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2.1 A DEMOCRACIA E SUAS FORMAS

2.1.3 As democracias participativa e deliberativa

A participação dos cidadãos é um dos elementos centrais quando se analisa a democracia. Se, na Grécia antiga, os cidadãos aptos participavam diretamente em todos os debates e tomada de decisões, na democracia representativa permitiu-se ao povo apenas o instrumento do voto como momento de participação ao escolher seus representantes. Algumas correntes, notadamente Shumpeter (1961), Dahl (2001) e Sartori (2000) afirmam categoricamente a inconveniência de se permitir maior envolvimento dos cidadãos. Pateman (1992, p. 10) , inclusive, coloca que “[a participação] não apenas tem um papel menor, como nas teorias democráticas atuais um dado predominante é a ênfase colocada nos perigos inerentes à ampla participação popular em política”.

Para outros teóricos, como Rousseau, John Stuart Mill e Cole, a democracia não pode estar limitada à seleção de líderes políticos ou uma simples competição entre as elites. Como na democracia Ateniense, a participação dos cidadãos nas decisões do cotidiano é estimulada. Pateman (1992, p. 35) considera Rousseau “o teórico por excelência da participação”. A autora argumenta que, nas teorias de Rousseau, a participação não tem apenas uma função complementar aos arranjos institucionais como também estimula um inter-relacionamento contínuo entre os indivíduos e o funcionamento das instituições e ainda a sensação de pertencimento à comunidade decorrente desta integração.

Para Rousseau a participação tem caráter educativo. Como coloca Pateman (1992, p. 38):

O sistema ideal de Rousseau é concebido para desenvolver uma ação responsável, individual, social e política como resultado do processo participativo. Durante este processo o indivíduo aprende que a palavra “cada” aplica-se a ele mesmo; o que vale dizer que ele tem que levar em consideração assuntos bem mais abrangentes do que os seus próprios e imediatos interesses privados, caso queira a cooperação dos outros; e ele aprende que o interesse público e o privado encontram-se ligados. A lógica do sistema participativo é tal que o indivíduo vê-se “forçado” a deliberar de acordo com o seu senso de justiça, de acordo com o que Rousseau chama de “vontade constante”, pois seus concidadãos podem sempre resistir à implementação de demandas não- equitativas. Como resultado de sua participação na tomada de decisões, o indivíduo é ensinado a distinguir entre seus próprios impulsos e desejos, aprendendo a ser tanto um cidadão público quanto privado.

Rousseau também entende que a participação está vinculada com a ideia de liberdade, presente em seus estudos. Como as leis são prescritas pelos próprios indivíduos estes devem então

obedecer a si mesmos. A liberdade de todos, a vontade geral, somente poderá ser assegurada por lei construída através do processo participativo (PATEMAN, 1992).

Pateman (1992, p. 45) entende que J. S. Mill, em um primeiro momento, reforça as teorias de Rousseau acerca do papel educativo e integrador da participação na vida pública. “Quando o indivíduo se ocupa somente de seus assuntos privados, argumenta, e não participa das questões públicas, sua autoestima é afetada, assim como permanecem sem desenvolvimento suas capacidades para uma ação pública responsável”.

Mill, entretanto, foi além ao considerar como inócuas a participação eleitoral se o indivíduo não está apto a participar em nível local. É neste nível que acontece o real efeito educativo da participação. As questões locais são aquelas que interferem diretamente com as pessoas. Mill acrescenta que é “somente praticando o governo popular em pequena escala que o povo terá alguma possibilidade de aprender a exercitá-lo em maior escala” (Mill apud PATEMAN, 1992, p. 46).

Por outro lado, Mill e Rousseau tem visões diferentes sobre a igualdade política dos cidadãos e da necessidade destes também se constituírem em legisladores. Rousseau entendia que as diferenças sociais e culturais não deveriam conduzir à desigualdade política enquanto Mill acreditava que as funções deveriam ser preenchidas por pessoas sábias, melhores e com boa educação (PATEMAN, 1992) .

Ao discorrer sobre os estudos de Cole, Pateman relata as dificuldades impostas pelas formas de representação existentes. No estudo das associações Cole afirma que a representação ignora o conceito de função, de forma que o representante representa o indivíduo em todos propósitos e ocasiões. Ainda, para o autor, esta representação deveria ter uma função bem definida. Um segundo problema está relacionado ao fato de que o eleitor não faz escolhas reais e muito menos controla seus representantes. O papel do cidadão, no sistema representativo, acaba ao escolher seu representante (PATEMAN, 1992).

Como J. S. Mill e Rousseau, Cole, de acordo com Pateman, também destacou a importância da função educativa da participação. “Como Mill, Cole sustentava que seria apenas pela participação a nível local e em associações locais que o indivíduo poderia aprender democracia”

(PATEMAN, 1992, p. 55) A grandeza do Estado moderno justificava a capacitação do cidadão a participar nas áreas políticas alternativas da sociedade.

Cole também dedicou atenção à questão da igualdade política, a qual, segundo ele, dependia substancialmente da igualdade econômica. Continuando, a igualdade advinda do direito de voto não implicava em uma igualdade política real. O sufrágio universal, para Cole, era somente formal e escondia a imensa desigualdade de poder político e poderiam ser fatais para qualquer democracia (PATEMAN, 1992).

Pateman (1992, p. 61) finaliza dizendo que “para que exista uma forma de governo democrática é necessária a existência de uma sociedade participativa, isto é, uma sociedade onde todos os sistemas políticos tenham sido democratizados e onde a socialização por meio da participação pode ocorrer em todas as áreas”. Isto implica, ainda de acordo com Pateman, que

pode-se caracterizar o modelo participativo como aquele onde se exige o input máximo (a participação) e onde o output inclui não apenas as políticas (decisões) mas também o desenvolvimento das capacidades sociais e políticas de cada indivíduo, de forma que existe um “feedback” do output para o input. (PATEMAN, 1992, p. 62)

Um passo adiante nas teorias democráticas, já que pressupõe a participação dos cidadãos, é a teoria da democracia deliberativa. Habermas, Cohen e Rawls são apontados como os teóricos principais no desenvolvimento deste conceito (AVRITZER, 2000; LUCHMANN, 2002; MIGUEL, 2005). O ponto fundamental, como coloca Avritzer, é a forma como as decisões são tomadas, superando um “modelo decisionístico de deliberação” (AVRITZER, 2000, p. 27). Luchmann (2002, p. 1) complementa “Trata-se de um conceito que está fundamentalmente ancorado na ideia de que a legitimidade das decisões e ações políticas deriva da deliberação pública da coletividade de cidadãos livres e iguais”. Para Miguel (2005, p. 8) a democracia deliberativa

aparece hoje como a principal inspiração crítica às democracias realmente existentes. Seu ideal é que as decisões políticas sejam fruto de uma ampla discussão, na qual todos tenham condições de participar em igualdade, apresentando argumentos racionais, e ao fim da qual haja consenso.

Habermas desenvolve sua teoria a partir dos modelos normativos que ele denomina de concepções “Liberal” e “Republicana” de democracia (HABERMAS, 1995). Habermas

considera também dois outros conceitos desenvolvidos ao longo de sua obra: a esfera pública e a teoria da ação comunicativa. O conceito de esfera ou espaço público, para Habermas

é um fenômeno social elementar, do mesmo modo que a ação, o ator, o grupo ou a coletividade; porém, ele não é arrolado entre os conceitos tradicionais elaborados para descrever a ordem social. A esfera pública não pode ser entendida como uma instituição, nem como uma organização, pois, ela não constitui uma estrutura normativa capaz de diferenciar entre competências e papéis, nem regula o modo de pertença a uma organização, etc. Tampouco ela constitui um sistema, pois, mesmo que seja possível delinear seus limites internos, exteriormente ela se caracteriza através de horizontes abertos, permeáveis se deslocáveis. A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. Do mesmo modo que o mundo da vida tomado globalmente, a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas o domínio de uma linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática comunicativa cotidiana.” (HABERMAS, 1997, p. 92)

Para Avritzer o conceito de esfera pública

tem, desde sua origem, algumas das suas características centrais ligadas ao debate democrático contemporâneo: a primeira delas é a ideia de um espaço para interação face-a-face diferenciado do Estado. Nesse espaço, os indivíduos interagem uns com os outros, debatem as decisões tomadas pela autoridade política, debatem o conteúdo moral das diferentes das diferentes relações existentes ao nível da sociedade e apresentam demandas em relação ao Estado. Os indivíduos no interior de uma esfera pública democrática discutem e deliberam sobre questões políticas, adotam estratégias para tornar a autoridade política sensível às suas deliberações. Nesse sentido o conceito de publicidade estabelece uma dinâmica no interior da política que não é movida nem por interesses particularistas nem pela tentativa de concentrar poder com o objetivo de dominar outros indivíduos. Pelo contrário, a ideia aqui presente é de que o uso público da razão estabelece uma relação entre participação e argumentação pública. (AVRITZER, 2000, p. 36)

Deste modo a esfera pública independe do Estado e consiste no espaço, até mesmo virtual, onde ocorre a participação, a interação e a prática discursiva dos sujeitos e onde qualquer tema, ou reinvindicação, pode ser incorporado à agenda de discussões e deliberações. Esta última, principalmente, norteada pelo caráter racional da argumentação. Sobre as instâncias destes espaços públicos Habermas complementa dizendo que:

Quanto mais elas se desligam de sua presença física, integrando também, por exemplo, a presença virtual de leitores situados em lugares distantes, de ouvintes ou espectadores, o que é possível através da mídia, tanto mais clara se toma a abstração que acompanha a passagem da estrutura espacial das interações simples para a generalização da esfera pública. (HABERMAS, 1997, p. 93)

Habermas, ao desenvolver a sua teoria da ação comunicativa, considerou-a como uma forma de contraposição à ação estratégica e à ação instrumental. Como diz Araújo:

O ponto central é o paradigma da comunicação, da intersubjetividade, da ação comunicativa, contraposta à ação estratégica. Ambas constituem um novo tipo de racionalidade, a comunicativa. A TAC demanda uma teoria da sociedade em que o sistema (dinheiro e poder, âmbito da ação estratégica) coloniza o mundo da vida (âmbito de um saber compartilhado, pano-de-fundo para a ação comunicativa, intersubjetiva, capaz de conduzir ao entendimento e ao acordo). (ARAÚJO, 2010, on- line)

A Teoria da Ação Comunicativa considera, como objetivo inicial, mostrar diferenças conceituais entre a racionalidade comunicativa e a racionalidade instrumental e cognitiva. Considera também defender um conceito de sociedade a partir dos paradigmas do mundo da vida e o de sistema. Finalmente delinear uma teoria da modernidade que dê conta das novas patologias sociais como decorrência da submissão da ação comunicativa aos imperativos do sistema (ARAÚJO, 2010).

Araújo (2010, on-line), ao tratar dos conceitos básicos referentes à Teoria da Ação Comunicativa, coloca num primeiro momento que “Nas expressões linguísticas há um saber e nas ações dirigidas por um fim (teleológicas) há um saber implícito. Uma afirmação comunica algo e uma ação visa um fim, isso significa que nelas se usa um saber confiável, vinculado a uma racionalidade” e acrescenta a título de conclusão “Essa razão comunicativa permite o consenso, pois não se vê coagida nem impelida apenas pelo ponto de vista inicial de cada participante. Eles irão trocar convicções que asseguram a unidade do mundo objetivo e a intersubjetividade do contexto em que vivem.”

Retornando à comparação com os modelos Liberal e Republicano de democracias, Habermas apresenta o modelo de democracia Deliberativa, ou procedimental, como ele mesmo coloca:

A teoria do discurso, que associa ao processo democrático conotações normativas mais fortes do que o modelo liberal, porém mais fracas que o modelo republicano, toma elementos de ambos e os articula de uma forma nova e distinta. Coincidindo com o modelo republicano, ela concede um lugar central ao processo político de formação da opinião e da vontade comum, mas sem entender como algo secundário a estruturação em termos de Estado de Direito. Em vez disso, a teoria do discurso entende os direitos fundamentais e os princípios do Estado de Direito como uma resposta consequente à questão de como institucionalizar os exigentes pressupostos comunicativos do processo democrático. A teoria do discurso não faz a realização de uma política deliberativa depender de uma cidadania coletivamente capaz de ação, mas sim da institucionalização dos correspondentes procedimentos e pressupostos comunicativos. Essa teoria já não opera com o conceito de um todo social centrado no Estado, que pudéssemos representar como um sujeito em grande escala com ação voltada para metas. Ela tampouco localiza esse todo em um sistema de normas constitucionais que regulem o equilíbrio de poder e o compromisso de interesses de modo inconsciente mais ou menos automático, conforme o modelo de troca mercantil. (HABERMAS, 1995, p. 47)

Joshua Cohen também voltou sua atenção à democracia deliberativa. Para Held (1987, p. 34) Cohen “apresentou aquela que é provavelmente a primeira formulação explícita do cerne dessa corrente teórica.” Cohen parte de alguns pressupostos sobre a democracia e a forma como é conduzida. A política democrática implica na deliberação pública sobre o bem comum e requer alguma igualdade manifesta entre os cidadãos. Significa também estar em conformidade com a identidade e os interesses dos cidadãos (COHEN, 2007).

Para Cohen (2007, p. 131–132) a democracia deliberativa apresenta algumas características principais: a) Uma democracia deliberativa é uma associação contínua e independente, com duração indeterminada; b) Os membros compartilham o compromisso de coordenar suas atividades dentro das instituições que tornam possível a deliberação e cumprir as regras que estabelecem por meio da deliberação. Para eles, a livre discussão entre iguais é a base da legitimidade; c) Uma democracia deliberativa é uma associação pluralista. Os membros diferem em preferências, convicções e ideais ligados à condução de suas vidas. Por outro lado, compartilham o compromisso com a resolução deliberativa de problemas de escolha coletiva; d) É importante, para os membros da associação, que os fins da sua associação não sejam apenas o resultado das suas deliberações, mas também que sejam apresentados como tal e e) Os membros reconhecem-se mutuamente com capacidades deliberativas, ou seja, as capacidades necessárias para entrar no intercâmbio público de razões e para atuar segundo o resultado de tal deliberação.

O procedimento deliberativo, para Cohen, deve considerar a necessidade de definição de uma agenda, que se proponham soluções alternativas, e suas razões, aos problemas incorporados à agenda e do estabelecimento de uma alternativa como resultado. Cohen prossegue afirmando que “os resultados são democraticamente legítimos se e somente se são derivados de acordos livres e argumentativos entre iguais” (COHEN, 2007, p. 132–133). Em primeiro lugar a deliberação ideal é livre, isto é, os participantes se vinculam apenas ao resultado, e às pré- condições, de sua deliberação além de considerar que quando uma decisão específica foi alcançada através de sua deliberação é uma razão suficiente para agir de acordo com ela.

Cohen prossegue dizendo que a deliberação ideal deve ser fundamentada, sendo que as partes devem declarar suas razões ao apresentar, defender ou criticar propostas. Para reforçar esta ideia Cohen (2007, p. 133) cita Habermas que diz “somente se exerce a força do melhor argumento”. Também, na deliberação ideal, os participantes são formal e substantivamente iguais. São

formalmente iguais quando as regras que regulam o procedimento não distinguem entre indivíduos e são substantivamente iguais quando a distribuição de poder e recursos não interfere nas oportunidades de contribuição à deliberação. Finalmente, para Cohen, a deliberação ideal busca um consenso racionalmente motivado. Isto é, encontrar razões que sejam persuasivas para todos aqueles comprometidos a agir segundo os resultados de uma avaliação livre e fundamentada de alternativas entre indivíduos iguais (COHEN, 2007).

Cohen apresenta, então, a sua compreensão acerca da democracia deliberativa:

A deliberação centra, portanto, o debate sobre o bem comum. E as concepções relevantes do bem comum não incluem simplesmente interesses e preferências prévias à deliberação. Pelo contrário, os interesses, objetivos e ideais que incluem o bem comum são aqueles que sobrevivem à deliberação, interesses aos quais, após a reflexão pública, achamos legítimo apelar para fazer reivindicações de recursos sociais. [...] Assim, a partir do ideal formal de uma democracia deliberativa, chegamos ao ideal mais substantivo de uma associação que é regulada pela deliberação, voltada para o bem comum e que respeita a autonomia dos membros. (COHEN, 2007, p. 135– 6)

A democracia deliberativa constitui-se, portanto, em um modelo de democracia onde se busca a construção de consensos nas decisões que afetam a sociedade. Os cidadãos, para tanto, devem ser livres e iguais. Isto requer, obviamente, a participação popular e define a importância dos cidadãos neste processo. É preciso ressaltar, contudo, que os limites entre a democracia participativa e a democracia deliberativa são quase imperceptíveis. Afinal, deliberar implica participar de forma ativa dos processos decisórios na esfera pública.