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2.5 O PROBLEMA DA VERDADE

2.5.2 A Destruição do Conceito Tradicional da Verdade

Heidegger reconhece que a interpretação da verdade no sentido da proposição ainda que pareça arbitrária, de todo modo é necessária "(...) daquilo que a tradição mais antiga da filosofia pressentiu de maneira originária".344 Para o filósofo, "(...) o ser-verdadeiro do λ〉γοω

enquanto π〉φανσιω é ληψεειν, no modo de ποφα⇔νεσψαι: deixar e fazer ver (descoberta) o ente em seu desvelamento, retirando-o do velamento".345 A λ→ψεια, assim, é identificada por Aristóteles, segundo Heidegger ,com πρ γµα, φαιν〉µενα, e indica “às coisas elas mesmas”. No texto de 1963, já referido acima, este caráter da verdade para os gregos com respeito ao conceito de fenomenologia empregado por Heidegger, vem assim explicitado:

(...) o que para a fenomenologia dos atos conscientes se realiza como o automostrar-se dos fenômenos é pensado mais originariamente por Aristóteles e por todo o pensamento e existência dos gregos como Alétheia, como o desvelamento do que se pre-senta, seu desocultamento e seu mostrar-se. Aquilo que as Investigações redescobriram como a atitude básica do pensamento revela-se como o traço fundamental do pensamento grego, quando não da Filosofia como tal.346

Outro apontamento que podemos tomar como referência é aquele já referido por nós na carta-prólogo ao padre Richardson, onde Heidegger elenca as três percepções que lhe permitiram aproximá-lo da questão do ser como pergunta pelo sentido do ser. É no interior desse horizonte investigativo que se lhe oferece a visão da Alétheia como desocultar e a caracterização da verdade como desocultamento. Para Heidegger, portanto, pertence ao λ〉γοω

o desvelamento, -λ→ψεια, de forma que a sua tradução latina para verdade encobre, nas

344

Ibid., p. 290.

345 Ibid., p. 290.

palavras do filósofo, o fundamento "evidente" do seu uso terminológico.347 Seguindo ainda Heidegger em sua intuição, trata-se, agora, de trabalhar o conceito de verdade definido pela tradição através de uma perspectiva fenomenal, ou seja, que o fenômeno da verdade se mostre, ele mesmo, na exigência de chegar à idéia de concordância.

Em conformidade, então, com o pensamento de Heidegger, a definição originária do fenômeno da verdade sustentada nas palavras ‘descoberta’ [Entdecktheit] e ‘ser-descobridor’ [Entdeckendsein] "(...) nasce da análise dos comportamentos do ser-aí, que costumamos chamar de "verdadeiros""348, de maneira que ‘ser-verdadeiro’ e ‘ser-descobridor’ é um modo de ser do ser-aí, é um modo de ‘ser-no-mundo’. O ser-aí, pré-ocupando-se com o mundo, ocupa-se com os entes intramundanos, na medida em que os descobre. Os entes intramundanos, nos diz Heidegger, são "verdadeiros" em um duplo sentido: "Primordialmente verdadeiro, isto é, exercendo a ação de descobrir, é o ser-aí. Num segundo sentido, a verdade não diz o ser-descobridor (o descobrimento), mas o ser-descoberto (descoberta)".349 De acordo com Heidegger, a análise precedente sobre a mundanidade do mundo e dos entes intramundanos mostrara que "(...) a descoberta dos entes intramundanos se funda na abertura do mundo".350 O filósofo logo esclarece que a ‘abertura’ [Erschlossenheit] é o modo fundamental do ser-aí a partir do qual ele é o seu "aí", constituindo-se de ‘disposição’, ‘compreensão’, ‘discurso’ e referindo-se ao ‘mundo’, ao ‘ser-em’ e ao ‘si-mesmo’. Nas palavras do próprio Heidegger: "Na medida em que o ser-aí é essencialmente a sua abertura, na medida em que ele abre e descobre o que se abre, o ser-aí é essencialmente "verdadeiro". O ser-aí é e está "na verdade"".351

Heidegger, por seu turno, elenca 4 determinações que abarcam o todo do sentido existencial da proposição que diz que o ser-aí é e está na verdade, quais sejam: 1) a abertura

em geral; 2) o estar-lançado; 3) o projeto; e 4) a de-cadência.352 Sobre a primeira diz que

pertence à constituição ontológica do ser-aí, abrangendo o fenômeno do ‘cuidado’ [Sorge], que abarca tanto o ‘ser-no-mundo’ quanto o ‘ser e estar junto aos entes intramundanos’; a segunda, por sua vez, fala que o ser-aí já é sempre nosso em um mundo determinado e junto a um horizonte determinado de entes intramundanos também determinados, de forma que fala, pois, do caráter factual do ser-aí; a terceira determinação refere-se à abertura do ser com respeito ao seu ‘poder-ser’ como ‘compreensão’ - aqui o ser-aí pode ser compreendido seja a 347 Ibid., p. 291. 348 Ibid., p. 291. 349 Ibid., p. 292. 350 Ibid., p. 292. 351 Ibid., p. 292. 352 Ibid., p. 293.

partir do mundo e dos outros entes, seja a partir do seu ‘poder-ser’ mais próprio. É com referência a esta característica que a verdade da existência torna-se a abertura mais originária, para mostrar o fenômeno da verdade; a última determinação, por sua vez, fala da possibilidade sempre presente e na maior parte das vezes recorrente do ser-aí se perder em seu "mundo". Aqui o ser para os entes não desaparece, mas se mostra no modo da aparência, instalando-se "(...) nos modos da deturpação e fechamento através do falatório, da curiosidade e da ambigüidade".353 O ser-aí, portanto, cai na impessoalidade, sendo falado publicamente. Para Heidegger, isto diz: "Em sua constituição ontológica, o ser-aí é e está na "não verdade" [Unwahrheit] porque é, em sua essência, de-cadente [verfallend]".354 Por isso, somente porque o ser-aí possui uma abertura para o ser que o conduz à compreensão do seu ‘ser-próprio’ é que ele também pode se fechar; de igual maneira, somente porque o ser-aí já descobriu os entes intramundanos é que eles novamente se velam e deturpam. Junto ao filósofo encontramos: "(...) não é com base num total velamento que as novas descobertas se fazem, mas sim a partir da descoberta no modo da aparência. O ente se configura como...".355

A verdade ainda, de acordo com Heidegger, é algo que se furta dos entes. A verdade no sentido da descoberta, do des-velamento do ser dos entes, é, pois, um roubo, como indica o

alfa privativo que forma a palavra grega -λ→ψεια. Os entes, nos termos de Heidegger,

somente "são" entes porque se deixaram antes des-cobrir como. A ‘compreensão’ é, portanto, exigida, a fim de que o ser-aí seja no mundo o ser que se compreende, na medida em que compreende ser ao se ocupar consigo mesmo e com os entes intramundanos que lhe vêm ao encontro. Desta interpretação ontológica do fenômeno da verdade se apreendera, então, conforme Heidegger: "1. Verdade no sentido mais originário é abertura do ser-aí à qual pertence a descoberta dos entes intramundanos. 2. O ser-aí é e está, de modo igualmente originário, na verdade e na não verdade".356 Para o filósofo isto quer significar que a proposição e sua estrutura, o ‘como apofântico’ (mostrativo), estão fundadas no ‘como hermenêutico’ (interpretativo) e, em seguida, na ‘compreensão’, pensada como ‘abertura’ do ser-aí.

Após ter apresentado as suas conquistas fenomenológicas no interior do problema da verdade sustentada pela tradição na correspondência entre o que se diz (a proposição) e a coisa real, Heidegger passa, então, a demonstrar como se dá, no cotidiano, a derivação da verdade para a verdade em sentido proposicional. Assim é que considera que o ser que se 353 Ibid., p. 293. 354 Ibid., p. 294. 355 Ibid., p. 294. 356 Ibid., p. 295.

ocupa com os entes intramundanos é descobridor. O ser-aí, nesses termos, expressa-se, des-cobrindo os entes. E o lugar em que o ser-aí se expressa sobre o ente descoberto é, em suma, na própria proposição: "A proposição comunica o ente no modo de sua descoberta".357 E a descoberta "(...) se preserva no que é pronunciado"358, ou seja, o que se des-cobre, o ente, é guardado naquilo que se diz, naquilo que se pro-põe. De acordo com Heidegger, portanto, o que se pronuncia funciona como um manual intramundano, de modo que "(...) o que se pronuncia e assim se acha à mão traz, em si mesmo, uma remissão ao ente sobre o qual toda proposição se pronuncia. Descoberta é sempre descoberta de...".359 Heidegger também esclarece que a descoberta não precisa ser originária e que em grande medida ela é mesmo uma descoberta derivada por intermédio de um ouvir dizer, que é o domínio do impessoal (o que se diz): "O que se diz como tal assume o ser com relação ao ente que se descobre na proposição".360 Ou de forma contundente, no caso da apropriação do ente em sua descoberta, o que quer significar no caso da exigência de sua verificação, Heidegger afirma:

Com o pronunciamento da proposição, a descoberta se volta para o modo de ser do manual intramundano. Na medida, porém, em que nela, enquanto descoberta de..., se mantém uma remissão a um ser simplesmente presente, a descoberta (verdade), por sua vez, se torna uma relação simplesmente presente entre entes simplesmente presentes (intellectus e res).361

Para poucas linhas abaixo concluir: "Verdade como abertura e ser-descobridor, no tocante ao ente descoberto, transforma-se em verdade como concordância entre entes simplesmente presentes dentro do mundo".362

Com efeito, Heidegger, a partir das análises acima produzidas, considera que aquilo que na ordem dos contextos de fundação ontológico-existenciária aparece como sendo o último a acontecer, para a tradição é o primeiro, de maneira que a verdade passa a ser lida, então, como algo simplesmente presente. Mas esta inversão não se dá, ressalta Heidegger, senão por causa do próprio ser-aí, que na ocupação compreende o que vem ao encontro dentro do mundo numa interpretação determinada do ser (ser como presença-presente): "A descoberta inerente ao descobrimento se acha, inicialmente, no que é pronunciado dentro do mundo".363 357 Ibid., p. 296. 358 Ibid., p. 296. 359 Ibid., p. 297. 360 Ibid., p. 297. 361 Ibid., p. 297. 362 Ibid., p. 298. 363 Ibid., p. 298.

Ora, Heidegger, nesta passagem, embora não explicite o filósofo com quem dialoga, trata de Platão e o seu diálogo Sofista. É lá que está dito que a "verdade" deve ser pensada como λ〉γοωτιν∫ω - proposição sobre..., descoberta de...). Nas palavras de Heidegger, então:

A primeira reflexão ontológica compreende, de início, todo ente como algo simplesmente presente. A primeira reflexão ontológica sobre a "verdade" que, de imediato, vem ao encontro onticamente, compreende o λ〉γοω (proposição) como λ〉γοω τιν∫ω (proposição sobre..., descoberta de...) e interpreta o fenômeno como

algo simplesmente presente em sua possibilidade de ser simplesmente presente. Porque, no entanto, essa possibilidade é identificada com o sentido do ser em geral, a questão se esse modo de ser da verdade e sua estrutura que, de imediato, vêm ao encontro são originários ou não, não pode permanecer viva.364

Mas Heidegger também sublinha que para os gregos a compreensão originária da verdade mantinha-se viva, e o filósofo encontra este sentido precisamente em Aristóteles365. Também agora Heidegger se vale dos seus estudos anteriores, a saber, do que vem explicitado em PhIA (GA62), no PS (GA19) e na LFW (GA21), portanto, principalmente nos estudos dos livros de Aristóteles Ética a Nicômacos e Metafísica.

E a seguir lemos, em tom esclarecedor:

A proposição não é o "lugar" da verdade. Ao contrário, a proposição enquanto modo de ser-no-mundo, funda-se no descobrimento ou na abertura do ser-aí. A "verdade" mais originária é o "lugar" da proposição e a condição ontológica de possibilidade para que a proposição possa ser verdadeira ou falsa (possa ser descobridora ou encobridora)".366