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A Dignidade da Vida e o Direito dos Animais

No documento Andre Luis Cais.pdf (páginas 148-156)

4. CRUELDADE E MAUS-TRATOS COM OS ANIMAIS

5.3 A Dignidade da Vida e o Direito dos Animais

Como visto, a utilização do animal como objeto de experiência, em alguns casos pode ser vista como um ato cruel, mas a submissão do animal nessas circunstâncias, não se enquadra nas garantias constitucionais, pois a utilização a um limite do necessário não implica a infração da Lei Maior ou dos demais preceitos legais.

Não se discorre aqui sobre a utilização animal com motivos torpes ou fúteis. Ao contrário, trata-se de sua justa utilização, seja na alimentação e subsistência humana, seja na indústria farmacêutica, como produção de vacinas e meios de facilitação para produzir remédios, seja também nos diversos campos da pesquisa científica.

Muito embora se tenha tentado construir ao longo do presente trabalho uma argumentação lógica capaz de demonstrar o direito da natureza e dos animais como sujeitos de direitos no ordenamento jurídico, não se pode negar que o texto

constitucional tem como preocupação a vida humana acima de qualquer outra questão.

De igual modo, não se pretende negar que existe uma certa incoerência entre imputar à natureza e aos animais o status de sujeitos de direitos e, ao mesmo tempo, justificar a sua utilização para fins de interesses do homem. Aliás, a discussão deste trabalho reside basicamente neste ponto. Com efeito, de um lado, temos a visão antropocêntrica em sentido amplo; de outro, inúmeros ativistas em prol dos direitos dos animais que pregam a sua liberação plena, inclusive de uma forma radical, que envolve até os animais domésticos, excluindo a visão antropocentrista.

A grande justificativa das experiências com animais é o progresso da ciência, para a descoberta de curas e males que assolam a sociedade moderna. Em contrapartida, são inúmeros os objetivos das experiências que utilizam os animais, como já demonstrado, seja nas experiências de artefatos militares, seja na indústria de cosmético. Em suma, uma gama e variedade de “justificadas utilizações”, apenas com o mero intuito econômico que proporcionam vultosas quantias a quem se beneficia desses experimentos.

A afirmação de que utilizar animais em experimentos científicos nada mais é do que uma visão discriminatória com base na espécie, o chamado especismo, uma vez que muitos desses animais possuem uma capacidade de sentir e sofrer maior do que muitos seres humanos com diversos e graves problemas cerebrais ou de crianças recém-nascidas e órfãs e, que, portanto, deveriam utilizá-los nesses experimentos ao invés dos animais, é em parte verdade. Peter Singer explica muito bem essa questão:

Se os experimentadores não estiverem preparados para usar um bebê humano, o fato de estarem prontos para usar animais não humanos revela uma forma injustificável de discriminação com base na espécie, uma vez que primatas, macacos, cães, gatos, ratos e outros animais adultos são mais conscientes daquilo que ocorre com eles, mais autônomos e, portanto, até onde podemos dizer, pelo menos tão sensíveis à dor quanto um bebê humano. Esclareci que o bebê humano seria órfão para evitar as complicações dos sentimentos dos pais. A especificação do caso nesses termos é, quando muito, ultragenerosa com aqueles que defendem a utilização de animais não humanos na

experimentação, uma vez que mamíferos destinados a experimentos são, em geral, separados da mãe muito cedo, quando a separação causa angústia tanto para a mãe quanto para o filhote.

Até onde sabemos, bebês humanos não possuem características moralmente relevantes em grau mais elevado que animais adultos não humanos, a menos que se leve em conta as potencialidades dos bebês como uma característica que torne errada sua utilização em experimentos. Se essas características deveriam ser levadas em conta é algo controverso. Se forem, deveríamos condenar o aborto juntamente com os experimentos em bebês, uma vez que as potencialidades do bebê e do feto são as mesmas. Para evitar as complexidades dessa questão, entretanto, podemos alterar um pouco nossa questão original e pressupor que o bebê sofre de danos cerebrais irreversíveis tão graves que impedem qualquer desenvolvimento mental além do nível de um bebê de seis meses de idade. Infelizmente, há muitos bebês assim, encerrados em estabelecimentos especiais por todo o país, muitos deles há muito abandonados pelos pais e outros parentes e, tristemente, às vezes, não amados por ninguém. Apesar da sua deficiência mental, a anatomia e a fisiologia desses bebês são, praticamente em tudo, idênticas a de bebês humanos normais. Se, portanto, os obrigássemos a ingerir grandes quantidades de cera para assoalho ou pingássemos soluções concentradas de cosméticos em seus olhos, teríamos indícios muito mais confiáveis de segurança desses produtos para seres humanos do que ora obtemos tentando extrapolar os resultados de testes sobre uma variedade de outras espécies. Os testes DL50, os testes Draize nos olhos, os experimentos com radiação, os experimentos com internação e muitos outros descritos anteriormente nesse capítulo poderiam nos dizer mais sobre reações humanas a uma situação experimental se fossem realizados em seres humanos com grave deficiência mental em vez de cães ou coelhos.222

Cumpre ressaltar que o citado autor não defende a realização de experimentos em seres humanos com deficiência mental, como citado acima. Trata- se apenas de uma exemplificação para um aprofundamento na discussão acerca desse tema.

Assim, não se pode concordar com a utilização de seres humanos em experimentos científicos pelo fato de se apresentarem com uma reduzida capacidade de percepção da realidade (conceitos de moral, costumes e justiça), ao contrário das pessoas que se apresentam como voluntárias mediante um

esclarecimento prévio e cientes das consequências que poderão enfrentar. Nesses casos, desde que os critérios éticos prevaleçam, é preciso concordar com a sua utilização, tal qual como é feito com inúmeros medicamentos que chegam ao mercado.

Já em relação aos animais – tema do presente trabalho – a proposta é respeitar direitos morais básicos em relação aos não humanos; trata-se de um dever direto de proteção, no mesmo nível de igualdade com os direitos dos seres humanos.

A situação atual quanto aos direitos dos animais é, de muitas maneiras, semelhante à dos escravos negros do século XIX. Assim como eles, os animais são excluídos do senso comum da humanidade, que usa os mesmos argumentos para justificar a sua exclusão social (ausência de alma e de uma moral ética, eram considerados seres inferiores, um instrumento vivo) e, consequentemente, a mesma negação de seus direitos sociais.

Com certeza iremos algum dia fazer justiça às espécies tidas como “inferiores” no sentido de reconhecer que são sujeitos de direitos por integrar-se à vida do planeta. Para tanto, temos que nos livrar da nossa articulada noção de que existe um grande abismo que separa a humanidade e reconhecer o vínculo que a une a todos os seres vivos em um tipo de irmandade universal.223

Trata-se, na verdade, de justiça e consideração com os demais seres existentes na Terra. Não podemos outorgar de forma absoluta o direito aos homens e negá-los aos animais. A dor, por exemplo, que é infligida ao ser humano, também pode ocorrer com os animais e o sofrimento será o mesmo, guardada as devidas proporções.

Os animais possuem direitos a uma vida natural que, por sinal, são inerentes a qualquer espécie. Entretanto, esses direitos, em determinados casos, podem estar limitados em decorrência de um interesse permanente da sociedade. Então, se um animal tiver que ser morto, portanto privado do direito à vida, abatido ou utilizado em um determinado experimento científico, que lhe seja assegurado, em primeiro lugar,

223 SALT, Henry Stephens. Los derechos de los animales. Trad. Carlos Martín y Carmen González. Madrid: Los Libros de La Catarata (trad.), 1999, p. 35.

a real e verdadeira necessidade de fazê-lo; se for feito, que seja com o menor sofrimento possível.

É cediço que a fauna, ao lado dos demais recursos ambientais, exercem relevante função na natureza e é essencial ao equilíbrio do ecossistema. Esse equilíbrio faz com que cada componente do ecossistema cumpra sua finalidade para mantê-lo estruturado e harmônico, constituindo-se em perfeito sistema de interdependência.

Esse também é o pensamento de Edna Cardozo Dias quando afirma ainda que os animais são sujeitos de direitos com representatividade, tal como os seres relativamente incapazes ou totalmente incapazes, mas que, entretanto, são reconhecidos como pessoas, apesar da incapacidade.224

Muitos defensores do direito animal apresentam seus argumentos com base nas reações instintivas de um bebê recém-nascido. O recém-nascido não possui uma sustentada consciência; nessa circunstância seus movimentos e gesticulação são inferiores aos de um animal. Com efeito, os bebês choram apenas quando estão com fome ou com dor, sem algum vínculo com o ambiente; ao passo que, em relação aos animais, está comprovada cientificamente a interação desses animais com os seres humanos, tendo todo o seu comportamento interagindo com o ecossistema. Como, então, negar essa semelhança e não dar as mesmas condições de direitos a esses seres vivos não humanos? Não seria este o motivo de precisar proteger a criança recém-nascida, o fato de estar viva? Por que, então, haveria uma diferença entre esses procedimentos?

Estes são os argumentos básicos colocados pelos defensores do “abolicionismo animal”, uma vez que todos os seres vivos, em geral, dizem eles, têm direito à vida, ao livre desenvolvimento da espécie, da integridade física e, principalmente, ao não sofrimento.

A linha de argumentação e defesa em favor dos animais reside na seguinte questão: não se discute a sua capacidade de falar ou de raciocinar, de legislar ou de assumir deveres e obrigações; mas, o que está em jogo é a certeza de que são capazes de sofrer, a evidência de que são seres sensíveis. Estes são os fatores

224 DIAS, Edna Cardozo. Os animais como sujeitos de direito. Apud SANTANA, Heron José de; SANTANA, Luciano Rocha (coords.). Revista Brasileira de Direito Animal. Salvador. Ano 1, nº 1, 2006, p. 120.

preponderantes e vitais que conferem a um ser o direito de consideração igual aos humanos.

Exemplos de atrocidades praticadas pelos seres humanos não faltam em nosso cotidiano. Motivo suficiente para podermos imputar a eles a depreciativa qualidade de seres “irracionais” ou de seres “inferiores” ou, até mesmo, no dito popular, considerá-los “como uns animais”, com a ressalva de que o animal irracional quando agride, o faz por instinto; o ser humano por maldade.

Infelizmente, por exemplo, os humanos, constituem a única espécie capaz de destruir-se a si mesma, sem uma real necessidade física.

Portanto, negar aos animais direitos paritários pela simples alegação de que não são sujeitos de deveres ou porque fazem parte da cadeia “inferior” da vida, são argumentos levianos. Sua tutela é semelhante à de uma criança, que, bem vigiada, não representa perigo, mas qualquer descuido pode ocasionar um verdadeiro desastre.

Peter Singer traz uma passagem de Jeremy Bentham acerca da questão da igualdade no que diz respeito à consideração de interesses como um princípio moral. O texto de Bentham se refere à época em que os escravos negros haviam sido libertados pelos franceses, mas eram tratados do mesmo modo como ainda hoje os animais são tratados:

Talvez chegue o dia em que o restante da criação animal venha a adquirir os direitos que jamais poderiam ter-lhe sido negados, a não ser pela mão da tirania. Os franceses já descobriram que o escuro da pele não é razão para que um ser humano seja irremediavelmente abandonado aos caprichos de um torturador. É possível que um dia se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a terminação do osso sacro são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser senciente ao mesmo destino. O que mais deveria traçar a linha instransponível? A faculdade da razão, ou, talvez, a capacidade da linguagem? Mas um cavalo ou um cão adultos são incomparavelmente mais racionais e comunicativos do que um bebê de um dia, de uma semana, ou até mesmo de um mês. Supondo, porém, que as coisas não fossem assim, que importância teria tal

fato? A questão não é „Eles são capazes de raciocinar?‟, nem „São capazes de falar?‟, mas, sim: „Eles são capazes de sofrer?225

Destaca-se, contudo, que a “capacidade de sofrer” não se resume a um sentimento da dor. A defesa dos animais também se baseia na sua constituição psíquica que envolve a capacidade de sentir prazer ou felicidade.

Sempre convém repetir que no mundo dualista de René Descartes, matéria e substância pensante (consciência exclusiva da humanidade) exclui o animal da categoria dos seres sem alma; nesse seu mundo e segundo sua teoria de cunho racionalista, os animais não possuem alma, logo, são privados de consciência e de razão. Para Descartes, os animais não sentem, não pensam, não têm prazer, nem qualquer outro tipo de sensação ou expressão. Eles são como um relógio, com efeitos reflexos de mecanismos. Aliás, seu funcionamento é mais complexo do que um relógio propriamente dito; isso porque, explica Descartes, uns são produtos humanos e os outros uma obra divina.

A distinção entre homem e animal, dizem os que têm um conceito reducionista do ser vivo, reside no fato de o homem ter o dom da palavra, com a qual utiliza o discurso para exprimir o útil e o prejudicial. O homem é um ser livre, ao passo que os animais não escapam às regras que lhes são prescritas, agindo meramente por instinto. Porém, a etologia demonstrou o contrário: animais se comunicam entre e com espécies diferentes. Os anuros, por exemplo, vocalizam em diferentes situações como: defesa do território, atração sexual, alarme, agressividade, início de atividade e de agregar a espécie. O mesmo ocorre com todas as espécies e grupos animais capazes de emitir sons. A comunicação pode ser intra e interespecífica.

E o que dizer da distinção entre homens e mulheres? O que se deve levar em conta é a igualdade de direitos, não a igualdade de fato; a igualdade de consideração e não a igualdade de tratamento.

Singer chega a sustentar ainda a diferença entre uma pessoa senil, uma criança recém-nascida e um deficiente mental. Ele argumenta que, nesses casos, tal

como os animais, a diferença reside basicamente no especismo puro e simples, ou seja, um egoísmo de uma espécie por se considerar superior.

De fato, há uma proteção especial em relação a eles, principalmente em razão da fragilidade em que se encontram.

François Ost226 destaca que o direito positivo não permite considerar o animal, nem como objeto de direito, nem como um sujeito de direito. Deve-se, na verdade, ser reinventado um estatuto jurídico que faça justiça ao animal, aquele ser vivo que nos assemelha, porque, igual a nós, também é um ser vivo.

Nesse sentido, a Constituição Federal permite, de certa forma, a utilização animal, ainda que esse ato represente a prática de atividades consideradas cruéis – principalmente na questão dos direitos fundamentais da pessoa humana. Essas práticas são autorizadas em prol de uma garantia da melhor qualidade de vida e saúde dos seres humanos.227

Existem três correntes básicas e distintas que envolvem os direitos dos animais. A primeira enfatiza o bem-estar animal; a segunda destaca os direitos dos animais, tendo como Tom Regan seu principal defensor; a terceira salienta a libertação animal, tendo Peter Singer como seu principal defensor. Nesse ponto de vista, o bem-estar animal é geralmente visto como uma corrente “humanitária” em defesa dos animais, por meio da qual se proíbe a crueldade desnecessária.

Segundo aponta Laerte Fernando Levai:

Aqueles que sustentam a visão antropocêntrica do direito constitucional, que veem o homem como único destinatário das normas legais, que vinculam ao bem-estar da espécie dominante o respeito à vida, que defendem a função recreativa ou cultural da fauna e que consideram os animais ora coisas, ora bens ambientais, afastando sua realidade sensível, rendem – deste modo – uma infeliz homenagem à intolerância, à insensatez e ao egoísmo. Porque o Direito não deve ser interpretado como mero instrumento de controle social, que garante interesses particulares e que divide bens. Deve projetar-se além da perspectiva privada, buscando a retidão, a solidariedade e a virtude, para que se torne generoso e justo. Nesse contexto, o próprio conceito de „educação ambiental‟ merece uma

226 OST, François. A natureza à margem da lei. A ecologia à prova do direito. Joana Chaves (trad.). Instituto Piaget: Lisboa. 1995, p. 269.

227 Nesse sentido também: BECHARA, Erika. A Proteção da Fauna sob a Ótica Constitucional. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2003, p. 69.

interpretação mais profunda, livre do critério da utilidade que impregna as relações humanas. Precisamos, na realidade, de uma outra metodologia de ensino. Um urgente canto de despertar. Talvez buscando as lições do passado...228

A Associação Médica Veterinária Americana (American Veterinary Medical

Association – AVMA) defende que “bem-estar animal” e “direito dos animais” não

são sinônimos, e que a promoção do bem-estar é adotada como uma política oficial, enquanto que a visão dos “direitos dos animais” não é endossada por essa entidade por ser incompatível com a utilização responsável de animais para propósitos humanos, tais como alimentação, companhia, recreação e pesquisas.

Por ora, entendemos que a melhor corrente para o caso posto em discussão seja a mencionada por François Ost, em que deve ser reinventado um estatuto jurídico, por meio do qual o animal seja tratado com dignidade e justiça, como ser vivo integrante da natureza, em que a sua utilização não se relacione com a diversão e torpeza humana.

No documento Andre Luis Cais.pdf (páginas 148-156)