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Capítulo II A psicologia social do ambiente e a mudança social para a sustentabilidade

3. Formas de análise da adesão e resistência à mudança

3.4. O contexto e a heterogeneidade de relações na comunidade

Pode-se considerar que a legislação que enquadra a Rede Natura 2000 e os incentivos financeiros da Comissão Europeia para o desenvolvimento de projectos de conservação da biodiversidade tiveram duas grandes consequências para as comunidades locais. Em primeiro lugar, as comunidades passaram a ser governadas por leis que as obrigam a evitar a perturbação das espécies residentes e que incluem restrições ao tipo de produção agrícola e à construção de residências ou a grandes projectos como auto-estradas e barragens. Novas intervenções em terrenos privados passaram a estar sujeitas a pareceres e autorizações do ICNB.

Em segundo lugar, vários projectos de conservação da natureza passaram a ter lugar nestes sítios, liderados por peritos de sistemas mediadores (técnicos de institutos estatais e de ONGAs nacionais e locais) e apoiados por financiamento da Comissão Europeia. Embora possamos identificar alguns grupos e actores locais mais directamente afectados por estas intervenções, como os agricultores ou os proprietários de terrenos, torna-se evidente que as restrições e alterações que daqui decorrem afectam a vida de toda a comunidade (Stoll- Kleeman, 2001; Visser et al., 2007). Se aos caçadores e agricultores é requerido que alterem algumas das suas práticas, os residentes também vêem limitadas algumas das suas opções de escolha na construção de residência própria e, no global, toda a comunidade é de alguma forma afectada pelas opções relativas à construção de barragens e auto-estradas e pela presença de técnicos que circulam pelas propriedades e que utilizam alguns serviços locais. São-lhes sugeridas (a todos) novas formas de relação com a paisagem e os recursos naturais, novos modos de vida e formas de identidade.

Para além disso, é necessário considerar que os actores e grupos locais estão inseridos em comunidades onde se encontra a sua família e vizinhos, os amigos e conhecidos, os

clientes e fornecedores, os quais têm acesso, mesmo que em segunda mão, às experiências vividas na recepção destas inovações legislativas. Uma vez que estas implicam alterações nas relações de produção, nas relações de consumo e na própria paisagem, para compreendermos como ocorre a mudança - e porque é que às vezes não ocorre - torna-se necessário tomar em consideração, na análise dos processos de construção social das leis e das relações com as leis, não apenas os designados “grupos de interesse” directos, mas toda a comunidade. E torna-se necessário conhecer também o papel desempenhado pelos sistemas mediadores, como os técnicos de projectos de conservação da natureza, que são chamados a mediar a disseminação das inovações legais, oferecendo um significado concreto às leis e definindo o que significa aceitá-las e como é que isto pode concretamente ser feito (Castro e Batel, 2008; Castro, Mouro e Gouveia, 2011; Morant, 2006). É importante, assim, considerar que as comunidades são entidades heterogéneas e complexas, compostas por múltiplos grupos com relações interdependentes entre si e com o exterior.

Como já foi ilustrado, a identificação com o lugar desempenha um papel relevante na predição das reacções das comunidades sujeitas a exigências para adoptar práticas de protecção da biodiversidade. Estudos que examinaram as reacções de comunidades locais confrontadas com a designação de parques naturais ou a transformação de paisagens mostraram que estas reacções são afectadas por processos identitários (Bonaiuto et al., 2002; Bucheker et al., 2003; Carrus et al., 2005b; Stoll-Kleeman, 2001). No entanto, ainda que os resultados destes estudos sejam convergentes no que respeita à importância das variáveis identitárias para a compreensão destes processos de adaptação, os resultados encontrados têm divergido relativamente à direcção desta relação.

No caso específico da designação de parques naturais em Itália, a pesquisa de Bonaiuto e colegas sugere que estes resultados contraditórios podem dever-se a “características chave do processo de designação” (Carrus et al., 2005b, p. 252), nomeadamente a factores sócio-psicológicos que actuam enquanto moderadores das reacções locais. Com base nestas premissas, esta linha de pesquisa aponta para dois moderadores relevantes. O primeiro é o grau de envolvimento na economia local. Bonaiuto e colegas (2002) mostram que os residentes com maior envolvimento nas actividades económicas locais, e portanto mais afectados pela designação do parque, apresentam níveis de identificação com o lugar mais elevados mas também atitudes mais negativas em relação às áreas protegidas.

O segundo moderador proposto por esta equipa é o envolvimento nos processos de tomada de decisão (Carrus et al., 2005b). As comunidades locais são frequentemente

marginalizadas dos processos de tomada de decisão que levam à selecção dos locais de intervenção ambiental (e.g., Stoll-Kleeman, 2001; Bonaiuto et al., 2002), apesar de a participação pública ser actualmente um reconhecido pilar da sustentabilidade (Pol, 2002). Os estudos de Bonaiuto e colegas revelaram que quando as comunidades são envolvidas na tomada de decisão, a identificação com o lugar facilita a aceitação do parque natural; quando as comunidades não são envolvidas na tomada de decisão, quanto maior a identificação com a região, mais negativa a atitude face às áreas protegidas (Carrus et al., 2005b). Ora, como já salientámos, as decisões sobre a escolha de áreas Natura 2000 tiveram por base, primordialmente, a perícia científica associada à conservação da biodiversidade, desvalorizando e ignorando contribuições locais e específicas a cada contexto (Stoll-Kleeman, 2001; Visser et al., 2007), sendo portanto relevante examinar o efeito da avaliação do processo de designação das zonas protegidas no apoio a estas políticas.

Para além destes dois moderadores, a literatura da psicologia ambiental tem ainda vindo a sugerir a importância de considerar a confiança institucional (Bonaiuto et al., 2008; Lima e Castro, 2005) como qualificador das posições face às questões ambientais. Devine- Wright e Howes (2010) mostram como o nível de confiança nas principais organizações envolvidas na construção de um parque eólico altera a relação entre a vinculação ao lugar e o apoio à realização do projecto. Estes resultados reforçam a ideia de que uma forte ligação ao lugar não resulta inevitavelmente em oposição à mudança; esta oposição está dependente do contexto social em que a mudança é representada e da representação da comunidade e de outros significativos.

Para além disso, a confiança nas instituições governamentais é também preditor da adesão a comportamentos de acção cívica colectiva: quando os níveis de confiança são baixos, há maior probabilidade de as comunidades participarem em sessões públicas e acções de protesto (Wakefield et al., 2006) ou outras formas cooperativas de participação (Van Vugt e de Cremer, 1999). No mesmo sentido, a confiança nas instituições diferencia as pessoas com elevada intenção de voltar a participar numa sessão de consulta pública das que têm uma fraca de intenção (Mannarini, Fedi e Tripetti, 2009).

Faremos agora uma síntese das principais ideias apresentadas ao longo deste capítulo e das orientações para os estudos empíricos que delas resultam.