2. A PRIMEIRA DISTOPIA DA LITERATURA BRASILEIRA: 3 MESES NO SÉCULO
2.2 Viajando para o ano 8000
2.2.2. A distopia da utopia planetária
107 oposição, como demonstra Boris Fausto (1994) em seu estudo sobre a história do Brasil. Já o governo posterior, constituído através do voto após os anos de ditadura, foi do presidente militar Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), que, apesar de propagar um discurso liberal com uma política econômica pouco intervencionista, também teve seu aspecto autoritário, visto que foi no seu governo que começou a repressão ao Partido Comunista (FAUSTO, 1994).
Consequentemente, sabemos que Jerônymo Monteiro cresceu sob a égide do autoritarismo em diferentes formas de governo que conheceu quando ainda era um jovem adulto. Assim, não é de se estranhar que sua produção artística possua um forte teor crítico para com o autoritarismo governamental. Nesse sentido, podemos recorrer novamente à Bakhtin, que argumentou que “a autonomia da arte é baseada e garantida pela sua participação na unidade da cultura”
(BAKHTIN, 1990, p.16), implicando o entrelace do literário aos processos históricos e sociais e se opondo a uma visão puramente esteticista que interprete os processos artísticos como entidades autônomas e dissociadas de uma participação social e discursiva. Nessa perspectiva, podemos entender que, ao escrever sua distopia, Monteiro – que havia conhecido tanto uma ditadura como um governo democrático autoritário, – se insere discursivamente em um continuum crítico em relação à centralização do poder, de maneira que a perseguição aos/às opositores/as em seu mundo ficcional pode ser associada também à perseguição aos/as opositores/as do modelo autoritário político brasileiro de seu tempo.
108 as nações aprenderam a cooperar entre si, mas ainda assim existe a divisão por países. Já na eutopia de Morris, pelo contrário, a harmonia mundial vem pela eliminação completa do conceito de nações, de modo similar ao que seria o último estágio de evolução histórica chamado de comunismo, na teorização de Karl Marx.
Hillegas nos mostra, porém, que, com a publicação de Uma Utopia Moderna, em 1905, H. G. Wells apresenta um cenário em que o mundo inteiro goza de uma estabilidade política advinda de uma organização social baseada em um poder centralizado, que se estende por todo o mundo. Devido à grande influência de Wells como romancista, o modelo é reapresentado posteriormente, sob uma ótica crítica, em distopias como o conto “A Máquina Para / A Máquina Parou”82 (1909), do britânico Edward Morgan Forster, e nos romances Nós, de Ievguêni Zamiátin, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 3 Meses no Século 81, de Jerônymo Monteiro, em que o poder controlador distópico domina sobre todo o mundo e não apenas sobre um país ou região específica. Desta maneira, temos uma relação temática e dialógica entre essas distopias e a eutopia de Wells, em que o governo mundial é ressignificado de um ideal positivo para negativo.
Uma característica da distopia planetária que deriva da utopia planetária é que essa última normalmente se caracteriza como uma distorção de um ideal utópico que se relaciona com o bem de toda a humanidade. No capítulo anterior, citei as teorizações de Darko Suvin (1998) e Gregory Claeys (2013b), que distinguem entre tipos diferentes de distopia, podendo a má sociedade derivar da hipótese do desenvolvimento de aspectos negativos da sociedade empírica do/a autor/a ou de alguma distorção ou cumprimento de certo ideal considerado utópico. Em 3 Meses no Século 81, temos o caso de uma distopia que se apresenta como suposta utopia, conforme argumenta o guia ao afirmar que sua sociedade teria atingido a perfeição do desenvolvimento humano, beneficiando, assim, todas as pessoas. Mui relata sobre tal perfeição em comparação a um passado que seria, em sua perspectiva, inferior e imperfeito:
O homem chegara, afinal, a um estado de desenvolvimento mecânico absolutamente perfeito. Libertara-se do jugo da Mãe Natureza. Não dependia mais da terra, da agricultura, da pecuária; não estava mais sujeito às variações
82 No original: “The Machine Stops”. “A Máquina Para” é a tradução deste conto feita por Celso Braida em 2011 e publicado na revista digital (n.t.) Revista Literária em Tradução. “A Máquina Parou” é o título da tradução deste conto realizada por Teixeira Coelho em publicação de 2018 pela editora Iluminura e Itaú Cultural. A versão utilizada nesta tese é a de Celso Braida.
109 climatéricas que poderiam provocar, incontrolavelmente, abundância êste ano e miséria no seguinte (MONTEIRO, 1947, p. 158).
Diante dessa explicação de seu professor, Campos/Loi, refletindo sobre a humanidade tal qual vira naquele futuro, se pergunta:
Mas... teria alcançado a felicidade? Espiritualmente, alcançara os seus objetivos? Os rostos que eu via – eram rostos de pessoas felizes? Admirando aquêles milagres da ciência e da técnica, alimentava, no meu fôro íntimo, sérias dúvidas. Parecia-me que o homem jamais estivera tão afastado de si mesmo, como naquela época remota. Decididamente, êle escolhera o caminho errado (MONTEIRO, 1947, p. 158).
Portanto, ainda que, na perspectiva de Mui, aquela sociedade se configurasse como uma eutopia, para o protagonista do romance, todo esse desenvolvimento tecnológico não havia melhorado, mas piorado a humanidade (uma percepção compartilhada por muitos/as nativos/as desse mundo futuro). Dessa maneira, Monteiro apresenta uma distopia que, a semelhança de obras como Nós e Admirável Mundo Novo, configuram um futuro distópico que é defendido como utópico por agentes estatais.
Fátima Vieira relaciona o dispositivo narrativo das distopias com as eutopias de tempo, argumentando: “A distopia literária utiliza os dispositivos narrativos da utopia literária, incorporando em sua lógica os princípios da eucronia (ou seja, imaginar como será o mesmo lugar – o lugar onde o utopista vive – em outro tempo – o futuro), mas prevê que as coisas ficarão ruins” (VIEIRA, 2010, p. 17). Assim, podemos observar esse dispositivo narrativo de comparação de um futuro piorado em relação a um passado, como um elemento recorrente à escrita das distopias. No caso das distopias em que esse futuro pior é apresentado como uma melhoria para a humanidade na forma de uma pretensa eutopia planetária, como no caso de Nós, Admirável Mundo Novo e 3 Meses no Século 81, há uma crítica aos ideais utópicos de harmonia mundial configurados em eutopias futuristas como as de Edward Bellamy, William Morris e Uma Utopia Moderna, de H. G. Wells. No caso específico da distopia de Monteiro, até que ponto tal crítica a alinharia ao polo discursivo do antiutopismo será abordado posteriormente.
Certamente, nem todas as distopias usam dessa estratégia de controle mundial explícito, visto que, em diversas obras, a distopia é restrita a algum local. Em 1984, por exemplo, lemos que o mundo fora dividido em três grandes superpotências, embora tal informação possa não ser confiável, devido ao fato de que os órgãos de comunicação do Estado na distopia orwelliana
110 são manipulados pelo Partido. Assim, não é uma ordem planetária estabelecida que mantém a população onde vivem os protagonistas do romance em obediência servil, mas a necessidade de união nacional contra as duas outras superpotências, em um estado de guerra interminável, de modo que o público leitor não tem acesso claro à real situação política global. Já em O Conto da Aia, de Margaret Atwood, o Estado distópico de Gilead se restringe aos Estados Unidos, o que permitiria a possibilidade de fuga para outros países. De fato, no último capítulo da obra, narrado de uma temporalidade no futuro em relação ao restante da história, um palestrante se pergunta se Offred, a protagonista de O Conto da Aia, teria conseguido fugir de Gilead para o Canadá e de lá para a Inglaterra, deixando claro que aquele regime não era mundial. Nesse ponto, há de se observar que as distopias que se estruturam como governos mundiais apresentam um maior terror da impossibilidade da fuga, fazendo com que sua população tenha de enfrentar o governo em busca de revolução ou então aceitar a sujeição ao modelo distópico indesejável. No caso da distopia de Jerônymo Monteiro, o protagonista sabia que não ficaria ali para sempre, pois seu espírito retornaria para o século XX dentro do período de três meses.
Ainda assim, ao invés de apenas permanecer ali como observador passivo, escolhe lutar com um grupo de resistência, conferindo ao romance um aspecto de brasilidade, conforme a visão de Renato Pignatari Pereira (2019), no sentido em que é um brasileiro o protagonista que lidera a derrubada do governo distópico.
Ao escolher escrever sobre um governo distópico mundial, Jerônymo Monteiro se insere em uma malha intertextual que inclui várias outras distopias. No entanto, ao fazer tal escolha, o autor escreve uma distopia que pode parecer não se relacionar tão diretamente às questões sociais específicas do Brasil de sua época. Outras distopias brasileiras de períodos posteriores, que serão analisadas nos próximos capítulos desta tese, dialogam de forma mais clara com problemas sociais brasileiros específicos de suas épocas de publicação ao ambientar suas narrativas em um Brasil distópico. Ainda assim, o governo mundial em 3 Meses no Século 81 possui certos paralelos com o do presidente Eurico Gaspar Dutra, em se tratando de seu caráter autoritário e com discurso desenvolvimentista baseado em industrialização, de modo que mesmo se tratando de um Estado mundial, o paralelo de crítica social com o próprio governo da época poderia ser feito pelo público leitor brasileiro deste romance.
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