2 UM OLHAR PARA A ESCOLA
2.4 QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS
2.4.4 A Escola como Programa Institucional
Do mesmo modo que o jovem escolarizado foi estudado empiricamente por
Dubet e apresentada em sua obra “Na Escola” (1998), a própria escola como
instituição, ou melhor, como programa institucional, foi investigada teoricamente e
apresentada nas obras “O Declínio da Instituição” (2006), “Na Escola” (1998) e
“Sociologia da Experiência” (1996). Entre tantos espaços institucionalizados, Dubet
escolheu se aprofundar na escola por acreditar que:
O mundo escolar é exemplar, pois que a educação não é redutível a um
serviço e a um mercado, sendo também um conjunto estratificado no qual
se passam processos essenciais de distribuição social e de transmissão
cultural. (DUBET, 1996, p.207).
Cada escola é única, em seus diferentes países e contextos, porém o que
varia de uma para outra são as formas com que se apresentam as tensões entre as
lógicas de ação. O autor considera as instituições como programas institucionais,
definição que visa reforçar a idéia da soma do conteúdo com a forma da instituição.
A escola nasce pela Igreja: a forma e o conteúdo buscavam estabelecer uma
conversão. A escola laica mudou o conteúdo, porém a forma não foi alterada: “Para
Durkhein, a história da escola é a história da laicização desse projeto [de
conversão]. Poderia ter dito racionalização, mas não importa: o conteúdo da
conversão é menos importante que a sua forma.” (DUBET, 2005, p.34).
Entre tantos programas institucionais, a escola se encontra em um momento
delicado. Dubet afirma que nos últimos 30 anos as instituições sofreram duas fortes
críticas: a primeira, uma reificação do modelo institucional que inicialmente desejava
curar e educar, pelo hospital e pela escola respectivamente, de maneira positiva e
totalizante, e se reduziu ao sinônimo de uma vontade de poder e dominação. Em
segundo lugar, esta sociedade líquida de demandas sociais de fluxo constante, não
suporta o fechamento e a burocracia das instituições, encaradas como testemunho
vivo de um passado dominado pelo estado centralizador. (2006, p.63).
No fim do século passado e início do século XXI, segundo o autor, nota-se o
fim dos programas institucionais como santuários:
Aquilo que a imagem clássica da modernidade havia colocado em um
castiçal como um sistema homogêneo e coerente se desarticula perante
nossos olhos: os valores são contraditórios entre si, as muralhas dos
santuários se esmigalham ante o ímpeto das demandas sociais e das
reivindicações individualistas, e progressivamente se transformam as
representações da socialização. (DUBET, 2006, p.64).
Se durante muito tempo, a Igreja centralizou o poder e a forma de entender
o mundo, o processo civilizatório moderno, pautado em concepções
desenvolvimentistas e evolucionistas, realizou um movimento de secularização e
exacerbação da razão que por vezes parece ser tão fantasioso e místico como as
crenças da Idade Média. Desta forma, as instituições sólidas e tradicionais, em
defesa dos valores republicanos que se apresentavam como verdadeiras fortalezas
do mundo moderno começam a dar sinais de rachaduras estruturais por não
conseguirem disfarçar as suas contradições: “[...] a decadência dos programas
institucionais provem da exacerbação das suas contradições latentes, quando já não
se possui capacidade ideológica para apagar-las. [...] Atualmente vivemos a
secularização da secularização.” (DUBET, 2006, p. 64).
Marshall Berman em sua leitura modernista de Marx sublinha este
movimento de dessacralização da humanidade:
Marx acredita que o capitalismo tende a destruir essa modalidade de
experiência [o sagrado], em todos: „tudo o que é sagrado é profanado‟;
ninguém é intocável, a vida se torna inteiramente dessantificada. De vários
modos, Marx sabe que isso é assustador: homens e mulheres modernos
podem muito bem ser levados ao nada, carentes de qualquer sentimento de
respeito que os detenha; livres de medos e temores, estão livres para
atropelar qualquer um em seu caminho, se os interesses imediatos assim o
determinarem. (BERMAN, 1986, p.112 ).
A modernidade passa então a experimentar de seu próprio veneno,
relativizando-se e questionando seus pilares mais fundamentais. Em seu ensaio
crítico da modernidade Alan Touraine afirma
A crise da modernidade chega a seu termo no momento em que a
sociedade se afasta de todo princípio de racionalização, quer funcione como
mercado, ou não se defina senão por uma identidade histórica, ou quando
os atores não possuam mais referências que não sejam culturais,
comunitárias ou individuais. (TOURAINE, 1994, p.189)
E ainda:
A crise da modernidade marca a separação daquilo que estivera tanto
tempo unido, o homem e o universo, as palavras e as coisas, o desejo e a
técnica. De nada vale voltar atrás, em busca de um princípio de unidade
absoluta. Alguns gostariam que o mundo fosse de novo a obra de um deus
geômetra; outros, que o desejo libertado recoloque o homem na natureza.
Mas nada pode impedir a deriva dos continentes de continuar e o mundo da
produção e do poder de se afastar do mundo do indivíduo, de suas
necessidades e de seu imaginário. (TOURAINE, 1994, p.244).
As oscilações das verdades e formas de compreender o mundo da
sociologia invadiram o terreno da educação causando grandes modificações. A
substituição da fé pela razão como pedra angular da educação foi feita de maneira
radical nos conteúdos, porém o formato da escola se manteve similar até os dias de
hoje. Quanto à origem da verdade absoluta, ela deixa de pertencer aos dogmas
religiosos para assentar-se sob domínio de uma pretensa ciência inequívoca. “A
escola republicana era produto de um projeto cultural e político que pretendia
eliminar a influência da Igreja sobre as mentes.” (DUBET, 2006, p.103). A inversão
ocorre da „alma‟, para a „razão‟: “Essa escola recorreu à razão dos alunos da mesma
maneira que a Igreja encarava sua alma, porque ela considerava que a razão era a
sede da cidadania, assim como se pensava que a alma era a sede da fé.” (DUBET,
2006, p.103).
O sociólogo afirma o acontecimento da substituição de um modelo mecânico
por um modelo político:
O modelo „serial‟ ou mecânico, no qual a coerência do conjunto provinha da
conformidade dos atores e da sua adesão pessoal aos valores da
instituição, dá lugar a um modelo mais „político‟, em que a coordenação das
ações provém de um ajustamento aos constrangimentos do meio, da
capacidade propriamente política de coordenar as ações, apesar da
heterogeneidade dos atores e dos objetivos que eles têm em vista. (DUBET,
1996, p.177).
As tensões vividas pelos sujeitos na escola, já relatadas no que concerne à
experiência dos jovens, são provenientes de uma não integração pacífica entre as
funções propriamente ditas da educação:
A instituição escolar garante três „funções‟: uma função de educação, uma
função de seleção [social] e uma função de socialização. Estas três
funções, hierarquizadas, remetem para a imagem tradicional da
transformação dos valores em normas e das normas em papéis. (DUBET,
1996, p.170).
Porém, ao ouvir os sujeitos, Dubet afirma: “do ponto de vista dos atores,
estas funções não estão integradas, não formam um todo, elas estão, na realidade,
em relações de tensão muito forte.” (1996, p.171).
É esta escola que foi encontrada nesta investigação: uma construção
instável em meio à tensão. A escola não como uma instituição como se concebia
anteriormente, com uma forte capacidade de integração funcional em torno de
valores fulcrais (1996, p.174). A escola, independente de ser pública ou privada,
religiosa ou laica, gera exclusão: “A imagem da escola viu-se por isso [massificação
do ensino e suas conseqüências] mudada [...]; gera suas próprias desigualdades e
as suas próprias exclusões.” (DUBET, 1996, p.175).
A escolha metodológica da escola em questão, dos sujeitos observados e do
material trabalhado não foi de maneira nenhuma involuntária, como já descrito nos
itens 2.1 e 2.2. desta pesquisa. Os jovens e sua faixa etária correspondem ao que
Dubet afirma ser um momento especialmente complicado na escolarização. Os
jovens de idade entre 14 e 15 anos, que equivalem a estudantes do primeiro ano do
ensino médio no Brasil, justamente os da faixa etária utilizada nesta pesquisa, estão
em um momento ainda mais permeado de tensões:
O universo da subjetividade colegial é dissociado. Por um lado, o
hiperconformismo adolescente é o suporte de uma possibilidade de crítica a
moral dos adultos. Por outro lado, há uma vontade de defender uma
subjetividade frágil contra tudo o que ameaça e desestabiliza o grupo de
companheiros. O colegial experimenta sempre, perante seus próprios olhos,
ao mesmo tempo a virtude do juiz e a insegurança do culpado. (DUBET e
MARTUCCELLI, 1998, 210).
Entre tantas questões possíveis do universo escolar, optou-se por partir das
lógicas de ação de Dubet, ao compreender o jovem e a escola, para que se
observasse aspectos específicos da reflexão sobre a teoria e o ensino de história,
relacionados a temáticas religiosas. Um aspecto fundamental da sociologia da
experiência, a lógica de subjetivação, possui a crítica ou a reflexividade como forte
característica constitutiva, que nos dá pistas da relevância do conteúdo religião tanto
na construção da subjetividade, quanto das suas conseqüências sociais.
De fato, é muito menos o próprio conteúdo dos valores mobilizados para a
crítica que importa do que a perspectiva escolhida pelos atores que
interpretam esses valores do ponto de vista da definição do sujeito que tais
valores permitem. Afinal, a religião pode ser ao mesmo tempo ópio do povo
e o instrumento mais freqüente da sua resistência e da sua libertação. Basta
observar como os marginais urbanos de Santiago do Chile, os „pobladores‟,
interpretam o discurso religioso como sendo o da afirmação da sua
existência e dos seus direitos para aprender a pluralidade das lógicas da
ação. (DUBET, 1996, p.135)
Nesse caso, o foco sociológico desta pesquisa não é em relação à presença
da religião em ambiente escolar, a relevância do ensino da religião na escola, quais
tradições religiosas são significantes para serem ensinadas ou, ainda, se deve se
permitir o uso de ícones e trajes religiosos na escola. Dentro das lógicas que
constituem as relações dos atores com o mundo social a sua volta, o conteúdo
religião aparece como fator determinante da dimensão da subjetivação. A maneira
com que o ator se relaciona socialmente, além de uma simples integração a um ou
vários papéis ou o seu determinado posicionamento em uma estratégia de
competição, em uma dada instância o defronta com sua subjetividade, forçando-o a
ser crítico, ou filósofo como cita Dubet.
Partindo do senso comum, ou até mesmo aderindo a correntes filosóficas
religiosas ou completamente secularizadas, a lógica das ações dos atores visita
subjetivamente espaços e conceitos construídos a luz de interpretações religiosas
do mundo, do homem e da sociedade. Quer se concorde ou não, as lógicas de
subjetivação de cada um fazem usos de elementos subjetivos permeados por uma
cultura envolvida por raciocínios e conceitos que se constituíram, em algum
momento, por meio de supostos mistérios e relações com o sagrado.
Mesmo na concepção clássica, a tripla função da escola de educar,
socializar e selecionar (integradas ou não), já demandava certa relação com este
algo da cultura que são as tradições religiosas
14. A partir, então, da sociologia da
experiência, esta relação se torna mais visceral e necessária. Pesquisas atuais
investigam a estrutura e a forma da escola em análises e debates sobre infinitos
aspectos e abordagens. Podemos afirmar que a escola de hoje responde a
necessidades atuais, porém baseadas em reflexões e em objetivos anacrônicos. As
melhores escolas se desenvolvem e lutam pela integração de seus alunos na
sociedade, reiterando a dicotomia clássica sujeito-sociedade.
Observando a rotina da escola estudada, nota-se que as estratégias de
ensino e de tratamento aos jovens do ensino médio, os impelem a possuir um
arcabouço de conteúdos que lhes permitam ingressar nas universidades e, tão logo,
em seu lugar no mercado de trabalho. De acordo com a moral republicana, deverão
se constituir cidadãos incluídos na sociedade. A escola, focada nos índices de
exames nacionais e de aprovação no vestibular, busca estratégias, métodos, teorias
e técnicas aprimorar o desenvolvimento de habilidades em crianças e jovens para
que elas obtenham sucesso neste mundo adulto competitivo.
Porém, a subjetivação parece ser um ponto demasiadamente complexo ou
então intocado pela instituição escolar. Certamente, a reflexividade intrínseca a sua
existência, somada a grande porção de subjetividade de sua experiência, tornam
esta parcela da ação social um problema no caminho da educação como é
concebida até então. A quem interessa uma escola que atente para subjetividades e
forme cidadãos críticos? Tal questão se envereda por aspectos políticos
emaranhados, gerando debates e pesquisas específicas que não serão tratados
aqui. Com relação a esta pesquisa qualitativa, sua premissa sociológica parte
também da subjetividade em direção a objetividade. Acredita-se que as
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