PARTE I – A SOCIEDADE PLURAL
2. COMPLEXIDADE, DIVERSIDADE E MAIS DESACORDOS
2.2. Elementos de complexidade na sociedade contemporânea
2.2.1. A disseminação do risco e a sociedade de consumo
O isolamento é uma característica pouco marcante na contemporaneidade. Há, na verdade, uma espécie de paradoxo nessa afirmação. Não há isolamento em relação a fatos e acontecimentos, isto é, a irradiação da comunicação e a disseminação das consequências têm efeito global, são pouco restritas em termos geográficos. De outro lado, eleva-se a possibilidade de isolamento do indivíduo; ou seja, o indivíduo termina por libertar-se de vínculos que, em um contexto anterior e tradicional, definiam-lhe, como a classe social, o estrato, a família99.
Esses subsistemas de coordenação social evidentemente subsistem, permanecem, seguem sendo objeto de investigação sociológica. As famílias, as classes e os grupos profissionais, por exemplo, não perderam o seu efeito sobre a constituição do indivíduo e sobre a formação, como consequência, de um mundo comum. O que se quer explicitar, neste momento, é que a corrosão da tradição, no contexto de um processo de modernização, tem tornado mais complexa a própria relação entre essas formas de organização, o que modifica de modo sensível o desenvolvimento da dinâmica social.
Uma maneira de compreender esse fenômeno dá-se pelo recurso à noção de risco. Quando se afirma que o isolamento já não define mais o arranjo social atual, está- se a tratar – como já alertado – do isolamento em relação aos acontecimentos globais. Não é só de risco que se alimenta o mundo globalizado, por óbvio. A interconexão de informações, o intercâmbio imediato de conhecimentos e a livre-circulação de bens e serviços são características que não causam, por definição, ameaças globais. Não adotamos uma perspectiva estaticamente pessimista em relação à globalização. O achatamento do mundo, a permitir que culturas se misturem, que línguas se intercalem e
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que já não se saiba mais a origem e o modo como são produzidos nossos itens de consumo, pode contribuir para a abertura de sociedades fechadas e para o desenvolvimento socioeconômico de países cuja estagnação sempre fora uma evidência100.
Entretanto, e como nosso intento é simplesmente deixar assentada a complexidade da sociedade moderna, a incerteza que se conecta ao risco é um traço central nesse contexto global. Quanto mais se produz riqueza, informação e tecnologia e quanto mais esses elementos são transportados para toda parte, mais se distribuem os riscos101. As catástrofes ambientais são um exemplo paradigmático dessa ideia. O uso desmedido dos recursos naturais para viabilizar o progresso pode desencadear, a médio e longo prazo, desequilíbrios ambientais de consequências imprevisíveis. Se há controvérsia acerca do impacto da ação humana sobre as mudanças climáticas, por exemplo, isso apenas denota mais um elemento de incerteza. Há incerteza sobre a extensão das consequências e há incerteza também sobre quais atos (e se esses atos) são capazes de originar alterações ambientais danosas. E é nessa reprodução de incertezas que reside essencialmente o risco.
Existem muitos exemplos em torno dessas ameaças incertas. Não bastassem as questões relacionadas à violência global, como as guerras de motivações escusas e as diferentes formas de terrorismo102, a tecnologia é uma produtora (ou pode ser uma produtora) de riscos potenciais. Se pensarmos em alimentos geneticamente modificados, no uso de fertilizantes na agricultura moderna ou em novidades medicamentosas à disposição do consumo, reproduziremos mais dúvidas. E o interessante é que essa permanência da incerteza já não obedece a qualquer fronteira. Ameaças ao ambiente ou
100
Para uma abordagem nesse sentido, ver FRIEDMAN, Thomas L. O Mundo é Plano: uma breve história do século XXI. Trad. Cristina Serra S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. Entre outros aspectos, o autor faz referência ao fato de que os países em desenvolvimento devem fazer reformas estruturais para que se beneficiem do processo (incontornável) de achatamento do mundo. Em termos culturais, Friedman salienta que “quanto mais uma cultura se glocaliza naturalmente, isto é, quanto mais uma cultura absorva com facilidade ideias e melhores práticas estrangeiras, mesclando-se com as suas próprias tradições, maiores vantagens terá no mundo plano” (p. 292).
101
BECK, Ulrick. Sociedade de risco, 2011, p. 23. 102
O terrorismo advindo do fanatismo religioso também se dispersa com o uso da tecnologia. Apesar de refutar com ódio o desenvolvimento ocidental, utiliza-se dele para disseminar o terror, em uma síntese perigosa e que intensifica o medo. Ver, sobre esse tema, BURUMA, Ian. MARGALIT Avishai. Ocidentalismo: o ocidente aos olhos de seus inimigos. Trad. Sérgio Lopes. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 144.
modificações genéticas em alimentos são riscos não localizados, inevitavelmente espalhados pelo globo. É o que Ulrick Beck chama de “universalismo das ameaças” 103.
Essa apresentação da sociedade moderna conduz Zygmunt Bauman a identificar o medo como um atributo perene das relações sociais contemporâneas. Viver com a sensação constante de insegurança e vulnerabilidade significa viver em um mundo repleto dessas incertezas de que estamos tratando104. Aprende-se, na verdade, a conviver passivamente com o receio da tecnologia, o medo de novas doenças, de novos vírus e até mesmo, e talvez sobretudo, com o medo do outro, do estranho, do desconhecido. É por isso que, apesar de estarmos caminhando continuamente para a abertura das sociedades, de já vivermos sob o paradigma de comunidades políticas marcadas pela diversidade, ainda seguimos preocupados com fronteiras, seja em razão de ameaças globais à segurança, seja em razão de ameaças, aparentemente causadas pelo fluxo migratório, a práticas sociais consolidadas105.
Se, por um lado, o quadro de dispersão dos riscos afasta as comunidades do isolamento, dado o contexto de estreitamento da comunicação; de outro, contribui para a liquidez das relações humanas e, assim, para o isolamento do indivíduo. Aliás, essa preocupação com o isolamento entre os homens é uma das características que definem o pensamento de Hannah Arendt, que se aproxima de Bauman ao tratar desse ponto no seio de sociedades de consumo106. Bauman salienta que há uma ligação entre o consumismo do mundo líquido e a desintegração dos vínculos humanos. Isso porque a atividade do consumo em si, não o processo produtivo e a interação em um mercado livre, é algo que não compreende a cooperação; ou seja, consumir é um ato meramente solitário, para a satisfação de um desejo pessoal e imediato107. Esse panorama parece justificar a preocupação de Hannah Arendt com o isolamento, pois a construção de relações calcadas na efemeridade nada contribui para edificar um mundo político minimamente durável.
Ensaiamos descrever, nessa breve passagem, alguns traços predominantes da sociedade contemporânea. O risco, o medo e o consumo, três fatores que marcam a
103
BECK, Ulrick. Sociedade de risco, 2011, p. 43. 104
BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, pp. 13-14.
105
BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido, 2008, p. 127. 106
Ver ARENDT, Hannah. A Condição humana, 2008, p. 145. 107
BAUMAN, Zygmunt. Modernidad Líquida. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2005, p. 175.
estrutura das comunidades políticas inseridas em um contexto global, são não apenas desenho de uma construção social pós-tradicional, mas representam elementos disseminados na vida moderna. Disseminam-se na dissolução das fronteiras geográficas e no enfraquecimento da tríade da qual falávamos no subcapítulo anterior – tradição, autoridade e religião. Acresça-se a esse arranjo de complexidades um último e ainda mais importante elemento. Trata-se da diversidade cultural que define as sociedades contemporâneas, repletas de etnias a conviver no mesmo espaço, em um espaço que abriga formas de vida completamente distintas e singulares.