CAPITULO 3 A GOVERNANÇA DAS FLORESTAS NATIVAS NO BRASIL
3.1 Florestas nativas no contexto da Amazônia brasileira
3.1.1 A Economia Florestal da Amazônia Brasileira
Os projetos implantados na Amazônia nas décadas de 1970 e 1980 tinham dupla finalidade: facilitar a expansão do capital nacional e internacional para a região e aliviar as tensões sociais causadas pela concentração fundiária no centro-sul e pela seca no Nordeste. Como resultado dessa política, a população da região Norte passou de 3,6 milhões de habitantes, na década de 1970, para 5,9 milhões no final de 1980, praticamente dobrando em 1990, quando alcançou a faixa dos 10 milhões de habitantes. A consequência mais visível desse processo é o processo de desmatamento que, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no biênio 94/95, chegou à taxa média bruta de 0,80%, permanecendo em patamares bastante elevados até o fim da década de 1990, quando o mesmo instituto registrou a taxa média de desmatamento bruto de 0,52% ao ano (FALEIRO; OLIVEIRA, 2005).
Na Amazônia Legal, há cerca de 600 mil famílias vivendo em regime de economia familiar praticando a agropecuária, o extrativismo, a pesca artesanal e outras formas de produção tradicional. A grande maioria é de migrantes que vieram para a região nas décadas de 1970 e 1980, atraídos pela propaganda do governo federal que prometia, entre outras coisas, terras férteis e fartas. O órgão gestor das terras públicas incentivava as famílias recém-chegadas a ocuparem as parcelas, derrubarem a floresta e implantarem os sistemas de produção. Os parceleiros – como ficaram conhecidos os beneficiários dos projetos de colonização –, que não seguissem essas orientações corriam o risco de perder o direito sobre os lotes (FALEIRO; OLIVEIRA, 2005).
A política de ocupação da Amazônia, idealizada e implementada pelos militares, não considerou a existência das populações tradicionais que lá viviam, que eram consideradas gente atrasada e, portanto, obstáculo para o progresso da região. Com a chegada dos migrantes, ocorreu uma série de conflitos envolvendo fazendeiros, pequenos agricultores, povos indígenas, ribeirinhos, seringueiros, caboclos, entre outros, que disputavam a posse da terra e da floresta (FALEIRO; OLIVEIRA, 2005; ADAMS; MURRIETA; NEVES, 2006)
Segundo Homma (2010), o uso e exploração dos recursos florestais da região Amazônica são marcados por diferentes ciclos econômicos, nos quais os recursos naturais foram a base das atividades econômicas, desde a colonização. Assim foi com o cacau, que, na economia colonial, respondeu por até 97% do valor das exportações; e com a produção de borracha a partir da seringueira, que foi o terceiro produto da pauta das exportações nacionais por 30 anos (1887-1917), vindo logo depois do café e do algodão.
Becker (2008) destaca que após a colonização, a Amazônia foi ocupada e povoada em surtos, associados a grandes inovações da expansão da economia no mundo. Navegação marítima, especiarias, revolução energética, borracha, agropecuária, e as próprias Áreas Protegidas, são marcos de processos e políticas associadas a transformações inovadoras. A autora defende que se trata de uma região extremamente sensível às mudanças que ocorrem no planeta, e que pouco beneficiaram o desenvolvimento regional.
Ao final da primeira metade do século XX, a Região Amazônica acumulava transformações econômicas, sociais, culturais e ambientais produzidas por três séculos e meio de colonização. As políticas de desenvolvimento regional implementadas desde então, ao estimularem a expansão da fronteira interna, impuseram a essas transformações um ritmo inédito, alterando decisivamente os padrões de ocupação da região (BRASIL, 2008).
A Amazônia brasileira é uma das principais regiões produtoras de madeira tropical no mundo, atrás apenas da Malásia e Indonésia (SFB e IMAZOM 2010). A exploração e o processamento industrial de madeira estão entre suas principais atividades econômicas – ao lado da mineração e da agropecuária (NEPSTED et al., 2005; SEAR; PINERA-VASQUEZ, 2005). Cerca de 80% da madeira produzida na Amazônia é consumida em mercados diversificados no sudeste e sul do Brasil. Os maiores centros de produção madeireira na Amazônia Oriental (ao longo da rodovia Belém-Brasília), no Mato Grosso e em Rondônia, surgiram em resposta à proximidade desses mercados internos (NEPSTED et al., 2005).
Entre as espécies de alto valor e intensamente exploradas estão, o cedro (Cedrella odoratta), o freijó (Coria goeldiana) e o mogno (Swiwtenia macrophylla), que foram explorados sem controle, principalmente em reservas indígenas no Estado do Pará e no sudoeste da Amazônia. O mogno é uma das espécies que foram exportadas para a Europa, Ásia e os Estados Unidos por valores lucrativos, que justificavam sua exploração até mesmo em estradas não pavimentadas e de difícil acesso (NEPSTED et al., 2005).
Para o autor (op. cit), o volume de madeira de mogno explorado e o baixo potencial de regeneração após a sua exploração nas florestas, chamaram a atenção internacional, , fazendo com que ele fosse incluindo na lista de espécies em extinção pela Convenção de Comércio Internacional em Espécies em Extinção. Neste contexto, os madeireiros, assim como os garimpeiros, prosperaram com a rápida exploração dos recursos naturais e a madeira é vista como um recurso extrativista não-renovável.
Para Veríssimo; Lima e Lentini (2002) e SFB e IMAZOM (2010), o setor madeireiro com base nas florestas nativas impulsiona de forma direta a economia de dezenas de municípios da Amazônia, onde estão localizados os polos madeireiros, distribuídos ao longo de rodovias, concentrando serviços, infraestrutura (energia, comunicação, saúde e sistemas bancários) e mão-de-obra disponível. Verissimo, Lima e Lentini (2002) consideram que um polo madeireiro é formado quando o volume da extração e comercialização anual de madeira em tora, numa localidade, é igual ou superior a 100 mil metros cúbicos.
O setor madeireiro na Amazônia tem sido objeto de estudos por muitos pesquisadores e instituições desde os anos 1960 (BARROS E VERISSIMO, 1996; ROS-TONEN, 2007; SFB e IMAZOM, 2010). Em todos estes estudos há uma avaliação comum: a larga escala das atividades ilegais que marcaram e continuam marcando as atividades madeireiras, e o expressivo potencial existente para a exploração econômica via manejo sustentável de qualidade.
Sears e Pinedo-Vasques (2005) afirmam que o manejo das florestas nativas e o manejo florestal sustentável são raros na Amazônia. Os modelos convencionais de exploração florestal não consideram a sustentabilidade e o longo prazo dos ciclos das espécies para sua regeneração na floresta. Além disso, há diferenças no trato da floresta
entre grandes e pequenos produtores e extratores dos recursos florestais. Todavia, segundo Zerbini (2014), no Brasil a madeira certificadas de florestas nativas representa apenas 0,62% das certificações florestais.
Portanto, o manejo florestal para a produção madeireira realizado por pequenos produtores é diferente do manejo florestal convencional praticado na Amazônia em termos de escala, diversidade de espécies, uso e tratamentos silviculturais e impactos ambientais. A produção por pequenos produtores é praticada em escala bem menor do que no manejo convencional e a renda gerada é bem mais modesta. Enquanto concessionarias de madeira contratam milhares de hectares, ou expedições de exploração madeireira que extraem uma ou duas espécies de uma vez, as propriedades dos pequenos agricultores variam entre 5 a 25 hectares (raramente mais de 100 hectares) e os produtores manejam mais de quarenta espécies de árvores (SEARS E PINEDO- VASQUES, 2005).
Apesar disso, verifica-se outras atividades produtivas que são realizadas na floresta Amazônica, reconhecidamente pelas populações locais que habitam essa região e praticam a extração de recursos florestais (ZARIN et al., 2005; KAIMOWITZ, 2005; ADAMS; MURRIETA; NEVES, 2006; RIZEK; MORSELLO, 2012;).
Para Sears e Pinedo-Vasquez (2005), a extração de Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNMs) é uma atividade fundamental para os moradores de regiões ricas em recursos naturais, como é o caso de muitos municípios da região Amazônica, pois permite agregação de valores advindo das florestas. Os PFNM’s são cada vez mais procurados pelo mercado consumidor, porém não existem informações consistentes sobre sua produção e ainda não são uma fonte segura de renda para quem trabalha com eles, de forma a tornar estes recursos disponíveis de maneira contínua (SEARS E PINEDO-VASQUEZ, 2005; RISEK; MORSELLO, 2012).
O extrativismo dos recursos madeireiros e não-madeireiros sempre fizeram parte da economia local desta região e, muitas espécies foram intensamente exploradas para atender às demandas de consumo, caracterizando diversas fases de expansão, estagnação e declínio, decorrente do esgotamento e substituição por outras espécies ou outros derivados. Estudos realizados por Brondízio (2005; 2009) e Rizek e Morsello (2012) confirmam a existência de uma economia amazônica de pequena, média e
grande escala, com fins comerciais tanto para o consumo local e nacional, quanto para a exportação. O elevado consumo do açaí nas últimas três décadas é um exemplo do desenvolvimento e da formação de um sistema de produção e da estrutura de uma cadeia de commodities, para além da agricultura, pecuária e indústria madeireira da região (BRONDIZIO, 2005; 2009).
Apesar de a extração vegetal ser uma atividade de importância na economia da região Amazônica e para o fornecimento de seus produtos para o consumo nacional e mundial, a maioria dos recursos extraídos das florestas não possui estatísticas oficiais de produção. No entanto, são importantes tanto na estratégia de sobrevivência, como fonte de renda da agricultura familiar de ribeirinhos extrativistas e pescadores artesanais (ADAMS; MURRIETA; NEVES, 2006; BRONDIZIO, 2005).