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A EMENDA CONSTITUCIONAL Nº66/2010 – ANTECEDEN TES

Barradas Carneiro

4.2 A EMENDA CONSTITUCIONAL Nº66/2010 – ANTECEDEN TES

É consabido que a sociedade evoluiu nas últimas duas décadas. O aces- so mais rápido à informação através da Internet; o surgimento de novas tecnologias da informação; as mudanças em curso na sociedade – a exem- plo da maior participação da mulher no mercado de trabalho, a ascensão de novas religiões, a influência de culturas de outros países, a possibilidade de uma parcela maior da população (em especial a classe média) viajar para outros países, o aumento do poder aquisitivo da população e a formação de novos hábitos e, consequentemente, estabelecimento de novos valores.

Com as transformações acima citadas, houve a necessidade de o Brasil promover uma análise histórico institucional do seu sistema de justiça, haja vista a lentidão do Poder Judiciário; a complexidade de alguns Proces- sos Judiciais, o que provoca o adiamento de algumas decisões. Assim, foi repensado como adequar a legislação aos elementos locais atuais, evitando falhas e contradições e adaptando as leis brasileiras às transformações de paradigmas pelas quais a sociedade passou nos últimos anos.

No campo de Direito de família, especificamente na questão do divór- cio, nota-se que desde a instituição da Lei 6.515 de 1977, que instituiu o divórcio no Brasil, o fim da sociedade conjugal e do vínculo matrimonial evoluiu de forma lenta e conforme as mudanças sociais, utilizando o siste- ma de culpa da dissolução da sociedade conjugal, considerada para muitos doutrinadores e especialistas na área, “uma velharia jurídica no ordena- mento jurídico brasileiro que precisava ser corrigido” (BOTTEGA, 2010). Com o objetivo de modernizar a instituição do divórcio no Brasil, no

mês de abril de 2007, o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBD- FAM) me solicitou que apresentasse a Proposta de Emenda Constitucional (PEC), registrada com o número de 33/2007 após obter 232 (duzentas e trinta e duas) assinaturas.

A PEC nº 33/2007 propunha a extinção da figura da separação judicial no direito brasileiro e instituía o divórcio, consensual ou litigioso, como a única figura jurídica a ser usada nos tribunais para regular as situações de dissolução da vida comum (JANARY JÚNIOR, 2007)

A referida PEC estabelecia a alteração da redação do § 6º da Consti- tuição Federal, extinguindo de vez a separação judicial, fazendo menção apenas ao divórcio como forma de ruptura legal do casamento e facilitando o distrato do vínculo matrimonial (BOTTEGA, 2010).

Na apresentação de um Projeto de Lei ou de uma Emenda à Consti- tuição, é preciso apresentar uma “Justificativa”. Na PEC nº 33/2007 usei, dentre outros, os seguintes argumentos:

Não mais se justifica a sobrevivência da separação judi- cial, em que se converteu o antigo desquite. Criou-se, desde 1977, com o advento da legislação do divórcio, uma duplici- dade artificial entre dissolução da sociedade conjugal e fim do casamento, como solução de compromisso entre divorcistas e antidivorcistas, o que não mais se sustenta.

Impõe-se a unificação no divórcio de todas as hipóteses de separação dos cônjuges, sejam litigiosos ou consensuais. A Submissão a dois processos judiciais (separação judicial e divórcio por conversão) resulta em acréscimos de despesas para o casal, além de prolongar sofrimentos evitáveis. Por outro lado, essa providência salutar, de acordo com valo- res da sociedade brasileira atual, evitará que a intimidade e a vida privada dos cônjuges e de suas famílias sejam re- velados e trazidos ao espaço público dos tribunais, como todo o caudal de constrangimentos que provocam, con- tribuindo para o agravamento de suas crises e dificultan- do o entendimento necessário para a melhor solução dos problemas decorrentes da separação. Levantamentos feitos das separações judiciais demonstram que a grande maioria

dos processos são iniciados ou concluídos amigavelmente, sendo insignificantes os que resultaram em julgamentos de causas culposas imputáveis ao cônjuge vencido. Por outro lado, a preferência dos casais é nitidamente para o divórcio que apenas prevê a causa objetiva da separação de fato, sem imiscuir-se nos dramas íntimos; Afinal, qual o interesse pú- blico relevante em se investigar a causa do desaparecimento do afeto ou do desamor?

O que importa é que a lei regule os efeitos jurídicos da separação, quando o casal não se entender amigavelmente, máxime em relação à guarda dos filhos, aos alimentos e ao patrimônio familiar. Para tal, não é necessário que haja dois processos judiciais, bastando o divórcio amigável ou judicial (CARNEIRO, 2007 apud GUEDES, 2011).

Chamo atenção para os custos da separação e divórcio, uma vez que ambos os institutos deveriam ser requeridos em juízo, o que obrigava a contratação de um advogado. Ele entendia ainda que não havia nenhuma razão para que o legislador mantenha unido um casal que não suporta mais viver em uma relação conjugal fracassada, indo de encontro aos princípios da liberdade e a autonomia da vontade. Entendia-se que “[...] como o Estado não estabelece prazo para se casar, não se justifica a cominação de prazos para a dissolução do casamento” (CHAVES, 2009).

Acrescenta-se ainda que havia uma pressão social pela simplificação dos procedimentos jurisdicionais de extinção do casamento. Segundo Guedes (2011), em 2007, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísti- ca (IBGE) apontava que, para cada quatro casamentos existia uma disso- lução, chegando a 231.329 (duzentos e trinta e um mil trezentos e vinte e nove) dissoluções ao ano, atingindo a maior taxa na série mantida pelo instituto desde o ano de 1984. A taxa de crescimento no período (1984- 2007) foi superior à 200%, passando de 0,46%, em 1984, para 1,49%, em 2007. Em números absolutos, o número de divórcios concedidos passou de 30.847, em 1984, para 179.342 em 2007.

O IBGE atribuiu o crescimento recorde de divórcio no Brasil à mu- dança de comportamento ocorrida na sociedade brasileira, como também à criação da Lei 11.441, de 4 de janeiro de 2007, de autoria do também

baiano César Borges, responsável por desburocratizar os procedimentos de separações e de divórcios consensuais e realização da dissolução do ca- samento através de escritura pública, em qualquer tabelionato do país. Se- gundo o IBGE, também em 2007, os divórcios diretos, ou seja, que não passam por uma separação judicial anterior, representavam 70,9% do total registado do país, o que demonstrava que a separação judicial vinha per- dendo eficácia social (GUEDES, 2011).

A PEC nº 33/2007 afirmava que alguns conflitos de natureza pessoal poderiam ser prontamente resolvidos através de novas práticas jurisdicio- nais mais simples, tornando o fim do casamento mais célere e evitando o sofrimento dos cônjuges e filhos, já que não seria mais necessário, em re- gra, o ajuizamento de duas ações para se dissolver o casamento, tão pouco a identificação de culpados, ou seja, não seria mais necessário a produção de provas documentais e testemunhais para o casal separar-se (SANTOS, 200 9; CHAVES, 2009).

Chaves (2009) assim se pronuncia sobre a importância das mudanças propostas pela PEC nº 33/2007:

[...] a questão mais importante dessa mudança é o fato de que o Estado deixa de interferir, de maneira injustificada, na vida das pessoas, fixando prazos ilógicos. Com isso, passa a ser respeitado o direito de todos de buscar a felicidade que não se encontra necessariamente na permanência de um casamento infeliz, mantido pelo decurso de um prazo.

À PEC nº 33/2007, após seu registro, foi apensada outras duas: a 413/2005, de autoria do deputado Antonio Carlos Biscaia do PT do Rio de Janeiro e a PEC nº 22/1999 do deputado Enio Bacci do PDT do Rio Grande do Sul.

No mesmo ano, a proposição conseguiu aprovação unânime em duas oportunidades: a primeira, na Comissão de Constituição, Justiça e Ci- dadania (CCJ) da Câmara, com parecer favorável do relator Mendonça Prado (DEM-SE). A segunda aprovação, por unanimidade, deu-se na Co- missão Especial designada para relatar o tema, que teve como presidente o deputado José Carlos Araújo (PT-BA). Nessa comissão, a PEC 22/99 foi rejeitada, uma vez que propunha a fixação do prazo de um ano para reque-

rer o divórcio em qualquer caso.

Na comissão especial, o texto aprovado foi resultado de aperfeiçoamen- to das outras duas Propostas (a 413/2005, do deputado Antonio Biscaia e a 33/2007, de Sérgio Barradas Carneiro) a partir da relatoria do deputado Joseph Bandeira (PT-BA).

De acordo com o Regimento Interno da Casa, a numeração da propo- sição mais antiga, ainda que lhe seja mudado todo o teor do seu conteúdo, segue como referência de todas as propostas apensadas. Assim, a PEC do Divórcio seguiu sua tramitação com o número 413-C.

Em primeiro turno na Câmara, em 20 de maio de 2007, a proposta recebeu 374 (trezentos e setenta e quatro) votos favoráveis e 15 (quinze) contrários. Já no segundo turno, em 2 de junho, o plenário da Câmara aprovou a PEC por 315 (trezentos e quinze) votos favoráveis, 88 (oitenta e oito) votos contrários e 5 (cinco) abstenções.

É importante ressaltar que para a aprovação de uma Proposta de Emen- da Constitucional são necessários dois turnos de votação na Câmara, com 3/5 de votos favoráveis. Depois, a aludida proposta segue para o Senado para votação também em dois turnos com maioria absoluta. Se aprovada, passa para promulgação.

 No Senado, a PEC, que recebeu o número 28/2009, teve da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a aprovação unânime do parecer do sena- dor Demóstenes Torres (DEM-GO), em junho de 2009. Ainda em 2009, no mês de dezembro, a referida PEC obteve aprovação com 54 (cinquenta e quatro) votos a favor; 3 (três), contrários e 2 (duas) abstenções.

Após tramitar por um pouco mais de um ano no Senado Federal, a PEC 28/2009 foi finalmente aprovada em segundo turno no dia 07 de julho de 2010, com 48 (quarenta e oito) votos a favor, 4 (quatro) contra e 3 (três) abstenções.

Na sessão de Promulgação da Emenda 66, em 13 de julho de 2010, o então Presidente da Câmara dos Deputados Michel Temer pronunciou o seguinte discurso:

[...] Presidente José Sarney, tomo a liberdade de registrar uma coincidência muito curiosa. O grande paladino da luta pela separação, pelo divórcio, foi o Senador Nelson Carnei- ro e, agora, mais recentemente, também um Carneiro, que é

o Deputado Sérgio Carneiro, também foi daqueles paladinos que mais trabalharam, e ambos baianos – tem razão o Senador Inácio Arruda –, trabalharam por essa questão referente à sim- plificação ou, talvez, até melhor me expressando, à desburo- cratização da questão da separação do casal, instituindo, desde já, o divórcio. E como diz sempre o Deputado Sérgio Carnei- ro, não representa nenhuma diferença em relação ao passado, a não ser a desburocratização, porque, na verdade, aquele ano que se dava para verificar se os cônjuges queriam retornar ao convívio conjugal ou não, hoje, de alguma maneira, não está impedido um recasamento. Ou seja, se alguém se separa, em caráter definitivo, por meio de divórcio, ele pode voltar a ter novas núpcias. 

Já o Presidente do Senado, José Sarney, também fez questão de registrar o meu empenho:

Já a PEC do Divórcio, de autoria do  Deputado Sérgio Carneiro dá nova redação ao § 6º do art. 226 da Constituição Federal, que dispõe sobre a dissolubilidade do casamento civil. Como bem ressaltou o Presidente da Câmara, esta emenda se destina a desburocratizar os procedimentos que existem e que, muitas vezes, retardam o divórcio. Em ambos os casos, este Parlamento demonstra uma sensibilidade muito grande aos anseios da sociedade. E quero ressaltar, quanto à Emenda do Divórcio, o trabalho do Deputado Sérgio Carneiro, que teve um grande protagonismo na tramitação e na aprovação desta emenda, diligentemente assistindo às nossas sessões, acompa- nhando as nossas discussões e as nossas votações. Portanto, para um Parlamentar é sempre gratificante ver uma matéria de sua iniciativa ser aprovada e se transformar, neste caso, num capítulo da Constituição. 

E não se esqueceu de registrar os outros baianos Ruy Barbosa e Nelson Carneiro;

dor Ruy Barbosa instituiu o casamento civil na primeira Cons- tituição Federal da República. Aliás a primeira Constituição Federal da República foi redigida toda pelo nosso grande Ruy Barbosa, patrono desta Casa, que era Senador, foi Senador du- rante 31 anos aqui no Senado Federal. E o Presidente Michel Temer lembrou o Senador Nelson Carneiro, meu dileto ami- go, que comigo conviveu durante tantos anos, nesta Casa, e com ele participei muitas vezes na discussão de vá- rias leis de proteção à família, porque não era somente a Lei do Divórcio que era a sua bandeira, mas todas as leis referentes à proteção à família, e, sobretudo, à proteção aos direitos da mulher. Isso caracterizou a vida e a luta do Senador Nelson Carneiro.  Ao finalizar, disse:

Cada Parlamentar tem sempre a sua causa parlamentar. O Nabuco teve a causa da abolição; o Nelson Carneiro teve a causa do divórcio; o Afonso Arinos teve a causa da discrimi- nação racial. E assim é que se verifica a vida dos Parlamen- tos. A glória parlamentar é eternizada num aparte, numa lei, numa contribuição à legislação que, depois, serve para sempre, porque todos nós somos transitórios, mas o nosso trabalho é permanente e em favor da sociedade brasileira e do povo brasileiro. Cumprida a finalidade desta reunião, eu declaro en- cerrada a sessão. 

Assim, 119 (cento e dezenove) anos após a instituição do casamento civil (Decreto nº 181); 33 (trinta e três) anos após a lei que instituiu o di- vórcio no Brasil (EC 9 e Lei 6.515, de 26 de dezembro) e 3 (três) anos após a Lei 11.441/2007 que instituiu a separação e divórcio extrajudiciais, foi aprovado o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) de número 413-C, conhecida como PEC do Divórcio, originando a Emenda Constitucional nº 66/2010 que extinguiu a necessidade de separação judicial e extrajudi- cial, das causas subjetivas e objetivas, culpa e tempo para os cônjuges se divorciarem pelo ordenamento jurídico brasileiro.