Ao traçar a história social da criança, compôs-se um mosaico ao longo do tempo. A criança passa a ser vista socialmente, é um ser necessário à sociedade. A ela, muitos olhares serão direcionados procurando garantir sua sobrevivência e bem-estar. Estes olhares serão também direcionados à criança pobre, mas com caráter assistencialista, visando recuperá-la do convívio familiar precário. Utilizarei como base teórica para refletir os pressupostos ligados à Educação Infantil no Brasil, seu processo de implantação, a consolidação do direito e a busca por qualidade, fundamentando-me nos trabalhos de Kramer (1987), Campos (1999), Sanches (2003) e Rosemberg (2002,2003, 2007).
Historicamente, na educação para os pequenos no Brasil, observa-se a presença de uma educação de assistência aos menos favorecidos, um trabalho para
“garantir” sua sobrevivência e educação. Asilos e creches começam a aparecer com o intuito de ser um local para abrigar os filhos das mães escravas, com a Lei do Ventre Livre, para que estas continuassem no trabalho; e de melhorar a subsistência da criança, afastando-a do convívio pernicioso do lar, garantindo-lhe melhores condições de saúde, inspirar os hábitos de trabalho e educar.
As primeiras iniciativas voltadas ao atendimento da criança no Brasil vêm dos médicos sanitaristas, por considerarem que o alto índice de mortalidade infantil provinha da falta de higiene e de educação moral e intelectual das mães. Por isso, era necessário afastar as crianças deste convívio, proporcionando um trabalho para suprir tais carências. Esta atuação dos médicos sanitaristas, amplamente apoiada pela elite, tinha um caráter preconceituoso, valorizando as diferenças entre a criança pobre e negra, entre as da elite e as pobres. Segundo Sanches (2003), os objetivos das instituições voltadas ao atendimento à criança era o de “modificar hábitos e costumes das classes populares, adaptando-se à prática social da classe dominante” (p. 65).
Com a abolição da escravatura, a crescente urbanização e o avanço da industrialização, a mulher ocupa um novo papel social, saindo do trabalho doméstico e assumindo o trabalho industrial. Essas transformações implicam em reorganizar o atendimento às crianças e um maior número de creches passa a ser reivindicado pelas mães trabalhadoras. Apesar de uma grande conquista das mães
trabalhadoras, carregam consigo a pecha de ser um local de assistência aos pobres. Isso influencia o tipo de atendimento e de políticas públicas destinadas à creche ao longo da história.
Ao vasculhar, no entanto, a origem da palavra creche, não se associa a denominação de local destinado à assistência. A palavra representa o francês crèche, que significa presépio, manjedoura. No entanto, constatando o significado da palavra na língua portuguesa, consultando dois dicionários, o de Francisco da Silveira Bueno e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, verificamos.
No primeiro:
Asilo para crianças pobres; estabelecimento que recebe crianças
cujas mães não podem cuidar delas; local da maternidade onde as
crianças permanecem nos primeiros dias após o nascimento (adapt.
do fr. crèche) (BUENO, 1982, p. 310, grifos meus).
No segundo:
(Do fr. crèche) Instituição de assistência social, que abriga, durante
o dia, criancinhas cujas mães são necessitadas ou trabalham fora
do lar. Estabelecimento que se destina a dar assistência diurna a
crianças de tenra idade (FERREIRA, 1986, p. 495, grifos meus).
Esse cunho de local de assistência, abandono dos menores, influencia ainda hoje, apesar de amplas transformações, a visão que se tem das creches. Pensar em creche, denuncia Sanches, significa deparar com o estigma de “filantropia, dádiva, favor, deficiência e pobreza” (2003, p.16).
Para diferenciar o atendimento prestado nas creches, são criados na mesma época, os jardins de infância, com um discurso diferenciado. Estes, destinados àqueles que podem por ele pagar, atraem as famílias da elite, com discursos pedagógicos, contrapondo-se ao que se estruturou nas creches.
As creches firmam seu atendimento no cuidado e na alimentação. As instituições não recebem auxílio do Estado, possuem condições precárias nas questões pedagógicas, na estrutura física e na formação dos profissionais. São mantidas por trabalhos voluntários e doações.
Muitas atitudes foram tomadas objetivando auxiliar no atendimento de proteção às crianças; órgãos de assistência são criados no Rio de Janeiro para
suprir as carências. Um dos órgãos ativos com esse intuito foi o Instituto de Proteção e Assistência a Infância do Brasil, criado (1899) e mantido por Marcovo Filho, sem auxílio do Estado.
O instituto, segundo Kramer (1987), antecede a criação da primeira creche popular, cientificamente regida, no ano de 1908. Esta era destinada a filhos de operários de até dois anos.
Embora as iniciativas para garantir a proteção da criança pobre e abandonada tenham crescido no Brasil, tais atitudes eram realizadas por iniciativas particulares e por voluntários. O Estado permanece inerte em atitudes a favor destas crianças.
Em 1922, com a comemoração do Centenário da Independência
O departamento da Criança no Brasil organizou o primeiro
Congresso Brasileiro de Proteção à Infância, congregando homens
ligados à iniciativa particular e a vida pública (KRAMER, 1987, p. 55).
Tais iniciativas atribuíram às crianças uma nova importância, surge o discurso de que ela é o futuro da nação e o seu atendimento é fundamental para a redução da pobreza.
Falar de educação para a criança pequena no Brasil é não deixar de lado esta realidade dicotômica das classes sociais. O atendimento às crianças baseia-se na concepção de infância que vem se firmando ao longo da história.
Com os novos avanços em torno da garantia de atendimento à criança, inicia-se a luta pela conquista de políticas públicas para firmar um atendimento democrático e de melhor qualidade. A seguir, traçamos a conquista deste direito no Brasil ao longo das décadas.
A conquista do direito à Educação Infantil trilha um longo caminho na história da educação no Brasil. Apoiando-se em programas ora paternalistas, ora compensatórios, ou preparatórios e preventivos, a efetivação da Educação Infantil vive “altos e baixos” (ROSEMBERG, 2007) até se firmar legalmente enquanto parte integrante da educação básica do país, o que, no entanto, não garante sua expansão democrática e a qualidade de seu atendimento.
No decurso de sua constituição “vem se efetivando, ainda que de forma lenta, pela pressão de grupos sociais em favor do cumprimento do que determina a legislação e pelos avanços científicos na área da infância” (DREWINSKI, 2001,
p.115). Esta questão vem sendo analisada por autores como: Kramer (1987), Faria (1997), Campos (1999, 2003), Drewinski (2001), Sanches (2003) e Rosemberg (2002, 2003, 2007), os quais utilizarei para a reflexão que segue, considerando os períodos entre 1930 e 1960; 1970 e entre 1980 e 1990.