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Os múltiplos usos da floresta nativa e o manejo comunitário

CAPITULO 2 REVISÃO TEÓRICA E MÉTODOS DE PESQUISA

2.5 Acordos e Critérios sobre Manejo Florestal Sustentável

2.5.1 Os múltiplos usos da floresta nativa e o manejo comunitário

A FAO (2016b) destaca que as florestas são fonte de uma ampla diversidade de produtos e serviços ambientais, assim como oportunidades sociais, econômicas e culturais para construir um processo de desenvolvimento sustentável. Dados divulgados por esta organização apontam que milhões de pessoas dependem das florestas para satisfazer suas necessidades de alimentos, energia e habitação. Na região da América Latina e Caribe, o uso de recursos florestais para energia representa 13% do consumo total de energia primária, sendo que nas zonas rurais a lenha é normalmente a única fonte de energia disponível para a população mais pobre.

Tecklin e Catalán (2006) ressaltam que a literatura acumulada nas últimas três décadas evidencia que o papel das comunidades humanas no uso dos recursos naturais e na sua conservação tem sido motivo de controvérsias, com importantes implicações

políticas. Pesquisadores, organizações multilaterais e órgãos públicos têm apresentado visões distintas, oscilando entre diferentes tendências e escolas, para abordar a relação das populações humanas com as florestas.

Para Agrawal e Gibson (2001) as perspectivas analíticas sobre a relação entre comunidades e florestas têm variado desde a visão do ‘bom selvagem’, que vive em harmonia com a natureza prístina, até a imagem de populações em desequilíbrio com seu meio, que depredam os recursos devido o crescimento demográfico, movidos pela pobreza ou por pressões do mercado. Mais recentemente, tem surgido o enfoque que considera os habitantes locais como atores-chave na regulação do uso dos recursos naturais e na promoção do seu manejo sustentável.

De fato, Tecklin e Catalán (2006) chamam a atenção de que embora a visão mais recente de manejo florestal sustentável promova a participação dos povos locais no processo de uso e conservação das florestas, a floresta nativa ainda não é totalmente visualizada como uma oportunidade para o desenvolvimento local. Os autores afirmam que as comunidades indígenas e pequenos proprietários de florestas nativas tem sido praticamente ignorados no intenso debate sobre politicas florestais.

Eke et al. (2016) corroboram Tecklin e Catalán (2006), afirmando que apesar dos avanços alcançados, as comunidades seguem enfrentando desafios para realizar os benefícios econômicos do manejo florestal sustentável, que vão desde a simples provisão de bens de subsistência, até a extração e o processamento de produtos primários e secundários. Entre os desafios que enfrentam, estão: (i) obstáculos relacionados com a regulamentação de uso e acesso aos recursos, (ii) a pouca atenção para o desenvolvimento de capacidades organizativas e gerenciais para a gestão florestal, (iii) o desenvolvimento de cadeias de valor dos produtos, (iv) a comercialização dos produtos florestais e, (v) o acesso a fontes de financiamento e investimentos (Eke et al., 2016; Tecklin e Catalán, 2006).

Para Eke et al. (2016), o manejo de recursos florestais por parte de comunidades locais vem sendo promovido no mundo como uma das estratégias de gestão florestal para alcançar o manejo florestal sustentável. Na América Latina, o manejo por comunidades ou Manejo Florestal Comunitário (MFC) é entendido como sendo “a prática de manejo de uma floresta através de uma comunidade ou grupo de pessoas

organizadas no interior das comunidades, com objetivo de realizar, através da produção florestal sustentável e integral, a geração de benefícios econômicos coletivos e a conservação da floresta por meio do uso sustentável de seus recursos” (SARRE; SABOGAL, 2013; EKE et al.,2016)

Estudos realizados por Sarre e Sabogal (2013) evidenciam que o manejo florestal comunitário vem sendo praticado por muito tempo, por diversos povos que habitam territórios florestais e seus entornos. Em toda a América Latina, a extração de produtos florestais não madeireiros e madeireiros tem contribuído para a provisão de necessidades básicas das populações locais, incluindo o abastecimento de alimentos silvestres (da flora e fauna), fibras, colorantes, plantas medicinais, lenha e madeira para construção de usos domésticos, entre outros.

Eke et al. (2016) apresentam uma revisão sobre as definições e formas mais comuns de manejo comunitário na América Latina. Segundo os autores, MFC é o termo mais amplamente usado na região, estando quase sempre relacionado com projetos e institucionalidades impulsionados pelo Estado (planos de manejo exigidos, por exemplo), e com algum apoio externo à comunidade. No entanto, o manejo dos recursos florestais tradicionalmente se desenvolve de maneira autônoma no interior das comunidades, para a satisfação material e subjetiva de seus integrantes, num contexto cultural próprio.

Na literatura, diferentes denominações podem ser encontradas para o MFC, tais como: manejo florestal comunitário e familiar (MFCF), manejo florestal colaborativo (Co-manejo), silvicultura comunitária, florestas sociais, florestas comunais, manejo florestal de base comunitária. Mesmo que estes termos tenham sido usados indistintamente, na realidade existem diferenças quanto à forma e ao grau de participação do ator local e as atividades de manejo florestal que se desenvolvem. Os fatores comuns, no entanto, são quase sempre relacionados com o regime de propriedade da terra onde estão as florestas, e a planificação do aproveitamento dos recursos florestais utilizados (TUCKER, 1999; AGRAWAL; GIBSON, 2001; SCHIMINK, 2005; TUCKER; OSTROM, 2009; EKE et al., 2016).

É importante destacar que entre as décadas de 1980 e 90, na América Latina, as agencias multilaterais relacionadas ao desenvolvimento e extensão rural apoiaram

intensamente os processos que favoreciam a silvicultura comunitária em seus diversos países, apoiando governos nacionais e estabelecendo programas e projetos. O entendimento era de que a silvicultura comunitária era uma das opções mais promissoras para resolver o grande dilema da reconciliação entre a preservação da natureza e o desenvolvimento econômico (EKE et al., 2016).

Nesse sentido, o manejo florestal comunitário busca o uso planejado de diferentes tipos de florestas pelas populações locais, como comunidades indígenas, camponesas ou tradicionais14, assentamentos de colonos, populações ribeirinhas e pequenos agricultores. Essa definição procura abranger toda a gama de atividades florestais realizadas por atores locais (ou atores sociais), nos diferentes contextos da América Latina (SABOGAL et. al 2008; CARNEIRO DA CUNHA; ALMEIDA, 2009).

As comunidades indígenas e as chamadas comunidades tradicionais desenvolveram capacidades organizacionais para o manejo de seus recursos florestais, de acordo com estilos de vida específicos, ao longo da história de seu grupo social, e adaptadas aos ecossistemas em que vivem. Tais estilos de vida, incluindo as suas formas de gestão da floresta, não foram construídos em um passado distante, estático ou imobilizado, de forma isolada e exótica, mas, pelo contrário, são o resultado de transformações dinâmicas e contínuas. Portanto, a maneira pela qual elas gerenciam seus recursos comunitariamente também apresenta uma natureza dinâmica e interativa. Tais transformações geralmente ocorrem durante o processo de interação dessas comunidades com outros segmentos da sociedade a qual pertencem, seja no contexto das relações de mercado, seja nos requisitos técnicos e legais que regulam o uso de recursos pelo Estado para a sociedade (SABOGAL et al. 2008; EKE et al., 2016).

Além de comunidades de grupos étnicos reconhecidos, a existência de comunidades genericamente designadas, como camponeses, mestiços, colonos e imigrantes, também deve ser reconhecida. Apesar de sua trajetória histórica, que pode incluir a migração e a ruptura cultural forçadas, a escravidão e outros eventos sociais, essas comunidades também construíram suas próprias formas de interação com os

14 Na definição de Carneiro da Cunha e Almeida (2009), “populações tradicionais são grupos que conquistaram ou estão lutando para conquistar (prática e simbolicamente) uma identidade pública conservacionista que inclui algumas das seguintes características: uso de técnicas ambientais de baixo impacto, formas equitativas de organização social, presença de instituições com legitimidade para fazer cumprir suas leis, liderança local e, por fim, traços culturais que são seletivamente reafirmados e reelaborados”.

ecossistemas em que vivem atualmente. Esses grupos também estão continuamente negociando com a sociedade e o governo as práticas que governam o acesso, o uso e os benefícios dos recursos naturais (SABOGAL et al., 2008).

Florestas Públicas Comunitárias são aquelas habitadas ou usadas por comunidades tradicionais, agricultores familiares e assentados da reforma agrária. No Brasil, estas florestas têm uma importância significativa, em função de sua abrangência - ocupam cerca de 136 milhões de hectares - e de sua relevância social e econômica, pois o uso destas florestas gera produtos e renda para mais de 2 milhões de habitantes. Segundo dados divulgados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB 2013), 71% das florestas públicas são de uso comunitário e a maior parte das florestas ocupadas por comunidades tradicionais estão mais conservadas do que outras áreas na mesma região, devido às práticas ancestrais de uso da floresta e à defesa do território que ocupam. No entanto, várias comunidades enfrentam problemas para realizar o uso sustentável de seus recursos florestais, o que implica na degradação das florestas. Na Tabela 2.1, apresentam-se as modalidades de florestas públicas destinada ao uso sustentável, ocupadas por comunidades no Brasil.

Tabela 2.1: Área estimada de florestas comunitárias no Brasil, em 2009.

CATEGORIA ÁREA (ha)

Terra Indígena (TI) 108.026.010,3

Reservas Extrativistas (RESEX) 11.871.079,4 Reserva de Desenvolvimento Sustentável

(RDS)

6.683.400,0 Projetos de Assentamento Agroflorestal

(PAE)

6.004.132,1 Projetos de Desenvolvimento Sustentável

(PDS)

2.457.319,6 Projetos de Assentamento Florestal (PAF) 225.498,7

TOTAL: 135.267.440

Fonte: Dados consultados em SFB (2016)

Para Schmink (2005), do ponto de vista político parece racional promover o manejo florestal em florestas nacionais e públicas controladas pelo governo. Porém, o modelo que apoia o manejo comunitário de florestas, nem sempre considera as complexidades dos sistemas sociais nos quais o mercado do setor florestal está inserido. As condições que tornam possível o manejo florestal sustentável são substancialmente

diferentes para as comunidades e as operações comerciais, o que é ignorado quando se coloca o desafio das primeiras em participar de mercados para madeiras e outros produtos florestais. Neste caso, Schmink (2005) defende que o manejo florestal comunitário deve estar intrinsicamente ligado a uma comunidade e a seu contexto histórico e ecológico, e não é apenas um empreendimento comercial.

Considerando que as empresas florestais comunitárias fazem parte de comunidades sociais específicas, elas têm um caráter completamente diferente do setor comercial privado. Para estas comunidades, o manejo florestal é tipicamente apenas um elemento entre uma variedade de outros que formam seus complexos sistemas de subsistência. Nas florestas nativas, esses sistemas incluem os usos múltiplos de recursos florestais com importante aporte na geração de renda e de uma rede de segurança entre as famílias de uma comunidade (SCHMINK, 2005).

Além do uso múltiplo da floresta como elemento a ser considerado na análise tanto no Chile, quanto no Brasil, o levantamento sobre as múltiplas formas de posse da terra e dos regimes de propriedade comum e das instituições que regulam o uso e acesso, variam entre estes dois países, de acordo com as pressões do mercado e demográficas (OSTROM, 1990, SCHMINK, 2005).

Por fim, destaca-se que o contexto apresentado sobre as florestas nativas deve ser encarado como o principal campo de análise. Neste campo de análise, a floresta nativa vai além de um espaço preenchido por representações da fauna e flora, e considera o elemento humano (atores sociais), a percepção do ambiente por estes atores, a forma como regulamentam o uso e estabelecem ações que possibilitam a sustentabilidade das florestas e seus componentes.