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Capítulo III A Teoria das Representações Sociais e a recepção da mudança para a

3. A dinâmica societal dialéctica entre estabilidade e mudança

Ao clarificar o que distingue a TRS de outras abordagens da psicologia social sobre o conhecimento social, Moscovici (2005) salienta, para além da natureza partilhada das

representações e da importância da comunicação e das práticas quotidianas para o acto representacional, a atenção que é dada à sua constante mutabilidade. Nesta perspectiva, a dinâmica da mudança social encontra-se associada ao intercâmbio entre diferentes esferas da sociedade, com as suas distintas racionalidades. São os encontros entre as esferas técnico- científica, artística, político-legal e pública que introduzem transformações mútuas entre elas, contribuindo para a disseminação, negociação e transformação dos conhecimentos que lhes estão associados. A TRS propõe, assim, que o conhecimento social é simultaneamente estável e dinâmico, pois reproduz padrões sociais e culturais, mas também gera novas ideias e práticas. Pode-se considerar, portanto, que a abordagem das representações sociais tem como projectos (1) examinar como se modifica o pensamento quotidiano e o conhecimento social ao ser alimentado por diferentes sistemas sociais e (2) analisar como isto ocorre por meio da comunicação, que põe as novas ideias ou propostas em circulação na sociedade e, ao mesmo tempo, as vai alterando (Vala e Castro, 2011). Em muitos casos, a mudança social não é imediata, vai ocorrendo ao longo de um período de tempo que pode ser mais ou menos prolongado (Wagner et al., 2002), o que sugere a necessidade de examinarmos a mudança recorrendo a uma perspectiva temporal (Bauer e Gaskell, 1999, 2008; Castro et al., 2009).

Um exemplo de uma proposta neste sentido tem que ver com a forma como a mudança normativa tem sido introduzida através da inovação legal (ver Capítulo 1; Castro et al., 2009; Castro e Mouro, 2011). A organização da mudança em fases permitiu, para o caso específico das preocupações com a conservação da natureza, concluir que nos encontramos na fase de Generalização da mudança normativa (Castro et al., 2009), aquele em que indivíduos e comunidades são confrontados com as novas propostas legais – e em que o seu apoio e aceitação das leis é determinante para a ocorrência de mudanças. Permitiu mostrar também que o estádio anterior, o da Institucionalização da mudança, é particularmente importante para a compreensão da fase de generalização, uma vez que as opções sobre que conhecimento social é institucionalizado podem conduzir à exclusão, marginalização ou valorização de determinadas subjectividades e identidades (Adams e Markus, 2001; Campbell e Jovchelovitch, 2000; Howarth, 2006) em detrimento de outras. Os trabalhos de Howarth (2004, 2006) nas escolas inglesas ilustram exactamente como os currículos escolares e as práticas institucionais (re)constroem representações racializantes das “minorias étnicas”, posicionando os alunos negros como um Outro diferente e ameaçador. No caso das leis para a conservação da biodiversidade, foi institucionalizada uma versão híbrida e moderada das preocupações ambientais que estiveram na génese do movimento ecologista (Castro, 2002a;

Rosa e Silva, 2005), instituída através do conceito de “desenvolvimento sustentável”, como já referimos (Capítulo 1).

Daqui se conclui que os processos de debate, negociação e transformação do conhecimento que ocorrem ao nível macro-social, entre grupos e instituições, têm necessariamente reflexo nos processos que ocorrem a um nível micro, quando os indivíduos recorrem às categorias e argumentos que derivam desse debate para atribuir sentido às suas vivências quotidianas (Jovchelovitch, 2007; Moscovici, 1988). No caso das questões ambientais de protecção da biodiversidade, o debate prévio conduziu a um alargado consenso em torno da importância de se proteger o ambiente, embora sem grande reflexo sobre as práticas quotidianas (Buijs, 2009; Castro, 2006; Hovardas et al., 2009; Vining e Ebro, 2001).

Para a TRS, a dinâmica entre estabilidade e mudança social está também estreitamente ligada à conceptualização do conhecimento social como integrando, nos seus campos representacionais, conteúdos muito diversos, que podem ser articulados pelos indivíduos de diferentes formas consoante os seus objectivos ou projectos (Bauer e Gaskell 2001, 2008; Castro, 2006; Moscovici, 1961/1976). Do confronto entre novos e velhos conhecimentos resultam formas de adaptação e resistência às propostas de mudança que permitem aos actores sociais ganhar espaço para debater, transformar e negociar essas propostas (e.g., Castro e Batel, 2008; Castro, Batel, Devine-Wright et al., 2010; Duarte, Mouro e Neves, 2010; Gervais e Jovchelovitch, 1998).

A pesquisa recente enquadrada por esta abordagem tem mostrado que é frequente ocorrerem processos de hibridização dos campos representacionais através dos quais estes se transformam para acomodar velhas e novas ideias sobre um determinado objecto social (Castro e Lima, 2001; Jovchelovitch, 2007; Jovchelovitch e Gervais, 1999). Neste sentido, os estudos de Jovchelovitch e Gervais (1999; Gervais e Jovchelovitch, 1998) ilustram como a convivência entre diferentes grupos culturais altera as representações e o conhecimento partilhado. Estes estudos sugerem que a comunidade Chinesa em Londres recorre quer ao sistema de saúde da medicina ocidental quer ao conhecimento tradicional chinês consoante as necessidades contextuais e as preocupações identitárias. Estes processos de hibridização permitem, assim, que dimensões aparentemente contraditórias assumam diferentes funções na relação das representações com as práticas, sendo utilizadas de modo diferencial consoante se pretende justificar a adesão a uma prática ou minimizar a sua importância (Castro, 2000; Moloney e Walker, 2002, 2005).

As representações híbridas, expressas pelos mesmos indivíduos ou grupos, evidenciam que modos de pensar e agir heterogéneos e distintos podem ser conciliados para gerir as

vivências quotidianas (Gervais e Jovchelovitch, 1998; Wagner et al., 1999), um fenómeno que a teoria indica expressar “polifasia cognitiva” (Jovchelovitch, 2002, 2007; Moscovici, 1976). A polifasia cognitiva pode ser entendida como expressão do uso de recursos potencialmente contraditórios disponíveis nos campos representacionais (Renedo e Jovchelovitch, 2007) e parece ser um mecanismo útil para lidar com uma fase de adaptação a novas ideias ou práticas (Castro, 2006; Gervais e Jovchelovitch, 1998; Kurz et al., 2005; Moloney e Walker, 2002, 2005; Wagner et al., 1999).

Isto é patente, por exemplo, nos trabalhos de Wagner e colegas (1999, 2000). Estes estudos ilustram como, na Índia, as representações da “doença mental”, da loucura e dos seus tratamentos vão fusionando ideias e práticas tradicionais com ideias e remédios da psiquiatria ocidental, introduzida mais recentemente nestas sociedades. Embora a expressão de ideias tradicionais seja preferida no contexto privado, da casa, e a de ideias da psiquiatria em contextos mais públicos, a forma como os dois sistemas de conhecimento são utilizados pelos interlocutores coloca em evidência as características polifásicas do conhecimento social e a sua utilidade para gerir a introdução da mudança nas sociedades.

A expressão da polifasia cognitiva tem sido examinada principalmente na relação entre a esfera científica e a esfera pública (Jovchelovitch e Gervais, 1999; Wagner et al., 1999), sendo necessário examinar se e em que moldes se expressa quando ocorre no encontro do “senso comum” com outras esferas, como a político-legal (ver por exemplo Renedo e Jovchelovitch, 2007).

Para compreender de onde resultam os posicionamentos concretos expressos no debate social, é preciso em primeiro lugar conceptualizar o conhecimento social como sendo co- construído numa relação dialógica entre quem re-presenta, o Outro para quem se re-presenta e o objecto de conhecimento (Moscovici, 1972; Marková, 2003). Sob esta perspectiva, o conhecimento social é relacional, é sempre mediado por interacções. Além disso, é necessário considerar que as representações sociais incorporam, para além de processos comunicativos de construção de significado (Marková, 2000), meta-sistemas normativos (Doise, 1993; Moscovici, 1961/1976) que contêm informação sobre normas e regras de funcionamento social. A dinâmica de ajustamento entre a estabilidade e a mudança social surge portanto associada também a este meta-sistema normativo que regula as acções comunicativas e as práticas sociais (Moscovici, 1976), posicionando-as face a constrangimentos sócio- normativos contextuais, onde as propostas societais e as condições locais de produção de significado se encontram.