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Capítulo 2 – A colonização portuguesa de Angola e a conversão do reino do Congo

2.2. O desenvolvimento de Luanda e a conquista de Angola

Após vários anos de tensões e golpes palacianos no seio da monarquia do Congo, a linhagem real acaba com Henrique I, que morreu em 1568 no advento das invasões Jaga, ajudado pelo «levantamento das vítimas do comércio de escravos das províncias orientais», que causaram a queda do reino do Congo, fugindo o novo rei, Álvaro I, que se viu forçado a pedir auxílio a São Tomé, enviando o capitão-general da colónia uma força expedicionária de 600 homens, para reconquistar o reino e recuperar a capital. Tal acto colocou o rei do Congo, como tributário da Coroa portuguesa, e abriu caminho para as grandes campanhas militares em África e para o início duma presença militar significativa da parte dos portugueses, prolongando estes o território até ao Zaire de forma a aumentar a rede de captação de escravos. A «introdução dos conquistadores», como apelida David Birmingham este período, levou à entrada de vários destes “soldados” (gente degradada na sua maioria), no reino do Congo, onde se fixaram e criaram famílias, dando origem a uma comunidade “luso-africana”, que procurava colocar-se tanto ao serviço do rei, como dos contratadores da ilha de S. Tomé117. Os seus herdeiros, na maior parte dos casos mestiços, viriam a controlar os pólos fornecedores dos traficantes portugueses no século XVII, sendo responsáveis pelo

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DELGADO, Ralph, Op. Cit. p. 214

116 DELGADO, Ralph, Op. Cit. pp. 217-23 117

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resgate e captura de escravos em regiões muito mais interiores, segurando pela força uma área que ia desde o rio Kwanza até ao sul do Kuene118.

Foi no advento desta “nova era”, que se criou definitivamente uma colónia portuguesa no litoral da Baía de Luanda, ficando mais próxima da capital de S. Salvador do Congo, após a doação de D. Sebastião em 1571 a Paulo Dias de Novais, que já combatera no Ngola, sendo investido com o cargo de «“capitão e governador”, com o fim de “sujeitar e conquistar /.../ assim para se nele haver de celebrar o culto e ofícios divinos e acrescentar /.../ Santa fé católica e promulgar o Santo Envangelho, como pelo muito proveito” que disso adviria para o rei de Portugal, seus “Reinos e Senhorios e aos naturais dele”», recebendo desde logo Paulo Dias de Novais o cargo de governador e conquistador119. Paulo Dias de Novais procurou desde cedo estabelecer boas relações com os Mbundu do Ndongo, de forma a estabilizar as rotas para os comerciantes poderem frequentar a capital de Ngola para aí obterem os seus escravos, mas não foi bem-sucedido na sua missão, acabando as pequenas escaramuças que se iam registando entre os contratadores e os chefes Mbundu por desencadearem um clima de guerra aberta em 1579, passando o objectivo de Paulo Dias de Novais para a conquista efectiva de Angola. Os avanços no território praticamente nulos, apesar da conquista e fundação do Massangano, as forças de Novais foram incapazes de repetir o sucesso que obtiveram no Congo, não só por a superioridade militar europeia das armas de fogo ser completamente anulada na floresta tropical120, mas também pelo facto dos portugueses estarem em campo não só contra os Mbundu, mas também contra os Imbangala, que infligiam pesadas derrotas aos portugueses sempre que se aventuravam para além do Massangano.121

Após a morte de Novais, em 1589, e da derrota em Ngoleme já com Luís Serrão em 1590, os portugueses pouco tinham conseguido após 15 anos de guerra para além de «uma tira estreita de terra entre o Quanza e o Bengo e que se estendia ao longo de cerca

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MILLER, Joseph, «Angola in the sixteenth century. Um mundo que o português encontrou». Empire in

transition: The portuguese world in the time of Camões, Alfred Hower e Richard Preto-Rodas (Eds.),

Gainesville: Center for Latin American Studies, University Press of Florida, 1985 p. 124

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AMARAL, Ilídio do, O Consulado de Paulo Dias de Novais. Angola no Último quartel do século XVI e

primeiro do século XVII, Lisboa, Instituto de Investigação Científica e Tropical, 2000 p. 49

120 Principalmente por a capacidade de penetração das armas de fogo utilizadas contra armaduras nas

guerras europeias ser completamente desperdiçada contra indivíduos sem armaduras, sendo até inúteis contra inimigos dispersos pela floresta dada a sua falta de precisão, algo que não sucedia contra as formações compactas nas guerras europeias – THORNTON, John, «The Art of War (…)», 1988, p. 374

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de cem milhas para o interior de Luanda, até Massangano122», um balanço francamente negativo, que Filipe II procurou resolver, revogando o título da capitania, à imagem do que já havia sido feito em São Tomé, passando a nomear um governador para todo o território. Estes estariam encarregues de explorar não só as potencialidades minerais do território angolano, mas também de acabar com a tributação imposta aos chefes Mbundu pelos portugueses, passando os mesmos a estarem sujeitos à coroa. Estavam igualmente encarregues da construção de fortalezas que visavam dominar as regiões conquistadas e que possibilitassem a progressão no interior, sempre com a ilusão das minas de prata no horizonte, em Cambambe. O destino dos primeiros governadores não foi muito distinto do de Paulo Dias de Novais, encontrando logo à chegada, um dos seus principais obstáculos, o clima tropical, que «destruía as tentativas de fixação, exigindo constante renovação das hostes dizimadas; alterava subitamente, as situações militares, pelo aniquilamento dos soldados e pela sua morte; anunciava um calvário sem fim para a ocupação de Angola123», tal como a completa falta de preparação para a realidade militar das guerras africanas, repetindo-se mais um década de conflitos sem progressões significativas no terreno.

Cambambe só viria a ser atingida em 1605, já com Manuel Cerveira Pereira, onde os portugueses não encontraram qualquer vestígio das minas que alimentaram 30 anos de guerras contra Ngola124. Pese todas as dificuldades encontradas pelos portugueses no continente africano no século XVI, e do custo das guerras por si dirigidas em busca das imaginadas minas de prata, acabou por ser o subproduto destas guerras – a captura e comércio de escravos – que se viria a revelar a principal fonte de rendimento e prosperidade dos portugueses, actividade que conseguiram não só integrar, como transformar, cujo mercado e posto de abastecimento estava centrado, primeiro no reino do Congo125, fruto das guerras e conquistas que empreendeu nos tempos de Afonso I, e mais tarde para as regiões nas quais os portugueses registavam maior actividade militar e desenvolviam esforços de conquista, como Angola e o Ndongo, obtendo um número de resgates muito superiores aos obtidos pelos reis do Congo, à medida que as comunidades residentes em São Tomé e Luanda foram crescendo e aumentaram a sua procura no comércio de escravos, estimulando as tropas a penetrar

122 Ibidem p. 27

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DELGADO, Ralph, Op. Cit. p. 362

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BIRMINGHAM, David, A conquista (…) 1965 p. 30

125 BIRMINGHAM, David, «Early African Trade in Angola and Its Hinterland». Pre-Colonial African Trade,

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cada vez mais no interior para assegurarem posições e elos de ligação aos circuitos e feiras de escravos destas regiões. O comércio provocou transformações profundas no continente, que viriam a estar ligadas ao colapso do reino do Congo, já depois de este ter deixado de se apresentar como um dos principais centros fornecedor de escravos, face ao termo das suas guerras expansionistas126, de tal forma que levou David Birmingham a estabelecer uma cronologia para descrever as fases da ocupação do território angolano da parte dos portugueses, estabelecendo um primeiro período na qual a motivação da conquista era a procura das riquezas minerais, de 1575 a 1605; após falhado este objectivo, iniciara-se uma segunda etapa, em que os progressos no território se deviam única e exclusivamente ao estímulo do comércio de escravos luandense127, muitas vezes encorajados pelos próprios capitães, que viam neste comércio uma forma rápida de enriquecerem face à posição pouco prestigiante que ocupam, e até para abastecer as suas próprias fazendas no Brasil128, período no qual Birmingham insere toda a primeira metade do século XVII até à conquista de Luanda pelos holandeses, precisamente a realidade que João Salgado de Araújo encontrara quando chegou a este território.

Durante a primeira metade do século XVII, a influência portuguesa na região estava, citando os estudos de Beatrix Heintze, limitada «à cidade litoral de Luanda, à região entre os rios Dande e Kwanza e a quatro postos militares junto ou próximo das importantes vias fluviais do Kwanza e Lucala». Nestes locais foram construídas «fortalezas, [que] dominavam um número variável de sobados subjugados, representando ao mesmo tempo posições-chave no comércio com o interior». Quanto à população, Heintze relata que «Raras vezes não havia mais que 400 a 500 portugueses, dos quais cerca de metade vivia em Luanda. Havia poucas mulheres brancas, razão pela qual se formou, ao longo do tempo, uma considerável população miscigenada. Como muitos europeus eram vitimados, pouco depois da sua chegada, por doenças tropicais, o envio de reforços militares representava um grave problema». Os soldados estavam já integrados nesta pequena comunidade, «a maioria (…) recrutada entre os degradados, como por exemplo, ladrões, ciganos, vagabundos, desertores e judeus desterrados». Luanda obteve foro de cidade ainda durante a estadia de Paulo Dias de Novais, e como

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THORNTON, John, «Early Kongo (…)» 1981 p. 187

127

BIRMINGHAM, David, A conquista (…) 1965 pp. 31-32

128 BIRMINGHAM, David, Alianças e conflitos. Os primórdios da ocupação estrangeira em Angola 1483-

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tal possuía «uma câmara, cujos membros eram eleitos anualmente entre os “homens bons” da cidade. Gozavam de imunidade jurídica e tinham o privilégio de se poderem corresponder directamente com o rei. A competência do governador, nomeado pelo rei (em regra de três em três anos), era limitada por instruções régias, o regimento, que orientavam toda a sua actividade, sendo a sua observância obrigatória. Mas, apesar do controlo judicial (“residência”) no fim do tempo do governo, só raramente este regimento era cumprido na íntegra129».