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3. A ESSÊNCIA DE UMA VIDA FILOSÓFICA

3.4. A “Escola de Budapeste” e seus escritos marxistas

Como já apontamos anteriormente, falar de Agnes Heller no período de 1956 a 1978, sem se reportar a Georgy Lukács, seus escritos e algumas alunos/as mais próximos e que permaneceram ao seu redor até a sua morte em 1971, é impossível. Em novembro de 1956, depois da invasão soviética, Lukács foi preso e levado para Snagov, na Romênia, onde ficou até abril de 1957 (KONDER, 1980). Alguns de seus discípulos também sofreram sanções e, alguns acabam presos. Segundo Netto (1992), ao retornar a Budapeste, ele perdeu sua cátedra na Universidade, foi excluído do partido e foi vítima de uma nova campanha difamatória. De 1956 a 1971 concentrou-se na elaboração sistemática da sua Estética, em produções críticas avulsas (literária e política) e no projeto da construção da sua Ontologia do ser social rumo a uma Ética marxista.

Em 1957, Heller voltou ao partido, mas logo foi expulsa novamente em 1958, sob a acusação de participar da Revolução de 1956. Ela, Lukács e outros colegas que comungavam com o mesmo ideário, foram expulsos do partido e afastados da Universidade. De 1958 a 1963, Heller foi professora de Instituto de Sociologia e de 1963 a 1973, também investigadora da Academia Húngara de Ciências: “[...] até o final de 1964 seguíamos vivendo num túnel escuro de desesperança”278.

As críticas se estenderam também para o exterior da Hungria, chegando a República Democrática Alemã e a União Soviética, porém, Lukács, já perto dos seus oitentas anos, não deu ouvidos a essa campanha de descrédito, concentrando todos os seus esforços na produção daqueles que seriam seus últimos escritos.

Nas palavras de Netto (1992, p. 43-44),

[...] num gigantesco esforço criador, ele repensa o marxismo e a sua própria obra numa perspectiva que pretende revigorar e desenvolver os resultados anteriores positivos do seu pensamento. Procurando reunir os principais frutos de sua evolução filosófica, de sua estética e de sua ética – é a etapa em que conclui a primeira parte de sua Estética e prepara os textos iniciais de sua Ontologia do ser social -, fá-lo como empreendendo uma apaixonada restauração das dimensões fundamentais do projeto revolucionário de Marx. Ao seu lado formou-se um pequeno grupo de alunos que ficou conhecido como a “Escola de Budapeste”. No Prefácio da edição francesa do livro La théorie

278

des besoins chez Marx, de Agnes Heller (1978), Jean-Michel Palmier279, faz uma apresentação significativa da “Escola de Budapeste”.

Nesse texto, Palmier (1978) aponta que essa escola, com certeza foi criação de Lukács. Ao se referir em carta endereçada ao redator do jornal Times Literary

Suplement280. Quando interrogado sobre qual seriam os seus “livros futuros”, Lukács respondera apresentando os trabalhos de seus discípulos:

[...] se você olhar para os meus escritos a partir de sua origem e seus efeitos imediatos, está se tornando cada vez mais claro que a minha atividade teórica nunca foi a de uma pensador solitário, muito mais que isso – e cada vez mais – é a criação de uma escola. [...] Foi ara testar a eficácia de tais métodos281 aplicados concretamente para todos os problemas da

vida social e de impô-los, que surgiu durante o meu trabalho como teórico e pedagogo, o que foi chamado de “Escola de Budapeste”. Através de diferentes pesquisas monográficas em várias etapas importantes do desenvolvimento social, que esta escola tentou esclarecer de maneira concreta e atual, as estruturas e mudanças das estruturas do processo histórico-ontológico, cujo bom entendimento é o ponto de partida de qualquer metodologia marxista. As atividades da “Escola de Budapeste” são mais conhecidas internacionalmente através dos meus próprios livros – a maioria deles foram escritos em alemão – não altera o fato de que este é objetivamente uma linha de pensamento de importância cientifica considerável, que certamente terá grande influência no futuro. (PALMIER

apud HELLER, 1978, p. 11-12).

Fica claro o objetivo desse pequeno círculo de intelectuais. A “Escola de Budapeste” reunia tanto filósofos e sociólogos, como esteticistas (estudantes da estética), emergindo como uma das correntes marxistas mais originais e inovadoras pela diversidade e amplitude de seus trabalhos. Não só para os/as alunos/as de Georgy Lukács, como também para desenvolver uma dialética marxista resolutamente crítica nas mais diversas áreas do conhecimento.

Buscavam fazer uma releitura dos escritos da juventude de Marx à luz dos problemas das sociedades capitalistas e socialistas da contemporaneidade. Procuravam desenvolver um questionamento radical da burocracia e da vida cotidiana. Estudavam os problemas sociais de seu tempo, a luz do pensamento marxiano, opondo-se radicalmente ao historicismo subjetivista, como também às versões “estruturalistas” do marxismo.

279

Jean-Michel Palmier (1944-1998), filósofo e historiador francês. 280

Em nota, Palmier explica que esta carta foi publicada na versão inglesa, em junho de 1971. O original em alemão foi publicado na revista iugoslava Práxis, órgão da antiga escola Koçula (nº 2-3, 1973) e a versão francesa em Temps Modernes (agosto-setembro de 1974, nº 337-338).

281

Jean-Michel Palmier retrata a história desta corrente marxista, sua inspiração teórica e as polêmicas levantadas no interior do Partido Comunista Húngaro. Traz uma visão precisa do trabalho da “Escola de Budapeste”, considerado, segundo ele, na Itália, na Alemanha e na França, um dos mais significativos grupos de pesquisa teórica em países socialistas.

Esse brilhantismo não ficou livre das grandes polêmicas e das ácidas críticas de seus opositores que a consideravam como uma “nova esquerda húngara” ou de “revisionistas” e “traidores do marxismo”. Estes denominativos, sem sombra de dúvida, iam contra a liberdade intelectual.

Não nos cabe aqui fazer um elogio ou uma crítica a esse grupo de intelectuais, nem mesmo aos seus escritos. Nosso objetivo é apenas fazer uma apresentação desse grupo, relacionando-o com o universo intelectual de onde foram geradas as obras de Agnes Heller no período analisado.

Essa escola referenciava o marxismo como um método vivo de análise e não como um dogma, buscando colocar as ideias de Lukács em prática. Muito mais que apenas fazer uma releitura de Marx, este pequeno grupo desbravou e mostrou a riqueza da diversidade da vida culta húngara, da literatura, do cinema e das artes em geral - nesse ponto, concordamos com Palmier (1978). Além disso, este grupo deixou-nos um referencial rico em indagações sobre a ontologia do ser social, na perspectiva do sujeito revolucionário individual e coletivo.

Além da unidade estabelecida entre os seus membros, estabeleceu-se um vínculo de amizade. Todos eles sofreram com as sanções do Partido Comunista Húngaro e das acusações de seus críticos, juntamente com Lukács. Obviamente a obra magna desse grupo é aquela desenvolvida pelo próprio Lukács. Poderíamos arriscar a dizer que esse grupo de alunos e alunas, foram os guardiões de sua última e monumental obra: a finalização da Estética e a Ontologia do ser social.

Transcrevemos aqui a tradução282 do texto de Palmier (1978) sobre a apresentação, feito pelo próprio Lukács, dos integrantes da “Escola de Budapeste”:

"O universo do pensamento da “Escola de Budapeste” é um universo estruturado e coerente, apesar de suas muitas ramificações. Seu membro mais produtivo é Agnes Heller, cujos três livros, entre outras obras, são os mais representativos das tendências marxistas tomadas pela escola. A Ética de

282

Por se tratar de uma tradução do texto em francês de Palmier, realizada pelo pesquisador, transcrevemos entre aspas. Esta forma condiz com o texto original e não como uma citação.

Aristóteles e o O Homem da Renascença são monografias históricas. A primeira

apresenta um panorama em conjunto com a filosofia de Platão e Aristóteles. A segunda oferece a completa realização de um Cassirer283 marxista - a descrição exata de um período de vida intelectual que o marxismo até agora tratou apenas de passagem. [...] Este problema levou precisamente Agnes Heller a escrever a sua mais completa obra até esta data: A vida cotidiana284, em que apresenta a totalidade da dinâmica do sistema e dos tipos de atividade e modos do pensamento cotidiano, tema principal desta obra. Estes três livros foram publicados em húngaro pela editora da Academia Húngara de Ciências. A vida cotidiana é também um dos exemplos mais importantes da renovação da ontologia marxista nos últimos dez anos".

"A pesquisa de György Márkus285 está no mesmo campo, mas caminha para direções muito diferentes. O seu livro - Marx e o conceito da essência humana - foi publicado em húngaro pela mesma editora - é o primeiro ensaio marxista de interpretação dos conceitos-chave da ontologia marxiana e da antropologia que são inseparáveis. Márkus foi bem sucedido e realizou um notável e erudito trabalho semântico - embora seja muito mais que isso - com base em uma utilização aprofundada do método de Marx. Seu ensaio crítico sobre Wittgenstein286 e seu estudo, o primeiro na literatura marxista sobre a estrutura teleológica da percepção, são profundamente originais, conduzindo para novas soluções, com base numa apurada compreensão das ideias de Marx e num conhecimento completo das disciplinas científicas especializadas”.

Quanto a Mihaly Vajda287, Lukács observa que seu trabalho toma uma direção oposta:

"Ele progride a partir da epistemologia para a ontologia social e o estudo político da sociedade. Seus ensaios sobre Husserl - publicado em húngaro na

283Referência ao filósofo alemão Ernest Cassirer que realizou estudos em direito, literatura e filosofia germânica nas universidades de Berlim, Universidade de Leipzig e Heidelberg.

284

Referência ao livro Sociologia da vida cotidiana. 285

Lukács, na sua Autobiografia realizada através da entrevista com Estván Eörsi e Erzsébert Vezér (1999, p. 143-144), tece algumas informações sobre seus discípulos. Sobre Márkus, relata que não foi diretamente seu aluno e que quando voltou de Moscou já estava 75% formado, porém, diz que alguma influencia ele pôde exercer sobre ele.

286

Segundo Carlos Nelson Coutinho, no Prefácio da edição brasileira A teoria do conhecimento no

jovem Marx, editado pela editora Paz e Terra, em 1974, no Brasil, foi sua tese de doutoramento em

1965. Ao apresentar György Márkus, Coutinho tece algumas informações relevantes sobre a “Escola de Budapeste”.

287 Na mesma entrevista Autobiográfica, já citada, Lukács aponta que Vajda era aluno de Agnes Heller, quando ela lecionava na universidade.

editora da Academia de Ciências em Gondolat - não só representam a primeira e verdadeira tentativa marxista de confrontação com a fenomenologia e sua problemática, mas esclarece os problemas da epistemologia, em termos da práxis, isto é, da ontologia verdadeira".

Finalmente, Lukács tece algumas considerações sobre Ferenc Fehér:

"O estudo de Ferenc Fehér (ainda não publicado) sobre Dostoïevky é constituído de relatos completos de uma dinâmica original e convincente da cultura russa da segunda metade do século XIX, com base nas análises de Marx e num conhecimento profundo de material literário. Ao mesmo tempo, Fehér propõe uma nova teoria marxista do romance. Seu livro também é muito mais do que um trabalho especializado da história literária pela polêmica apaixonada que ele concorda com o individualismo moderno".

Lukács acrescentou: "[...] eu estou firmemente convencido de que é hoje nessas obras que se prepara a filosofia do futuro" (PALMIER, 1978). Lukács apresenta de forma solidária o trabalho de seus discípulos, apesar, segundo os relatos de Heller, das relações entres eles nem sempre serem tão amistosas, chegando a discordar dos seus escritos e de suas atitudes288.

Lukács (1999) aponta que Heller e Féher foram seus alunos desde o início. Após a publicação dos trabalhos produzidos por esta escola, críticas ferrenhas caíram sobre eles, principalmente depois de algumas discordâncias desse grupo com relação aos escritos de Lukács.

Segundo Palmier (1978), a posição do Partido Comunista Húngaro era formal: "[...] a concepção que emerge através dos escritos discutidos é essencialmente contrária aos esforços teóricos e políticos da obra marxista de Lukács. E não é uma coincidência. A ruptura dos autores destes escritos com o marxismo também significa o rompimento com Lukács”.

Conforme vimos através dos comentários de Lukács, foi nesse período que Heller produziu suas mais significativas obras e que expressavam o tipo de orientação daquele grupo de intelectuais que despontava no horizonte intelectual da Hungria e, consequentemente, do mundo.

288

Konder (1980, p. 106) relata algumas divergências e discordâncias dos discípulos de Lukács, principalmente no que diz respeito a sua Ontologia do ser social, como também sobre suas posições políticas que se “conciliavam demais com os burocratas da direção do Partido Comunista”.

Sem dúvida, Heller foi a mais profícua. O volume de sua produção intelectual é considerável. Lukács várias vezes referiu-se a Heller como a figura chave da “Escola de Budapeste”. Por sua vez, Heller sempre exaltou carinhosamente a sua amizade com Lukács. Nas entrevistas que acompanhamos na atualidade, com seus mais de oitenta anos, é notável a admiração e o reconhecimento de Heller à ele:

[...] Lukács acabou desenvolvendo uma relação de confidência comigo. Talvez eu tenha sido um de seus estudantes favoritos. Surgiu uma grande amizade entre nós. Inicialmente era uma relação de mestre e aluno; depois, tornou-se uma amizade entre uma pessoa mais velha e uma mais jovem. Nunca vou esquecer as inspirações e as discussões, as lições verdadeiras que recebi dele. Em termos de política, chegamos paulatinamente a um total desacordo. Eu o respeitava muito, pois percebia que na idade em que se encontrava – ele já era um homem velho – não poderia esperar uma mudança radical. Não pretendia mudá-lo politicamente. Ele tinha sua posição e eu, a minha. (HELLER, 2002, p. 39). Segundo Palmier (1978), não se pode dizer que estes foram os únicos seguidores de Lukács: “[...] muitos acadêmicos, teóricos húngaros afirmaram trabalhar na continuidade da obra de Lukács”, mas, o que os diferenciava dos primeiros era o vínculo especial que os unia a Lukács, a qualidade dos trabalhos produzidos e a diversidade de direções em que se desenvolveram os método e as interrogações.

É importante salientar que Palmier (1978) se refere a “Escola de Budapeste” como a “Escola Lukacsiana”, ou seja, à produção intelectual e a atividade acadêmica de Lukács. Outros vão se referir a “Escola de Budapeste” como este pequeno grupo de intelectuais que se juntaram ao redor de Lukács nos seus últimos anos.

Heller irá dizer que este pequeno círculo de amigos se formou no inicio dos anos de 1960 e que Lukács assim denominou “Escola de Budapeste”, baseada na amizade e na afinidade pessoal e teórica entre os seus integrantes.

Este círculo de intelectuais foi formado por Agnes Heller, Ferenc Féher, György Márkus e Mihály Vajda, tendo como mestre Georgy Lukács e continuou unido após a morte de Lukács em 1971, até o seu total desfecho no final dos anos de 1970, quando foram expulsos da Hungria: “[...] nenhuma ideia era ‘propriedade privada’, todas as ideias constituíam um patrimônio comum”289.

289

HELLER, 1982b, p. 125. Encontramos algumas entrevistas na Internet, com relação a vida atual de Heller, apontando para a edição de uma livros escrito por Heller e Vajda, comprovando que elas ainda trabalham juntos e dividem momentos de estudos e de produção intelectual.

Há também algumas referências a Maria Márkus, estudiosa dos problemas econômicos e sociais, e ao economista e sociólogo András Hegesüs, como também Janós Kis e György Bence, dedicados ao campo teórico-filosófico. Heller também faz referência a Dénes Zoltai, todos como integrantes desse pequeno grupo, porém, estes não aparecem na maioria dos escritos pesquisados290.

Segundo Carlos Nelson Coutinho291, este círculo de colaboradores mais próximo de Lukács, empenhava-se numa “reavaliação dos temas relativos ao humanismo marxista e, em particular, à problemática da alienação”, o que correspondia, no plano teórico, numa tentativa prática de “encontrar novas vias para o socialismo”, ou seja, a “redescoberta e reexame da obra do jovem Marx”. Não estamos desconsiderando os problemas das análises do grupo no que diz respeito as suas conclusões, porém, não nos cabe aqui fazer tais críticas, já que fogem aos nossos objetivos.

Heller aponta que os anos entre 1965 a 1968 foram considerados anos de uma “profundização”, ou seja, um movimento mundial que buscava o “renascimento do marxismo entendido como uma teoria pluralista”: “[...] nosso propósito era transformar a reforma econômica em reforma social”. Por isso denominado “anos de reformas”: “[...] o encontro com os filósofos iugoslavos na Escola de Verão de Korçula teve lugar precisamente nessa época o período de reforma. De minha parte eu participei três vezes das sessões: em 1965, 1967 e 1968”292.

[...] Nos anos 60, houve barulho sobre o renascimento do marxismo de Lukács. Na compreensão dele, seria necessário abandonar o chamado marxismo oficial do regime soviético e voltar ao próprio Marx, a fim de se construir uma espécie de marxismo filosófico, autêntico. Todos nós, membros da “Escola de Budapeste”, acreditávamos que éramos parte e tínhamos uma parcela de responsabilidade sobre o renascimento do marxismo. De certo modo, fizemos o que achávamos importante. (HELLER, 2002, p. 39-40).

Mesmo sob perseguições, Heller ainda se envolve em manifestações políticas. Em 1968, participa dos protestos contra a invasão soviética à Tchecoslováquia, conhecida como a Primavera de Praga. Um dado interessante é

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Estas informações foram confirmadas pela filha de Agnes Heller (Zsuzsa) através da Rede Social Facebook. Além desses, Zsuzsa fez referência a Almasi Miklos, Miklós Radnóti, Ludassy Maria, como também aos já citados Janós Kis e György Bence.

291 Referência ao Prefácio da edição brasileira A teoria do conhecimento no jovem Marx, de György Márkus, editado pela editora Paz e Terra, em 1974.