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3 CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEXTO

3.3 A enunciação nos textos

Como vimos, para se chegar ao sistema que governa uma determinada linguagem – e, no nosso caso, a linguagem do telejornal – precisamos partir da análise dos textos materializados de uma determinada natureza (relativos ao processo). Esse texto materializado, porém, só se dá diante de uma enunciação. Do mesmo modo, o sistema só é colocado em discurso ou em funcionamento, passando de uma potencialidade a uma existência, através do que Benveniste (apud FIORIN, 2008b, p. 31) denomina de um “ato individual de utilização”97, no qual estão inseridos uma

pessoa, um tempo e um espaço.

Em outras palavras, podemos dizer que o processo – o qual podemos chamar de enunciado – só existe diante de um sujeito que gera um sentido através de um ato. A esse ato pressuposto de todo texto também chamamos de enunciação (FIORIN, 2008b). Sendo uma instância de mediação necessária para a passagem da competência (virtualidade) à performance (materialização), não podemos deixar de considerar a enunciação ao se analisar os textos.

À primeira vista, tal afirmação pode parecer paradoxal, uma vez que, encarada como um “ato individual” e, portanto, “ato singular”, a enunciação não poderia constituir um objeto de análise, um objeto científico. É que as linguísticas tradicionais

96 Veremos em seguida a concepção mais direcionada do telejornal como texto.

97 A palavra ato aqui concerne ao “ato de enunciação”, diferente do “em ato” do qual Fechine (2008) trata o texto do telejornal, no sentido daquilo que só se pode expressar no momento mesmo em que se dá sua exibição, ou seja, é irreprodutível em termos de significação.

veem a enunciação como um acontecimento único, realizado por sujeitos particulares e, por isso, fora dos quadros do sistema; daí seu objeto de estudo ser preponderantemente o enunciado.

No entanto, a partir de uma distinção de Landowski (apud FIORIN, 2008b, p. 31) entre enunciação e enunciado, encontramos um caminho possível de análise. Segundo o semioticista, a enunciação seria “o ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido”, e o enunciado, “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito”. A partir dessa concepção, na qual o ato é o “que faz ser”, passamos a perceber que o sujeito é também “criado” pelo enunciado através de suas marcas enunciativas.

Como diz Fiorin (2008b, p. 39), “subjacente ao dito há o dizer que também se manifesta”. É nesse sentido, portanto, que podemos afirmar que “a enunciação só poderia ser descrita a partir do que dela resulta” (FECHINE, 2008, p. 52). Ou ainda: “A instância da enunciação pode ser reconstituída a partir da observação e da articulação das marcas ou pistas, por ela deixadas no enunciado” (DIAS, 1998, p. 104). A enunciação passa a configurar, assim, uma instância linguística pressuposta pela existência de um enunciado, na qual podemos reconstruir seu “ato gerador” (ainda que artificialmente), a partir da identificação de um conjunto de traços e marcas do sujeito disseminado em um determinado texto.

Dessa forma, existe nos textos a projeção de uma série de estratégias de organização textual (na construção do sentido pretendido) que nos possibilita reconstituir um ato de enunciação e, a partir daí, nos orientar na interpretação dos textos. Se o texto é, retomando Discini (2005, p. 14), “uma unidade de sentido dada por decorrência daquilo que é dito e de um modo próprio de dizer”, examiná-lo significa observar seus mecanismos de construção de sentido que, por sua vez, refletem estratégias individuais do sujeito disseminadas no texto. É nesse sentido que Koch (2006, p. 19) vai falar nas “sinalizações” oferecidas pelo texto.

O texto é organizado estrategicamente de dada forma, em decorrência das escolhas feitas pelo produtor entre as diversas possibilidades de formulação que a língua lhe oferece, de tal sorte que ele estabelece limites quanto às leituras possíveis. Assim, o leitor-ouvinte vai proceder à análise e construção dos sentidos a partir do modo como o texto se encontra linguisticamente construído, das sinalizações que ele lhe oferece, bem como pela mobilização do contexto relevante à interpretação.

As projeções da enunciação no enunciado apresentam dois grandes e distintos regimes enunciativos: “a enunciação enunciada” e o “enunciado enunciado”. No primeiro, o qual Benveniste (1991) designa de “sistema do discurso”, instaura-se explicitamente a instância da enunciação através de elementos textuais (como os pronomes pessoais e possessivos, adjetivos e advérbios apreciativos, dêiticos98

espaciais e temporais, etc.), de modo a causar efeitos de subjetividade. Como explica Fiorin (2004), neste caso, projeta-se no enunciado os actantes enunciativos (eu e tu), os espaços enunciativos (aqui, aí) e os tempos (presente, pretérito perfeito, futuro do presente.

No segundo, o “enunciado enunciado”, também chamado por Benveniste de “sistema da história”, ao contrário, tenta-se “mascarar” as marcas que remetem a instância da enunciação. Trata-se da apresentação dos fatos sobrevindos a um certo momento do tempo, sem intervenção declarada do locutor na narrativa, construindo- se com o “ele” (3ª pessoa), o “alhures” e o “então” (Cf. FIORIN, 2004, p.117), gerando assim um efeito de objetividade. Há, portanto, um “eu” e “tu” pressupostos (enunciador e enunciatário) e um “eu” e “tu” projetados (narrador e narratário) no interior do enunciado e, teoricamente, essas duas instâncias não se confundem.

O que devemos nos ater neste ponto é que, do mesmo modo como não podemos crer que, na “enunciação enunciada”, encontramos elementos que representam verdadeiramente o sujeito, o tempo e o espaço da enunciação (através de elementos como eu, o aqui ou o agora) – posto que são apenas um “simulacro que imita, dentro do discurso, o fazer enunciativo” (GREIMAS; COURTES, 2008, p. 169); também não podemos afirmar que, no “enunciado enunciado”, não haja (por não fazer explícita) uma situação que pressupõe a produção e a recepção. “Explícita ou não a relação de pessoa está presente em toda parte” (BENVENISTE, 1991, pp. 262-268).

Como alertam Greimas e Courtes (2008), muitos estudiosos se equivocam ao encarar a “enunciação enunciada” como a própria enunciação, em sua verdade. “Frequentemente insistimos numa confusão lamentável entre a enunciação

98 Também chamados de identificadores por Benveniste, são elementos linguísticos que se referem à instância de enunciação e às suas coordenadas espaço-temporais (eu, aqui, agora) que simulam a interposição ou a supressão de uma distância entre o discurso enunciado e a instância de sua emissão (GREIMAS; COURTES, 2008).

propriamente dita, cujo modo de existência é ser o pressuposto lógico do enunciado, e a enunciação enunciada (ou narrada)” (GREIMAS; COURTES, 2008, p. 168). É razoável que entendamos, com isso, que a enunciação enunciada não é a única a ser semioticamente reconhecível, ela apenas possibilita uma análise mais fácil e clara. Da mesma forma, é importante frisar que, a partir do “enunciado enunciado”, também podemos reconstruir artificialmente o ato de enunciação.

Como argumenta Fechine (2008a), podemos pensar nos atores desse ato comunicativo como papéis envolvidos ora na instância da “realização” (enunciação), ora na instância do “realizado” (enunciado). No telejornal, especificamente, “a representação empírico-comunicativa mais imediata do sujeito enunciador pode ser considerada todo o staff de produção do telejornal” (p. 70). No nível do enunciado propriamente dito, por sua vez, o narrador principal do telejornal corresponde à própria figura do apresentador (ou apresentadores), ainda que – como mostraremos em seguida – haja outros “narradores”, nos diferentes níveis enunciativos do telejornal, aos quais os apresentadores delegam a voz. É nesse processo de articulação dos distintos atores da enunciação, que o apresentador define o seu papel enunciativo, cujas características mais estáveis constroem aquilo que entendemos como éthos – a imagem desse autor discursivo99.

Aplicando os ensinamentos de Fiorin (2004) ao telejornalismo, o éthos do apresentador se explicita na enunciação, ou seja, a sua imagem se constrói a partir de um modo próprio de dizer e que só pode ser apreendida, por sua vez, dentro de uma totalidade de produção do sujeito enunciativo. “Quando estudamos a obra inteira de um autor é que podemos apreender o éthos do enunciador” (p.123).

No estudo dos telejornais, Fechine (2008a) coloca essa postulação como uma orientação metodológica: “não pode se basear a descrição do éthos de um apresentador na análise de um único programa, mas em um conjunto amplo de exibições (edições) e situações” (p.76). O éthos do apresentador é construído, assim, a partir da reiteração de uma maneira de ser diante do discurso; e que funda, em última estância, um estilo.

Fechine (2008a) estabelece quatro diferentes configurações para o éthos do apresentador, a partir do quadrado semiótico: impessoal, cúmplice, crítico e comprometido, que nos servem para orientar a descrição de um tipo predominante em cada telejornal. No Capítulo 6 desta tese, faremos referência a alguns desses tipos para melhor caracterizarmos os telejornais do corpus em relação à imagem que os apresentadores constroem (o éthos dos apresentadores), a partir dos diferentes papeis enunciativos observados.

Tais papeis enunciativos se explicitam na enunciação e, como sugere Dias (1998), para se chegar a ela (e, assim, poder analisar a imagem do autor discursivo) devemos executar dois procedimentos consecutivos: tomando inicialmente um enunciado específico (ou grupo deles) e, de modo indutivo, observar de que maneira se constitui nele a enunciação; para depois, de posse de um número razoável de estudos de caso, procurar aspectos recorrentes que permitam construir dedutivamente traços gerais da enunciação em uma determinada semiótica.

O que queremos ressaltar com isso é que compreender os textos à luz da enunciação é também um passo importante na investigação dos princípios de organização textual no telejornal. Afinal, a observação de telejornais com diferentes estilos é o que permite o aparecimento de uma variabilidade maior de formas e a identificação, dentre elas, das mais recorrentes e gerais. É a partir do reconhecimento dessas recorrências que iremos nos basear para identificar os princípios gerais que presidem a construção do telejornal como texto.