Capítulo 2 – A colonização portuguesa de Angola e a conversão do reino do Congo
2.4. A edificação do bispado de S Salvador e a rivalidade de Angola
Em 26 de Maio de 1596 deu-se uma viragem na política religiosa do Congo, que viu ser-lhe concedido finalmente uma bula para edificação de um bispado pelo Papa Clemente VIII, Super specula militantes Ecclesiae, desmembrando-a da diocese de São Tomé com a qual o clero do Congo teve vários problemas e conflitos no passado, e abrangia os reinos do Congo e de Angola, que adoptou como designação. Após várias negociações entre Filipe II e Álvaro I, o pedido fora finalmente atendido, cujas origens remontavam ao tempo de D. Afonso I e do seu filho, o bispo D. Henrique. A nova diocese ficou, «como as outras do Ultramar português (…) a pertencer ao padroado do rei de Portugal, a quem competia fazer a apresentação dos bispos à santa sé e a dos cónegos ao bispo diocesano156». A sede do novo bispado foi estabelecida na capital, a cidade de São Salvador (Mbanza Kongo), entretanto elevada oficialmente, à «suprema categoria urbana, a que já havia ascendido por beneplácito tutelar; e a igreja paroquial subiu a igreja catedral, na qual foi instituído o cabido, com deão, chantre, arcediago e nove cónegos, cuja apresentação cabia ao monarca português» ficando reservado ao monarca do Congo a «indicação de sacerdotes para as dignidades, com a excepção do deão e do mestre-escola, e para os lugares de cónego157». Por esta altura encontravam-se seis igrejas em São Salvador, «sendo a paroquial, construída de pedra e cal» e as
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BIRMINGHAM, David, Portugal e África, Lisboa, Documenta histórica, 2003 p. 96
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GABRIEL, Manuel Nunes, D. Moisés Álvaro de Pinho e os Bispos do Congo e Angola, Portalegre, Livraria Editora, 1980 p. 25-26
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restantes «de terra batida e cobertas a capim, como as demais casas da povoação, à excepção da residência do rei158», estimando-se existirem 50 mil habitantes na capital, cujo nível de densidade excedia a das zonas rurais por valores que chegavam aos 15 para 1159. O primeiro bispo eleito para o Congo foi D. Miguel Rangel (1596-1602), enquanto para Angola, onde existam as paróquias de Conceição, em Luanda, e da Senhora da Vitória em Massangano160, foi nomeado João da Costa para o cargo de vigário-geral, visitador e administrador da jurisdição eclesiástica do território, em 1592161.
A missão religiosa portuguesa em África entrara numa nova fase. A criação dum novo bispado, na capital do Congo de São Salvador libertou-o de todos os constrangimentos levantados pelo clero de São Tomé, que raramente acudia aos seus pedidos de envio de mais padres, e a tarefa dos missionários ainda presentes no reino era árdua, ao ponto de se registarem apenas «vinte padres, entre europeus e africanos». No entanto, com a edificação do bispado, competiria ao rei do Congo angariar ele mesmo os clérigos, que seriam enviados por sua vez ao bispo, nomeado pelos portugueses, para aprovação e confirmação, o que condicionaria ainda mais a envangelização, educação e multiplicação de agentes religiosos africanos. Apesar da concessão do bispado de São Salvador, o Congo continuou a ter grandes dificuldades em angariar clérigos, ao mesmo tempo que Luanda registou um grande desenvolvimento, «ocupando já quase todo o espaço entre a fortaleza e o actual hospital central e obteve foros de cidade em 1607162», mercê da sua crescente influência como porto exportador de escravos. Nas palavras de Birmingham, a criação de Luanda, uma segunda colónia, servira um propósito inicial de actuar como aliada do Congo contra as invasões de que estava a ser alvo, e um ponto de apoio logístico para os portugueses para conquista e ocupação de território, alimentado pelo sonho das minas da prata. Esta vertente militarizada (não dissociável da económica) permitiu à cidade um crescimento significativo, alimentado pelo comércio originado pelo subproduto das suas guerras, a captura e venda de escravos, acabando por se tornar a própria Luanda uma rival do Congo, cuja capacidade comercial suplantou a de São Salvador, não só pela melhor organização e oferta, como pelas condições naturais da sua baía. A concorrência que o
158 GABRIEL, Manuel Nunes, Op. Cit. p. 26 159
THORNTON, John, «The Kingdom of Kongo (…)» 1982, p. 327
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GABRIEL, Manuel Nunes, Op. Cit. p. 26
161 DELGADO, Ralph, Op. Cit. pp. 342 162
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Congo enfrentou não se registou somente no campo económico, mas também a nível espiritual, sendo-lhe disputado o papel de principal centro religioso do continente africano, uma vez que os seus bispos optavam por passar muito tempo em Angola e longe da sua residência episcopal em São Salvador163, e «no espaço de poucos anos a colónia tinha-se apoderado do episcopado e tinha-o efectivamente transferido da cidade de São Salvador, no Congo, para a sede colonial na cidade de Luanda164» afirmando-se a “pequena colónia” como o principal ponto económico e religioso da região. Os membros do clero recrutados para Luanda já não dependiam do rei do Congo, visto serem pagos directamente pela coroa portuguesa, e igualmente apresentados ao bispo antes de serem admitidos. Entre estes padres encontrava-se, como já referido, João Salgado de Araújo, escolhido pelo seu tio, o terceiro bispo do Congo frei Manuel Baptista (1608-1619), nomeado após a morte de António de Santo Estêvão (1604-1608), que pedira por duas vezes para voltar ao reino e ser dispensado do cargo, acabando por falecer, aparentemente enfermo165. Ao não depender do soldo do rei do Congo, e ao estabelecer-se em Luanda, principal centro económico do tráfico de escravos, é possível que o bispo frei Manuel Baptista procurasse em João Salgado de Araújo não só um apoio logístico no cumprimento das suas tarefas eclesiásticas, mas um intermediário que representasse a sua pessoa, principalmente ao nível dos seus negócios, em virtude de este não poder permanecer muito tempo em Luanda e longe da sua residência episcopal. Negócios vários que aliás, se veio a confirmar que o bispo Manuel Baptista possuía166, inseridos numa longa lógica de favores e nomeações sediadas no reino, para a qual João Salgado de Araújo se apresentava como um potencial colaborador.
Para apurar a viabilidade desta hipótese, e do real motivo que levou Salgado de Araújo a aceitar a missão de ir para uma terra “maldita” que o padre Barrada apelidou de «enferma (…), penosa (…), perigosa (…) e insignificante na catequização167
» é necessário analisar não só todo o trajecto político do diácono, mas também da figura do seu tio, de forma a tentar apurar a escala das ligações e pessoas a que estava ligado, e ultimamente, a evolução da relação deste com o sobrinho.
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D. Manuel Baptista (1609-1619), por exemplo demorara-se alguns anos após a sua chegada em Luanda, ao invés de seguir directamente para São Salvador
164 BIRMINGHAM, David, Portugal e África, Lisboa, Documenta histórica, 2003 p. 88 165
GABRIEL, Manuel Nunes, Op. Cit. p. 30
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ALENCASTRO, Luis Filipe, O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico sul, São Paulo, Schwartz ltda., 2000 p. 259
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Capítulo 3 – João Salgado de Araújo. Vida e obra de um arbitrista em