PARTE I – A SOCIEDADE PLURAL
2. COMPLEXIDADE, DIVERSIDADE E MAIS DESACORDOS
2.2. Elementos de complexidade na sociedade contemporânea
2.2.2. Pluralismo e multiculturalismo: apontamentos sobre a diversidade
A multiplicidade cultural é uma característica comum às sociedades abertas contemporâneas. Trata-se de um fato de tranquila constatação. As controvérsias teóricas, no entanto, não são poucas e nascem justamente desse dado empírico aparentemente singelo. O modo de compreendê-lo e o que se passa a prescrever a partir dele tornam o debate acadêmico mais acirrado. Não é nosso objetivo ingressar na profundidade das discussões entre comunitaristas, multiculturalistas, pluralistas, que se debruçam mais detida e minuciosamente sobre o fenômeno do diálogo entre as culturas, essencialmente sobre o grau de abertura que uma sociedade deve possuir para abrigar esse diálogo. Teríamos que construir uma dissertação apenas para isso e ainda estaríamos longe de esgotar o tema. Por isso, faremos uma abordagem seletiva; ou seja, no seio de alguns paradigmas teóricos de relevo, procuraremos sublinhar o que nos serve e deixar de lado o que não pautará a linha de argumentação deste trabalho.
A ideia de tolerância, por exemplo, nos serve. Entre as diversas leituras do fenômeno da diversidade étnica, religiosa e cultural, a tolerância é um traço que todas aceitam e que buscam fomentar. O grande desafio de uma sociedade multiétnica é instituir um arranjo de instituições e práticas sociais que permita o convívio tolerante entre diferentes indivíduos e distintos grupos. Uma sociedade plural, que é o objeto de nossa empreitada descritiva, é o oposto de uma sociedade intolerante ao diferente, que não aceita o outro na sua singularidade.
Embora a tolerância seja uma noção central para o desenvolvimento de teorias sobre o convívio entre culturas, há divergências teóricas relevantes sobre a melhor maneira de alcançá-la. A corrente pluralista, por exemplo, está fundada em uma
tolerância construída em um mundo composto por distintas formas de vida, com princípios e valores heterogêneos e que, ademais, não podem ser hierarquizados rigidamente. À diferença de uma postura monista, alicerçada na hierarquia de valores, o pluralismo assenta-se no desacordo entre a maneira de concebê-los e, portanto, na inevitabilidade do conflito entre esses inúmeros valores, resolvido mediante uma consideração às circunstâncias, isto é, a um aspecto condicional108. Descrita dessa maneira, a corrente pluralista está em perfeita consonância com o que até aqui estamos delineando, com o desenho de sociedade plural que estamos elaborando.
Giovanni Sartori faz uma defesa mais contundente e direta da posição pluralista. Uma de suas preocupações centrais é preservar o pluralismo de certa exacerbação do multiculturalismo, movimento que – para o autor – pode ser vinculado aos preceitos pluralistas ou simplesmente, e justamente pelo potencial radicalismo, tornar-se o seu oposto. Sartori compartilha dos atributos que apresentamos no parágrafo anterior109; contudo, alerta que o pluralismo não precisa defender que a boa sociedade é uma sociedade cada vez mais fragmentada, dividida em grupos, com o prefixo “multi” anexado a qualquer termo. Trata-se de sustentar uma concepção tolerante frente à diferença; ou seja, o pluralismo prescreve que uma sociedade deve ser tolerante no contexto da diversidade cultural, mas nada diz sobre a obrigação de produzir ainda mais diversidade110.
A preocupação de Sartori se justifica se compreendermos o multiculturalismo como uma afirmação radical da diferença, mais centrada na “tribalização da cultura” 111
do que propriamente no estabelecimento de um espaço comum de tolerância às singularidades culturais. Se o multiculturalismo tem ênfase em uma equalização generalizada de grupos étnicos, com um resultado final de isolamento cultural a partir da consolidação de uma identidade meramente coletiva, já podemos adiantar que essa
108
Sobre as características do pluralismo, ver O´FARRELL, Pablo Badillo. ¿Pluralismo versus Multiculturalismo? In: O´FARRELL, Pablo Badillo (coord.). Pluralismo, tolerancia, multiculturalismo: reflexiones para un mundo plural. Madrid: Universidad Internacional de Andalucía/AKAL: 2003, pp. 35-40.
109
Sartori entende que o pluralismo pressupõe tolerância e que o pluralismo intolerante é um falso pluralismo. São, contudo, conceitos diferentes, na medida em que a tolerância respeita valores alheios, e o pluralismo afirma um valor próprio. Nas palavras de Sartori: “el pluralismo afirma que la diversidad y el disenso son valores que enriquecen al individuo y también a su ciudad política”. SARTORI, Giovanni. La sociedad multiétnica: pluralismo, multiculturalismo y extranjeros. Trad. Miguel Ángel Ruiz de Azúa. Madrid: Taurus, 2002, pp. 18-19.
110
SARTORI, Giovanni. La sociedad multiétnica, 2002, pp. 32-33. 111
forma de conceber o fenômeno cultural não fomenta a tolerância em uma esfera comum e, portanto, nada tem a ver com a linha que estamos desenvolvendo neste trabalho. O multiculturalismo assim interpretado pouco nos interessa112.
No entanto, há de se entender o multiculturalismo no escopo do pluralismo, como uma teoria que reivindique a consolidação de um modelo de sociedade organizado em consideração à existência de grupos humanos completamente distintos113. A diferença étnica, religiosa ou cultural, nessa senda, deve ser tolerada e respeitada, o que corresponde a uma exigência do pluralismo, mas também reconhecida na esfera pública, com a criação de instrumentos jurídicos e políticas sociais específicas, o que representa um traço do multiculturalismo. Não se cuida tão somente de assimilar a diferença, em um processo por meio do qual as culturas diversas contentam-se em aceitar as práticas sociais já existentes114, mas sobretudo de propiciar a edificação de uma experiência política fundada no respeito e no reconhecimento à heterogeneidade cultural115.
Embora se assuma, no contexto ora apresentado, a necessidade de observância ao direito coletivo de grupos étnicos, culturais ou religiosos, consideradas as suas peculiaridades, é importante assentar que uma perspectiva multicultural excessivamente justificadora ou defensora da preservação da cultura de um grupo pode, fatalmente, ignorar a escolha e a liberdade de ação do indivíduo inserido nesse grupo. Em outras palavras, não se deve conferir valor intrínseco a uma classe de indivíduos, na dimensão coletiva, desconsiderando o fato de que uma cultura é formada por pessoas, plurais entre si, singulares e cuja autonomia deve ser, antes e com prevalência, preservada. Esse é outro aspecto que desejamos sublinhar, refutando – assim – visões que concedam a
112
Queremos dizer, com isso, algo singelo: se o nosso marco da pluralidade assenta-se na convivência entre diferentes, há de ter cuidado, no entanto, com uma perspectiva multiculturalista exacerbada, que justifique a supressão da autonomia individual em nome do grupo, como se só houvesse identidade coletiva. Esta é a preocupação.
113
ABELLÁN, Joaquín. Los retos del multiculturalismo para el estado moderno. In: O´FARRELL, Pablo Badillo (coord.). Pluralismo, tolerancia, multiculturalismo: reflexiones para un mundo plural. Madrid: Universidad Internacional de Andalucía/AKAL: 2003, p. 18.
114
Aliás, essa é uma crítica dirigida a Sartori, que pode ser interpretado como um “assimilacionista”. Ver RUBIO-CARRACEDO, José. Pluralismo, multiculturalismo y ciudadanía compleja. In: O´FARRELL, Pablo Badillo (coord.). Pluralismo, tolerancia, multiculturalismo: reflexiones para un mundo plural. Madrid: Universidad Internacional de Andalucía/AKAL: 2003, p. 185.
115
Para uma explicação sobre essa prática multicultural no âmago de formas democráticas de convivência, ver OLIVEIRA JUNIOR, José Alcebíades de. Cultura da Democracia para Direitos Humanos Multiculturais. In: OLIVEIRA JUNIOR, José Alcebíades de (org.). Cultura e Prática dos Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, pp. 09-13.
coletividades, sob o pretexto de consolidação de uma pretensa identidade cultural116, o direito de suprimir a liberdade de escolha dos indivíduos117.
Assim estabelecidas as coisas, acreditamos ter exposto – mesmo em brevíssimas linhas – uma visão sobre a diversidade cultural que alia o multiculturalismo às características pluralistas relacionadas à autonomia individual e à tolerância. Desejamos, apenas para completar o modelo de sociedade plural, diversificada e complexa que marca a contemporaneidade, mencionar a alternativa cosmopolita suscitada por Jeremy Waldron118. Trata-se de um modelo que provoca aqueles que pensam que o indivíduo, para que sua vida tenha sentido e profundidade, necessita de um vínculo perpétuo com uma singular e determinada cultura, que, exatamente por isso, deveria ser preservada119.
Pensar dessa maneira, segundo Waldron, é imaginar uma vinculação comunal em pequena escala, isto é, a formação do indivíduo em um espaço pequeno, homogêneo e íntimo. Contudo, a comunidade real em que vivemos, e que constitui o objeto das teorias sobre a diversidade cultural, inclusive das que tratamos parágrafos antes, transcende aspectos étnicos, religiosos e culturais (no sentido comunal). O processo de globalização criou comunidades bastante distintas e de espectro pouco regionalizado. Waldron menciona a comunidade de feministas, a comunidade científica ou mesmo a comunidade de preservação dos direitos humanos para ilustrar o fato de que elas se formam para além das fronteiras e abrigam, para a consecução de um fim comum, sujeitos profundamente distintos, com origens diversas120. É, sem dúvida, um outro modo de compreender o termo comunidade.
Não somos seres atomizados e desvinculados das nossas origens. Entretanto, tampouco somos “produto ou artefato de simples comunidades étnicas ou nacionais” 121
.
116
François Jullien ressalta com precisão o problema da identidade cultural, uma vez que a própria cultura tende a se alterar, a sofrer processos de metamorfose. A própria cultura não é algo estático. O que Jullien condena, no entanto, é a uniformização das culturas por meio de um processo de globalização que transforma, artificialmente, o universal no uniforme, que confunde ambas as dimensões. Ver JULLIEN, François. O Diálogo entre as Culturas: do universal ao multiculturalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 32 e p. 190.
117
Encontramos essa advertência relativa à relação grupo/indivíduo em DE VITA, Álvaro. Liberalismo igualitário: sociedade democrática e justiça internacional. São Paulo: Martins Fontes, 2008, pp. 181-186. 118
WALDRON, Jeremy. The Cosmopolitan Alternative. In: KYMLICKA, Will (ed.). The Rights of Minority Cultures. New York: Oxford University Press, 2009, pp. 93-119.
119
WALDRON, Jeremy. The Cosmopolitan Alternative, 2009, p. 105. 120
WALDRON, Jeremy. The Cosmopolitan Alternative, 2009, p. 102. 121
Nossa formação cultural é condicionada por nossa linguagem, pelos livros que lemos, pelos lugares que conhecemos, por nossa ciência, nossas religiões, e tudo isso, salienta Waldron, não está limitado por um território nacional ou pelas fronteiras de uma comunidade específica. Nessa sociedade plural de que estamos tratando, imersa em um contexto globalizado, cujas fronteiras estão cada vez mais dissolvidas, a nossa carga cultural tem as mais diversificadas fontes. É por isso que Jeremy Waldron, ao questionar a importância de o indivíduo ser membro de uma cultura particular, conclui que nós “precisamos de cultura, mas não de integridade cultural” 122
, no sentido de alguma espécie de homogeneidade que nos preserve o sentido de existência.