2. A PRIMEIRA DISTOPIA DA LITERATURA BRASILEIRA: 3 MESES NO SÉCULO
2.2 Viajando para o ano 8000
2.2.6. Ecodistopia da tecnologia
127 sequer fora proibida, mas se tornara praticamente impossível, visto que só restavam alguns poucos livros de posse dos/as administradores/as mundiais.
Os livros recorrentemente aparecem como elementos proibidos ou esquecidos nas distopias. O conhecimento não oficial e as produções além da propaganda do governo não são permitidas pelo seu poder de causar instabilidade ao regime totalitário. Nesse sentido, a distopia cujos livros aparecem de forma mais central ao enredo é Fahrenheit 451 (1953),88 de Ray Bradbury, que narra um futuro nos Estados Unidos em que os livros são itens proibidos e onde os bombeiros atuam não para apagar incêndios, mas para incendiar livros, artigos proibidos pelo governo controlador. Livros são símbolos de conhecimento e aprendizagem, e sua eliminação, banimento ou censura por parte de um governo significa o monopólio do conhecimento e das possibilidades de se aprender, refletir e ensinar. Sem livros, o/a típico/a cidadão/ã distópico está confinado às fontes de informações vindas de seus governos, normalmente por meio de recursos audiovisuais, como os cinemas sensíveis em Admirável Mundo Novo, as informações e propagandas governamentais vindas das teletelas em 1984, e, no caso da distopia de Monteiro, o “foto-visor-animado” (MONTEIRO, 1947, p. 174), um aparelho audiovisual que transmite informações para todos os lares do mundo. Portanto, em 3 Meses no Século 81, a eliminação dos livros representa a falta de possibilidades críticas por parte da população, constituindo-se, assim, em um método importante para manutenção do status quo distópico.
128 – Só. Em matéria de vegetais, além das florestas da Amazônia, temos os jardins que o senhor vê em torno das residências. São apenas ornamentais.
– Então, diga-me qual é o aspecto físico do mundo, agora.
– Ah... infelizmente, nesse particular somos menos felizes do que os homens de outros tempos! Êles sim, tinham recursos abundantes, e poderiam ter vivido felizes! Hoje... não temos matas, nem rios, nem campos, nem montanhas...
(MONTEIRO, 1947, p. 111)
O professor segue explicando que, após um fenômeno planetário, a geografia do mundo havia mudado bastante, restando a Amazônia como uma última floresta em consequência do tal fenômeno. Apesar da diferença ter ocorrido inicialmente como consequência de um evento natural, Mui utiliza o termo recursos para tratar das florestas, rios, campos e montanhas, demonstrando que sua visão para o meio ambiente é estritamente utilitarista.
Tendo nascido em 1908, Jerônymo Monteiro cresceu em um Brasil que começava a entrar em um processo de urbanização e industrialização, o que resultou em uma série de fatores sociais ligados ao crescimento das cidades. Tendo crescido em São Paulo, o autor se localizava justamente no centro do país dentro desse processo, visto que, como aponta Wilson Cano, em seu estudo sobre o processo de transição econômica e social no Brasil entre o fim da década de 1920 e início de 1930, “a dinâmica de crescimento de São Paulo foi muito mais intensa e diversificada do que a do restante do país, consolidando, a partir daí, uma concentração industrial que só perderia seu ímpeto a partir da década de 1970” (CANO, 2012, p. 81). Na década de 1920, e especialmente em São Paulo com a Semana de Arte Moderna, em 1922, surge o movimento modernista que, conforme Antônio Candido: “corresponde à necessidade de reajustar a expressão literária às novas aspirações intelectuais e às solicitações da mudança artística em todo o Ocidente” (CANDIDO, 2014, p. 167). O próprio Cano (2012), no estudo citado acima, comenta brevemente sobre o modernismo nas artes e sua relação com as mudanças econômicas, argumentando pela ligação entre urbanização, mudança de costumes e mudança nas artes, relembrando a teorização de Karl Marx de que: “o modo de produção e as relações de produção condicionam o processo social, político e intelectual em geral" (MARX, 1946, p. 31-32 apud CANO, 2012, p. 80). Pensando dentro desse contexto, a escolha feita por Monteiro em escrever uma distopia de um futuro de meio ambiente quase totalmente industrializado pode ser interpretada como uma resposta artística em relação aos discursos desenvolvimentistas e industrialistas vigentes em sua época.
129 No entanto, o aviso literário contra os excessos da sociedade industrial precede Monteiro e o início da industrialização brasileira no século XX. De fato, a preocupação em relação ao abandono dos valores da vida no campo e da perda de uma vida simples e supostamente melhor devido ao crescimento das cidades é um tema muito presente na poesia pastoral do arcadismo brasileiro ainda no século XVIII. Sobre o assunto, escreve Antonio Candido: “A poesia pastoral, como tema, talvez esteja vinculada ao desenvolvimento da cultura urbana, que, opondo as linhas artificiais da cidade à paisagem natural, transforma o campo num bem perdido, que encarna facilmente os sentimentos de frustração” (CANDIDO, 2000, p. 58, ênfase do autor).
Já na história da literatura utópica, o papel da tecnologia para construção da boa sociedade aparece em algum nível já em Utopia, de Thomas More, visto que há uma comparação do desenvolvimento arquitetônico para maior beleza e eficiência das residências entre o período anterior e posterior do estabelecimento da sociedade utópica na ilha da Utopia.
Porém, o tema não é explorado a largo pelo seu autor, tendo sido mais desenvolvido por seus sucessores e sucessoras. Assim, Gregory Claeys argumenta:
O casamento da ciência com a aspiração utópica é em grande parte um produto do século XVII. Antes disso, virtualmente todas as utopias assumiam um estado estático ou ideal das coisas, no qual o movimento para a frente por meio da investigação científica e da descoberta tecnológica era sem importância e até mesmo potencialmente contraproducente. Desde então, exceto por um movimento de resistência primitivista duramente combatido, a utopia passou a se apoiar cada vez mais na ciência, na medida em que as duas estão inextricavelmente interligadas e o progresso científico emergiu como a ideologia quintessencial da modernidade. (CLAEYS, 2011, p. 151)
Das eutopias com grande base científica, A Nova Atlântida, de Francis Bacon, é geralmente considerada como “a primeira utopia científica de fato” (POHL, 2010, p. 60), tendo tido notáveis sucessoras também influentes como as já citadas Three Hundred Years Hence, Daqui a Cem Anos e Uma Utopia Moderna, respectivamente de autoria de Mary Grifith, Edward Bellamy e H. G. Wells. Talvez por influência da literatura utópica em inglês, a tecnologia aparece como fator importante na construção dos futuros utópicos imaginados por utopistas brasileiros/as das primeiras três décadas do século XX, como Godofredo Barnsley, Monteiro Lobato e Adalzira Bittencourt em suas obras São Paulo no ano 2000, ou regeneração nacional: uma crônica da sociedade brasileira no futuro, em 1909, O Presidente Negro, em 1926, e Sua Excia. a Presidente da República no Ano 2.500, em 1929.
130 Se a tecnologia é um dos motores da formação da boa sociedade em diversas eutopias, nas sátiras utópicas e antiutopias, a tecnologia é muitas vezes representada como perigosa, enlouquecedora ou abandonada, como podemos observar nas grandes sátiras presentes em As Viagens de Gulliver e Erewhon. No contexto brasileiro de obras aqui consideradas não como distopias, mas como antiutopias, A República 3000, de Menotti Del Picchia, é um exemplo de sociedade tecnológica apresentada de um ponto de visto satírico e crítico anterior a 3 Meses no Século 81. Em relação ao contexto mais específico das distopias do século XX, a tecnologia em muitas ocasiões aparece associada ao regime distópico promovendo, como consequência, a alienação do ser humano em relação ao meio ambiente, conforme demonstram Gorman Beauchamp (1986), Brian Stableford (2010) e Gregory Claeys (2017), em estudos que apresentam argumentos sobre o papel central do domínio da tecnologia sobre a vida humana como um dos grandes temas da distopia na literatura em inglês desde o século XIX. 89
Por exemplo, no conto “A Máquina Para”, as pessoas vivem em um mundo subterrâneo com luzes artificiais e sem nenhum indício de contato com aquilo que poderia ser chamado de natureza. De fato, a voz narrativa nos diz que: “As florestas foram destruídas (FORSTER, 2011, p. 259)” e que a humanidade “tinha explorado a natureza além da conta” (FORSTER, 2011, p.
272). Em Nós, de Zamiátin, a cidade é totalmente cercada por uma muralha verde, separando a população do Estado Único das áreas cobertas por florestas e habitadas por pessoas consideradas selvagens. Selvagem também é o termo utilizado para se referir à personagem John, de Admirável Mundo Novo, justamente por ele ter sua origem em uma “Reserva de Selvagens”, uma parte do mundo considerada como não civilizada, em que as pessoas viveriam de acordo com costumes diferenciados dos da ordem estabelecida pelo Estado Mundial a controlar o mundo nessa distopia. De modo comparativo, podemos considerar que, ao caracterizar sua distopia como um mau lugar em que as florestas, rios e matas já não existem, Jerônymo Monteiro demonstra um traço de continuidade temática junto com outras distopias que precederam a sua própria.
Já no âmbito dos discursos sociais predominantes na época de Jerônymo Monteiro, tanto Getúlio Vargas durante o Estado Novo como Eurico Gaspar Dutra no período que o sucedeu – em que 3 Meses no Século 81 foi publicado –, foram presidentes com discursos
89 No caso do texto de Claeys, a tecnologia é apenas uma parte de um estudo mais amplo. Já nos outros dois autores, a relação entre tecnologia e distopia é o tema principal.
131 desenvolvimentistas. Segundo Felipe Hees (2011), o período entre as décadas de 1930 até a primeira metade de 1950 fez parte de um tipo de industrialização restringida, porém real, que possibilitou o crescimento urbano no país antes mesmo do período de industrialização mais pesada que só viria a acontecer a partir de 1956 com o plano de metas do governo de Juscelino Kubitschek. Portanto, ao compor uma distopia altamente industrializada e urbana, esse romance de Jerônymo Monteiro parece se situar dialogicamente no campo discursivo de que a humanidade precisa ter cuidado com a maneira pela qual lida com o meio ambiente e os recursos ambientais no processo de desenvolvimento tecnológico, como observa também Renato Pignatari Pereira, que argumenta: “para Jerônymo Monteiro, a ciência e a tecnologia, quando desvinculadas de qualquer ética, podem ser catastróficas para o ser humano” (PEREIRA, 2019, p. 185). Assim, 3 Meses no Século 81 pode ter tido seu papel nas discussões da época sobre a necessidade de cuidado e ética no desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil da década de 1940 – uma discussão ainda altamente relevante, dado o fato de que ainda existem grupos na sociedade brasileira que advogam por um desenvolvimentismo desassociado da consciência ecológica e ambiental.