A PREVISÃO DO COMPORTAMENTO PELAS ATITUDES
3. Modelos teóricos da predição dos comportamentos pelas atitudes
3.3. Os modelos processuais
3.3.1. As características atitudinais para a predição do comportamento
3.3.1.2. O modelo processual espontâneo de Fazio (1986)
Na sequência das suas pesquisas, e para explorar a relação causal entre
atitudes em relação a alvos e comportamento, Fazio (1986, 1990) propôs uma estrutura que descreve alguns dos processos que podem mediar a relação atitude-comportamento. Este modelo, ao qual Fazio chama «modelo
processual espontâneo ou automático», é resumido pela figura 6, na qual está
representada a sequência dos processos que vão da atitude, uma vez activada, ao comportamento.
Figura 6: Representação do modelo de Fazio (adaptado de Fazio, 1986, p. 212)
—► —► Percepções imediatas do objecto de atitude Activação da atitude —► Percepção selectiva —► Percepções imediatas do objecto de atitude —► Definição do acontecimento Comportamento Activação da atitude —► Percepção selectiva —► Percepções imediatas do objecto de atitude —► Definição do acontecimento Comportamento —► —► Percepções imediatas do objecto de atitude Normas —► Definição da situação
Neste modelo, a sequência atitude-comportamento é iniciada quando uma atitude em relação a um alvo é activada em memória com a apresentação de sinais relacionados com o objecto de atitude. Os autores colocam a hipótese da activação da atitude ser indispensável para assegurar uma forte correlação atitude-comportamento, pois se o objecto atitudinal não activar a atitude que lhe está associada, é pouco provável que esta atitude exerça por sua vez uma influência directiva sobre o comportamento. É por este motivo que no modelo de Fazio (1986) a atitude é definida como constituindo a associação entre um objecto e a avaliação deste objecto e é a força desta avaliação que determina depois o grau com o qual a atitude será activada na presença do objecto atitudinal. Este processo de activação é supostamente automático, no sentido em que é realizado sem esforço e sem ser mediado por uma atenção activa ou pensamento consciente. Se a associação objecto-avaliação é fraca, a sequência automática que vai da atitude ao comportamento não ocorre. Neste caso, a atitude fraca é recuperada por um processo reflexivo que envolve mais
esforço, sendo aqui o comportamento frequentemente controlado por aspectos salientes do objecto de atitude (Fazio, Powell, Williams, 1989).
Depois de uma atitude forte estar automaticamente acessível, ela supostamente exerce um efeito selectivo na percepção do objecto de atitude. Fazio (1986) precisa que a selectividade neste contexto implica que as qualidades do objecto de atitude são percebidas como congruentes com a atitude do sujeito, possivelmente por meio de uma considerável distorção da realidade. Se uma atitude favorável é activada, são atribuídas ao objecto de atitude qualidades positivas. Mas se uma atitude desfavorável é activada, o sujeito atribui qualidades negativas ao objecto de atitude. Estas percepções do objecto de atitude compreendem pelo menos uma parte da definição do
acontecimento do indivíduo.
Paralelamente à ênfase de Fishbein e Ajzen (1975) nas normas subjectivas, Fazio (1986) considera que os factores normativos podem igualmente afectar a definição do acontecimento. Contudo, de acordo com a teoria da acção reflectida, as atitudes (em relação a comportamentos) e as normas têm um impacto na intenção, que é o determinante mais próximo do comportamento. Pelo contrário, Fazio defende que as atitudes em relação aos alvos (actuando via percepção selectiva) e as normas (actuando via definição da situação) não têm impacto na intenção mas sim na definição do acontecimento. O
comportamento simplesmente segue esta definição do acontecimento, a qual corresponde às percepções que envolvem o objecto de atitude e a situação em que este se encontra. Fazio (1986, p.237) afirma assim que:
«uma vez activada, a atitude influencia as percepções do objecto na situação imediata, e o comportamento simplesmente segue estas percepções sem nenhum processo consciente de raciocínio».
Ao assumir que a definição do acontecimento é o determinante mais próximo do comportamento, este modelo deixa sem resposta muitas questões sobre o papel das intenções comportamentais, hábitos e outros factores que poderão ser importantes na relação atitudes-comportamentos. A definição do
acontecimento meramente fornece um nome para todos os processos, nem sempre simples, que ligam a avaliação e as crenças acerca do objecto de atitude e o comportamento. Por este motivo, e embora Fazio (1986) considere o seu modelo como uma alternativa à teoria da acção reflectida, concordamos com a opinião de Eagly e Chaiken (1993) sobre a complementaridade dos dois modelos. Por outras palavras, o modelo de Fazio é complementar aos outros modelos de atitudes que temos vindo a apresentar na medida em que fornece uma descrição dos processos da relação atitude-comportamento até ao ponto em que os outros modelos começam a fornecer a sua própria descrição desses processos, nomeadamente o ponto em que a designação definição do acontecimento aparece. De facto, e não obstante as intenções implicarem processos conscientes e não automáticos, se encararmos o modelo de Fazio como um modelo dos determinantes mais distantes do comportamento, e o modelo de Fishbein e Ajzen como um modelo dos determinantes mais próximos do comportamento, a compatibilidade do modelo processual espontâneo e da teoria da acção reflectida é facilmente compreendida.
Com a excepção da percepção selectiva, a estrutura de Fazio (1986) permanece contudo silenciosa a propósito da ligação entre as atitudes (em relação aos alvos) activadas e os processos que poderão ser os determinantes mais próximos do comportamento. Noutros termos, permanece incerteza a propósito dos processos psicológicos que explicam a influência das atitudes em relação aos alvos nos comportamentos. Por outro lado, os trabalhos de Fazio e seus colegas dão a entender que a consistência entre atitude e comportamento é função da acessibilidade em memória da atitude no momento em que se apresenta, para o sujeito, a oportunidade de se conduzir face ao objecto em conformidade com a sua atitude inicial. Tal acessibilidade é função da experiência pessoal que o sujeito possui com o objecto de atitude e das oportunidades que lhe são dadas para exprimir a sua opinião. Ainda que muitas condutas sejam fruto de respostas dadas de maneira relativamente automática, também existem muitas situações da vida quotidiana nas quais as variáveis da personalidade podem intervir. Outros modelos, que passaremos a apresentar, centraram-se nestes aspectos.