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CAPITULO 2 REVISÃO TEÓRICA E MÉTODOS DE PESQUISA

2.4 Debates e Acordos Internacionais sobre Florestas

O desmatamento e a degradação florestal sempre foram os dois principais temas que preocupam a comunidade internacional (Arts e Balili, 2013). Esta preocupação gerou, em diferentes momentos e com distintas prioridades, um apoio global para a conservação florestal e o manejo sustentável dos recursos florestais (Ros-Tonen, 2007; Singer e Giessen, 2017; Faggin e Bahagel, 2017). O Quadro 2.2 traz uma linha do tempo com os principais fatos que marcaram o debate internacional sobre florestas entre 1892 e 2015.

O debate internacional sobre florestas não é recente e teve início em 1892, a partir da criação da União Internacional das Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO), formada por pesquisadores da Áustria, Hungria e Alemanha. O objetivo desta organização era reunir pesquisadores e gestores das áreas florestais para fomentar o desenvolvimento de pesquisas sobre tecnologia da madeira e ecologia florestal. O Congresso Mundial Florestal (WFC – sigla em inglês) foi uma das iniciativas mundialmente conhecidas realizadas pela IUFRO, que vem acontecendo desde 1926 (SINGER; GIESSEN, 2017).

Em 1945, a FAO surge como um ator importante no debate internacional, através da criação do Departamento Florestal, que marca o início da divulgação de pesquisas e informações acumuladas sobre o manejo e uso dos recursos florestais, e iniciativas realizadas pelos países membros. A Revista Unasylva, da FAO, passa a ser publicada a partir de 1947, registrando as fases e as tendências da prática florestal no mundo, tornando-se uma referência (SCHIMITHÜSEN, 2013).

Nas décadas de 50 e 60, verificou-se um intenso esforço das organizações multilaterais para consolidar a cooperação técnica no campo florestal, assim como das universidades europeias e norte americanas, que impulsionaram a ciência florestal com enfoque na produção madeireira. Na América Latina também foram estabelecidos centros de pesquisa florestal, com apoio de universidades norte-americanas e europeias (REYES, 2017a).

1892 1926 - 1947 1971-1978 1983- 1984 1990 - 1999 2000-2005 2006-2015 Inicio do debate florestal internacio nal com a criação da IUFRO I Congresso Mundial Florestal (WFC) da IUFRO (1926) FAO inaugura o Departament o Florestal (1945) Lançamento da Revista Unasylva da FAO (1947) RAMSAR (1971) Convenção Mundial do Patrimonio (1972) CITES (1973) Inicio do Tratado de Cooperção Amazônica (1978) ITTA – Acordo Internacional sobre Madeira Tropical Plano de Ação Florestal (PAF) com FAO+ WRI + Banco Mundial CNUMAD – Rio/ECO 92.

- Princípios sobre Floresta - Agenda 21 (Capítulo 11)

CDB – Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica(1992)

UNCCD – Convençãp da ONU sobre Desertificação (1992)

UNFCCC – Conveção da ONU sobre Mudanças Climáticas (1992)

Declaração de Santiago – início do Tratado/Processo de MONTREAL para C&I das florestas temperadas e boreiais (1995)

Critérios e Indicadores do Processo de TARAPOTO para florestas amazônicas (1995)

IPF – Painel Intrgovernamental sobre Florestas (1995).

IFF – Fórum Internacional sobre Florestas (1997).

PROTOCOLO DE KYOTO - estabelece MDL na COP-3 (1997)

UNFF - Fórum das Nações Unidades sobre Florestas (2000)

Parceria Colaborativa sobre Florestas (PCF)

com 14 organizações internacionais. (2001) Reavaliação dos C&Is Tarapoto (2001)

CMDS - Comissão Mundial para o Desenvolvimento Sustentável criado no Rio +10 (2002)

Entrada em vigor do Protocolo de Kyoto (2005)

Fundo Verde sobre o Clima (2010) – recursos para mitigar mudanças climáticas.

Acordo de Paris na COP- 21. Países se

comprometem com INDC (2015)

UN Forest Instruments (Instrumentos Florestais das Nações Unidas) (2015)

Lançamento dos ODS – Objetivo 15 sobre florestas (ODS15) (2015) Declaração

Tarapoto+20 - Revisão dos C&Is Tarapoto (2015)

No início da década de 1970, foram assinados três importantes acordos internacionais que fortaleceram as questões relacionadas com a gestão das florestas, o manejo sustentável e a proteção dos ecossistemas: (i) a Convenção sobre as Zonas Húmidas de Importância Internacional (Convenção de Ramsar, 1971); (ii) a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural (1972) e; (iii) a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (1973).

Entre as décadas de 1970 e 80, a Organização das Nações Undas para a Agricultura e Alimentação (FAO - sigla em inglês), em parceria com Banco Mundial e o World Resouces Institute (WRI), impulsionou uma série de projetos de cooperação técnica com os governos dos países da América Latina, com foco no desenvolvimento florestal produtivo e com o respaldo do Acordo Internacional sobre Madeira Tropical (ITTA), assinado em 1983. Esta fase trouxe investimentos importantes para os países da América Latina, destinados à consolidação da indústria florestal e à implementação de políticas e legislações sobre as florestas. Mas, mesmo assim, as prioridades eram conflitantes entre produção e preservação florestal (Braatz, 2003).

Neste contexto, foram desenvolvidas iniciativas para estabelecer a gestão florestal voltada para a indústria de papel e celulose e a produção madeireira, especialmente através do Plano de Ação Florestal (PAF) e do PAFT (Tropical). O PAF teve importância primordial na condução dos programas de desenvolvimento florestal na década de 1990, sobretudo, apoiando os países a estruturar e fortalecer suas agências e instituições para impulsionar o setor florestal produtivo (FAO, 2010c).

Todavia, os primeiros consensos globais sobre florestas foram alcançados apenas na CNUMAD (Rio-92), quando foram elaborados os "Princípios sobre Florestas", que também foram incorporados ao Capítulo 11 da Agenda 21. Estes dois documentos impulsionaram inúmeros planos e projetos a nível nacional, com enfoque na gestão e no manejo florestal sustentável, nos anos subsequentes. O conceito de gestão sustentável das florestas popularizou-se através da divulgação das publicações da Organização Internacional das Madeiras Tropicais (OIMT, 1990). Mas, apesar dos avanços trazidos pelos “Princípios sobre as Florestas”, que passou a ser o documento de referência para os acordos e convenções posteriores, ele não possuía força jurídica obrigatória (ROS-TONEN, 2007; FAGGIN; BEHAGEL, 2017; SINGER; GIESSEN, 2017), de forma que sua contribuição foi trazer uma

série de recomendações referentes ao manejo, à conservação, à gestão e ao desenvolvimento sustentável florestal (ONU, 2012).

Para Singer e Giessen (2017), a lacuna deixada pelo CNUMAD pela ausência de um acordo juridicamente vinculativo sobre as florestas, levou organizações e autoridades da Malásia e do Canadá a liderarem a criação do Painel Intergovernamental sobre Florestas (1995–1997), seguido do Fórum Internacional sobre Florestas (1997-2000), que eventualmente deu origem ao Fórum das Nações Unidas sobre Florestas (UNFF- sigla em inglês), estabelecido em 2000 (VEIGA, 2011).

Singer e Giessen (2017) ressaltam que o arranjo internacional sobre florestas tem sido promovido principalmente pelo UNFF com apoio do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), que se destaca por apresentar um número de membros maior que o da Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas, apesar dos esforços de diálogo internacional realizados através da UNFF, Singer e Giessen (2017) destacam as limitações deste Fórum tanto em relação à busca de um acordo juridicamente vinculativo entre os países membros, como à criação de um fundo florestal global. Assim, mesmo sendo seu principal objetivo, embora não exclusivo, o esforço do UNFF tem sido apontado como pouco efetivo.

Em 2001, o UNFF convidou catorze organizações internacionais para formar a Parceria Colaborativa sobre Florestas (PCF ou CPF– sigla em Inglês). As organizações que oficialmente formam o CPF apresentam um histórico de atuação com questões florestais, tanto no desenvolvimento de pesquisas florestais, quanto na articulação de instrumentos direcionados à implementação de políticas e programas para a conservação e gestão sustentável das florestas nos diferentes países. No Quadro 2.3 estão destacadas as organizações que compõem atualmente a Parceria Colaborativa sobre Florestas.

Quadro 2.3: Organizações que compõem a Parceria Colaborativa sobre Florestas (PCF) desde 2001

 Centro Internacional para Pesquisa Florestal (CIFOR*)

 Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO*),

 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD – UNDP*),

 Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNMA – UNEP*),

 Secretaria da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC*),

 Secretaria da Convenção das Nações Unidas para o Combate a Desertificação (UNCDD*),

 Secretaria da Convenção de Diversidade Biológica (CBD*)

 Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF*),

 Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO*),

 União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN*),

 União Internacional das Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO*),

 Centro Mundial Agroflorestal (ICRAF*),

 Banco Mundial (WB*),

 Fórum Florestal sobre Florestas (UNFF*).

Fonte: site do CPF10. (*) Siglas em inglês.

A Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em Johanesburgo em 2002 (CMDS, conhecida também como Rio+10), foi importante para as questões florestais, ao reafirmar os Princípios sobre Florestas da CNUMAD. As decisões da Rio+10 colocaram as florestas como fundamentais para o desenvolvimento sustentável, atuando como uma base de recursos naturais para o avanço econômico e social, destacando, sobretudo, as múltiplas funções das florestas para o alívio da pobreza (Schmithüsen 2005).

O papel das florestas foi enfatizado pela Rio+10 em vários domínios, tais como na gestão de recursos naturais (seção 24), na agricultura (seção 40 d), na desertificação (Seção 41d) e nas montanhas (seção 42b). Foi destacado, ainda, o fato de que as florestas e o desenvolvimento florestal estão intimamente relacionados às decisões e medidas sobre mudanças climáticas (Seção 38), biodiversidade (Seção 44) e estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável (Seção 137 e seguintes) (CMDS, 2002; Schmithüsen, 2005).

Os esforços promovidos pela Convenção da Diversidade Biológica (CDB) e a Convenção Quadro das Nações Unidas contra Mudanças Climáticas (CNUMC – UNCCC, sigla em inglês), originados em 1992, têm influenciado diversos projetos, programas e financiamentos relacionados com gestão sustentável das florestas que, a partir de 2000, se refletiram nas políticas e novas institucionalidades florestais. Como exemplo, podemos citar as iniciativas de REDD, e do Fundo Global para o Meio Ambiente (Global Environment Facillity – GEF) (AIFBN, 2016).

10 Consulta ao site da Parceria Colaborativa sobre Florestas identifica 14 organizações que compõem a iniciativa. Informações disponíveis em: http://www.cpfweb.org/en/ . Acesso em 10/05/2018.

Iniciativas mais recentes tem impulsionado uma agenda de múltiplos temas que relacionam os desafios da gestão florestal, sobretudo a inserção do debate internacional sobre mudanças climáticas. A partir de 1997, quando foi lançado o Protocolo de Kyoto, impulsionando os países a se comprometerem com a redução da emissão dos Gases de Efeito Estufa (GEE) e lançava os Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), se intensificaram os compromissos e novas iniciativas surgiram com apoio dos organismos multilaterais. A Conferência das Partes (países fazem parte da Convenção do Clima) é realizada anualmente, onde os 195 países signatários da Convenção do Clima se reúnem e revisam os compromissos e os resultados, gerando sempre novos protocolos internacionais.

Entre os resultados de maior impacto estão: (i) a criação, em 2010, do Fundo Verde do Clima (GCF – Fundo Clima) que apoia os países em desenvolvimento na promoção da mitigação da mudança do clima e da adaptação aos seus efeitos e, (ii) o Acordo de Paris, realizado em 2015 durante a COP-21, onde se estabeleceram as Contribuições Nacionalmente Pretendidas Determinadas (INDC, na sigla em inglês). Por meio das INDCs, cada país apresentou sua contribuição de redução de emissões dos gases de efeito estufa, seguindo o que cada governo considera viável a partir do cenário social e econômico local. (MMA, 2018).

Segundo Ros-Tonen (2007), a geração de fundos e incentivos de mercado para o manejo florestal sustentável têm sido impulsionadas nos últimos anos por parcerias entre multi-atores, tanto para a conservação da floresta quanto para o uso sustentável, envolvendo múltiplos níveis de decisão e a implementação de políticas e programas florestais. Entretanto, para Nieto-Caraveo (2003), embora os esforços das convenções e instrumentos internacionais tenham gerado expectativas por estabelecer princípios e compromissos entre os países, a partir de uma visão comum de desenvolvimento com enfoque na sustentabilidade e erradicação da pobreza, ao entrarmos no novo milênio se reconheceram as limitações que os países encontraram, por mais de três décadas, para implementar as ações sobre a gestão e o manejo sustentável das florestas.