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FORMANDO UMA REPRESENTAÇÃO SOCIAL

No documento Download/Open (páginas 33-38)

As representações sociais circulam no âmbito dicotômico do “individual” e do “social”. Moscovici propôs uma psicossociologia, fortemente imbricada no social, que pudesse contemplar tanto o comportamento individual quanto os fatos sociais, um processo de inter-relação entre o indivíduo e o meio.

A elaboração das representações se dá nas práticas sociais através do relacionamento do indivíduo com o meio. Estas representações são expressas pela linguagem. Uma representação social, forjada por um determinado grupo, transforma-se em teoria de referência, “chave de leitura”, para que os membros de um grupo compreendam a realidade. Por isso, Moscovici afirma que o estudo das representações deve acontecer numa relação que se dá na prática social e histórica; expressa-se na linguagem, pela comunicação do dia-a-dia, pois seus elementos não só exprimem as relações sociais, mas contribuem para construí-la.

O que está em jogo neste processo é o dinamismo das relações individuais e sociais. É na efervescência deste que as representações se manifestam, mediadas pela comunicação; é construção do sujeito, mas com forte origem social.

Os indivíduos que fazem parte da sociedade compõem um corpo social intercambiável, porque se relacionam dinamicamente. Estes sujeitos participam de um universo pensante, segundo Moscovici:

[...] os indivíduos, em sua vida cotidiana, não são essas máquinas

passivas de obedecer a aparelhos, registrar mensagens e reagir a estimulações exteriores, em que se quis transformar a Psicologia

contrário, eles possuem o frescor da imaginação e o desejo de dar

um sentido à sociedade e ao universo a que pertencem (1978, p. 56).

Os indivíduos vivem experiências neste universo, criam formas de pensar e de explicar a realidade; partilham conhecimentos, produzem outros. É neste ambiente que, segundo Moscovici (1978), as representações são criadas – lugar em que são elaborados os temas que compõem o universo de cada um.

As representações sociais apresentam-se como forma de o sujeito e o grupo explicarem a realidade. Não são apenas opiniões a respeito de fatos, mas uma interpretação elaborada do real. São teorias que se criam sobre os fatos, as descobertas, os objetos. Essa forma de criar as teorias para explicar a realidade ocorre através do que Moscovici denominou de “mundo da conversação”: permutas verbais, que permitem que as informações, os conceitos, hábitos sejam transmitidos, refletidos e transformados. “A representação social constitui uma das vias de apreensão do mundo concreto, em seus alicerces e em suas consequências” (MOSCOVICI, 1978, p. 44).

Os indivíduos criam suas representações, estas circulam em nosso meio por gestos, falas, comportamentos. Em um grupo, estas representações tendem a ser dimensionadas de acordo com seu habitus, criando formas de pensar coletivas.

Como afirma Jodelet (2004), as informações, conceitos, pareceres, chegam ao cotidiano pela via da comunicação, provêm das ciências e compõem o chamado conhecimento científico e, por meio da conversação, são disseminados pelos indivíduos e por grupos.

As representações sociais não são, no entanto, meros pareceres e opiniões, nem fotografias da realidade, mas formas de conhecer que se desenvolvem no grupo. A construção social da realidade parte do sujeito, ativo, criativo, mutável, o qual produz conhecimento. Tem origem no social e a ele retorna. O conhecimento é gerado na relação cotidiana, nas experiências anteriores dos indivíduos. A partir de conhecimentos anteriores, novos conhecimentos são formulados. O insólito torna-se familiar. Ali são geradas as representações sociais, no ato de tornar o não-familiar em familiar. Isso ocorre, segundo Moscovici, por um sistema de trocas que se insere no grupo pelas suas ligações cotidianas, no processo de comunicação que acontece pela linguagem.

[...] o conhecimento penetra no “mundo da conversação”,

progredindo as permutas verbais depois de certo tempo. Uma frase, um enigma, uma teoria, apanhados no ar, aguçam a curiosidade,

prendem a atenção. Fragmentos de diálogos, leituras descontínuas,

expressões ouvidas algures... Graças a esses falatórios, não só as

informações são transmitidas e os hábitos do grupo confirmados,

mas cada um adquire uma competência enciclopédica acerca do que é objeto de discussão (MOSCOVICI, 1978, p. 53).

É uma forma de dar voz ao sujeito, ao não-especialista. São vários os indivíduos que pensam juntos sobre um determinado assunto. Constitui-se, diante do seu modo de pensar, uma teoria, uma teoria com base no senso comum. Esta forma de pensar está imbricada no lugar de onde esses sujeitos estão falando, que é seu universo social, cultural e histórico.

Esta é a finalidade das representações sociais – tornar o não-familiar em familiar. Trazer para o universo interior do indivíduo o que é exterior. O estranho penetra no indivíduo e gera conhecimento. O que estava ausente adiciona-se ao que está presente e se modifica. “Os conceitos ganham cor ou se concretizam (ou como é de costume dizer, objetivam-se), enriquecendo a tessitura do que é; para cada um de nós, a realidade” (MOSCOVICI, 1978, p. 51).

Como afirmamos anteriormente, somos seres ativos e pensantes. A sociedade se faz de seres não-estáticos que têm opinião sobre o que ouvem e falam, explicam a realidade a partir de sua experiência e do grupo com o qual convivem. A sociedade é, portanto, um sistema de pensamento. Estes sistemas compuseram universos, que formaram duas classes distintas de universos, os quais Moscovici denominou de Universos Consensuais e Universos Reificados.

Os universos reificados correspondem ao conhecimento científico, local onde as ciências circulam, bem como seus pensadores e especialistas. O pensamento erudito possui rigor metodológico, lógico, objetividade e teorização. Os universos consensuais são as atividades nas quais vigoram o senso comum, as interações cotidianas. Os indivíduos são livres, sujeitos curiosos, manifestam suas opiniões, apresentam suas “teorias” e respostas para os problemas. O sujeito elabora seus conhecimentos a partir da realidade em que vive, ligada ao seu meio, seu habitus. É a partir deste, de seu habitus, que cria “teorias” e explica a sociedade, sem ser um especialista. Neste universo são “produzidas as Representações Sociais. As ‘teorias’ do senso comum são aí elaboradas” (SÁ, 1995, p. 28).

Ambos os universos atuam, no entanto, de forma intercambiável, para “moldar nossa realidade”. O novo, o diferente, o não-familiar, é trazido através do universo reificado pelas ciências (novas descobertas, invenções, produções, fatos políticos), passa a compor o universo consensual e, assim, o que era diferente, novo, não-familiar, torna-se familiar.

Segundo Moscovici, este processo de tornar o objeto não-familiar em familiar ocorre por meio de um duplo mecanismo: o da ancoragem e o da objetivação.

O primeiro mecanismo, a ancoragem, é o processo que vai amarrar, que vai ancorar a nova ideia, dando a ela categoria de “imagem comum”, trazendo-a para o contexto familiar. O indivíduo, ao realizar este processo, busca compará-lo aos paradigmas já existentes. Dá nome ao que não possuía, classifica-o trazendo mais próximo de sua compreensão.

Então nós podemos representar o não-usual em nosso mundo

familiar. Pela classificação do que é inclassificável, pelo fato de dar

um nome ao que não tinha nome, nós somos capazes de imaginá-lo,

de representá-lo. De fato, a representação é, fundamentalmente, um

sistema de classificação e de denotação, de alocação de categorias

e nomes (MOSCOVICI, 2003, p. 62).

O processo de classificar, denominar, trazer à luz o que era estranho, não-familiar, implica, na maioria das vezes, em juízo de valores e trazer para o território conhecido, ancorar e amarrar ali o novo, o desconhecido. O sujeito, para realizar este processo, recorre ao que já é familiar para exemplificar, explicar o não- familiar.

O segundo processo é o de objetivação. Processo que transforma algo abstrato em algo concreto. Ocorre a materialidade das ideias, estas se tornam objetivas. É o que Moscovici vai determinar como sua “face figurativa”. Atribuir um sentido àquilo que está distante, uma representação icônica do fato, ideia, mensagem ou objeto. Seria a passagem dos conceitos e ideias para imagens concretas.

Esta atividade permite trazer o que está ausente para o universo conhecido, palpável, quase tangível. Através deste, o objeto, anteriormente misterioso, passa a ser algo efetivamente objetivo, palpável, tornando-se natural

após haver sido devidamente destrinchado, recomposto (ARRUDA, 2002). Esse mecanismo de objetivação ocorre seguindo três fases. Elas, apresentadas por Jodelet (apud SÁ, 1995), são:

 Seleção e descontextualização: forma de os indivíduos ou grupos apropriarem-se do conhecimento em função de critérios culturais; é uma construção seletiva da realidade a partir dos conhecimentos e experiências que o grupo já possui. Numa sociedade, no entanto, este processo é diferenciado, nem todos têm acesso ou compreensão da informação da mesma maneira.

 Formação de um núcleo figurativo: é a formação de imagens a partir de elementos selecionados, o indivíduo busca dados que já possui para compreender o novo, o não-familiar. É, de acordo com Sá, “uma estrutura imaginante que reproduz uma estrutura conceitual” (1995, p. 41).

 Naturalização dos elementos do núcleo figurativo: o abstrato passa, neste momento, a ser concreto. O conceito está agora naturalizado e passa a vigorar como elemento da realidade.

Este duplo mecanismo, da ancoragem e da objetivação, não ocorre, no entanto, de forma estanque ou dissociável. Ao contrário, são intercambiáveis, ocorrendo concomitantemente, numa relação dialética. Concretizando a constituição da representação social, na medida em que torna o não-familiar em familiar. Moscovici, afirma que:

Ancoragem e objetivação são, pois, maneiras de lidar com a

memória. A primeira mantém a memória em movimento e a memória é dirigida para dentro; está sempre colocando e tirando objetos,

pessoas e acontecimentos, que ela classifica de acordo com um tipo e os rotula com um nome. A segunda, sendo mais ou menos direcionada para fora (para os outros), tira daí conceitos e imagens

para juntá-los no mundo exterior, para fazer as coisas conhecidas a

partir do que já é conhecido (2003, p. 78).

A representação, agora constituída, recebe influência do meio no qual se caracterizou ao mesmo tempo em que o influencia. Completa-se então o processo, a representação circula, a partir de então, no universo familiar do indivíduo, moldando a sua realidade, possibilitando uma nova leitura do mundo.

Assim, as representações sociais se caracterizam no cotidiano, nas relações que se estabelecem: compondo o universo social, circulam no nosso dia-a- dia.

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