). (DAHL, 2001)