2. A PROTEÇÃO DOS ANIMAIS NO DIREITO ESTRANGEIRO
2.1 Declaração Universal dos Direitos dos Animais
A Declaração Universal dos Direitos dos Animais foi um grande feito em prol da vida e da integridade dos animais, tendo inúmeros países como signatários, inclusive o Brasil.73 Essa declaração foi proclamada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, em Bruxelas, em 27 de janeiro de 1978. Tal documento adotou uma nova filosofia de pensamento sobre os direitos dos animais, reconheceu o valor da vida e propôs um estilo de conduta humana condizente com a dignidade e o merecido e devido respeito aos animais.74
A Declaração, incluindo os “considerando”, possui os seguintes artigos:
“Preâmbulo:
Considerando que todo o animal possui direitos;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo desses direitos têm levado e continuam a levar o homem a cometer crimes contra os animais e contra a natureza; Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo;
Considerando que os genocídios são perpetrados pelo homem e há o perigo de continuar a perpetrar outros;
73 Tratado Internacional é todo acordo formal concluído entre sujeitos de direito internacional público e destinado a produzir efeitos jurídicos. A Convenção de Viena/69 sobre o Direito dos Tratados conceitua-o como: “um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação específica” (art. 2º, I, alínea „a‟). No campo do Direito Internacional Público, os tratados são sinônimos de Declaração.
Todavia, a declaração, historicamente não é considerada um tratado. Tradicionalmente, quando se dá conotação de declaração a um texto, pretende-se diferenciá-lo de um tratado. A declaração era um substitutivo de uma convenção, sem ter caráter obrigatório. Era uma declaração de princípios. A Convenção de Viena/69, art. 2º, as unificou, dispondo que, independentemente do termo, palavra ou nomenclatura, tratado é todo acordo formal, escrito, celebrado entre Estados e/ou organizações internacionais.
Em suma, consoante afirma Paulo Affonso Leme Machado: “as declarações internacionais, ainda que oriundas das Nações Unidas, não são transpostas automaticamente para o Direito interno dos países, pois não passam pelo procedimento de ratificação perante o Poder Legislativo. Diferentemente, as convenções ou tratados passam a ser obrigatórios no Direito interno após sua ratificação e entrada em vigor” (MACHADO. Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 19ª ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 77-78).
Considerando que o respeito dos homens pelos animais está ligado ao respeito dos homens pelo seu semelhante;
Considerando que a educação deve ensinar desde a infância a observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais,
Proclama-se o seguinte
Artigo 1º-
Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência.
Artigo 2º-
1. Todo o animal tem o direito a ser respeitado.
2. O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de pôr os seus conhecimentos ao serviço dos animais. 3. Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem.
Artigo 3º-
1. Nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a atos cruéis.
2. Se for necessário matar um animal, ele deve de ser morto instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia.
Artigo 4º-
1. Todo o animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático e tem o direito de se reproduzir. 2. Toda a privação de liberdade, mesmo que tenha fins educativos, é contrária a este direito.
Artigo 5º-
1. Todo o animal pertencente a uma espécie que viva tradicionalmente no meio ambiente do homem tem o direito de viver e de crescer ao ritmo e nas condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie.
2. Toda a modificação deste ritmo ou destas condições que forem impostas pelo homem com fins mercantis é contrária a este direito.
Artigo 6º-
1. Todo o animal que o homem escolheu para seu companheiro tem direito a uma duração de vida conforme a sua longevidade natural.
2. O abandono de um animal é um ato cruel e degradante.
Artigo 7º-
Todo o animal de trabalho tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso.
Artigo 8º-
1. A experimentação animal que implique sofrimento físico ou psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer que seja a forma de experimentação.
2. As técnicas de substituição devem de ser utilizadas e desenvolvidas.
Artigo 9º-
Quando o animal é criado para alimentação, ele deve de ser alimentado, alojado, transportado e morto sem que disso resulte para ele nem ansiedade nem dor.
Artigo 10-
1. Nenhum animal deve de ser explorado para divertimento do homem.
2. As exibições de animais e os espetáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.
Artigo 11-
Todo o ato que implique a morte de um animal sem necessidade é um biocídio, isto é um crime contra a vida.
Artigo 12-
1. Todo o ato que implique a morte de grande um número de animais selvagens é um genocídio, isto é, um crime contra a espécie.
2. A poluição e a destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.
Artigo 13-
1. O animal morto deve de ser tratado com respeito.
2. As cenas de violência de que os animais são vítimas devem de ser interditas no cinema e na televisão, salvo se elas tiverem por fim demonstrar um atentado aos direitos do animal.
Artigo 14-
1. Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais devem estar representados a nível governamental.
2. Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem.75
Em suma, a Declaração Universal dos Direitos dos Animais considera que cada animal tem direitos e que o desconhecimento ou o desprezo desses direitos têm levado, e continuam a levar, o homem a cometer crimes contra a natureza e contra os animais.
Este texto de caráter universal não tem força de lei, pois não é um documento internacional ratificado pelo Poder Legislativo brasileiro. Como afirma Laerte Fernando Levai: “ele não possui forma de tratado e tampouco estabelece sanções àqueles que o infringirem, faltando-lhe poder coercitivo. Subsiste, todavia, como uma carta de princípios, de natureza moral, fonte indireta para a aplicação da lei”.
Antes da criação desse relevante documento para a proteção animal, em 1964 – como visto em páginas anteriores – havia sido formulada a primeira versão da Declaração de Helsinque, a qual apenas mencionava o uso de animais em pesquisas científicas como pré-requisito para a realização de pesquisa clínica. Em decorrência dos protestos contra o uso de animais em experimentos científicos, em 1975 foi formulada a segunda Declaração de Helsinque, tendo como recomendação
um cuidado especial com pesquisas que possam afetar o meio ambiente, além de estabelecer o bem-estar desses animais.
Atualmente, diversos países possuem uma legislação específica para o trato com os animais em experimentação. Todavia, para os países onde essa legislação inexiste, o Conselho das Organizações Internacionais de Ciências Médicas (Council
for International Organizations of Medical Sciences – CIOMS) publicou em 1985 os
Princípios Internacionais para a Pesquisa Biomédica Envolvendo Animais (International Guiding Principles for Biomedical Research Involving Animals).
O objetivo do CIOMS, ao desenvolver esses princípios, é fornecer, especialmente aos países que não possuam uma legislação específica sobre a experimentação animal, uma base mínima para que possam desenvolver seus mecanismos de controle, seja por meio voluntário, seja mediante uma legislação, através dos seguintes objetivos: 1) avaliar os projetos e autorizar sua realização, incluindo a avaliação dos propósitos da pesquisa e dos níveis de dor e estresse nos animais; 2) inspecionar as condições e procedimentos nos experimentos em animais; 3) assegurar padrões „humanitários‟ na criação e no trato dos animais; e 4) assegurar visibilidade pública. Recentemente, tem sido possível observar também que as regulamentações visam forçar o uso de alternativas, quando elas existem.76
A esse respeito, a título de exemplificação, serão citadas legislações de diferentes países acerca da questão envolvendo a proteção animal, seja em relação ao bem estar animal, seja na sua utilização em experimentos científicos. Cumpre observar que a consulta das legislações a seguir – em sua maior parte – foi possível pela rede mundial de computadores.77