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A experiência directa com o objecto de atitude como determinante

A PREVISÃO DO COMPORTAMENTO PELAS ATITUDES

3. Modelos teóricos da predição dos comportamentos pelas atitudes

3.3. Os modelos processuais

3.3.1. As características atitudinais para a predição do comportamento

3.3.1.1. A experiência directa com o objecto de atitude como determinante

da consistência atitude-comportamento

O pressuposto de base a alguns estudos é o de que é o modo como adquirimos as nossas atitudes que as torna mais ou menos fortes. Podem ser distinguidas três fontes de atitude: algumas são adquiridas por experiências pessoais com o objecto social, outras são adquiridas indirectamente por observação e outras ainda provêm da comunicação de uma informação por terceiros ou da persuasão. Esta constatação conduziu Fazio e seus colegas a colocarem a hipótese de uma atitude adquirida a partir de uma experiência directa com o objecto atitudinal ser mais preditiva do comportamento futuro em relação ao objecto do que uma atitude adquirida indirectamente a partir de informações dadas a propósito do objecto. Esta hipótese foi testada e validada pela primeira vez por Regan e Fazio (1977)17.

Regan e Fazio (1977) conduziram uma série de experiências que mostram que quando as atitudes são enraizadas na nossa experiência elas têm bastante mais probabilidade de durar e de predizer as nossas acções futuras. Numa das experiências, os autores apresentaram a sujeitos cinco tipos diferentes de

puzzles intelectuais. A maneira pela qual os sujeitos formam as suas atitudes

foi manipulada dando a alguns sujeitos experiência directa no trabalhar com um exemplo de cada tipo de puzzle e dando a outros sujeitos experiência indirecta

17 No nosso trabalho também testamos a hipótese de as atitudes adquiridas através da experiência directa

com o objecto de atitude (a experiência em situações de compra de produtos ecológicos) serem mais preditivas do comportamento em relação ao objecto (a compra de produtos ecológicos), conforme hipótese introduzida no capítulo IV e resultados discutidos no capítulo VII.

somente pelo exame de exemplos de cada tipo de puzzle previamente resolvidos. A avaliação do interesse de cada tipo de puzzle foi utilizada como medida das atitudes. O comportamento foi observado numa situação de jogo livre de 15 minutos, durante a qual os sujeitos podiam trabalhar em qualquer um dos puzzles, sendo avaliada a extensão com que os sujeitos jogavam com cada um dos puzzles. Como esperado, as correlações atitude-comportamento eram maiores entre os sujeitos que foram submetidos a uma experiência directa do que entre os sujeitos que foram submetidos a uma experiência

indirecta.

Uma demonstração conceptualmente semelhante foi conduzida junto de estudantes de uma universidade. Uma penúria de alojamentos no campus universitário forçou os estudantes do primeiro ano desta universidade a dormir em camas colocadas em salas de residências durante várias semanas (alojamento temporário), enquanto os outros estudantes permaneciam no conforto relativo do seu quarto (alojamento permanente). Quando interrogados por Regan e Fazio (1977), os estudantes dos dois grupos manifestaram atitudes negativas equivalentes em relação à situação de alojamento e ao modo como a administração se ocupava dessa situação. No entanto, quando foi medido o comportamento (assinar uma petição apelando à administração para fazer qualquer coisa, solicitar outras assinaturas, participar num comité de análise da situação, escrever uma carta pessoal a este propósito), somente os sujeitos cujas atitudes emanavam de uma experiência directa com o alojamento temporário agiram de uma forma concordante com as suas atitudes.

Num outro estudo ainda, as atitudes dos estudantes em relação à participação em experiências de psicologia estavam ligadas à sua vontade de serem eles mesmos sujeitos. A correlação atitude-comportamento era maior no caso dos estudantes que tinham experiência prévia na participação em experiências psicológicas (Fazio e Zanna, 1978). Outras experiências confirmaram este tipo de resultados (ver revisão efectuada por Fazio e Zanna, 1981).

Fazio e os seus colegas (Regan e Fazio, 1977; Fazio, Chen, Mc Donel e Sherman, 1982) colocaram então em evidência que a experiência pessoal que o sujeito teve com o objecto da sua atitude, tal como o número de oportunidades que lhe foram dadas para exprimir a sua atitude, aumentam sensivelmente a relação atitude-comportamento.

Partindo destes resultados, os investigadores procuraram então compreender como a experiência directa do sujeito com o objecto de atitude influencia a relação atitude-comportamento. As explicações avançadas para o efeito da experiência directa na consistência atitude-comportamento foram as seguintes:

1. A noção de força.

Fazio, Zanna e os seus colegas inicialmente defendem que o impacto da experiência directa na relação atitude-comportamento é explicada por diferenças na natureza das atitudes baseadas na experiência directa em vez de indirecta (Fazio e Zanna, 1981). As atitudes baseadas na experiência directa têm mais clareza e são tidas com maior confiança e

certeza do que as baseadas na experiência indirecta. Estes aspectos da

atitude, chamados «qualidades atitudinais», foram conceptualizados como equivalentes à força da atitude. Assim, os resultados obtidos nos estudos que atrás apresentamos podem ser interpretados como indicando que atitudes fortes estão mais fortemente correlacionadas com o comportamento. A experiência directa com o objecto de atitude pode ser considerada como determinante da força de uma atitude, que é conceptualizada como a força da associação entre um objecto de atitude e a sua avaliação e que se traduz em termos de certeza no respeitante à pertinência da atitude e em termos de estabilidade dessa atitude em diferentes situações e através do tempo.

2. A noção de acessibilidade

À medida que foram desenvolvendo a sua pesquisa, Fazio, Zanna e os seus colegas acabam por acreditar que as atitudes baseadas na experiência directa são mais preditivas do comportamento porque são mais

são mais acessíveis são determinantes do comportamento mais poderosos do que as atitudes menos acessíveis pois são rapidamente activadas. A activação de uma atitude na presença do objecto ao qual diz respeito é função directa da sua acessibilidade em memória, tendo esta noção sido operacionalizada pela rapidez com que os sujeitos recuperam as suas atitudes em resposta a inquérito directo sobre as mesmas atitudes. Fazio e os seus colegas reúnem então uma variedade de provas que alimentam a proposição de que a força de uma atitude aumenta a sua acessibilidade em

memória e de que a acessibilidade é um mediador do impacto da

experiência directa na importância das correlações atitudes- comportamentos (Fazio, Chen, McDonel e Sherman, 1982; Fazio e Williams, 1986). Seguindo o raciocínio de Fazio e dos seus colegas, as

«qualidades atitudinais» (clareza, confiança, certeza e estabilidade) estão

correlacionadas com a força da atitude e, consequentemente, com a sua acessibilidade. Estas variáveis moderam a relação atitude-comportamento só porque se relacionam com a força associativa (entre objecto de atitude e sua avaliação) e com a sua consequência, a acessibilidade.

3. A activação automática das atitudes

Fazio (1986) defendeu ainda que as atitudes que são muito acessíveis são automaticamente activadas na presença do objecto de atitude, ou seja, sem nenhuma consciência ou processamento cognitivo intencional. Para demonstrar este automatismo, Fazio, Sanbonmatsu, Powell e Kardes (1986) realizaram um estudo no qual concluíram que, para os sujeitos com associações objecto-avaliações fortes, a activação da atitude é automática. A lógica que suporta esta conclusão é a de que os sujeitos exigem um intervalo de tempo longo para desenvolver uma estimativa mais consciente ou uma estratégia de resposta, enquanto os sujeitos que respondem rapidamente activam automaticamente as suas atitudes.

Fazio (1986, 1990) propôs então um modelo que permite pôr em evidência os processos através dos quais as atitudes, uma vez activadas, influenciam os comportamentos dos indivíduos: o modelo processual espontâneo.