1.2. E COLOGIA E M EIO A MBIENTE
1.2.3. Por Uma Outra Ecologia
“O mundo tornou-se perigoso, porque os homens
aprenderam a dominar a natureza antes de se dominarem a si mesmos”. (Albert Schweitzer)107
Certo é, como propõe Marcelo Gleiser
108, que de todos os valores
morais que podemos imaginar, o mais universal seja a preservação da vida. Não apenas
a vida humana. Quando percebemos o quanto nossas vidas dependem do planeta
109que
habitamos, damos-nos conta de que precisamos agir para preservar todas as formas de
vida. (...) O consumo
110não precisa ser predatório
111. Pode ser planejado para que
106 DUMAS, B. “Sciences normales et sciences humaines: les voies de l`interdisciplinarité pour la
résolution des problèmes environnementaux”, In: ROBERT, T. La recherche sociale en environnement:
nouveaux paradigmes, Montreal: Presses de l`Université de Montreal, 1996, p. 75-89.
107 Albert Schweitzer: laureado em 1952 com o Prêmio Nobel da Paz. Ante a visão de um mundo
desmoronado, declara: “Começaremos novamente. Devemos dirigir nosso olhar para a humanidade”. 108 GLEISER, Marcelo. “Uma ecologia espiritual”, Folha de São Paulo, Ciência A23, São Paulo,
15/08/2010.
109 O filme do diretor Christopher Nolan, “Interestelar”, retrata uma missão espacial que viaja em busca
de buracos negros e planetas além da galáxia enquanto o planeta definha” (ITZKOFF, Dave. “Terra arrasada”, Folha de São Paulo, Ilustrada E1, São Paulo, 10/11/2014).
110“A ideologia do progresso evoca a imagem de um avanço do espírito humano, uma concepção de
homem ´senhor e possuidor da natureza`, um tempo criador, donde a ideia de um crescimento para um estado sempre mais avançado de desenvolvimento, e em consequência, de uma ciência inesgotável,
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mantenha um equilíbrio saudável entre o que é produzido e o que é consumido. Quanto
mais saudável o planeta, mais saudável a economia
112.
Esclarece
o autor, “este é o século em que finalmente iremos
entender que precisamos estabelecer uma relação simbiótica com a Terra. Talvez essa
seja a lição mais importante que a ciência moderna tem a ensinar. O respeito à vida
como moral universal leva a uma ecologia espiritual na qual nós, como espécie
dominante do planeta, agimos como guardiões da vida. Com isso, a dimensão espiritual
que nos é tão importante ganha expressão na devoção ao planeta e às suas formas de
vida. Esse sendo de conexão espiritual com a natureza é celebrado tanto na ciência
quanto na religião; De Einstein a Santa Teresa de Ávila, o mundo é festejado como
sacro. As palavras variam, mesmo a motivação pode variar; mas, em sua essência, a
mensagem é a mesma. Acho difícil encontrar uma moral universal mais básica do que o
respeito à vida e ao planeta que a abriga de forma tão generosa”.
Nesse contexto, vale lembrar o clássico poema grego, épico atribuído
a Homero, “Odisseia”
113, no qual o herói Odisseu (ou Ulisses) é um protótipo do
cumulativa. Aqui, o desenvolvimento se torna uma escala de valor e uma unidade de medida, explica Bédard” (BÉDARD, Renée. “A administração municipal revista a partir de quatro modos de pensamento e da trifuncionalidade”, tradução de Zilá Mesquita e Lúcia Alves Muller, In: FACHIN, Roberto Costa; CHANLAT, Alain (orgs.). Governo municipal na América Latina: inovações e perplexidades, Porto Alegre: Sulina/Editora da Universidade/UFRGS, 1998, p. 299).
111 Vide obra de BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em
mercadoria, tradução de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
112 Em sentido contrário, o entendimento do escritor Jonathan Franzen. “No ensaio “Carbon Capture – Has Climate Change Made it Harder for People to Care about Conservation?”, edição de 06 de abril de 2015, da revista “The New Yorker”, e o filósofo Dale Jamieson, no livro “Razão em Tempos Escuros”, apontam o fracasso da luta contra o aquecimento global. Jamieson ao mesmo crê que a humanidade pode se adaptar, se banir o carvão e reciclar idéias morais corriqueiras. Para Frazen, ´ou salvamos o mundo e as futuras gerações do aquecimento global, ou preservamos os habitats e as espécies de pássaros sob risco de extinção – hoje, não no fim do século`. Segundo o autor, ´o climatismo aliena: A questão é se todos os que se preocupam com o ambiente estão obrigados a fazer do clima uma prioridade suprema. A mudança do clima é culpa de todos – em outras palavras, de ninguém. Todos podemos nos sentir bem por deplorá- la`. (...) Em outras palavras, pondera o filósofo Jamieson, ´o fracasso em prevenir ou conter significativamente a mudança do clima reflete o empobrecimento da razão prática, a paralisia da política e os limites da nossa capacidade cognitiva e afetiva. Nada disso tem chance alguma de mudar em breve`. Além de adaptação (preparar a infraestrutura para os efeitos do aquecimento global) e de se livrar tão cedo quanto possível da energia obtida do carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis, Jamieson afirma que ´só resta caminhar na direção do que ele chama de ética para o Antropoceno, virtudes tradicionais, como humildade, virtudes reinterpretadas, como temperança, e novas virtudes, como consideração, simplicidade, cooperação e respeito pela natureza`” (LEITE, Marcelo. “Iluminismo estorricado: a razão arde no fogo do aquecimento global”, Folha de São Paulo, Ilustríssima 3, São Paulo, 19/04/2015). A respeito, vide também o livro “The Sixth Extinction”, sem tradução em português, escrito pela jornalista americana Elizabeth Kolbert, que apresenta um estudo sobre as seis ondas de extinção que devastaram o planeta nos últimos 500 milhões de anos.
113 HOMERO. Odisseia, tradução de Christian Werner, São Paulo: Cosac Naify, 2014. Vide também
análise detalhada de PESSOA, Gabriela Sá. “A maior aventura de todos os tempos”, Folha de São Paulo, Ilustrada E1, São Paulo, 08/11/2014.
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humano, como aquele que consegue dominar as forças da natureza não pela
agressividade, mas sobretudo pela astúcia.
Todavia, como defende Eduardo Viveiros de Castro, “a
antropologia
114, hoje, exerce um papel tão importante quanto o da física para o
Renascimento. Dessa vez, em lugar da Terra, é o homem que deve ser tirado do centro
do universo”.
Num mundo em crise econômica, no qual se busca obsessivamente a
retomada do crescimento
115e sua aceleração, Tim Jackson
116defende o oposto: a
redução drástica do consumo e o fim do que chama de “fetiche da produtividade”.
Segundo seu entendimento, “vivemos num modelo econômico cuja estabilidade
depende do consumo contínuo e crescente, mas num planeta que não comporta mais
crescimento, ao menos como se fez até hoje. O consumo é insustentável para o planeta e
causa instabilidade econômica”.
A par disso, vale lembrar aqui a obra “O Pequeno Príncipe”, de
Antoine de Saint-Exúpery
117. Ficando no seu planeta tão bem cuidado, ensinou gerações
114“Observando o filme “Tarzan e o Menino da Selva”, constata-se que o sentido de humanidade não
pertence ao homem, mas aos seres vivos. Para um índio, o traço de união entre as espécies é justamente a humanidade, não a animalidade. A onça é gente para a onça, que vê o homem como porco. O porco é gente para o porco, que vê o homem como onça. A natureza muda conforme o ponto de vista e todos, sem distinção, são sujeitos da própria necessidade. Mas a onça, o homem e o porco não podem se ver como gente ao mesmo tempo. Alguém tem que servir de pasto. O índio tem enorme respeito pela alteridade e nenhum pela autoridade. Tidas como primitivas, coube às nações indígenas formular um raciocínio bem mais complexo do que a visão autocentrada que os civilizados têm de si mesmos” (TORRES, Fernanda. “Tupã”, Folha de São Paulo, Ilustrada E12, São Paulo, 14/11/2014).
115 Todas as medidas para prolongar a vida: educação, reflorestamento, proteção das florestas e dos
mananciais de água, despoluição dos rios, diminuição da emissão de gases pelos aviões, carros e fábricas... são ´cuidados paliativos`. Ao evitarão que nossa Terra morra. Elas não vão às raízes da enfermidade mortal. A enfermidade de que sofre a Terra é prazerosa, cria objetos maravilhosos que todos desejam e os países brigam uns com os outros para ter mais dessa deliciosa enfermidade. ´Crescimento econômico`: esse é o nome da doença. Há muito que se sabe que a Terra sofre dessa doença. Foi anunciado em 1968 pelo “Clube de Roma” no seu relatório “Os Limites do Crescimento”. Crescimento sem limites num planeta que tem limites não é possível. Mais cedo ou mais tarde o ´Dia do Julgamento` chega. Essa doença é mortal porque, para haver crescimento econômico é precisa que haja aumento no consumo de energia. Aumento de energia implica aumento do calor na superfície da Terra. O aumento do calor, por sua vez, aumentará o ritmo do aquecimento global” (ALVES, Rubem. “Cuidados paliativos”,
Folha de São Paulo, Cotidiano C2, São Paulo, 17/04/2007).
116 “Tim Jackson, economista, 55 anos, professor de desenvolvimento sustentável na Universidade de
Surrey (Reino Unido), autor do livro “Prosperity without Growth – Economics for a Finite Planet” (2009). Para ele, estimular o crescimento indefinidamente gera mercados instáveis e situações muito ruins, como as da Grécia, da Espanha e de Portugal, inclusive do meu próprio país, que adotou medidas de austeridade, punindo os mais pobres pela crise criada pelos ricos. (...) Os países desenvolvidos precisam reconfigurar o sistema econômico, porque o crescimento material do consumo precisa ser direcionado aos países mais pobres, onde são necessárias habitação, nutrição, educação, saúde” (CANÔNICO, Marco Aurélio. “Crise prova que atual modelo de crescimento é inviável”, Folha de São
Paulo, Cotidiano C8, São Paulo, 20/06/2012).
117 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe, tradução Dom Marcos Barbosa, São Paulo:
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e gerações que somos feitos de tempo e espaço – uma espécie chamada humanidade – e
que devemos cuidar tanto do espaço físico, o planeta, quanto de nossa temporalidade
eterna, o espírito.
Muitos de nós associamos o tempo atual ao declínio da civilização,
conscientes do estado crítico em que ela se encontra: falta-nos respeito pelo outro, fruto
de importante valor, a tolerância pela diversidade, que não só ameaça a base da vida
como também a sobrevivência material e espiritual do nosso planeta.
Por isso, chegou o momento de se abrir o coração e desejar um
mundo melhor. Como disse Antoine de Saint-Exupéry:
Só se enxerga bem com o coração, o essencial é invisível aos
olhos.
Assim também refere Ban Ki-Moon
118, quando analisando a “Cúpula
da Terra”, ocorrida há mais de 20 anos, no Rio de Janeiro, afirma que “as lacunas entre
os ricos e os pobres estão crescendo. Vemos a escassez alarmante de alimentos,
combustível e recursos naturais. (...) O crescimento econômico global se combinou com
o populacional, criando uma pressão sem precedentes sobre os ecossistemas. (...) A mãe
terra tem sido boa para nós. Façamos a retribuição da humanidade, respeitando seus
limites naturais. (...) A única solução possível hoje, como era há mais de 20 anos: o
desenvolvimento sustentável. (...) É o momento dos povos se unirem no propósito
comum em torno de uma visão compartilhada de nosso futuro: o futuro que nós
queremos”.
Destarte, observando os desafios que enfrentamos hoje, um dos
cenários é, sem dúvida, catastrófico
119: uma cidade sem água apropriada para consumo,
sem energia elétrica acessível e produzindo cada vez mais lixo; na paisagem, mais
asfalto e concreto, mais e mais viadutos, pontes e túneis, péssimas calçadas, parques e
118 KI-MOON, Ban. “O futuro que nós queremos”, Folha de São Paulo, Tendências/Debates, São Paulo,
Opinião A3, 03/06/2012). O documento intitulado “O futuro que queremos”, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), chama a atenção para a importância de uma governança ambiental. Disponível em: <http://www.onu.org.br>. Acesso em: 14/05/2015.
119 Vide obra de WEISMAN, Alan. O mundo sem nós (título original The world without us), tradução de
Paulo Antero S. Barbosa, São Paulo: Planeta do Brasil, 2007, que mistura ciência e especulação. “São muitas as questões levantadas pelo premiado jornalista Alan Weisman nesta investigação científica. Após entrevistar especialistas – zoólogos, biólogos, engenheiros e paleontólogos, – Weisman faz revelações fascinantes e, ao mesmo tempo, perturbadoras sobre o impacto da humanidade no planeta. Nós fomos responsáveis pela extinção de várias espécies, e a natureza sobreviveu. Mas o que aconteceria se, atacados por um vírus, desaparecêssemos? Quais seriam as primeiras criações humanas a sumir? E as últimas?”.
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praças residuais. E as pessoas cada vez mais imobilizadas e trancadas; em casas e
apartamentos cada vez mais caros, no carro, no trabalho, no shopping.
Mas também é possível vislumbrar – refere Raquel Rolnik
120, “um
cenário otimista onde podemos ter uma cidade em que o espaço público seja o elemento
estruturador, que contará com uma rede de transporte coletivo de alta qualidade, com
múltiplos modais, garantindo total liberdade de ir e vir para toda a população... Os
espaços privados individuais talvez se tornem ainda menores, mas estarão disponíveis
para todos, e a oferta e a qualidade do espaço público e sua utilização democrática serão
máximas. Ademais, graças à recuperação dos mananciais da cidade e da mudança no
modelo de gestão e consumo da água, todos os habitantes poderão usufruir desse
recurso. A produção de lixo também será mínima, tanto pela alta capacidade de
reciclagem e reaproveitamento quanto pela diminuição do consumo. A maior parte da
energia elétrica, em vez de comprada como mercadoria de luxo, será autoproduzida
pelos cidadãos em suas atividades”.
A utopia, aqui, não deve ser entendida como algo impossível. A
construção diária da utopia é o que pode nos levar a uma guinada. Para isso, é
necessário nos convencermos de que parte importante do excedente de riqueza que a
cidade produz deve ser usada para subsidiar suas demandas coletivas. Mas apenas isso
não é suficiente. Outra dimensão fundamental é a da mudança cultural
121.
Nas palavras de Eduardo Galeano
122:
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se
afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez
passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que
serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de
caminhar.
120 ROLNIK, Raquel. “São Paulo – catástrofe ou utopia?”, Folha de São Paulo, Cotidiano D2, São Paulo,
26/01/2015.
121 Analisa Rolnik, “são muitos os movimentos em São Paulo hoje que reclamam maior participação nas
definições e decisões de políticas públicas para a cidade, que atuam nos bairros, que reivindicam moradia adequada, áreas públicas, mais praças, parques e espaços culturais. Que não se conformam com a força de um mercado que, da noite para o dia, destrói memórias, afetos e paisagens. Que não aguentam mais o desconforto, a desigualdade e a violência no trânsito e por isso cobram mais eficiência e qualidade no transporte público, mais e melhores espaços para ciclistas e pedestres” (ROLNIK, Raquel. “São Paulo – catástrofe ou utopia?”, Folha de São Paulo, Cotidiano D2, São Paulo, 26/01/2015). E complementa Paula Cesarino Costa: “refletir sobre os hábitos é uma forma de exercer consumo consciente. Toda mudança começa ao redor de quem as deseja” (COSTA, Paula Cesarino. “O hábito faz a crise”, Folha de
São Paulo, Opinião A2, São Paulo, 12/01/2015).
122 GALEANO, Eduardo. As palavras andantes, tradução de Eric Nepomuceno, São Paulo: L&PM, 1994,