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As componentes do tempo: o processo criativo, o momento performativo e o momento de encontro da comunidade

1.2. Definição do contexto específico à pesquisa

1.2.1. As componentes do tempo: o processo criativo, o momento performativo e o momento de encontro da comunidade

O tempo, para o filósofo Alfred Norton Whitehead (1861-1947), tal como toda a natureza, é feito de transitoriedade. Ambos, natureza e tempo, são permanentes processos. A transitoriedade, a unicidade (de cada elemento e de cada momento) e as relações que se estabelecem entre estas são características que consideramos fudamentais para compreender a expressão da performance audiovisual ao vivo. As relações entre várias práticas já foram apontadas acima ao traçar caminhos que são comuns à fotografia, filme e performance. Envidenciaremos agora uma relação entre os conceitos de tempo baseados na Filosofi ado Processo de Alfred North Whitehead41

e o tempo na prática performativa. No próximo capítulo serão aprofundados outros tipos de unicidade e de relações entre estas.

O tempo é, portanto, um conceito composto por individualidades e relações que entre estas se estabelece. O entendimento do tempo consiste no entendimento de uma série de outros conceitos que o compõem. O primeiro, o conceito de ‘evento’, define-se como o caráter específico de um lugar através de um período de tempo. Cada ‘evento’ é um “termo relacional na estrutura de eventos” (Whitehead, [1861] 1994, p. 64), que tem como propriedades as relações que se estabelecem entre tempo e espaço: as relações entre os eventos (passados e futuros) formam o contínuo do tempo e as relações de cada evento com a natureza total formam o contínuo do espaço. O presente é a apreensão (da natureza), simultaneamente na totalidade e no

41 Alfred North Witehead é um filósofo e mátemático inglês (1861-1947), que desenvolve um sistema

filosófico centrado na relação entre os acontecimentos. O seu pensamento está visivelmente presente no trabalho de vários filósofos contemporâneos, com é o caso de Maurice Merleau-Ponty e Gilles Deleuze.

imediato. Esta totalidade tem o nome de ‘duração’: “uma duração é uma fatia concreta da natureza” (Whitehead, [1861] 1994, p. 66). Neste sentido, a simultaneidade é uma relação natural entre os ‘eventos’. À natureza como um todo num instante chama Whitehead de ‘momento’. Estabelecemos um paralelo entre o todo natureza-performance e ‘momento’, recorrendo deste conceito como unidade a partir de onde organizar o tempo dentro da própria performance de forma a posteriormente lhe associarmos as fases para constituição da documentação. No contexto que definimos, recorremos da definição de momento como um presente, estado de fixação momentânea, parte constituinte de um contínuo. Definimos três momentos na performance: são eles o processo criativo, o momento performativo e o momento de encontro da comunidade. O momento é desprovido de duração; “o que é directamente oferecido ao nosso conhecimento através da apreensão sensível é uma duração” (Whitehead, [1861] 1994, p. 71). Um ‘evento’ é, transposto para o nosso contexto, um espaço e tempo específicos, que podemos localizar na linha do tempo. “Cada evento estende-se por sobre outros eventos e por sobre cada evento estendem- se outros eventos” (Whitehead, [1861] 1994, p. 72), formando assim um sentido de continuação. A ‘duração’ será portanto a perceção de desenvolvimento: “cada duração é parte de outras durações; e cada duração contém outras durações que são parte dela” (Whitehead, [1861] 1994, p. 72). Não existe uma forma de identificar cada duração na sua individualidade, nem forma de determinar a sua extensão; simplesmente damos nota da afetação de cada ‘momento’ e de cada ‘evento’ num panorama abrangente que é a performance audiovisual ao vivo, como a conhecemos hoje, informada pelos desenvolvimentos que a antecederam e a predecerão.

Cada um dos três momentos – na sua identidade única, definido pelo seu tempo e espaço, que o qualifica como ‘evento’ numa sequência de ‘eventos’ – tem, portanto, uma identidade distinta e identificadora. Poderemos então perceber como este três momentos se desenvolvem, extendem e afetam mutuamente. Os momentos formam relações interligadas, em que as experiências presentes são influenciadas por outras experiências, influenciando depois, por sua vez, experiências futuras.

O primeiro momento está relacionado com o processo. Por processo criativo entendemos todo o tempo de preparação que ocorre antes do momento performativo e que é definido pelas decisões, pelos desenvolvimentos de conteúdos e pelas escolhas tecnológicas e estéticas. É um processo criativo porque durante este tempo

se preparam todos os elementos que constituirão a experiência de uma performance, como, por exemplo, a gravação e edição de clips de vídeo e a constituição de uma base de dados. O destaque dado ao tempo anterior ao evento permite, ao estudar a documentação, uma atenção desviada do resultado e focada no que levou a esse resultado. É aqui aparente a influência das expressões artísticas associadas ao processo e ao conceito, nas quais, muitas vezes, não existe resultado final, só processo.

O momento performativo é a expressão em si, o encontro dos artistas, através da sua obra, com os espectadores e a sua fruição. Como dito anteriormente, a performance audiovisual ao vivo apresenta o momento como expressão artística. Apesar das capacidades das tecnologias para a repetição infinita, o momento criado, tal como o encontro momentâneo, é único. Esta qualidade de irrepetibilidade não é resultante do aleatório ou do inesperado, pois é comum entre performances ensaiadas (quase cronometradas) e as improvisadas. Esta qualidade é resultante das dinâmicas irrepetíveis entre a audiência e os artistas, na forma como aquela responde (ainda que emocionalmente) ao trabalho visual e musical dos performers, e ainda das dinâmicas entre os próprios artistas. As condições do espaço também afetam a sua exibição. Os espaços que recebem estas práticas do momento são de tipologia variável: galeria, teatro, sala de cinema e museu, mas também podem incluir as ruas, entre outros espaços momentaneamente contextualizados como artísticos. No entanto, o espaço não está restrito à presença física e muitos eventos acontecem para uma audiência que está presente virtualmente. É o caso de muitas performances que utilizam, por exemplo, o Skype ou acontecem no Second Life.42

Por vezes, a simultaneidade na apresentação de uma performance combina espaços virtuais e espaços físicos, no que chamamos de espaço vireal. Servem mais uma vez de exemplo os eventos com recurso a plataformas online, como é o caso do Furtherstudio43

, que acontecem simultaneamente em várias cidades, com a presença física ou virtual dos artistas.

42 A procura da combinação da performance com outras disciplinas e com as novas tecnologias móveis

é visível no interesse e sucesso do projeto internacional Film Mobile. Desta rede colaborativa fazem parte Max Schleser, Eugenio Tisselli e Camille Baker, entre outros artistas / académicos, que trabalham a captura e distribuição áudio e vídeo, através de tecnologias móveis, em combinação com a dança, o documentário e a poesia, e que apresentam o seu trabalho como performances online e em espaços físicos.

43 Furtherstudio é uma plataforma online que permite manipulação de áudio e imagens e a sua

visualização em tempo real. Através de um écran de saída, tal como software para manipulação de imagem em tempo real, esta ferramenta permite a manipulação a partir de qualquer ponto do planeta

O núcleo dinâmico dos que ativamente participam na criação, reflexão e, de certa forma, fruição da performance audiovisual formam uma comunidade que nos interessa estudar porque, do nosso ponto de vista, ambas, comunidade e prática, se afetam e evoluem por afetação. Esta comunidade, tal como outras cuja existência apenas é possível no contexto tecnológico e social contemporâneo, tem características específicas. Pode dizer-se que está em processo ou em fluxo; define-se por características flexíveis, fluidas e mutáveis, sem a solidez das comunidades, por exemplo, associadas a locais específicos. Esta relação entre prática e comunidade é da máxima relevância para este estudo. O terceiro destes momentos, ou encontro momentário, é o encontro desta comunidade. O mais comum destes encontros é o festival – momento e espaço de convergência da comunidade local ou internacional. Festivais, entre outros, são momentos para demonstração de trabalhos, troca de conhecimentos e desenvolvimento de contactos. A comunidade de artistas coloca-se nestes eventos numa dupla posição, entre o praticante que exibe a sua obra e o público que aprecia as obras apresentadas. A reunião em locais físicos tem sido essencial para o desenvolvimento da curta história das comunidades da época da comunicação por vias digitais e móveis. Antes do surgimento dos festivais dedicados ao VJing e posteriormente à performance audiovisual, o encontro entre pessoas que partilhavam um interesse comum acontecia online em chatrooms e fórums. Desta forma, as ferramentas e capacidades necessárias, anteriormente pertencendo a grupos de curiosos circunscritos a uma área geográfica, passaram a ser partilhadas entre pessoas geograficamente dispersas. A função do festival está associada ao encontro presencial, permitindo à comunidade confirmar a sua existência e evoluir. Conscientes do seu papel como momento de encontro, os festivais promovem a exibição dos projetos mais recentes e inovadores com o intuito de encontro, onde os espaços sociais, de encontro informal, são tão importantes como os espaços formais das apresentações. O momento de encontro da comunidade é a chave para a afirmação desta mesma como tal e cada um dos encontros é um momento de impulso para o desenvolvimento futuro da expressão artística.

(com acesso à Rede) e a sua projeção em vários espaços físicos. Furtherstudio. [Consult.09 junho 2011]. Disponível em: <http://www.furtherfield.org/furtherstudio/docs/about.html>.