O panorama atual da documentação da performance audiovisual ao vivo
5.2. A documentação do processo e do momento performativo dos artistas
Através da análise das entrevistas efetuadas aos quatro artistas (uma das quais está incompleta – a que efetuamos ao artista Toby Sparks123 – mas que
consideramos dada a relevância do seu conteúdo) que trabalham em coletivos, desenhamos o perfil do artista que trabalha o audiovisual na sua multiplicidade e na diferença que define o trabalho de cada indivíduo e a sua relação com os elementos dos grupos com quem trabalham.
O desenvolvimento de projetos artísticos entre os artistas associados à performance audiovisual ao vivo é, por vezes, a sua atividade principal (a sua profissão) e, outras vezes, uma atividade secundária (havendo outra atividade designada como profissional). A presente análise demonstra não haver maior incidência sobre uma situação em detrimento da outra. Billy Roisz124
dedica o tempo inteiro ao seu trabalho com artista áudio e visual em atividades que variam
122 Revista online Digimag, um projeto editorial da responsabilidade de Marco Mancuso, constituído
por um coletivo de artistas que contribuem com textos, entrevistas e notícias sobre arte tecnológica. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em: <http://www.digicult.it/digimag>.
123 Website pessoal do artista Toby Sparks. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em:
<http://www.tobyz.net>.
124 Website pessoal da artista Billy Roisz. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em:<
entre performances, instalações audiovisuais e produção de vídeos/filmes experimentais para um écran (single screen). Tanto o artista Toby Sparks como a artista Laetitia Moraes125 também se dedicam ao audiovisual a tempo inteiro, mas
dividindo as suas atividades entre os projetos artísticos e a universidade, no caso de Toby Sparks, como aluno de doutoramento a tempo inteiro,126
e, no caso de Laetitia Morais, como docente universitária. Os Incite127
são exemplo da divisão entre emprego e produção artística mais distinta. Ambos os artistas deste coletivo, Kera Nagel e André Asplmeier, dividem o seu tempo entre a criação e produção de performances audiovisuais e as respetivas atividades profissionais, sendo que, no caso de Kera Nagel, ela é professora e curandeira espiritual num sentido xamanístico, e André Asplmeiern é engenheiro de som e diretor de projetos para empresas de aluguer de PAs.
Muitos artistas relacionados com a performance audiovisual trabalham individualmente, desenvolvendo eles próprios o som e imagem para as suas performances ou, então, desenvolvendo um dos componentes (áudio ou imagem) que manipulam ao vivo, a solo ou com outros artistas. O desenvolvimento de um dos componentes sem que no seu processo se criem dinâmicas de desenvolvimento com os outros artistas é uma das características atribuídas ao VJing (especialmente em discotecas). A falta de diálogo entre som e imagem resultante da inexistência de um processo de desenvolvimento (cada artista, VJ e DJ, desenvolvem o seu arquivo para manipulação separadamente) é a razão pela qual é visto como pouco desafiante. Nem todo o VJing é caraterizado desta forma, há duos de VJ/DJ que desenvolvem trabalho em conjunto e coletivos que têm ambas as componentes incorporadas como capacidades de vários dos seus membros. É a partir do trabalho dos coletivos (combinação de especialidades) e do diálogo entre som e imagem que resultam os projetos mais interessantes e ricos e, portanto, os que são do interesse da nossa investigação. Todos os artistas que constam das entrevistas desenvolvem projetos colaborativos e, no entanto, todos desenvolvem igualmente projetos a solo. O que nos é dado a perceber é que o trabalho a solo destes artistas (cujo trabalho é
125 Website pessoal da artista Laetitia Morais. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em:
<http://www.3leds.com>.
126 Toby Sparks frequenta o doutoramento em Media and Arts Technology, na University of London
Media and Arts Technology Doctoral Training Centre, Queen Mary, University of London. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em: <http://www.mat.qmul.ac.uk>.
fortemente colaborativo) tem um ênfase menor tendo em conta a globalidade das suas carreiras artísticas. Como nos diz o Incite:
Ambos temos os nossos projetos a solo dormentes visto que o Incite é o projeto mais importante neste momento.
[Kera Nagel e André Asplmeier são os membros do coletivo Incite. Residem em Hamburgo.]
O estudo apresenta-nos exemplos de como os artistas se associam na constituição de coletivos. No caso do Incite, a relação estabelecida é duradoura e de igualdade entre os elementos, já que Kera Nagel e André Asplmeier se dedicam completamente ao coletivo que formam em conjunto. O coletivo D-Fuse128
, ao qual Toby Sparks está associado como elemento, é formado por uma equipa igualmente estável, mas onde a igualdade que encontramos no Incite é substituída por uma estrutura em que existe um líder, Mike Faulkner, fundador e diretor criativo do D- Fuse. De salientar que ao longo da sua carreira Toby Sparks tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento da performance audiovisual inglesa, especificamente no VJing, através de vários projetos coletivos, entre eles o AVIT (efetuado pela e para a comunidade VJCentral129
) e o Narrativa Lab (uma colaboração entre três pessoas). Paralelamente a uma carreira de trabalhos em ambientes colaborativos, Toby Sparks trabalha em nome próprio (VJ Sparks) com outros artistas. No entanto, diz Toby Sparks,
A minha própria prática está 'estacionada', enquanto eu estou a fazer o doutoramento, mas de vez em quando trabalho no desenvolvimento de hardware e software para audiovisual que alugo, junto com os meus serviços.
[Toby Sparks, artista visual, elemento do coletivo D-Fuse, e aluno de doutoramento. Reside em Londres.]
Entre os projetos a solo destaca,
128 Website do coletivo D-Fuse. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em:
<http://www.dfuse.com>.
129 Website e fórum da comunidade VJCentral. [Consult. 19 agosto 2012]. Disponível em:
Um projeto favorito continua a ser o Dave Clarke ao vivo, onde trabalhei como diretor na tarefa de transformar o seu conteúdo num show ao vivo.
Seguindo o formato em que o artista se associa a vários projetos mais um menos fixos e duradouros, Laetitia Morais trabalha de forma regular com a companhia de teatro Marionet (Coimbra) e com a compositora Kateryna Zavoloka (Ucrânia). De forma esporádica, Laetitia Morais trabalha também com outros artistas:
Por vezes, colaboro com um coletivo artístico que tem uma característica particular: este coletivo chama-se NIP (New Interfaces for Perfomance) e dele fazem parte artistas plásticos, músicos, programadores, de diferentes nacionalidades. Não tem um número fixo de elementos (mais de 10 participantes, de diferentes países, e que frequentemente não se conhecem até à data. Reúnem-se para a produção de uma performance. A organização depende da direção de um elemento regulador – da Teresa Dillon.
[Laetitia Morais, artista visual. Reside no Porto.]
As dinâmicas de associação dos artistas com vários coletivos adquirem, por vezes, dimensões complexas, como indica a grande variedade de coletivos com quem Billy Roisz trabalha. A lista de colaborações é extensa e aí desempenha uma grande variedade de funções: no projeto Subshrubs (com Angelica Castello, Katharina Klement e Maja Odojnik) Billy Roisz faz composição musical e, às vezes, também vídeo; no projeto Kutin|roisz produz instalações audiovisuais com luz/vídeo/som, fazendo áudio e vídeo, com Peter Kutin (que toca música); no projeto Cilantro utiliza dispositivos de vídeo para produzir som com Angelica Castello (toca música com vários gravadores e dispositivos eletrónicos); no caso do NotTheSameColor,
O set-up consiste em vários instrumentos áudio e vídeo, ligados de forma a permitir feedback em vários sentidos e interação física. Os sinais áudio e vídeo deixam o seu domínio para adquirir novas funções e significados. Sons causam imagens e o sinal de vídeo pode ser ouvido. dieb13 é responsável pelo
saída acústica – eu sou responsável pela saída visual. Mas cada um de nós está a influenciar o som e imagem.
[Billy Roisz é visualista, artista de vídeo e de som, que trabalha em vários grupos dedicados à
performance audiovisual. Reside em Viena.]
Além destes ainda se contam mais dois projetos colaborativos: o AVVA, onde faz vídeo, com Toshimaru Nakamura (som) e, finalmente, no projeto Skylla faz sons em conjunto com Silvia Fässler. Esporadicamente trabalha em projeções para um écran em nome pessoal com a participação de vários artistas. Nestas situações, diz Billy Roisz,
Sou responsável pela ideia, enviar propostas para receber dinheiro, desenhar esboços, escrever conceitos, editar – e combinar som e imagem.
Dentro dos coletivos onde desenvolvem os seus projetos, as tarefas podem variar consoante a versatilidade, a necessidade e o interesse de cada um e do grupo. A situação em que os artistas trabalham em conjunto som e imagem, dentro do mesmo coletivo, é aqui exemplificada pelo coletivo Incite. A situação em que as tarefas são fixas é exemplificada pela relação que Toby Sparks mantém como elemento do D-Fuse. As suas atividades são:
Transformar filmes de representação/lineares numa performance de cinema expandido abstrato/não-linear. Isso envolve dar um novo propósito às filmagens (em colaboração), criando a configuração do set-up para controlar ao vivo/tempo real, processar e apresentar as imagens (solo), trabalhando com o espaço que vai receber o evento (solo), realizar a mistura ao vivo (em colaboração).
Por último, as tarefas podem variar dependendo das necessidades ou interesses do coletivo, como é o caso de Billy Roisz ou de Laetitia Morais, que diz a este propósito o seguinte:
O meu papel varia dependendo de cada projeto/colaboração, mas tenho vindo a produzir com alguma constância peças videográficas, para serem utilizadas em performance ou instalação (normalmente relativas a dados fornecidos por outros elementos do grupo).
Tal como as tarefas de cada elemento correspondem à necessidade do coletivo, os métodos de trabalho, durante o processo criativo, são particulares a cada grupo.
Tendo em vista um método de trabalho organizado, Kera Nagel e André Asplmeier desenvolvem os seus projetos da seguinte forma:
Existe uma troca intensa entre nós os dois. Desenvolvemos um projeto e vamos para o exterior filmar, capturar a informação para trabalhar depois digitalmente. (…) Cada um apresenta frequentemente ao outro o seu trabalho em progresso para ir discutindo ideias nas fases primárias e, desta forma, verificar que estamos ambos envolvidos o máximo possível no trabalho do outro e evitar desperdício de energia em coisas que não interessam. Se um de nós não gosta de um som, um clip, um efeito (visual ou sonoro) – este não é utilizado.
No caso do coletivo D-Fuse, o desenvolvimento de cada projeto é uma tentativa de chegar cada vez mais próximo de um objetivo criativo imaginado no ponto de partida para um novo projeto e que resulta num processo diferente de cada vez. Sobre a forma como desenvolve o seu trabalho como elemento do coletivo D- Fuse, Toby Sparks diz:
Eu acho que por baixo de tudo há uma espécie de yin e yang: lidar com as expectativas dos outros e ao mesmo tempo surpreender e deleitar para além dessas expectativas. (…) Eu gostava de dizer que no processo há etapas claras x, y, e z, mas a verdade é que não há – todos fazem o que se pode até ao último momento! Tentamos ser organizados e tentamos ensaiar e tentamos... mas as nossas ambições ultrapassam sempre o tempo que temos.
Neste processo, o Mike fornece a ideia e a base de dados (a alimentar progressivamente), o Matthias trabalha o esboço de uma banda sonora para o desenvolvimento das imagens e passa a trabalhar no desenvolvimento da composição completa. O Toby Sparks faz esboços para as imagens com o Motion, que é uma espécie de After Effects:
Há um volta-e-vem entre o Matthias, o Mike e eu com a música a tomar a direção para o vídeo e vice-versa.
Juntos editam camadas com as quais vão depois manipular em conjunto ao vivo. Para Billy Roisz, a forma como trabalha é intuitiva, participativa (com contribuições de todos os elementos do coletivo), numa combinação entre improvisação e ensaios. Diz Billy Roisz,
Como a maior parte [dos coletivos com que trabalha] é improvisação, o processo é mais uma procura de imagens e/ou sons – uma linguagem – que surge a certa altura – ou ainda mais interessante, encontrar diferenças, procurar tensões.
Mas há projetos que diferem deste modelo:
Para o projeto/banda 'subshrubs' (...) o processo é mais direcionado para o ‘verdadeiro’ ensaio. Cada um compõe uma parte do todo.
As dinâmicas de organização, aplicação e desenvolvimento dos métodos particulares a cada coletivo implicam a comunicação entre os elementos, a partir da qual o projeto audiovisual se desenvolve. A comunicação ocorre em presença no mesmo espaço e também através da Internet e parece estar condicionada (a escolha entre a presença ou mediação) pela possibilidade ou impossibilidade de encontro no espaço físico. Para Kera Nagel e André Asplmeier, o processo de comunicação desenvolve-se pela partilha do espaço físico em que as conversas online ocupam um tempo de exceção. Sobre as suas conversas através do Skype, dizem que:
Não há substituto para a comunicação direta face a face no nosso processo.
Da mesma forma, o trabalho de Toby Sparks, desenvolve-se entre o tempo em conjunto, nas reuniões e na produção – tempo no estúdio –, e o trabalho individual de desenvolvimento em casa. Billy Roisz tem rotinas diversas dentro dos vários coletivos onde decorrem as suas atividades. Alguns dos encontros são ensaios e decorrem em espaços físicos. Por vezes, os projetos são desenvolvidos através do envio de faixas sonoras e visuais (virtualmente, presume-se). Num formato quase exclusivamente mediado, o trabalho de Laetitia Morais com a compositora Kateryna Zavoloka assenta na comunicação pela Internet, visto que residem a grande distância uma da outra. Por esta razão, diz Laetitia Morais,
Apesar da distância entre Portugal e Ucrânia, esta colaboração apropriou-se essencialmente da Internet como terreno de discussão e partilha de ideias.
O método de trabalho em conjunto decorre entre os encontros online e encontros no local e dia da performance, reforçando desta forma o recurso ao computador e à Internet como ferramentas não só de criação, mas também de registo e de comunicação.
Durante o processo, a comunicação entre os artistas apresenta duas durações. A primeira duração da comunicação é o imediato e a segunda, é a que servirá (várias vezes) para partilha e consulta posterior, sendo, portanto, necessário registá- la. O registo, para Billy Roisz e Laetitia Morais, são desenhos e esboços. Billy Roisz utiliza o registo para esboçar os set-ups e as ligações de sinal (para utilização durante a performance) e faz gravações de ensaios para ver os resultados. Laetitia Morais recorre a papel e a riscadores para o registo dos esboços e depois,
Quando surge a necessidade de partilhar essa informação, tenho por hábito digitalizar os esboços e adicionar uma memória descritiva e/ou referência.
Para Laetitia Morais os registos não só constituem uma forma de partilha de informação, de observação da evolução do processo, como também servem de auxiliares de memória, de visão e de pensamento.
Os registos efetuados durante o processo criativo são para uso exclusivo dos artistas como parte do seu método de trabalho individual e como membro de um coletivo. Há, contudo, nos registos, um potencial que, uma vez transformado em documento, auxiliará à compreensão da obra. Refere-se no Capítulo 3 o exemplo de um documento que resulta do registo do processo: é o livro editado pelo coletivo Aether9 e que documenta as conversas entre os performers durante o processo e a performance. A análise das entrevistas e dos documentos levam-nos a concluir que documentos que resultam do registo dos processos são muito escassos. Há um outro exemplo, uma peça de performance que o duo Incite apresentou, cujo processo criativo é descrito da seguinte forma:
Uma das peças (a dos avatares, com que terminamos a performance em Bochum, aquela com animação com legos) funciona como um “making of” auto irónico. É o mais próximo que chegamos de documentar o nosso trabalho.
[Registo de observação direta em diário de campo, performance a concurso, Bochum, 08-05- 2012]
A peça em causa ilustra o processo, as ações e reações dos dois elementos do coletivo e descreve a forma como o processo se desenvolve recorrendo ao humor. Seria esperado que estes registos (esboços, desenhos, esquemas) se apresentassem como complemento à performance. Na verdade, é nesta possibilidade que reside o potencial do registo do processo. No entanto, este exemplo toma um caminho inesperado, o da performance que fala de si, de como surgiu. No capítulo anterior, havíamos registado a intenção de não restringir a definição de documento aos formatos definidos; concluímos então que é, por vezes, a própria performance que se transforma em momento-documento, como é o caso do exemplo que aqui apresentamos.
O momento performativo, como esperado, recebe o maior interesse por parte do registo e oferece-se como potencial à criação de documentos. As dificuldades do registo do momento são, contudo, maiores do que as do registo do processo se tivermos em conta a atenção que dirigimos ao artista enquanto responsável pela sua própria documentação e a sua responsabilidade em atuar (o que, na maior parte das
vezes, não é compartilhável – em termos de atenção no decurso da performance – com a tarefa de registar). Esta situação é contornável através de uma câmara fixa ou de uma pessoa que se responsabiliza pelas capturas e, de fato, todos os artistas entrevistados registam os eventos com câmara de vídeo. Só Billy Roisz indica o recurso à fotografia e gravação de som como formas adicionais de registo. Kera Nagel e André Asplmeier decidem se vão registar a performance ou não de acordo com as condições do evento.
Não gravamos se achamos que o evento não é suficientemente bom para o esforço investido.
Laetitia Morais não tem o hábito de registar, limitando as gravações a eventos especiais:
A qualidade desses vídeos é normalmente reduzida e para usufruto próprio; permitem-me uma revisão e consequente reflexão/conclusão sobre os resultados obtidos. Quando pretendo promover/divulgar alguma performance, procuro registar a performance, utilizando equipamento de melhor qualidade e solicitando o seu manuseamento a operadores qualificados.
O problema da documentação coloca-se também em termos logísticos, pois para o artista significa mais uma tarefa a considerar, um peso extra a carregar (saliente-se que os artistas viajam muitas vezes – e, por vezes, em tournée – com muito equipamento) e a decisão de levar o equipamento para a gravação depende das expectativas em relação aos aspetos técnicos que são providenciados. Kera Nagel e André Asplmeier indicam como dificuldades,
O desafio de encontrar o lugar adequado para colocar a câmara e uma pessoa fiável para a operar. Muito frequentemente os próprios festivais fazem gravações vídeo às quais raramente temos acesso.
O desafio a um registo de qualidade para a partir dele produzir documentos é grande e envolve não só o esforço dos artistas, mas de quem organiza. A este propósito, dizem os elementos do Incite:
Como documentar um set-up com vários écrans e uma performance ‘surround’? O esforço e os custos são elevados para fazer isto de forma correta. (Multi-HD-camera setup, gravação de surround sound, edição e pós- produção, etc.
Estas questões, e outras de igual relevância, causam distanciamento em relação à fruição de um evento (origem-original), que se estabelece através da visualização da gravação, e inflete uma perceção distorcida do mesmo. Por vezes, faz parte do objetivo do documento encurtar esta distância e aproximar o espetador da performance gravada (através de técnicas de gravação e edição) e, outras vezes, como é o caso do Incite, essa distância é definida claramente:
O propósito [em documentar] é permitir excertos demonstrativos das nossas performances no Vimeo e outros. Para nós a performance é o produto. O nosso objetivo é passar à audiência a experiência da energia da nossa performance. Nós pensamos que essa energia não pode ser gravada, podemos somente gravar uma versão limitada! Um espetáculo audiovisual é acerca desta qualidade efémera que só tens uma oportunidade de ver/ouvir. Tudo o que a gravação de uma das nossas performances é capaz de fazer é suscitar a curiosidade para ver a ‘coisa’ real.
Simultaneamente, o documento provoca uma experiência distorcida do momento performativo e confere-lhe um valor ainda maior, dado carácter único do evento. Neste sentido, a documentação não substitui a sua proveniência original mas pode, no entanto, conferir-lhe uma relevância de distinção. Surpreendentemente, a documentação que os artistas produzem da própria performance é escassa. Os documentos que encontramos são o website próprio (e comum a todos os artistas), os vídeos disponíveis nas plataformas de vídeo (sendo
o Vimeo a mais conhecida), em CDs e DVDs, e através de notícias regulares nas redes sociais (especialmente no Facebook).
Consideramos o website um documento associado ao processo criativo. No caso dos festivais, optamos por classificar cada website individualmente estabelecendo uma relação de comparação com documentos impressos, entre o programa, o catálogo e o arquivo. No caso dos artistas, optamos por considerar cada website como um catálogo-portfólio do trabalho desenvolvido e como forma de apresentação da identidade do seu trabalho. Todos os websites se encontram em língua inglesa. Estabelecem-se também semelhanças nos títulos das páginas (elementos de navegação) e nos conteúdos. Assim, em relação às páginas todos os artistas têm uma segmentação por meios: áudio, vídeo, performance (ou título semelhante: “AV performance” e “Live Projects”) e uma área de informação e