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A ecologia profunda ("deep ecology")

BREVE ENQUADRAMENTO DAS QUESTÕES AMBIENTAIS E ECOLÓGICAS

3. As nossas relações com a natureza: algumas reflexões

3.1. A ecologia profunda ("deep ecology")

O termo "deep ecology" deve-se a Arne Naess, um filósofo norueguês que continua a constituir um nome de referência nesta tradição (Devall e Sessions, 1985; Ferry, 1993). No seu artigo de 1973, Naess procura descrever a abordagem mais profunda e espiritual da natureza, ilustrada por exemplo na obra de Rachel Carson (1962). Segundo Naess (1973), a ecologia profunda tem oito premissas de base, das quais as quatro primeiras são as fundamentais. Passamos a expor estas quatro, porque parecem ser a melhor forma de exemplificar as bases deste tipo de pensamento:

> O bem estar e o desenvolvimento da vida humana e não humana sobre a Terra são valores em si. Estes valores são independentes da utilidade do mundo não humano para os fins do Homem.

> A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização destes valores e são, por isso, também valores em si.

> Os seres humanos não têm nenhum direito de reduzir esta riqueza e esta diversidade, excepto para satisfazer necessidades vitais.

> O florescimento da vida e cultura humanas é compatível com uma diminuição substancial da população humana. O florescimento da vida não humana exige essa diminuição.

No seu conjunto, estas premissas têm por consequência o princípio do

"igualitarismo ecocêntrico", no quadro do qual a vida humana ou não humana

tem prioridade sobre qualquer outro valor. A vida seria um direito intrínseco de qualquer ser da natureza, e, neste sentido, as pessoas estão em pé de igualdade com as pedras, as árvores ou com qualquer outra espécie. Todos os organismos ou entidades na ecosfera fazem parte de um todo interrelacionado, sendo iguais no seu valor intrínseco.

As implicações práticas deste princípio sugerem que elevemos viver com um impacto mínimo nas outras espécies e na Terra em geral. A ecologia profunda propõe assim que se acabe com a dominação antropocêntrica da natureza, dominação esta que vê a natureza como tendo um valor relativo às pessoas, e não como um imperativo em si.

As duas palavra-chave que caracterizam a ecologia profunda são então o holismo e o anti-humanismo. O holismo, porque a totalidade - a ecosfera - é assumida como moralmente superior aos indivíduos, e assim o bem comum permite que se passe por cima do bem de cada indivíduo particular e mesmo do bem da humanidade. O anti-humanismo, porque o valor deixa de ser relativo às pessoas para passar a ser relativo à ecosfera.

Uma outra dimensão da perspectiva da ecologia profunda remete para a ideia de que a auto-realização humana deve passar por uma identificação total com o cosmos. O crescimento espiritual começa quando paramos de nos encarar a nós próprios como egos isolados e competitivos e começamos a identificar-nos com outros seres humanos e, eventualmente, com outras espécies. Mas o sentido de self na ecologia profunda requer uma maior maturidade e crescimento, e uma identificação que vai além da humanidade para incluir o mundo não humano (chuva, montanha, rios, micróbios, solo, etc.).

3.2. O ecofeminismo

O ecofeminismo é uma designação genérica que cobre uma série de perspectivas sobre a natureza e o ambiente, influenciadas pelo desenvolvimento de feminismo. O que todas elas têm em comum é a preocupação de pensar a dominação da natureza em articulação com a dominação da mulher (Castro, 2002).

No entanto, as formas de articular estas duas dominações diferem de escola para escola dentro do ecofeminismo. Das várias perspectivas existentes dentro deste título genérico, apresentaremos os traços gerais de três correntes

principais. Segundo uma distinção de Ferry (1993), uma das correntes encontra a explicação para a dupla opressão da mulher e da natureza no dualismo, a segunda no mecanicismo e a terceira nas diferenças entre géneros.

Veremos primeiro a explicação baseada no dualismo. O pensamento ocidental é estruturado por uma série de pares opostos, os quais constituem a rede explicativa que segura a própria estrutura social (Ferry, 1993). Como exemplos destes dualismos temos: corpo-mente, natureza-cultura, não humano-humano, emoção-razão, privado-público, imanência-transcendência e feminino- masculino. Este conjunto de dualismos não pode ser tomado de uma forma puramente descritiva para pensar o mundo, pois a descrição é qualificada pelas suas dimensões avaliativas. Para cada um dos dualismos há um pólo que é superior ao outro: a mente é superior ao corpo, como a cultura é superior à natureza, a razão à emoção e o masculino ao feminino. É esta hierarquização valorativa que permite a dominação ou opressão, quer da natureza, quer das mulheres.

A segunda explicação defende que a ligação que é feita entre a mulher e a natureza é mais antiga do que o estabelecimento daquele conjunto de dualismos, os quais são estabelecidos a partir do período da revolução científica. No entanto, o abandono da visão do mundo como um organismo e a afirmação de uma visão mecanicista dele, concomitante ao estabelecimento daqueles dualismos, acarretou a consequente desvalorização da equivalência entre o feminino e o natural (Ferry, 1993).

A terceira explicação é explícita na consideração de que as mulheres estão mais próximas da natureza do que os homens, e de que essa proximidade as coloca numa posição favorável para ajudar a pensar no modo de ultrapassar os problemas ecológicos e de construir formas de vida mais respeitadoras da natureza. Este ecofeminismo defende que só aprenderemos uma melhor relação com a natureza se formos capazes de aprender a valorizar o lado feminino, isto é se substituirmos as formas masculinas - racionais e instrumentais - de nos relacionarmos com ela, pelas formas femininas - emocionais e intuitivas.

A ecologia profunda e o ecofeminismo partilham as mesmas críticas ao modelo de sociedade actual e às suas práticas de dominação da natureza (Castro, 2002). Porém, a primeira situa a origem de todo o mal no antropocentrismo - a humanidade como centro de tudo - e propõe que a humanidade seja desalojada desse centro, e que sejam reconhecidos direitos a todos os seres, inanimados ou animados, porque todos eles têm valor intrínseco. Já o ecofeminismo propõe que o que vivemos e temos de desconstruir não é um modelo de sociedade em que a humanidade está no centro, mas um modelo de sociedade em que o sexo masculino e os seus modelos estão no centro. São esses os modelos de dominação que importa denunciar e abandonar.