2. A PRIMEIRA DISTOPIA DA LITERATURA BRASILEIRA: 3 MESES NO SÉCULO
2.2 Viajando para o ano 8000
2.2.1. A distopia da concentração de poder
Não seguindo a ordem cronológica das descobertas dos pontos distópicos da sociedade de 3 Meses no Século 81 segundo a perspectiva do protagonista, mas escolhendo uma divisão mais didática relativa à caracterização dessa sociedade como uma distopia, o primeiro ponto aqui destacado é a centralização do poder. Na sociedade deste romance, o mundo inteiro é unificado sob a forma de um governo mundial presidido por alguns/algumas administradores/as, como podemos observar na seguinte passagem: “Não há americanos, nem europeus. Todos são cidadãos do mundo. Somos todos, Terreanos. Falamos uma só língua e nos regemos todos pela mesma lei” (MONTEIRO, 1947, p. 109). O tema da concentração do poder é bem recorrente nas distopias. De fato, George Orwell expõe que é exatamente essa temática que o levou a escrita de sua distopia mais famosa:
Meu romance recente [1984] NÃO foi escrito com a intenção de ser um ataque ao Socialismo ou ao Partido Trabalhista Britânico (do qual sou um defensor),
79 Há de se pontuar que existem utopias em que o diálogo não é tão harmonioso. Em Utopia, de More, certos aspectos das leis utopienses são questionados pelo próprio Thomas More ficcionalizado e em Uma Utopia Moderna, de H. G. Wells, a personagem visitante apresenta um ponto de vista crítico em relação ao mundo utópico visitado (ainda que não o rejeite totalmente como no caso das antiutopias). Ainda assim, de forma mais predominante, as eutopias tradicionais – isto é, anteriores às utopias críticas do século XX – tendem a esboçar um discurso social rígido e dogmático, mesmo que questionem a hegemônica estabelecida, como defende Chris Ferns (1999).
80 Também não é considerada uma sátira utópica, pois, conforme a teorização aqui adotada, a sátira utópica se caracterizaria por um tom mais humorístico do que o apresentado nesse romance. Não se nega, porém, que a distopia de Jerônymo Monteiro possua um aspecto satírico sobre utopias de ordem mais autoritárias.
104 mas como uma demonstração das perversões às quais uma economia centralizada está sujeita e que já foram parcialmente realizados no comunismo e no fascismo (ORWELL, 1968, p. 502, grifo do autor).
Diferente de 3 Meses no Século 81, o romance 1984 não se configura como uma distopia mundial, mas demonstra as consequências negativas da concentração de poder em um local específico. Ainda assim, considerando as limitações de mobilidade impostas em sua sociedade fictícia, a população na Oceânia, impedida de migrar para outros locais, também vive em um mundo distópico de concentração de poder em um único grupo político. Assim como o poder está centralizado nas mãos do Partido em 1984, as consequências da concentração do poder também são representadas em 3 Meses no Século 81, sobretudo através do autoritarismo – traço também chave em diversas outras distopias, como as de Zamiátin e Huxley.
Como é frequente nas distopias em que a coerção através da violência é vital para a manutenção do Estado totalitário, o poder centralizado resulta em perseguição às pessoas com pontos de vistas discordantes. Na distopia de Jerônymo Monteiro, apesar de a ordem mundial ser elogiada por Mui, o próprio professor admite a presença de insatisfeitos/as, relatando a Campos/Loi a existência de um grupo político que questiona a ordem vigente. Ao contar ao protagonista desse romance sobre tal grupo, Mui acaba revelando o caráter autoritário do governo mundial do ano 8000:
– Fundaram uma espécie de Partido, que recebeu o nome de Marcianinos. São pomos de discórdia e ameaçam gravemente a ordem. Por isso tratamos de impedi-los de agir.
– De que forma?
– De tôdas as formas. Demonstrando ao povo que tais teorias são desastrosas.
E quando alguns se tornam por demais importunos, capturamo-los e mandamo-los para Marte. Êles que pratiquem lá. (MONTEIRO, 1947, p.
166)81
O ponto de vista discordante ameaça à ordem vigente, sendo assim censurado entre o povo, chegando até mesmo a acontecer a expulsão do planeta em último caso, algo que, posteriormente no romance, é revelado como se constituindo como uma sentença de morte. Por esse motivo, é revelado a Campos/Loi que os/as integrantes do Partido dos/as Marcianinos/as são obrigados/as a se esconder, temendo pela própria vida. Tal procedimento de expulsão dos/as
81 Observa-se que o texto de Jerônymo Monteiro apresenta o padrão ortográfico da época de publicação da obra, daí “tôdas” ao invés de “todas. Como todas as obras que são analisadas nesta tese apresentam o padrão ortográfico anterior ao atual, estabelecido em 2006, em minha argumentação, só serão marcadas as inconsistências ortográficas que divergirem do padrão da época de publicação das obras.
105 dissidentes da sociedade distópica pode ser também observado em Admirável Mundo Novo, quando, ao final do romance, o administrador mundial revela que aquele governo exilava em ilhas os/as cidadãos/ãs dissidentes.
Além do exílio para Marte e da perseguição ao partido dos/as Marcianinos/as, Campos/Loi também aprende sobre a forma como o governo em 3 Meses no Século 81, tenta convencer os/as insatisfeitos/as antes de expulsá-los/as. Já próximo ao fim do romance, quando a identidade do protagonista como um viajante do tempo já havia sido revelada para o mundo inteiro, temos um diálogo entre Campos/Loi e uma marcianina chamada Ilá, em que podemos ler sobre um processo de lavagem cerebral empregado nessa distopia:
– Mas castiga-se?
– No sentido que vocês dão ao castigo no seu século, não. Não temos prisões, nem penitenciárias. Mas êles têm os seus métodos… Mui não lhe disse que os loucos, quando não curáveis, são eliminados?
– Disse...
– Pois é isso. Você não imagina como é elástica, entre os administradores terreanos, a noção de loucura! Loucos são todos aquêles que pensam de maneira contrária à estabelecida pela lei. Os Marcianinos são todos loucos perigosos. Quando os agarram, ou os levam para Marte, como eu já disse, ou submetem-nos a operações no cérebro. (MONTEIRO, 1947, p. 198)
Ao adotarmos um posicionamento de leitura que considere a intertextualidade teorizada por Julia Kristeva, que argumenta pela presença de outros textos dentro de todo e qualquer texto (KRISTEVA, 1974) podemos argumentar que passagem destacada remete às distopias como as de Orwell e Zamiátin, visto que, nas duas obras, há a descrição de métodos de lavagem cerebral empregadas contra as personagens que desafiam o sistema totalitário. Enfatizando o caso da distopia russa, destaco o excerto a seguir:
Sorrio e não posso deixar de sorrir: removeram alguma lasca da minha cabeça, ela está leve, vazia. Para ser mais preciso: não está vazia, mas não há nada de estranho que me impeça de sorrir (o sorriso é o estado normal de uma pessoa normal).
[…]
No dia seguinte, eu, D-503, apresentei-me ao Benfeitor e contei-lhe tudo o que sabia a respeito dos inimigos da felicidade. Por que isso me pareceu tão difícil antes? É incompreensível. A única explicação: minha antiga doença (a alma).
(ZAMIÁTIN, 2017, p. 314)
Durante toda a narrativa de Zamiátin, o protagonista do romance Nós apresenta uma perturbação entre aquilo que ele percebe como sendo a lógica irrefutável do Estado Único e os
106 pontos de vista discordantes aos quais acaba sendo exposto no decorrer da história. Finalmente, já ao fim da obra, uma cirurgia no cérebro é o que resolve seu conflito, possibilitando sua obediência cega à lógica distópica que domina seu mundo. Comparando Nós com 3 Meses no Século 81, neste sentido, na distopia russa temos o relato pessoal de uma personagem que passa pelo processo de questionar a ordem e sofrer a lavagem cerebral para voltar à obediência, enquanto na brasileira, temos apenas a citação de que isso ocorre, sem, contudo, o relato mais pessoal vivido por alguma personagem. Seja no relato de experiência mais desenvolvido através da narração do protagonista em Nós ou na implicação mais resumida do que acontece aos/às dissidentes em 3 Meses no Século 81, as duas obras – tais como várias outras distopias –, suscitam a crítica à centralização do poder e a consequente coerção sobre os pontos de vista dissidentes advinda de tal modelo totalizante e centralizador.
Neste sentido, podemos também pensar a literatura em sua relação não apenas com ela mesma, mas com os discursos e ideias propagados no mundo empírico de seus/as autores/as e leitores/as, se considerarmos a teoria do dialogismo bakhtiniano. Segundo José Luiz Fiorin (2008), o dialogismo de Bakhtin tem base em uma concepção de linguagem como prática social.
Assim, quando o crítico russo argumentou que: “toda enunciação, mesmo na forma imobilizada da escrita, é uma resposta a alguma coisa e é construída como tal” (BAKHTIN, 1995, p. 98), podemos entender que também há uma relação dialógica entre linguagem literária e o contexto social das obras. Por conseguinte, Jerônymo Monteiro certamente estava respondendo à literatura de ficção científica e distópica em língua inglesa a qual tinha acesso em sua época, visto a influência de H. G. Wells sobre sua obra (que por sua vez, influenciou Zamiátin), mas isso não significa que sua distopia se figure apenas como exercício imaginativo e intertextual com a tradição distópica que lhe fora anterior, como se estivesse alheio às realidades sociais de sua época. Portanto, a crítica de Jerônymo Monteiro ao governo mundial em 3 Meses no Século 81 pode relacionar-se com diferentes formas de centralização de poder governamental ao qual o autor teve contato, tenha sido de forma direta ou indiretamente. Tal perspectiva, pode nos remeter tanto às ditaduras surgidas no século XX, como também aos governos ditos democráticos da época de Monteiro, mas que foram marcados pelo autoritarismo e perseguição política contra seus/suas opositores/as.
Na época da publicação de 3 Meses no Século 81, o Brasil havia saído da ditadura de Getúlio Vargas, conhecida como Estado Novo (1930-1945), que, embora tenha representado um período de certos avanços sociais, foi marcado, também, por autoritarismo e repressão da
107 oposição, como demonstra Boris Fausto (1994) em seu estudo sobre a história do Brasil. Já o governo posterior, constituído através do voto após os anos de ditadura, foi do presidente militar Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), que, apesar de propagar um discurso liberal com uma política econômica pouco intervencionista, também teve seu aspecto autoritário, visto que foi no seu governo que começou a repressão ao Partido Comunista (FAUSTO, 1994).
Consequentemente, sabemos que Jerônymo Monteiro cresceu sob a égide do autoritarismo em diferentes formas de governo que conheceu quando ainda era um jovem adulto. Assim, não é de se estranhar que sua produção artística possua um forte teor crítico para com o autoritarismo governamental. Nesse sentido, podemos recorrer novamente à Bakhtin, que argumentou que “a autonomia da arte é baseada e garantida pela sua participação na unidade da cultura”
(BAKHTIN, 1990, p.16), implicando o entrelace do literário aos processos históricos e sociais e se opondo a uma visão puramente esteticista que interprete os processos artísticos como entidades autônomas e dissociadas de uma participação social e discursiva. Nessa perspectiva, podemos entender que, ao escrever sua distopia, Monteiro – que havia conhecido tanto uma ditadura como um governo democrático autoritário, – se insere discursivamente em um continuum crítico em relação à centralização do poder, de maneira que a perseguição aos/às opositores/as em seu mundo ficcional pode ser associada também à perseguição aos/as opositores/as do modelo autoritário político brasileiro de seu tempo.