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A Dimensão Interdisciplinar do Meio Ambiente

1.2. E COLOGIA E M EIO A MBIENTE

1.2.2. A Dimensão Interdisciplinar do Meio Ambiente

“Ver a Terra como ela realmente é, pequena, azul e tão bela naquele silêncio eterno onde flutua, é o mesmo que ver a nós mesmos como viajantes, juntos nesta Terra, irmãos neste lugar luminoso e encantado, dentro do eterno vazio – irmãos que agora sabem que são verdadeiramente irmãos”. (Archibald Macleisch) 93

Disso decorre a necessidade de um questionamento profundo acerca

da maneira como a humanidade tem direcionado sua relação com o meio ambiente.

O homem é um ser social. O antecedente mais remoto da afirmação

clara e precisa de que o homem é um ser social por natureza encontra-se no século IV

a.C., com a conclusão de Aristóteles

94

de que “o homem é naturalmente um animal

político (politikón zoon)”. E foi Cícero quem traduziu o termo grego politikón pelo

termo latino socialis, donde “animal social”.

Tem-se, então, que o homem constitui o objeto de múltiplas ciências.

O mesmo sucede com o meio ambiente. O entorno do Homem desfigura-se ou

transfigura-se, em conformidade com o tratamento que a ação antrópica imprime ao

ambiente. São as Ciências Sociais capazes de explicar para acionar os mecanismos

psicológicos, sociais, econômicos, culturais e outros, disponíveis na sociedade, para

colaborar com outras ciências na conservação da vida sobre a Terra e no

desenvolvimento da espécie humana.

“A Terra é uma aldeia global”

95

– o meio ambiente de determinada

sociedade não é só aquele que a rodeia, ou no qual está inserida como parte no todo: é

92 SIRVINSKAS, Luís Paulo. Tutela constitucional do meio ambiente, Op. cit., p.28.

93 Um dia depois da foto do planeta Terra ter sido tirada na véspera do Natal de 1968, durante a missão da

nave espacial Apolo 8, o poeta americano Archibald Macleisch assim escreveu.

94 ARISTÓTELES. A Política, Op. cit., p. 09.

95 Aldeia Global é um termo criado pelo filósofo e educador canadense Herbert Marshall McLuhan, com

o intuito de indicar que as novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias e o progresso tecnológico tende a reduzir todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia: um mundo em que todos estariam, de certa forma, interligados. A expressão foi popularizada em suas obras “A Galáxia de Gutenberg” (1962) e, posteriormente, em “Os Meios de Comunicação como Extensão do homem”

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tudo quanto contribui para sua subsistência e desenvolvimento, independentemente do

tempo e lugar. Por esse motivo, a problemática ambiental é natural, humana, social,

permanente e sem fronteiras. Nesse sentido, G. Tyler Miller Jr.

96

adverte:

A crise ambiental não pode ser entendida em termos puramente

científicos. Devemos considerar os aspectos econômicos,

políticos, comportamentais e éticos desse problema complexo.

Daí porque a visão holística

97

e sistêmica do homem interagindo com

o mundo (meio ambiente) e do mundo interagindo com o homem tem invadido as

produções científicas e acadêmicas. Estudos desse tema nas mais diversas áreas do

conhecimento remetem à dimensão da transdisciplinaridade e interdisciplinaridade, pois

a preocupação com o ambiente alcança ramos do conhecimento muito além das ciências

jurídicas.

Sob essa ótica, Fritjof Capra

98

destaca a importância da visão

sistêmica da vida: “todo e qualquer organismo, desde a menor bactéria até os seres

humanos, passando pela imensa variedade de plantas e animais – é uma totalidade

integrada e, portanto, um sistema vivo”. Essa concepção percebe a necessidade da

consciência da inter-relação e interdependência essencial dos fenômenos físicos,

biológicos, psicológicos, sociais e culturais.

A propósito, para Edgar Morin

99

,

A crise do meio ambiente vai permitir o surgimento de grandes

programas de reflexão interdisciplinar, pondo em relevo

importantes questões de ordem epistemológica em domínios

diferentes: na interação da ciência da terra, da ciência da vida e

da natureza e das ciências sociais.

(1964). McLuhan foi o primeiro filósofo a tratar das transformações sociais provocadas pela revolução tecnológica do computador e das telecomunicações.

96 MILLER JR, G. Tyler. Living in the environment: concepts, problems and alternatives, Califórnia:

Wadsworth Publishing CO, 2004, p. 24.

97“O termo holístico, do grego holos, refere-se a uma compreensão da realidade a partir de totalidades

integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores. O holismo pode ser entendido como a teoria que propugna pela compreensão da interação dos elementos do Universo e em especial dos seres vivos e não apenas de uma soma dessas partes. Nesse sentido, dá preferência à análise do todo, do sistema completo e, não a partir da separação das respectivas partes componentes” (DUARTE, Marise Costa de Souza. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise, Op. cit., p. 32).

98 CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação, tradução de Álvaro Cabral, 2. ed., São Paulo: Cultrix, 1998, p.

45. Vide, a respeito, ____________. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas

vivos, São Paulo: Cultrix, 1996.

99 PENA-VEGA, Alfredo. O despertar ecológico: Edgar Morin e a ecologia complexa, tradução de

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O autor, parafraseando Paulo Afonso Ronca, ensina

100

:

O prefixo trans sugere transpassar, passar além, transpor. E

disciplina designa um conjunto de regulamentos destinados a

manter uma certa ordem. O trans atravessa a disciplina,

dilacera-a, impondo uma outra visão sobre ela mesma. O

pensamento transdisciplinar nos leva a buscar o universal, uma

nova dimensão. Cada área do conhecimento tem a sua

naturalidade, aquilo que

lhe é

próprio, mas

a

transdisciplinaridade busca o saber como um todo – visão

cósmica.

Segundo o Dicionário Básico de Filosofia

101

, transdisciplinaridade é

“a coordenação de todas as disciplinas e interdisciplinas do sistema de ensino inovado

sobre a base de uma axiomática geral, representando um sistema de níveis e objetivos

múltiplos: coordenação com vistas a uma finalidade comum dos sistemas”.

Dessa forma, observa-se que as relações ambientais expressam ações

não relacionadas estritamente a uma só disciplina. Pela própria natureza da área,

indicam processos, no mínimo, interdisciplinares.

Por sua vez, interdisciplinaridade traduz-se “pela axiomática comum

a um grupo de disciplinas conexas e definidas no nível hierárquico imediatamente

superior, o que introduz a noção de finalidade, especificada por um sistema de dois

níveis e de objetivos múltiplos: coordenação procedendo do nível superior”

102

.

Percebe-se, assim, que o pluralismo da vida contemporânea assenta-

se sobre inter-relações e interdisciplinaridade, uma vez que os problemas da sociedade

são também multidisciplinares, mas suas soluções serão necessariamente

interdisciplinares. O mesmo se aplica à problemática ambiental, nascida de causas

múltiplas e produtoras de múltiplos efeitos.

Na opinião de José de Ávila Aguiar Coimbra

103

:

100 MORIN, Edgar. Complexidade e transdisciplinaridade, tradução de Edgard de Assis Carvalho, 2. ed.,

Natal: EDUFRN, 2000, p. 185.

101 JAPIASSU, Hilton. Dicionário básico de filosofia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 146. 102 JAPIASSU, Hilton. Dicionário básico de filosofia, Op. cit., p. 148.

103 José de Ávila Aguiar Coimbra distingue multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar.

“Multidisciplinar, conceitua o autor, é a característica que se atribui a um tema, objeto ou abordagem para cuja exposição concorrem duas ou mais disciplinas. Uma abordagem multidisciplinar não reúne necessariamente todos os agentes em função de um texto ou compromisso entre eles. Cada qual continua a ver, a tratar seu objeto unicamente com os seus próprios critérios, sem vincular-se a qualquer outro que seja. Interdisciplinar, por sua vez é a característica que se atribui a um tema, objeto ou abordagem para cuja exposição ou concretização interessam-se duas ou mais disciplinas que, intencionalmente, estabelecem nexos e vínculos entre si. Daí resultam a busca de um entendimento comum e o

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Se a transdisciplinaridade destina-se a um grupo seleto de

pessoas – prerrogativa acadêmica, a interdisciplinaridade é um

imperativo, uma necessidade técnica, política e administrativa;

é imperativo de qualquer ação moderna eficaz. No campo

teórico,

a

interdisciplinaridade

procura

superar

a

compartimentação científica provocada pela excessiva

especialização da ciência moderna, cultivada de modo especial

pelas universidades. Faz-se necessária a interação de métodos

das diferentes disciplinas à busca de conceitos que unifiquem o

conhecimento. Devido ao seu caráter eminentemente teórico,

esta aplicação da interdisciplinaridade diz respeito ao

desenvolvimento intelectual ou científico. No campo prático, a

interdisciplinaridade se exercita na pesquisa conjunta e nos

trabalhos de campo. Visa superar a dissociação existente entre

o conhecimento e a realidade. O que interessa na

interdisciplinaridade é atingir resultados práticos e concretos.

Desse modo, há uma cumplicidade inata entre as Ciências Humanas

(sobretudo das Ciências Sociais) e as Ciências Naturais, pois ambas nasceram das

interrogações do Homem acerca da Natureza. Pode-se falar, então, de uma vocação

interdisciplinar das Ciências Humanas e do papel das Ciências Sociais no

gerenciamento do Meio Ambiente.

Edgar Morin

104

acentua, a esse respeito, que “quando nos limitamos

às disciplinas compartimentadas - ao vocabulário, à linguagem própria a cada disciplina

-, temos a impressão de estar diante de um quebra-cabeças cujas peças não conseguimos

juntar a fim de compor uma figura. Mas, a partir do momento que temos um certo

número de instrumentos conceituais que permitem reorganizar os conhecimentos –

como para as ciências da Terra, que permitem concebê-la como um sistema complexo

105

e que permitem utilizar uma causalidade feita de interações e de retroações incessantes -

envolvimento direto dos interlocutores, embora cada disciplina, ciência ou técnica conservem sua metodologia própria e se mantenham dentro dos limites do próprio campo. Busca uma convergência que facilite a fixação dos pontos comuns e a conciliação dos contrários. Por fim, transdisciplinaridade significa um passo além da interdisciplinaridade, na qual o cientista, o pesquisador ou o técnico estão vinculados a outros profissionais pelo nexo ou inter-relação existente entre as disciplinas, porém restritos à sua visão e metodologias, específicas. Aqui, no trabalho científico, os integrantes da equipe transcendem a sua formação acadêmica, vão além dela, criando um tipo de conhecimento diferente. Por exemplo, o economista incorporará ao seu trabalho significativos elementos da Sociologia, e o sociólogo dominará alguns setores da Economia” (COIMBRA, José de Ávila Aguiar. O outro lado do meio

ambiente: uma incursão humanista na questão ambiental, 2. ed., Campinas: Millennium, 2002, p. 289

e ss.).

104 MORIN, Edgar (org). A religação dos saberes, 3. ed., Rio de Janeiro: Bertrand, 2002, p. 491.

105 “A natureza não é mais considerada como desordem, passividade, meio amorfo: ela é uma totalidade

complexa; por sua vez, o homem não constitui mais uma entidade fechada em relação a essa totalidade complexa, ele é um sistema aberto, relação de autonomia-dependência organizadora no seio de um ecossistema” (MORIN, Edgar. Le paradigme perdu: la nature humaine, Paris: Editions du Seuil, 1973, p. 37).

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, temos a possibilidade de começar a descobrir o semblante de um conhecimento global

(...) Sem dúvida, é a relação que é a passarela permanente do conhecimento das partes

ao todo, do todo às partes, segundo a perspectiva de uma frase de Pascal (...): ‘Sendo

todas as coisas causadas e causadoras, auxiliadas e auxiliantes, mediatas e imediatas, e

sustentando-se todas mutuamente por meio de um elo natural e insensível que liga as

mais distantes e diferentes, eu assevero que é impossível conhecer o todo sem conhecer

particularmente as partes”.

Enfim, pode-se concluir que “(...) os problemas ambientais, como

todos os problemas que englobam uma grande parte dos seres vivos, quer sejam

biológicos ou sociais, aparecem a partir de uma exigência epistemológica inédita na

história das ciências: a de confrontar e integrar os universos aparentemente separados da

racionalidade e da normalização”

106

.

Da mesma maneira, relevante o papel do Direito, mormente o Direito

Ambiental - disciplina que já desponta com uma peculiaridade: seu caráter

eminentemente interdisciplinar.