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ESTRATÉGIAS DEFENSIVAS UTILIZADAS PELOS PROFISSIONAIS DE

ENFERMAGEM

Levando em consideração a Psicodinâmica do trabalho, a normalidade psíquica do trabalhador se mantém não pela ausência de sofrimento, mas também pela possibilidade de defender-se desse sofrimento e transformá-lo em prazer. Quando o sofrimento não se segue de descompensação psicopatológica é porque contra ele o sujeito emprega defesas que lhe permitem controlá-lo (DEJOURS, 2011).

Segundo Dejours (2008), as contradições da relação entre capital e trabalho são os motivos que conduzem ao adoecer do trabalhador e ao sofrimento físico, psíquico e emocional. O autor constata que o avanço tecnológico e as novas organizações do trabalho não trouxeram o anunciado fim do trabalho penoso, ao contrário, acentuaram as desigualdades e a injustiça social, e trouxeram formas de sofrimento qualitativamente mais complexas e sutis, sobretudo do ponto de vista psíquico.

Por isso, o contexto de trabalho apresenta-se como o cenário em que se desenvolvem as significações psíquicas e a construção de relações intersubjetivas, designadas relações socioprofissionais, possibilitadas pelas condições de trabalho e mediadas pela organização do trabalho (DEJOURS, 2008).

Esse contexto de trabalho, nas suas três dimensões (organização do trabalho, condições de trabalho e relações socioprofissionais), influencia o prazer e o sofrimento, que são constitutivos da subjetividade no trabalho. São vivências que retratam o sentido dado ao trabalho como resultante da interação entre condições subjetivas (dos sujeitos) e objetivas (da realidade de trabalho) (AUGUSTO; FREITAS; MENDES, 2014).

dinâmicas internas das situações e formas de organização do trabalho, da criação das relações subjetivas e de poder entre a equipe, das condutas e das ações dos trabalhadores (MENDES; CRUZ, 2004). Para Dejours, Abdoucheli e Jayet (1994), quando os trabalhadores realizam o trabalho prescrito, o qual corresponde aos anseios da organização, para não adoecer utilizam estratégias defensivas contra as vivências de sofrimento.

No caso de haver o sofrimento no trabalho, Dejours (2008) considera que para lutar contra esse sofrimento, os trabalhadores começam a desenvolver defesas individuais e coletivas. As estratégias de defesa podem ser conscientes ou inconscientes, mas representam em ambos os casos uma recusa de sofrer, uma elaboração psíquica sobre o que faz sofrer, aprofundando a contradição entre a realidade vivenciada pelo trabalhador e a organização do trabalho, já que neste “real do trabalho” a vivência é de fracasso e sofrimento.

A diferença entre os mecanismos de defesa individual e um coletivo está no fato de que o primeiro permanece sem a presença física do objeto que se encontra interiorizada. Já o mecanismo de defesa coletivo depende da presença de condições externas e se sustenta no consenso de um grupo específico de trabalhadores (regras) (DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 2015).

As estratégias defensivas detêm significativo papel para a adaptação ao sofrimento, todavia são de natureza individual, e não atuam sobre a violência social. As estratégias coletivas de defesa necessitam de um consenso do grupo e dependem de condições externas ao sujeito. Essas estratégias são construídas por um grupo de trabalhadores para resistir aos efeitos desestabilizadores e para lidar com as contradições advindas do trabalho. Elas contribuem para a coesão do coletivo de trabalho. No entanto, não são inesgotáveis, podendo tornar-se insuficientes para protegerem a saúde do trabalhador diante do acirramento das situações agravantes de sofrimento (DEJOURS, 2006).

Dejours (2004) classifica as defesas como de (a) proteção (que são formas de pensar e agir de modo a proteger-se do sofrimento advindo do trabalho racionalizando ou evitando o sofrimento e com isso essas defesas auxiliam o trabalhador a tornar-se alheio às causas do sofrimento, tendo por consequências a intensificação deste ou o adoecimento); (b) adaptação; e (c) exploração (as defesas de adaptação e de exploração estão relacionadas à submissão aos desejos de produção da organização, em que o trabalhador se sujeita a comportamentos

inconscientes que atendam à produção e ao funcionamento, por vezes, perverso da organização do trabalho).

No funcionamento das estratégias defensivas de vítimas passivas, os trabalhadores colocam-se na posição de agentes ativos de um desafio ou de uma minimização diante da pressão patogênica, sendo essa operação estritamente mental, pois não modifica a realidade da pressão patogênica (DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 2015).

As estratégias de defesas permitem ao trabalhador permanecer na normalidade mesmo diante da mais perversa forma de organização, funcionam como uma espécie de anestesia contra o sofrimento causado pelo trabalho. No entanto, quando utilizadas de forma exacerbada, podem desencadear um forte processo de alienação. Implicam negação, ao ponto de o sujeito não mais ter a capacidade de pensar e agir contra as arbitrariedades no ambiente de trabalho. Quando isso acontece, inicia-se um processo de banalização do mal e esse processo passa a desencadear doenças (DEJOURS, 2011).

Buscando mascarar e ocultar o sofrimento no trabalho, Dejours (1994) descreve uma ideologia que utiliza mecanismos de defesa elaborados pelos trabalhadores na cena do trabalho para enfrentar o sofrimento: Enfrentar o sofrimento no silêncio e só verbalizar no consultório médico; desfazer-se das pressões dos trabalhos penosos; recusar-se a cumprimentar os colegas (para evitar sofrimento ou algo que represente que um conflito possa acontecer (conversas, cumprimentos, refeições juntos); atitude de fechamento em uma autonomia máxima, de silêncios perante a hierarquia superior, adotando uma ideologia de cada um para si; desvencilhar-se das responsabilidades.

Ao utilizar os mecanismos de defesa o trabalhador procura uma adaptação e enfrentamento ao sofrimento, cabendo à organização do trabalho compreender a procura, a descoberta, o emprego e a experimentação de um compromisso entre os desejos e a realidade. Quando o sofrimento se transforma em criatividade, traz como contribuição benéfica o aumento da resistência ao risco de desestabilização psíquica e somática e o trabalho passa a funcionar como mediador da saúde (DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 1994).

As experiências de prazer surgem do amálgama que o trabalho traz para o corpo. A psique e as relações interpessoais se evidenciam por meio da gratificação, da realização, do reconhecimento, da liberdade e da valorização no trabalho.

Constituem como um dos indicadores de saúde no trabalho por proporcionar a estruturação psíquica, a identidade e a expressão da subjetividade no trabalho, de modo a viabilizar as negociações, a formação de compromisso e a ressonância entre o subjetivo e a realidade concreta de trabalho (DEJOURS, 2008).

Para afastar a possibilidade de adoecimento psíquico e fazer frente aos constrangimentos oriundos da organização do trabalho, o indivíduo também utiliza o recurso da mobilização subjetiva. Esse recurso viabiliza a administração coletiva da organização do trabalho, afasta a possibilidade de adoecimento psíquico e minimiza a necessidade do uso de estratégias defensivas. A utilização de recursos como cooperação e colaboração dos trabalhadores para a organização do trabalho favorece aos trabalhadores superarem coletivamente as contradições que surgem da natureza ou da essência da organização prescrita do trabalho, atuam de maneira resolutiva em relação à eficiência do trabalho e economia do sofrimento (AUGUSTO; FREITAS; MENDES, 2014).

Para Dejours (2008), a cooperação se viabiliza pelo espaço público de discussão que é construído pelos trabalhadores no qual são partilhadas experiências que propiciam o enfrentamento do sofrimento advindo da organização do trabalho. Já a mobilização tem sua principal fonte de energia não na esperança de felicidade, pois sempre duvidamos dos resultados de uma transformação política, mas na cólera contra o sofrimento e a injustiça considerados intoleráveis.

No novo modelo de atenção à saúde, há compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenção que vai além de práticas curativas. A partir do movimento de reforma psiquiátrica foi possível redirecionar a assistência em saúde mental e isso repercutiu em vários aspectos na prática da enfermagem que passou a ser desenvolvida em diversificados serviços/dispositivos.

O trabalho em saúde mental constitui grande desafio em virtude de suas especificidades, as quais requerem dos trabalhadores habilidades para lidar com o ser humano, tendo em vista compreendê-lo em uma perspectiva da integralidade do cuidado em saúde. No cotidiano laboral, os profissionais defrontam-se com o sofrimento e a loucura, o que torna o ambiente permeado por intensa produção subjetiva e intersubjetiva (MACEDO et al., 2013).

É relevante ressaltar que as atribuições dos profissionais de enfermagem se constituem por ações em conjunto, interligando-se e compreendendo-se naquilo que possa ser melhor para o cuidar dos indivíduos em sofrimento mental. Pelas

singularidades existentes no CAPS, entende-se que o trabalho da enfermagem se insere em uma prática que vai além dos chamados "recursos tradicionais", inclui a pessoa em sofrimento mental, a família e a sociedade, e isso exige dos profissionais a execução de atividades direcionadas a um grupo ampliado para o qual a enfermagem deverá utilizar o saber acumulado na profissão e agregá-lo ao que é necessário na prática cotidiana do CAPS (SOARES et al., 2011).

No exercício de suas atribuições, os profissionais de enfermagem dos CAPS podem experienciar vários conflitos, demandando desses profissionais maturidade e desenvolvimento pessoal e profissional. Ferreira e Barros (2003) afirmam que os conflitos ocasionados pelo contexto de trabalho podem ser proporcionados por vivências de prazer e sofrimento ao sujeito, e a (in)compatibilidade entre a tarefa e a atividade pode interferir, positiva ou negativamente, nessas vivências e, consequentemente, na saúde dos trabalhadores.

Por isso que Thofehrn et al. (2011) afirma que o trabalho desenvolvido pelos profissionais de enfermagem não é considerado neutro e pode facilitar a saúde ou a doença nesses trabalhadores. O homem interpreta a realidade laboral na qual está inserido reagindo de forma física, mental e afetiva, o que produz alterações que ocasionam um processo em que a realidade psíquica e a realidade do trabalho constituem a subjetividade do sujeito trabalhador.

Estudos de Guimarães et al. (2009), Teixeira Junior, Kantorski e Olschowsky (2009), Schneider et al. (2009), Dias, Aranha e Silva (2011) apontaram inúmeras condições de trabalho desfavoráveis e potencializadoras de desgaste, angústia e sofrimentos dos trabalhadores dos CAPS. Relatos de falta de recursos humanos, materiais para a realização de oficinas, transporte para as visitas domiciliares, falta de alimentação de qualidade para os usuários do serviço, qualificação profissional para efetivar a rede de cuidados em saúde mental, centralidade do médico na tomada de decisões e a hegemonia do saber psiquiátrico sobre as práticas de promoção de cidadania, saúde e reinserção social, acúmulo de atividades realizadas pelo enfermeiro e pouco reconhecimento do seu trabalho, baixos salários, infraestrutura deficiente e falta de reconhecimento pelos membros da equipe produzem insatisfação no trabalho.

A partir das condições de trabalho elencadas acima vivenciadas pelos profissionais de enfermagem nos CAPS, observa-se que a relação trabalhador- instituição e trabalhador-usuário demandam certo gasto de energia e adaptação.

O contato direto com a realidade e/ou sofrimento mental do próximo (elementos próprios do tipo de trabalho desenvolvido nos CAPS), construção de laços efetivos e identificação que, muitas vezes, se estabelecem entre o profissional e o usuário, somados às características individuais de cada trabalhador, podem desencadear sentimentos de angústia, aflição e frustração, levando a um processo de desgaste.

Dessa forma, considera-se as dimensões que podem ser oferecidas aos trabalhadores no intuito de criar melhores condições de organização de trabalho, as quais permitam enfrentamento de desgaste e sofrimento e que possibilitem aos profissionais aprender a lidar com os limites e dificuldades na realização do seu trabalho. Isso posto contribuirá para minimizar o risco de adoecimento psíquico e físico do trabalhador.

Diante dessas situações, é importante destacar que os profissionais de enfermagem vivenciam, durante seu trabalho, a frequente procura por adaptação entre o real (organização do trabalho) e o ideal, o que ocasiona sentimentos ambíguos, resultados e efeitos de maior ou menor importância sobre a vida cotidiana (BECK, 2010).

4 MATERIAIS E MÉTODOS