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O Meio Ambiente e o art 225 da Constituição de 1988

1.5 A T UTELA C ONSTITUCIONAL DO M EIO A MBIENTE

1.5.2 O Meio Ambiente e o art 225 da Constituição de 1988

Pelo prisma constitucional, o meio ambiente constitui-se em bem

jurídico fundamental tutelado pela Constituição Federal de 1988. Ao incluir o meio

ambiente como um bem jurídico passível de tutela, o constituinte delimitou a existência

de uma nova dimensão do direito fundamental à vida e do próprio princípio da

185 BORGES, José Souto Maior. Curso de direito comunitário, Op. cit., p. 518.

186 De acordo com Marcelo Varella, “o direito à proteção do ambiente, consubstanciado na prerrogativa

de usufruí-lo como um bem ecologicamente equilibrado, é fruto da evolução dos direitos, tratando-se de um produto histórico, diferente das proteções jurídicas de bens ambientais esparsos em legislações anteriores; esse direito vem em resposta às necessidades do homem no final do século XX, desnudando a ampliação do conteúdo dos direitos humanos” (VARELLA, Marcelo Dias. O novo em direito ambiental,

Op. cit., p. 11). Acerca da evolução dos direitos do homem, ou seja, de sua multiplicação, pode-se citar a obra do italiano BOBBIO, Norberto. A era dos direitos, 11. ed., Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 67, quando dispõe que “o processo de multiplicação dos direitos humanos possui estreita conexão com as mudanças sociais, demonstrando uma relação íntima entre o homem e a sociedade em que vive. Prova disso é que as exigências de direitos sociais tornaram-se tanto mais numerosas quanto mais rápidas e profundas foram as transformações da sociedade”. Maria Helena Diniz esclarece que: “o direito ao meio ambiente sadio é um direito humano, consagrado pela norma constitucional como um dos direitos fundamentais. Com isso, todos têm a obrigação de reconhecer o direito ao meio ambiente e de proteger os interesses ambientais, pois os demais direitos humanos básicos supõem um meio ambiente saudável” (DINIZ, Maria Helena. O estado atual do biodireito, 2. ed., aum. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-01-2002), São Paulo: Saraiva, 2006, p. 607).

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dignidade da pessoa humana, haja vista ser no meio ambiente o espaço em que se

desenvolve a vida humana. Assim expressa Ingo Wolfgang Sarlet

187

:

Os direitos e garantias fundamentais encontram seu

fundamento na dignidade da pessoa humana, mesmo que de

modo e intensidade variáveis.

Desse modo, a análise da relação homem/meio ambiente sob o ponto

de vista do sistema jurídico, especificamente na abordagem do direito constitucional,

alicerça-se nos direitos e nos deveres fundamentais como posições jurídicas que podem

ser reconduzidas a este bem jurídico intitulado ambiente.

Com efeito, a crise ecológica causa impacto no Direito que, por sua

vez, reclama um impacto legal sobre a crise ecológica. Assim, pondera José Luís

Serrano

188

:

La relación entre Ecologia y Derecho es bicondicional. De la

misma forma que el Derecho ambiental es un importante

instrumento de intervención en las relaciones entre el sistema

social y el entorno natural, así también la Ecologia, en cuanto

paradigma, aporta a la ciencia jurídica los instrumentos

metodológicos por los que deberá pasar la refundación

contemporânea.

Pronunciando-se ainda sobre a Ecologia, afirma: “lo que ocurre es

que ésta última no es sólo el método del Derecho Ambiental, sino una metodología

conpleja utilizable por cualquier rama del ordenamiento jurídico

189

.

Precisas são as palavras de Herman Benjamim

190

ao retratar a

situação de crise ambiental que o mundo enfrenta: “a crise ambiental (...), que hoje

ocupa a agenda dos políticos, dos economistas, dos juristas, dos meios de comunicação

e principalmente da opinião pública, é fruto da revolução industrial, revolução esta que

187 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição

Federal de 1988, 8. ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008, p. 81-82.

188 SERRANO, José Luis. “Concepto, formación y autonomia del derecho ambiental”, In: VARELA,

Marcelo Dias et. al. (orgs.). O novo em direito ambiental, Op. cit., p. 33-49. “A relação entre ecologia e direito é bicondicional. Da mesma forma que o Direito ambiental é um importante instrumento de intervenção nas relações entre o sistema social e o meio natural, assim também a Ecologia, enquanto paradigma, fornece à ciência jurídica os instrumentos metodológicos pelos quais deverá passar a refundação contemporânea”. (tradução livre da autora)

189 “O que ocorre é que esta última não é somente o método do Direito Ambiental, mas uma metodologia

complexa utilizável por qualquer ramo do ordenamento jurídico”. (tradução livre da autora)

190 BENJAMIN, Antônio Herman V. “A proteção do meio ambiente nos países menos desenvolvidos: o

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surgiu com a promessa de unidade universal, de paz e de bem-estar para todos, sem se

preocupar, contudo, com os seus efeitos no meio ambiente. De um lado, apesar do

inegável crescimento econômico (desigual) e do processo tecnológico que trouxe, não

cumpriu aquilo que prometeu; do outro, nos deixou um débito ambiental que

dificilmente conseguiremos resgatar”.

Pode-se destacar, portanto, que “além de um Direito Ambiental como

disciplina da ciência jurídica, verifica-se a existência de uma ecologia jurídica, que

diante do Direito, coloca-se numa situação paradigmática”

191

.

A respeito da necessidade da tutela jurídica ao meio ambiente,

Miguel Reale

192

observa:

A civilização tem isto de terrível: o poder indiscriminado do

homem abafando os valores da Natureza. Se antes recorríamos

a esta para dar uma base estável ao Direito (e, no fundo, essa é

a razão do Direito Natural), assistimos, hoje, a uma trágica

inversão, sendo o homem obrigado a recorrer ao Direito para

salvar a natureza que morre.

E Herman Duran de la Fuente

193

acrescenta:

Em materia ambiental, el Derecho nos es um fin em si mismo

sino um médio para el logro dos objetivos fijados em lãs

políticas adoptadas.

Na classificação doutrinária constitucional, o meio ambiente

enquadra-se entre os direitos de terceira geração

194

. Estes, no dizer de Paulo

191 CARDOSO, Roxana Borges. “Direito ambiental e teoria jurídica no final do século XX”, In:

VARELA, Marcelo Dias et. al. (orgs.). O novo em direito ambiental, Op. cit., p. 11-32.

192 REALE, Miguel. Memória, 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1987, v. 1, p. 297.

193 FUENTE, Herman Duran de la. Gestión ambientalmente adecuada de resíduos sólidos: un enfoque de política integral, Comissión Econômica para América Latina e el Caribe (CEPAL), 1997, p. 22. “Em matéria ambiental, o Direito não é um fim em si mesmo, mas um meio para a realização dos objetivos fixados nas políticas adotadas”. (tradução livre da autora)

194 Segundo entendimento do Ministro Celso de Mello (STF MS 22.164-0 SP, Rel. Min. Celso de Mello):

“O meio ambiente eleva-se ao nível constitucional. Essa prerrogativa consiste no reconhecimento de que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Trata-se, consoante, já proclamou o Supremo Tribunal Federal (STF RE 134.297-SP, Rel. Min. Celso de Mello), de um típico direito da terceira geração, que assiste, de modo subjetivamente indeterminado, a todo gênero humano, circunstância essa que justifica a especial obrigação – que incumbe ao Estado e à própria coletividade – de defendê-lo e de preservá-lo em benefício das presentes e futuras gerações (...) (LAFER, Celso. A

reconstrução dos direitos humanos, São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 131-132). “(...) os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos (...)”. No mesmo sentido, MS-221164/SP (DJ 17/11/1995) e RE-134297/SP (DJ 22/09/1995).

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Bonavides

195

, “não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um

indivíduo, de um grupo ou de um determinado Estado. Têm primeiro por destinatário o

gênero humano mesmo, num momento expressivo de sua afirmação como valor

supremo em termos de existencialidade concreta”.

A Constituição Federal de 1988 declarou que “todos têm direito ao

meio ambiente ecologicamente equilibrado”, consoante o disposto no caput do art. 225.

É direito fundamental da pessoa humana. É direito fundamental, embora não se encontre

arrolado entre aqueles do Título II, por força do §2º, do art. 5º.

Trata-se, pois, de direito que gravita em torno do direito à vida (art.

5º, caput, da Constituição Federal de 1988). Este é a matriz de todos os demais direitos

fundamentais do homem, de modo que orientará toda a tutela do meio ambiente. O meio

ambiente saudável e equilibrado é fundamental para garantir a dignidade da pessoa

humana e a vida em geral, o que implica cidadania

196

. No dizer de Habermas

197

:

O conceito de cidadania amplia os papéis do homem,

ressaltando que tal expressão é empregada, não apenas para

definir a pertença a uma determinada organização estatal, mas

também para caracterizar direitos e deveres dos cidadãos.

O citado José Juste Ruiz

198

ensina, ainda, que:

O Direito à proteção ambiental configura um verdadeiro direito

fundamental de terceira dimensão/geração

199

, pois somente

com uma consciência moral e ética, e um verdadeiro sentido de

solidariedade, é que o ambiente poderá ser preservado.

195 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional, 13. ed., São Paulo: Malheiros, 2003, p. 569. 196 “A cidadania hoje é entendida como a condição existencial marcada pela qualidade de vida em que as

pessoas possam usufruir, com efetividade, dos bens naturais produzidos pelo trabalho, dos bens políticos decorrentes da sociabilidade e dos bens simbólicos gestados e acumulados pela cultura. Ser plenamente humano, nas condições da atualidade é ser cidadão” (MILARÉ, Édis. Direito do ambiente, Op. cit., p. 12).

197 HABERMAS, Jürgen. “Soberania popular como procedimento”, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo,

n. 26, março 1990, p. 107-113.

198 RUIZ, José Juste. Derecho internacional del medio ambiente, Op. cit., p. 19. “El derecho a la

protección del medio ambiente establece un derecho fundamental real de dimensión tercera/generación, porque sólo con la conciencia y la ética moral y un verdadero sentido de la solidaridad, es que el medio ambiente puede ser preservado”. (tradução livre da autora)

199 LAFER, Celso. “A Internacionalização dos direitos humanos: o desafio do direito a ter direitos”,

Revista do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, São Paulo, v. 75, n. 75, 2005, p. 37-54. “Os direitos de terceira geração ampliaram a questão da titularidade, pois esta não se limita ao indivíduo em particular, mas aos grupos humanos, como a família, o povo, a nação, as coletividades regionais ou étnicas ou a própria humanidade”. Para Norberto Bobbio, “os direitos de terceira geração, constituindo uma categoria, possuem características incertas e de diferentes naturezas, dificultando a sua compreensão. Na opinião do autor, o direito mais relevante dessa categoria é o reivindicado pelo movimento ambientalista: “o de viver num ambiente não poluído” (BOBBIO, Norberto. A era dos direitos, Op. cit., p. 131).

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E mais. Na lição de Hugo Nigro Mazzilli

200

, “o meio ambiente é um

interesse difuso tão abrangente que chega a coincidir com o interesse público”.

A universalização da consciência ecológica gerou, gradativamente, a

positivação, nas constituições, de normas dispondo sobre a proteção ambiental. Essa

abordagem constitucional não exclui a importância normativa constitucional, assim

como a necessidade de um (re)ordenamento jurídico ou de extensão e ampliação de

demandas nos níveis específicos, regionais e locais, quando o mundo da vida assim o

exigir. Esta ideia é medular no concernente às normas que regem a proteção do meio

ambiente, haja vista serem as normas infraconstitucionais necessárias para a

manutenção dos princípios que norteiam a proteção do ambiente na Carta

Constitucional.

Assim sendo, assume-se o ponto de vista jurídico-constitucional para

caracterizar a proteção ambiental como parte integrante do grupo seleto dos direitos

fundamentais da Constituição Brasileira de 1988.

O direito à proteção ambiental representa mais do que a descrição da

existência de um direito: é um direito de proteção ao meio ambiente, é um direito

portador de uma mensagem de interação entre o homem e a natureza, para que se

estabeleça um relacionamento mais harmonioso e equilibrado. Daí tratar-se de um

direito de caráter horizontal, representando um direito fundamental de caráter erga

omnes. Explica Derani

201

:

O direito e o dever fundamental do meio ambiente

consubstanciam-se em um caráter de função mista em relação à

teoria dos direitos fundamentais, em virtude da diversidade de

normas existentes no artigo 225 da Constituição Federal de

1988. O direito fundamental de proteção ambiental, assim

como o dever, possui um caráter em sentido prestacional,

quando cumpre ao Estado, por exemplo, prestar proteção aos

recursos naturais

– representados pelo ecossistema

ecologicamente equilibrado

– ou a promoção de alguma

atividade para a efetiva proteção do meio ambiente, contra

intervenções de terceiros e do próprio Poder Público. Assume,

ainda, um caráter em sentido de defesa quando proíbem seus

destinatários de destruir, de afetar negativamente o objeto

tutelado.

200 MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo, São Paulo: Saraiva, 20. ed., rev. e

atual., 2007, p. 83.

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Assim, além de configurar um direito fundamental, caracteriza-se

também como um dever fundamental e, principalmente, como responsabilidade do

homem na construção de um novo ordenamento jurídico, adequado às constantes

transformações sociais, econômicas e ambientais.