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3 A RELIGIÃO E A ESCOLA

3.2 A ESPIRITUALIDADE, A RELIGIOSIDADE E A CULTURA

Além das definições de religião e de sagrado, problematizadas em relação a

sua inserção no contexto escolar, cabe aqui a definição de conceitos que demarcam

a relação dos sujeitos com o transcendente. Esta delimitação serve como balizadora

da distância epistemológica e metodológica entre a observação de aspectos

fenomenológicos religiosos e de aspectos culturais e históricos das religiões.

Toma-se a espiritualidade como uma qualidade humana, como uma das

dimensões constitutivas comuns a todos integrantes da espécie. A espiritualidade

em si não está necessariamente vinculada a qualquer instituição, como as religiões,

e pode ou não ser notada, valorizada, desenvolvida. Para Clemente Ivo Juliatto

(2009),

A espiritualidade refere-se a um processo interior que alimenta as

convicções pessoais e motiva as ações. Refere-se à busca e ao encontro

com o sagrado, com o que dá sentido à vida das pessoas. Ao mesmo

tempo, trata-se de um encontro consigo mesmo e com as raízes humanas

mais profundas. (JULIATTO, 2009, p.96)

O autor complementa:

A espiritualidade está muito presente na vida, embora em diferentes

profundidades e não necessariamente ligada a uma confissão religiosa. As

pessoas podem buscar a espiritualidade por meio da religião, da natureza,

ou das suas realizações pessoais. (JULIATTO, 2009, p.99).

Entretanto, não é por não necessitar essencialmente das religiões que a

espiritualidade não se relaciona intrinsecamente com estas instituições:

“Espiritualidade não é sinônimo de religião, pois a espiritualidade não é província

exclusiva da religião. Mas é na religião que ela encontra espaço privilegiado para se

desenvolver plenamente e chegar à maturidade.” (JULIATTO, 2009, p.100).

Podemos conceber então que todos os sujeitos possuem uma dimensão da

espiritualidade, que em alguns casos encontra no exercício de práticas religiosas

seu espaço de desenvolvimento. Em outro texto, Juliatto (2008) explicita:

A espiritualidade, como a própria palavra sugere, é viver segundo o espírito

e não apenas segundo a nossa condição biológica e material. Não se trata

de estabelecer separação entre matéria e espírito; é um aceno àquilo que

está na raiz da experiência humana: sua busca de transcendência. Assim, a

espiritualidade [...] nos faz superar a imanência, isto é, aquilo que nos

prende ao mundo e à materialidade da vida, para chegarmos à

transcendência: a dimensão espiritual do humano. (JULIATTO, 2009, p.68).

Tal busca pela transcendência, psicologicamente localizada no sujeito,

impulsiona-o a buscar e/ou manifestar-se individual ou coletivamente de forma se

re-ligar com o sagrado. Tescarolo compreende então a religiosidade como

dom humano que faz a pessoa se lançar em busca do „plenamente outro‟ e

catalisa suas disposições referentes ao sagrado. Corresponde à

sensibilidade de intuir o mistério da existência e de procurar respostas aos

questionamentos sobre o seu sentido. Ainda que possa não se manifestar

em todas as pessoas, é a capacidade essencialmente humana de

apreender a dimensão sagrada do mundo. A religiosidade não corresponde

à religião sistematizada ou institucionalizada, embora constitua seu

pressuposto. (TESCAROLO, 2005, p.151).

Como o foco desta pesquisa não é o sagrado em si, ou a manifestação da

religiosidade dos jovens, mas sim, a consciência histórica dos jovens e sua relação

com a religião, propõe-se aqui o estudo da religião e do sagrado, pela perspectiva

do pensamento de Otto (1917). Independentemente da subjetividade e profundidade

mística da experiência religiosa, institucionalizada ou não, o sagrado sempre possui

um lado racionalmente compreensível e observável. A religiosidade não é totalmente

mística e subjetiva, podendo ser acessada por diversas racionalidades. Mesmo que

nenhuma delas consiga apreendê-la no todo, é possível um bom desenho de suas

características.

Busca-se, aqui, não observar a religião e tudo que a cerca como se todos

seus elementos fossem místicos e fantasiosos, visão que recairia sobre uma

racionalização bruta de fenômenos sociais e individuais. Reforça-se, ainda, a

observação de sua face institucional pautada por experiências pessoais e coletivas,

negando a visão da religião como constituída unicamente de elementos inefáveis e

indescritíveis.

Para esta pesquisa, nos importa da religião e da relação dos indivíduos com

o sagrado apenas aspectos da racionalidade histórica, isto é, o lado profano do

sagrado. Delimita-se mais ainda este recorte de pesquisa reconhecendo-o inscrito

na escola. Assim, compreende-se a religião como algo da cultura. Jean Claude

Forquin apresenta cultura e educação como recíprocas e complementares,

encarregando a educação de justamente selecionar e organizar o algo da cultura

que deva ser transmitido: “Reconheçamos, a escola não ensina senão uma parte

extremamente restrita de tudo o que constitui a experiência coletiva, a cultura viva

de uma comunidade humana.” (FORQUIN, 1993, p.13)

É importante salientar que a própria relação da cultura com a escola é

multiperspectivada. Leila Alvarenga Mafra descreve que a cultura na escola é

passível de três categorias de estudo: a cultura na escola, a cultura escolar e a

cultura da escola. (MAFRA, 2003, p.125 a 130).

O estudo da cultura na escola elege um aspecto destoante da cultura que

possa estar inserido no contexto escolar, como por exemplo, as diferentes etnias ou

grupos minoritários em uma determinada escola. Nas palavras da autora:

Nesta dimensão, encontramos estudos que procuram examinar nos

estabelecimentos escolares as características ou manifestações

socioculturais específicas ou a diversidade e diferenças étnico-culturais

marcantes entre os corpos discente e docente. (MAFRA, 2003, p.125).

Os estudos da cultura escolar, por sua vez, referem-se a observações do

universo escolar sob o recorte de uma cronologia específica, observando

transformações e manutenções de aspectos culturais.

Os estudos que têm o foco da cultura escolar tendem a privilegiar as

transformações e impregnações que constituem a vida escolar,

reconstituindo a trajetória histórica e social de instituições escolares, a partir

de recortes espaço-temporais mais demarcados. (MAFRA, 2003, p.128).

A terceira concepção de presença da cultura definida por Mafra é a pesquisa

da cultura da escola, que implica uma observação de especificidades desta escola.

Nesse tipo de estudo, o olhar dos pesquisadores dirige-se para os

processos mais particulares e contingentes da escola, privilegiando as

análises culturais do cotidiano, os acontecimentos, as interações sociais, os

saberes construídos, reproduzidos e transformados no seu interior.

(MAFRA, 2003, p.127).

É exatamente neste contexto, da cultura da escola, que se investigam os

jovens, no espaço institucional do Colégio Marista Santa Maria, principalmente nesta

relação com os saberes construídos e com a consciência histórica apresentada por

eles. Esta especificidade cabe, ainda, no conceito de estudos sobre a subcultura

científica: “Que diz respeito ao conhecimento produzido pelas ciências da educação,

aos corpos de saberes que se expressam nas publicações científicas, nos manuais

e nas práticas pedagógicas.” (MAFRA, 2003, p.127).

Apesar de elencarmos os aspectos religiosos institucionalizados pela Igreja

Católica e pelo Ensino Religioso Escolar da escola estudada, este não é o objetivo

principal, servindo, pois, como ferramenta auxiliar na contextualização da realidade

dos jovens e conceitos pesquisados. Assim, se o estudo se referisse a cultura na

escola, a investigação focaria as formas de manifestações religiosas presentes na

juventude. Poder-se-ia, também, buscar conhecer a religião como fenômeno ou

elemento da cultura refletida ou vivida pelos jovens.

Por mais óbvia que pareça a presença da religião no Colégio Marista

estudado, por ser uma unidade pertencente a uma instituição católica, cabe-nos

apresentar como que esta relação esta posta estruturalmente. Não será levada em

conta a composição familiar sócio-religiosa dos jovens ou outras informações que

possam servir para delinear uma cartografia exata das intersecções da vida do

jovem e da religião. Ao menos neste momento, apenas conheceremos parte da

escola e seus mecanismos e ações educativas vinculadas à religião.

3.3 AS DIFERENTES PRESENÇAS DA RELIGIÃO NO COLÉGIO MARISTA