Capítulo 3 – João Salgado de Araújo Vida e obra de um arbitrista em Angola Angola
4. Do reino a Angola: Negócios particulares na rede familiar de João Salgado de Araújo: a figura de frei Manuel Baptista Soares Pereira
4.5. Inimizades e conflitos de frei Manuel Baptista
O enriquecimento ilícito de frei Manuel Baptista não deixou de ser denunciado pelos seus inimigos. André Velho da Fonseca, ouvidor327 em Angola recusou o pedido de pagamento de «doze anos de ordinárias em atraso», que considerou «totalmente supérfluas328» em 1612, figura esta que já havia protagonizado o fadado episódio com o
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BRÁSIO, António, Op. Cit., vol. V, pp. 573-4
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BRÁSIO, António, Op. Cit., vol. VI, pp. 174-5
325 PARREIRA, Adriano, Op. Cit. p. 19 326
BRÁSIO, António, Op. Cit., vol. VI, pp. 231-2
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Academia das Ciências de Lisboa, Sumário da Bibliotheca luzitana, vol. I, Lisboa, oficina de António Gomes, 1786 p. 80
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seu sobrinho João Salgado de Araújo. Para além das suas já conhecidas inimizades com Diogo Rodrigues Pestana, Manuel Castanho e Custódio de Barros, o bispo também logrou ganhar a antipatia dos governadores de Luanda. Bento Banha Cardoso, governador interino de Luanda entre 1611 e 1615, que fora eleito na já mencionada eleição, aquando da morte de Manuel Pereira Forjaz, onde suplantou frei Manuel Baptista, e a quem este requisitara ajuda quando Salgado de Araújo escreveu contra si 400 capítulos. Apesar de não se conhecerem quaisquer acusações ou actos de má-fé da sua parte, Bento Banha Cardoso entrava no lote dos visados de Manuel Baptista nas suas queixas enviadas a D. Filipe III, queixando-se o bispo da falta de «justiça» naquelas terras, e de fazer «muita [falta] não vir governador, por que ainda que das pessoas que quá assistem comcorrão boas partes em Bento Banha Cardozo, todavia governa aquelles de que era igual e não hé igual a justiça329». O bispo parece querer desacreditar a figura do governador interino, queixando-se da sua fraca autoridade e aplicação no campo judicial, e avisando o monarca filipino da falta que um governador fazia naquelas terras, apesar de Bento Banha Cardoso possuir todos um poderes de um governador efectivo, constituindo tal denúncia quase um atestado de incompetência ao governador. Não se conhecem as razões desta inimizade, principalmente após o mesmo admitir ter doado meia légua de terra ao bispo330. Só podemos especular que as mesmas possam estar relacionadas com um possível rancor, fruto da eleição do governador, ou com a inimizade declarada do governador para com o seu sobrinho João Salgado de Araújo, inserindo-se a mesma numa lógica de solidariedade familiar331. Fruto das queixas do bispo ou não, Bento Banha Cardoso enfrentou um inquérito que levou a que os seus bens fossem suspensos, levando-o a ostentar o título de «dilapidador da fazenda pública332».
Também o governador Manuel Cerveira Pereira parece ter entrado no rol de inimigos do bispo, queixando-se este da sua ida para conquistar Benguela, «deixando a comquista de Angola toda descomposta333», reforçando a inutilidade de um projecto sonhado por um «charlatão (…) cego pelo delírio da aventura», que havia trocado uma
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ANTT, Corpo Cronológico, Parte I, mç. 115, nº 102
330 BRÁSIO, António, Op. Cit., vol. VI, p. 9 331
Apesar de já em 1611, Bento Banha Cardoso relatar os excessos de João Salgado de Araújo, dificilmente gozando o mesmo da protecção do tio nesta data.
332 DELGADO, Ralph, História de Angola. Continuação do segundo período 1607 a 1648 (…), pp. 31-2 333
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conquista «segura, a do Ndongo, por outra “a onde nunca tinha ido”, a de Benguela334 », e da ilegalidade das acções desta conquista, que estaria condenada ao fracasso e nada trariam de bom para o reino, não se mostrando surpreendido quando os seus seguidores o «prenderao, espancarao, e ferirao, e (…) o embarcarão para Loanda335
». Não se sabe se o bispo actuou aqui como mero vigilante da coroa, procurando salvaguardar a posição e interesses da colónia, ou se teria outras motivações para se queixar de Manuel Cerveira Pereira. Curioso é constatar, após a prisão do ex-governador, este se queixar de o motim contra si encetado ter começado devido à acção de um «padre da ordem de s franciscuo terceiro, por nome frei Simão e hum clérigo preto da terra e por nome Manoel Roiz, que o bispo mandou em minha companhia». Cerveira Pereira relata intensamente a injustiça e a cobardia do crime que havia sofrido, afirmando terem sido estes padres a entrar na sua tenda, acompanhados por um Pantalião Monteiro, «degradado por roubo», um Cosme Carvalho (que assassinara três homens no reino) e um Andrés Coronado, «mourisco», todos armados com espadas para o confrontar, e que estando ele sentado nem se pôde preparar para tentar resistir, queixando-se de ter sido o próprio «frade [que] me pegou por hua perna dos calções e por estar no estado em que estava (doente) me não pude bulir e me derao hua cotilada hum dos três», descrevendo em seguida o espancamento que sofreu, quando a sua guarda ainda estava recolhida, não morrendo «por milagre336». O impacto que os clérigos “escolhidos” por Manuel Baptista tiveram neste episódio foi determinante na prisão do ex-governador, não sendo possível registar se tal acto foi premeditado (poderiam ter recebido ordens para tal) ou simplesmente fruto das circunstâncias que encontraram na missão, mas não deixa de ser digno de reparo tal “golpe” ter sido iniciado por dois subordinados de frei Manuel Baptista.
O último dos governadores, foi aquele cujo conflito com o bispo é assumidamente recíproco e declarado. Luís Mendes de Vasconcelos chegou ao reino em 1617, sabe-se que veio acompanhado pelo seu filho João Mendes de Vasconcelos, apesar de num conjunto de informações do bispo enviado ao rei em 1619 serem mencionados os «filhos de Luis Mendes», o que aponta igualmente para a presença de Francisco Mendes de Vasconcelos no território. O novo governador rapidamente chocou com o bispo, uma vez que se aliou aos Jaga, a quem são associadas práticas de
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PARREIRA, Adriano, Op. Cit. p. 14
335 BRÁSIO, António, Op. Cit., vol. VI, pp. 362-66 336
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canibalismo, os Imbangala, «gente insolente337» no entender de frei Manuel Baptista338, para conquistar definitivamente a capital do Ndongo, que durante meio século batera o pé aos conquistadores portugueses, conquista que concretizou, destruindo totalmente a cidade e forçando Ngola Mbandi, o monarca do Ndongo, a fugir para o exílio, seguindo- se um período de grande carnificina, pilhagem e aprisionamento de escravos na região339. Frei Manuel Baptista queixa-se de toda esta acção da parte do governador e do seu filho João Mendes de Vasconcelos340, a quem atribui grandes culpas na destruição e devastação do Ndongo, que criara um clima de instabilidade em São Salvador junto do ntotela, que via com desconfiança e apreensão esta crescente militarização dos portugueses, e o crescimento dos Imbangala, tal como as consequências que tal destruição tinha no comércio de escravos. O bispo alerta também para a ilegalidade expressa desta conquista, que chocava abertamente com as ordens da coroa, que incumbira os governadores de manterem as boas relações na região341. É possível que as suas críticas e denúncias sejam autênticas, e o bispo estivesse a tentar manter efectivamente a ordem na região e estaria a denunciar aquilo que considerava ser um acto que violava expressamente toda a estabilidade e paz da coroa. Pode efectivamente ser este o caso, mas atendendo aos negócios particulares já expostos de Manuel Baptista, a preocupação deste prelado não pode ser dissociada dos danos que o governador causara nas feiras de comércio escravos da região, encerrando muitas destas, prejudicando os seus negócios. A conquista do Ndongo, apesar de aumentar o tráfico de escravos a curto prazo, fruto de todos os prisioneiros de guerra que originara, destruíra irremediavelmente o velho sistema comercial imposto, acabando com vários circuitos e feiras que ligavam os portugueses aos mercados mais interiores, e comprometendo a viabilidade do comércio a longo prazo, consequências às quais os negócios do bispo não estariam com certeza alheios. A própria destruição do seu principal “aliado” no resgate de escravos iria obrigar os portugueses a procurarem um novo parceiro comercial, e a reconstruírem o reino que haviam devastado, uma vez que,
337 AHU, Angola, Cx. 1, doc. 105 338
O próprio Vasconcelos queixou-se que estes comiam mais escravos do que aqueles que entregavam aos portugueses. Joseph Miller defende no entanto, que esta reputação de canibais dos Imbangala era altamente exagerada pelos portugueses, que a alimentavam para justificar e disfarçar o
desaparecimento de escravos que eram por si contrabandeados noutros portos. MILLER, Joseph, Poder
político e parentesco: Os antigos estados Mbundu em Angola, Luanda, Arquivo Histórico Nacional, 1995
p. 194
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BIRMINGHAM, David, A conquista (…), 1965 pp. 35-6
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Foi em Angola que ganhou o apelido de Catunda (filho do Sol), a fama de degolador de sobas e a reputação de ser “mal inclinado” - ALENCASTRO, Luiz Filipe de, Op. Cit. p. 357
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«para que o comércio de escravos se processasse eficazmente era fundamental a existência de um parceiro comercial africano342».
Talvez por os danos terem sido maiores, o bispo não se incumbiu de realçar as consequências nefastas da governação e conquista de Luís Mendes de Vasconcelos, chegando até a queixar-se da imoralidade dos seus filhos que «descompõem molheres casadas, e donzellas posto que neste viçio em que são muy descompostos os filhos de Luis mendes», pretendendo com este exemplo demonstrar que «não convirá nunqua que os governadores levem filhos consiguo», achando igualmente incrível, dada a sua acção e falta de moral dos seus filhos, nunca ter ouvido uma «quexa do pay343». Mas desta vez, ao contrário dos exemplos anteriores, a inimizade do governador é recíproca, e este tomou igualmente diligências contra o bispo, materializadas numa carta enviada pela Mesa da Consciência ao rei em 1619, onde se dá conta de um conjunto de «cartas que o governador de Angola Luis Mendes de Vasconcellos escreveo a V. Magestade sobre o proçedimento do Bispo daquelas partes», referentes a uma «matéria [que] he de qualidade que se deve apurar», visto não se tratar duma acusação ou denúncia isolada «porque já por outras vias tem vindo queixas semelhantes», procurando desta forma a Mesa apurar a «verdadeira informação do proçedimento do Bispo», dando instruções para que «se informarem com todo o segredo, por pessoas dignas de fee, e credito, do procedimento do Bispo dom fr. Manoel Baptista naquele seu Bispado344». Apertava o cerco ao bispo do Congo. Após praticamente uma década em África, reunira um já considerável número de inimigos, cujas críticas, fundamentadas ou não, tinham como claro objectivo o seu afastamento. Por esta data era já conhecida a incompatibilidade do bispo com o seu sobrinho João Salgado de Araújo, que foi aparentemente recrutado para servir como seu braço de apoio ao bispo em Luanda. A sua inimizade pode ter contribuído para que Salgado de Araújo fornecesse informação de alguns dos seus negócios ao novo governador, de maneira a incriminá-lo e a vingar-se do seu tio. Não se sabe se Salgado de Araújo ainda se encontrava no território quando Luís Mendes de Vasconcelos assumiu o cargo de governador, sendo a data do seu último alvitre e da chegada do governador separados por apenas um ano. Facto é que anos mais tarde João Salgado de Araújo, conhecido genealogista, publica uma obra dedicada à genealogia dos Vasconcelos, Sumario de la Familia ilvstríssima de Vasconcelos, historiada, y com
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BIRMINGHAM, David, Op. Cit. p. 37
343 AHU, Angola, Cx. 1, doc. 105 344
92 elogios (Madrid, 1638), obra esta onde está incluído Luís Mendes de Vasconcelos, onde é descrito como «excelente Capitan», «Cavallero muy entendido», «muy pratico y experimentado», noticiando também «su gran talento» e elogia a sua obra em Angola, «plaça en que hizo señaladas conquistas345». Apesar de praticamente 20 anos após a conquista do Ndongo os seus efeitos e consequentes guerras serem já uma realidade, João Salgado de Araújo desfaz-se em elogios à figura do governador. Pode tal descrição dever-se a uma relação de amizade, ou até de obrigatoriedade caso Salgado de Araújo se tenha colocado sob a sua protecção, ou pode apenas tratar-se duma descrição inocente. Não deixa de ser um cenário a ser devidamente equacionado.
4.6. O fim da linha: A demissão de frei Manuel Baptista Soares Pereira