A realidade é o que está acontecendo efetivamente em uma fábrica, uma escola, uma caserna, uma prisão, um comissariado (DELEUZE apud FOUCAULT, 2012, p. 137)
(Aluno K)
Problematizar
o que está acontecendo em nossas escolas tem muito a ver com visitar a memória e revirar as lembranças que trago do trabalho com educação, sobretudo, de oito desses anos em que estive na direção de uma escola da rede pública municipal de Juiz de Fora.O professor Anderson Ferrari diz, frequentemente, que a pesquisa nasce de um incômodo produzido na relação que estabelecemos com o mundo e da forma como nos posicionamos e afetamos pelas experiências que vivemos. E foi assim que aconteceu comigo. A partir de um incômodo que me acompanha desde o tempo de diretor escolar, comecei e venho produzindo meu problema.
Foram bastante intensos esses anos à frente de uma instituição escolar. Anos de muito trabalho e muito aprendizado. Parece que me tornei outro após essa experiência. Penso que esse é um dos motivos que me trouxeram de volta ao meio acadêmico. Penso poder contribuir para discutir e problematizar acontecimentos corriqueiros e banalizados no dia a dia da escola, mas que dizem muito da sua estrutura, funcionamento, bem como, dos poderes que nela circulam.
Nesses anos como diretor, muitos acontecimentos marcaram decisivamente minha vida e alguns continuam a me incomodar; como a forma como a escola lida com medicalização de alunos/as. Um pouco dessa história poderá esclarecer como essa questão vem me afetando.
Certo dia, fui procurado por um amigo para que eu o ajudasse a se decidir sobre a situação escolar de seu filho que, com dez anos de idade, apresentava dificuldades de aprendizagem e já havia sido reprovado algumas vezes. Os/as professores/as sugeriram que ele procurasse um/a médico/a e foi o que ele fez.
45 Após várias consultas, sua dúvida só aumentou; pois, enquanto alguns/as especialistas ofereceram-lhe receitas promissoras, outros/as diziam para jamais dar medicamento. Ele parecia perdido sem saber o que fazer. Minha ajuda, então, foi contar-lhe um fato que vivi para o ajudar a refletir sobre seu “problema”22. Parece que isso o levou a
pensar de outra maneira a medicação do filho. Vamos ao fato.
Tínhamos um aluno na escola, hoje com quatorze ou quinze anos, que sempre me ocupou muito. Era comum acontecerem atritos físicos com colegas e professores/as; cuspia e jogava material escolar nos outros; rasgava as próprias roupas etc.
Um dia, em função de uma grande mudança no seu comportamento, chamei sua mãe para dizer-lhe que as professoras comentaram que ele estava mais concentrado, tranquilo e que seu aprendizado estava “melhorando”. Elogiei sua dedicação ao filho e falei: “que bom que, enfim, o médico acertou no medicamento do menino”. A mãe ouviu-me calmamente com a mesma atenção de sempre. Parada e me olhando nos olhos. Pensou um pouco e respondeu: “eu cortei, por minha conta, o remédio dele”. Olhou-me por mais alguns instantes, tencionou a boca, levantou a sobrancelha e saiu andando. O inusitado e inesperado deixou-me parado tentando entender o que acabara de ouvir. Esse fato foi marcante e decisivo para minha vida profissional e para minhas reflexões acerca da escola e a medicalização.
Encontrei entre os relatórios que examinei, como apresentado a seguir, vários casos em que na visão da família ou da escola os medicamentos não faziam efeito ou pioravam os sintomas.
(Aluno L)
A partir desse dia, passei a atentar para esse e outros alunos/as da escola que faziam uso de medicamentos. Passei a dar mais atenção à forma como eram vistos e tratados; sobretudo, às falas e comentários sobre eles. Passei a observar os gestos, as caras e bocas, ora de espanto, ora de dó, ora de desprezo; mas, sobretudo, à maneira diferente e desigual como eram e ainda são tratados.
22 Utilizarei aspas para citações e para me referir a expressões ou palavras que possam significar determinados pontos de
46 Dialogando com Louro (2010), na discussão que faz sobre a construção das diferenças em torno dos gêneros e sexualidades, parece ser possível pensar a escola, também, como produtora de outras diferenças e desigualdades, visto que ela separa, exclui, classifica e hierarquiza os alunos. Para a autora, os “nossos sentidos precisam estar afiados para que sejamos capazes de ver, ouvir e sentir as múltiplas formas de constituição dos sujeitos implicadas na concepção, na organização e no fazer cotidiano da escola” (LOURO, 2010, p. 59).
Incomodado com o fato ocorrido, passei a conversar sobre o assunto e notar como é frequente o consumo de medicamentos, sobretudo para dormir, entre as professoras; nas academias de musculação e ginástica e pela população em geral. Como são numerosas as propagandas de medicamentos que usam as mesmas táticas e estratégias de marketing que as utilizadas para venda de alimentos, de roupas, calçados, brinquedos etc. São numerosas as conversas, no ônibus, no bar, nas ruas, no interior das moradias. São conversas cotidianas que ouvimos e contamos acerca de nossas experiências com saúde, doença, normalidade e anormalidade.
Segundo Luengo, temos hoje uma crescente medicalização de crianças cada vez mais novas e “em consequência de comportamentos considerados desviantes” (2010, p. 59). O contato com essa autora foi decisivo para as questões que hoje produzo.
Na escola, vários outros fatos chamam a atenção para a medicalização. Conversando com a professora da turma do segundo período, ouvi uma história muito inquietante. Ela conta ter um aluno de cinco anos que é muito criativo, agitado e quase não para sentado. Tudo muito comum para uma criança de sua idade, penso. Às vezes, contou ela, ele tem umas brincadeiras diferentes. Numa dessas, teria dito que era um jacaré e andava pelo chão entre as cadeiras, rastejando, fazendo curvas, subindo e descendo nas cadeiras e carteiras. A professora acrescentou que, em termos de alfabetização, ele era o mais adiantado da sala e já sabia juntar letras e formar sílabas. Conhecia, inclusive, algumas palavras. Porém, há um detalhe nessa história: nos dias em que tomava remédio dormia o tempo todo da aula; não brincava, não aprendia, não fantasiava e, certamente, não dava trabalho... “O remédio acaba com ele, tira-lhe toda a capacidade criativa”, completou angustiada a professora. “Prefiro ele sem remédio”, concluiu.
Com um pouco mais de minha trajetória, parece fazer maior sentido o porquê do meu envolvimento com meu tema. A pesquisa coloca-me diante da reflexão acerca de toda a minha vida profissional e pessoal. Coloca-me diante de problemas que exigem esse tempo de parar para estudar mais um pouco e a produzir algo novo a partir das afetações produzidas ao longo de anos de trabalho.
A pesquisa não brotou do nada. Não apareceu de um ato de pensamento e busca de solução. Ela vem sendo produzida no relacionamento com o mundo e comigo mesmo.
47 Assim, encharcado de escola e incomodado com o que vi e vivi é que vou esticando a conversa e contando o que venho pesquisando e que diz das articulações entre escola e medicalização.
***
Pensando a escola como aquela “eficiente dobradiça”, como apontou Veiga-Neto (2011), articulada com outros tantos poderes e saberes que circulam pela sociedade é que continuaremos nossa conversa.
Vivemos em uma sociedade medicalizada e sujeita a interferências de grandes interesses econômicos que ditam regras, criam discursos e comportamentos atuando em nossas constituições. Vamos sendo consumidos e absorvidos pelos discursos que vão sendo distribuídos sistematicamente pelos meios de comunicação de massa ou diretamente por médicos/as. Esses, de tão repetidos passam a ser vistos e aceitos como verdades como nos apontou Nietzsche (2008). Assim acontece com o discurso da medicalização que pode adquirir o estatuto de verdade inquestionável e, por isso, é tão bem aceito em nosso meio; sobretudo, pela crença em sua cientificidade e sua neutralidade.
Para os estudos foucaultianos, os discursos são construídos histórica e socialmente e não são apenas retóricos; mas produzem coisas, produzem sujeitos como nos lembra Veiga-Neto (2011). A partir dessa consideração, pergunto: de que forma esses discursos articulam-se com os saberes escolares? Que poderes esse discurso mobiliza tornando-se ação na escola? Como ele aparece? De que forma nos unimos ou nos atamos a ele constituindo subjetividades? O que a escola tem a ver com tudo isso?
Em Vigiar e Punir, Foucault (2011) apontou grandes semelhanças entre as escolas, os hospitais, os exércitos e as prisões. Todas essas instituições com a função de capturar os indivíduos tornando seus corpos (alvo das ações e do poder) dóceis e disciplinados. Dessa forma, os indivíduos vão sendo qualificados e à medida que não se submetem ou resistem às exigências do poder disciplinar, nesse processo de “fabricação de sujeitos”, são discriminados e separados. Assim, os delinquentes presos, os loucos hospitalizados, os alunos “problema” medicados etc. Para Veiga-Neto (2011a), nossa escola é herdeira da escola moderna que foi a mais poderosa e ampla entre as instituições sociais apontadas acima e funcionou como uma verdadeira “máquina de governamentalização”.
48
(Aluno Y)
(Aluno P)
É nesse processo de fabricação de sujeitos, que atendam às necessidades do sistema produtivo que a escola se insere. Ela, como outras instituições, tem a função de preparar (moldar, adestrar, docilizar, normatizar) os indivíduos, assujeitando-os. Louro (2010, p. 63), referindo-se à forma como são fabricados os sujeitos nos diz que:
O processo de fabricação dos sujeitos é muito sutil, quase imperceptível. Antes de tentar percebê-lo pela leitura das leis ou dos decretos que instalam e regulam as instituições ou percebê-las nos solenes discursos das autoridades (embora todas essas instâncias também façam sentido), nosso olhar deve se voltar especialmente para as práticas cotidianas em que se envolvem todos os sujeitos. São, pois, as práticas rotineiras e comuns, os gestos e as palavras banalizados que precisam se tornar alvos da atenção renovada, de questionamento e, em especial, de desconfiança. A tarefa mais urgente talvez seja exatamente essa: desconfiar do que é tomado como “natural”
Voltando-nos para a questão da medicalização na escola, não existe um manual, uma cartilha ou algo que funcione como orientação para professores/as ou gestores/as acerca dos transtornos ou doenças que possam acometer nossas crianças e jovens, tampouco, sobre os medicamentos indicados para este ou aquele caso. No entanto, esse saber existe, circula no ambiente escolar e funciona estabelecendo relações entre escola, alunos/as, famílias e a medicina.
Mas o que leva a essa necessidade de medicar crianças e adolescentes? Como a escola entra nesse jogo? Seria, como afirma Luengo (2010), a escola a principal aliada da medicina no papel de corrigir as condutas? Conduta é o mesmo que comportamento?
No próximo texto, conversaremos acerca de um programa governamental que pode contribuir para os casos de medicalização que encontramos em nossas escolas.
49